Podcast aborda a relação de Jorge Amado com Ilhéus || Reprodução
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Filha de Zélia Gattai e Jorge Amado, a escritora Paloma Amado é a entrevistada desta quarta-feira (1º) do Pod Gusma, no Canal do Gusmão no YouTube, a partir das 19h. Paloma vai abordar a relação do escritor Jorge Amado com Ilhéus.
O município sul-baiano foi onde Jorge viveu a infância e o inspirou romances como Terras do Sem Fim, São Jorge dos Ilhéus e Gabriela, Cravo e Canela.
Um dos pontos da entrevista é a reação de parte da elite ilheense a Gabriela, Cravo e Canela.
Após o lançamento, o romance recebeu leituras distorcidas. Setores conservadores da cidade acharam que personagens fictícios da obra faziam referência a figuras conhecidas da sociedade local.
A entrevista também trata da história da família do escritor. Paloma fala sobre Eulália (Lalu) e João Amado, pais do escritor, e relembra aspectos da ligação deles com Ilhéus.
O episódio traz informações que ajudam a entender melhor a presença de Ilhéus na obra de Jorge Amado e a dimensão dessa relação na trajetória do escritor nascido em Itabuna.
O Pod Gusma é apresentado pelos jornalistas Emilio Gusmão e Thiago Dias. A entrevista pode ser conferida clicando neste link.
Jorge Amado, Zélia Gattai, Simone Beauvoir, Jean Paul Sartre e convidados na Fazenda Progresso || Foto Diário de Itabuna
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Como não poderia deixar de ser, no sábado, Jorge e Zélia Amado, Otoni Silva e Moisés Alves da Silva ciceronearam os filósofos Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir ao distrito de Ferradas.
Walmir Rosário
Era uma sexta-feira daquelas qualquer, que não prometia nada de especial ao Itabunense. Entretanto, o dia 19 de agosto de 1959 entrou na história do povo grapiúna. Logo pela manhã chega o voo de Salvador e descem quatro personagens internacionais. Naquele dia, nada de recepções, banda de música, charanga ou uma bela comissão de boas-vindas. Tudo normal, ou quase isso.
Assim que o avião estaciona no aeroporto Tertuliano Guedes de Pinho, apenas uma pessoa demonstrava nervosismo ao vislumbrar quatro passageiros assomarem a porta do aparelho e descerem a escada. Era Moisés Alves da Silva, um generoso mecenas, tido como grande amante das artes, incluída aí a literatura e a filosofia.
Assim que os dois ilustres casais pisam em solo grapiúna, trocam longos e afetuosos cumprimentos e efusivos abraços com Moisés. Pelo que se sabe, ele, Moisés, era o segundo itabunense a ter contato com o casal de filósofos franceses representantes do existencialismo, Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Eles mesmos, em carne e osso em solo grapiúna. Um sonho realizado.
Jean Paul Sartre e Jorge Amado na Fazenda Progresso || Foto Diário de Itabuna
O outro casal era bastante conhecido, sendo ele um itabunense da gema, nascido em Ferradas e considerado o mais lido romancista do mundo, portanto um conterrâneo de renome internacional. Ao seu lado, como esperado, sua esposa, Zélia Gattai, chamada pelos jornalistas do Diário de Itabuna de Zélia Amado, em respeito ao nome de família do esposo, nosso ídolo das letras.
Pelo que se comentou, a visita teria sido programada pelo deputado federal e líder do governo federal na Câmara, Aziz Maron. O silêncio em relação às visitas seria apenas uma estratégia para não transtornar a permanência dos visitantes com centenas ou milhares de pessoas de toda a região, tornando improdutiva a pesquisa que pretendiam fazer sobre a vida do homem do campo, mais exatamente na cacauicultura.
O casal Simone de Beauvoir e Sartre na Fazenda Progresso || Foto Diário de Itabuna
Do aeroporto direto para o Lord Hotel, onde foram acomodados por Nelson Muniz Barreto. Após uma rápida toilette e um lanche, partiram para a Fazenda Progresso, do Coronel Nicodemos Barreto, parte do grupo de fazendas que iria até Buerarema. Apesar de não contar com a presença do coronel e dos filhos, foram recebidos nababescamente na propriedade.
De início, beberam mel de cacau, chuparam a polpa das amêndoas, doces e ácidas, subiram nas barcaças onde secavam as amêndoas, não se amedrontaram e entraram nas plantações, apesar de serem alertados sobre os riscos de animais peçonhentos, cobras, inclusive. Conversaram com os trabalhadores rurais para conhecer de perto o “operário agrícola”, sua vida, família, moradia e salário.
Após agradecer a gentil e tradicional hospitalidade da família Barreto, almoçaram no Lord Hotel e rumaram para Ilhéus. Desta vez, a curiosidade de Sartre era conhecer a vida e o trabalho numa pequena fazenda de cacau, uma burara, como explicou Jorge Amado. Em Ilhéus visitaram amigos de Jorge, o porto e locais turísticos da cidade.
À noite novos compromissos, e já reservada para os visitantes receberem os intelectuais itabunenses e da região, uma considerável legião de admiradores, que colheram autógrafos dos filósofos franceses e do escritor conterrâneo em seus livros. De acordo com os jornalistas do Diário de Itabuna e da Rádio Clube de Itabuna, foi uma festa da inteligência, da elegância e do culto à ilustração.
Na manhã seguinte, um sábado, 20 de agosto, Jorge Amado, Sartre e Simone concederam a prometida entrevista à Rádio Clube de Itabuna, capitaneado pelo diretor Otoni Silva, coadjuvado pelo advogado Wilde Oliveira Lima e o jornalista Cristóvão Colombo Crispim de Carvalho. A esperada entrevista foi anunciada para ir ao ar nos próximos dias, em data e horário exaustivamente anunciados.
Como não poderia deixar de ser, no sábado, Jorge e Zélia Amado, Otoni Silva e Moisés Alves da Silva ciceronearam os filósofos Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir ao distrito de Ferradas, berço de Jorge Amado. Posaram para fotos em frente à casa do escritor, num preito de gratidão e reconhecimento à terra natal de Jorge Amado.
Em seguida, seguiram para o aeroporto Tertuliano Guedes de Pinho, em Itabuna, e tomaram o primeiro voo com destino a Salvador, onde os aguardavam vários círculos da mais fina intelectualidade baiana. E assim Itabuna viveu dois dias como sendo a capital do existencialismo da liberdade individual, embora eu não conheci o prometido estudo do trabalhador do cacau.
Os papa-jacas de Cruz das Almas no terceiro encontro no município || Foto PMCA
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Bem que o poder público municipal e as instituições que representam o empreendedorismo de Itabuna poderiam considerar a importância da jaca na história da cidade e decidam promover evento de tal porte por essas bandas.
Walmir Rosário
Psicologicamente estou arrasado, abalado ou tantos sinônimos existam para classificar meu estado depressivo. E tudo começou na manhã desta segunda-feira (9), durante o café-da manhã, quando, inadvertidamente, passei a olhar o noticiário no celular. Senti uma punhalada, peixeirada, um golpe profundo no peito. Minhas vistas escureceram, fiquei sem ação por vários minutos.
Foi preciso ser chamado à atenção por minha mulher para saber o que se passava. Ainda sem me recuperar do tremendo golpe, apontei o celular pra ela e disse: “Leia, veja as fotos”. Parecia o fim do mundo. Logo no título estava estampado: ECOJACA 2026 É SUCESSO E ATRAI VISITANTES DE VÁRIAS CIDADES. A foto estampava mesas cercadas por multidões comendo jacas em fartura. Só que não em Itabuna e sim em Cruz das Almas, no dia anterior.
Há quase dois anos que me preparo para um evento deste tipo em Itabuna, cidade tida e havida como a Capital da Jaca, inclusive com direito a menções e referências nos livros do conterrâneo Jorge Amado. Mas a questão não parava por aí, e a rivalidade entre as cidades de Itabuna e Ilhéus dão prova real desta hostilidade, em que se intitulam Papa-jacas e Papa-caranguejos, respectivamente.
De minha parte contribuí para manter a tradição e até escrevinhei uma crônica (“Guerra e Paz entre papa-jacas e papa-caranguejos”), numa referência ao tema, sempre em voga entre itabunenses e ilheenses, uma tradição de mais de século. O que antes parecia uma pretensa ofensa moral se transformou em gentílico. Tempos de paz!
Afonso Dantas criou camisas para os papa-jacas de Itabuna
O publicitário itabunense Afonso Dantas foi bastante perspicaz ao criar camisas com os temas papa-jaca e papa-caranguejo, que passei a usá-las com todo o garbo, aguardando apenas e tão somente uma oportunidade deste tipo da realizada em Cruz das Almas para exibi-las solenemente. Enquanto o evento não era programado eu apenas desfilava.
Lembro, ainda, de Pinguim e Bel, lá pras bandas do Bar de Leto, no bairro da Conceição; eu e Cláudio da Luz no Beco do Fuxico fazendo as honras da casa. Em vão. Além de exibir as camisas, por aqui me contento com as jacas moles e duras compradas nas feiras-livres, às quais me dou ao luxo de degustá-las solenemente a partir do café-da-manhã.
Admito que não esteja a chorar o leite derramado, mas me sinto acabrunhado enquanto via as fotos e lia o texto oficial ressaltando com louvor o sucesso do evento, haja vista o grande número de cruz-almenses e visitantes. Eles degustavam com a satisfação estampada nos olhos, aliada à gulodice das desejadas jacas, desde o seu estado in natura até nas receitas culinárias.
Mesas lotadas de pratos com tira-gostos dos mais diversos, doces e salgados, todos elaborados a partir da jaca. Bala, cocada, pudim, brigadeiro, trufa, sorvete, suco, pastel, coxinha, quibe, passando pelos pratos salgados e de sustança para qualquer cidadão. Pense aí no vatapá, feijoada, moqueca de camarão, todos esses pratos tendo a jaca como elemento principal, estrela.
Pelo que li, uma competição chamou a atenção de muitos participantes, que comiam jacas com bastante gulodice – como requeria a ocasião e o estômago de cada um deles – para vencer a gostosa peleja. Ainda fui informado que somente um filho de Deus comeu mais de dois quilos de jaca – sem os caroços, é claro – e ainda foi beliscar nas mesas de culinária.
Confesso minha falta de conhecimento em relação a Cruz das Almas e ao povo cruz-almense sobre esse gosto especial por jaca, mas tenho cá minhas intuições. Acredito que a popularização da jaca nesta cidade do Recôncavo tenha sido obra dos estudantes de agronomia de Itabuna e cidades circunvizinhas nos anos em que por lá permaneceram, o que se justifica.
Entretanto, não consigo compreender como o itabunense consegue perder a primazia de se consolidar como um autêntico papa-jaca, fruta abundante em nossa Mata Atlântica, embora seja uma árvore alienígena, forasteira adaptada e aclimatada entre nós. Originária da Índia, a jaqueira – Artocarpusheterophyllus – é rica em fibras, vitaminas e minerais, e versátil na culinária.
Bem que o poder público municipal e as instituições que representam o empreendedorismo de Itabuna poderiam considerar a importância da jaca na história da cidade e decidam promover evento de tal porte por essas bandas. Nada melhor para consolidar o itabunense como um autêntico Papa-jaca – de fato e de direito – e permitir a oportunidade de trajarmos nossas camisas em tão solene efeméride, recuperando nossa autoestima.
Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.
Itabunense Gilberbet Chaves faleceu ontem (26), em Salvador, aos 98 anos || Foto Reprodução
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Morreu nesta segunda-feira (26), em Salvador, aos 98 anos, o arquiteto Gilberbet Chaves de Oliveira, autor de projetos emblemáticos da arquitetura baiana, como antigo Estádio Luiz Viana, atual Fernando Gomes, o Itabunão, e a residência do escritor Jorge Amado, em Salvador. A morte foi comunicada pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que divulgou nota de pesar.
Natural de Ribeirão Grande, distrito de Itabuna, onde nasceu em 29 de outubro de 1927, Gilberbet formou-se arquiteto pela Escola de Belas Artes da UFBA em 1957. Atuou como professor auxiliar de Desenho e Percepção Visual na Faculdade de Arquitetura da universidade e, no início da carreira, desenvolveu projetos em parceria com Assis Reis, com obras residenciais em Salvador e Itabuna.
A partir de 1962, com escritório próprio, expandiu sua atuação para diversas cidades da Bahia, Sergipe e Alagoas. Entre os trabalhos de maior destaque estão as sedes do Instituto Cultural Brasil-Alemanha e da Associação Cultural Brasil-Estados Unidos, no Corredor da Vitória, em Salvador, além do Fórum Ruy Barbosa, em Itabuna.
Outro marco de sua trajetória é a casa de Jorge Amado e Zélia Gattai, no Rio Vermelho, em Salvador, projetada entre 1962 e 1963, hoje aberta à visitação pública como espaço cultural.
O velório e a cremação de Gilberbet Chaves de Oliveira ocorreram hoje (27), no Cemitério Parque Jardim da Saudade, em Salvador.
Paloma Amado, Elisa Oliveira e Bela Gil durante conversa na Flicacau || Foto Márcio Araújo/Divulgação
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A escritora Paloma Jorge Amado e a nutricionista e chef de cozinha Bela Gil participaram, neste sábado (29), da roda de conversa Narrativas de uma cozinha afetiva, com mediação da professora, escritora e filósofa Elisa Oliveira. O bate-papo foi um dos pontos altos da Festa Literária da Região Cacaueira (Flicacau), que ocupou por três dias o Centro de Cultura Adonias Filho, em Itabuna.
Filha de Jorge Amado (1912-2001), mestre da literatura universal, Paloma tem dois livros dedicados às comidas que aparecem nas obras do pai: A comida baiana de Jorge Amado (1994) e As frutas de Jorge Amado (1997). Neles, além de compilar receitas, discutiu o papel dos alimentos na prosa amadiana. “Jorge Amado fez seus personagens comerem a melhor comida, a comida com mais saudade, ou, nos casos de tristeza profunda, a falta da comida e o não comer”, disse a autora.
O mestre itabunense, segundo a filha, sempre dizia que a melhor forma de expressar o amor é dar de comer. “É a expressão primária do amor. Você pega seu bebê no colo, leva ao peito e dá de comer. Começam daí as nossas boas memórias do paladar”, disse Paloma.
MEMÓRIAS COMUNS
A conversa permitiu que Paloma Amado e Bela Gil descobrissem que têm mais comum do que imaginavam. Além de filhas de dois dos maiores artistas que já pisaram na Terra, ambas descendem de avós maternas de origem italiana.
“Descobri que temos uma similaridade em relação à ancestralidade, que é essa mistura da Bahia com a Itália”, disse Bela. “Também cresci numa casa com muita comida baiana, de candomblé e muita comida italiana, que minha avó fazia bastante. A macarronada do domingo e o capelete do final de ano se misturavam ali no acarajé, vatapá, caruru”, complementou.
Também descobriram que têm em comum a paixão por pitanga. “É minha fruta preferida da vida”, revelou Bela Gil. Paloma contou que, em visita recente à Casa do Rio Vermelho, em Salvador, onde morou com os pais, pediu que a administração do espaço – hoje um museu – plantasse pés de pitanga na área verde do imóvel. Disse que as memórias comendo a fruta colhida na hora é uma das melhores da vida.
Trio conversou sobre memórias afetivas ligadas à alimentação || Foto Márcio Araújo/Divulgação
Bela Gil aproveitou o exemplo da fruta preferida para falar sobre a importância da conservação e transmissão de saberes ligados aos alimentos e modos de preparo. Segundo a pesquisadora, a pitanga está sumindo e corre risco de extinção. Também citou relatos nostálgicos sobre comidas que fizeram parte da vida das pessoas, mas desapareceram do cotidiano delas:
– Se a gente não consumir esses alimentos – ou não compartilhar esses saberes – eles vão se perder. A minha fala é um convite a pensar sobre alimentos, preparos e saberes que a gente quer preservar, passar para frente e recuperar. Digo isso porque a minha fruta predileta da vida é pitanga. Só que pitanga está em risco de extinção.
CHOCOLATE NA PRISÃORegistro de Jorge e Gil comendo juntos || Foto Acervo dos Gil
A relação de Gilberto Gil com a alimentação macrobiótica começou em 1968, quando foi preso pela ditadura empresarial-militar, contou Bela Gil. Na cela, em um endereço do Exército na cidade do Rio de Janeiro, leu publicação sobre a dieta que fazia a cabeça de John Lennon (1940-1980) e Yoko Ono. O músico baiano se aprofundou no assunto e, ainda na cadeia, passou a priorizar alimentos como frutas, grãos integrais e leguminosas.
Bela afirma que a macrobiótica mudou a vida do pai, o que também viria a influenciar as escolhas dela na própria vida e na gastronomia. Nesse momento, Paloma Amado fez um aparte:
– Fui visitar o Gil na prisão levando dois livros e chocolates que papai mandou para seu pai. Eu acho que, mesmo entrando na dieta macrobiótica, ele comeu o chocolate.
– Isso eu posso afirmar porque, mesmo nas épocas mais radicais de macrobiótica, ele nunca largou o chocolate da mesinha de cabeceira. E eu peguei esse hábito, ou vício, porque sou uma chocólatra assumida – confessou Bela Gil.
QUEM FAZ
Com o tema Verde que te quero livro: contando a história da mata que nos sustenta, a Flicacau teve patrocínio do Governo do Estado da Bahia. É contemplada também pelo Projeto Bahia Literária, iniciativa da Secretaria Estadual de Educação (SEC) e da Fundação Pedro Calmon (FPC), unidade vinculada à Secretaria de Cultura (SecultBA). Contou com o apoio da Prefeitura de Itabuna, por meio da Secretaria Municipal da Educação e da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania (Ficc). A Seneh Comunicação & Projetos foi responsável pela concepção e execução da Festa.
Porto Seguro está entre os destinos mais procurados por turistas estrangeiros neste ano || Foto Divulgação
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O desembarque de turistas estrangeiros na Bahia cresceu 58% nos primeiros nove meses deste ano, em relação ao mesmo período de 2024, quando 94.703 pessoas visitaram o estado de Dorival Caymmi, Jorge Amado, Caetano Veloso, Carybé, Gilberto Gil e tantos outros gigantes da cultura brasileira. Entre janeiro e setembro, a Bahia recebeu 149.648 visitantes de fora do Brasil.
Somente no mês passado, a Bahia recebeu 15.940 turistas internacionais, 29,6% a mais que em setembro de 2024, quando este número foi de 12.297. Os dados são da Embratur, do Ministério do Turismo (MTur) e da Polícia Federal (PF).
Os dados mostram que a Argentina liderou o ranking dos principais emissores de turistas internacionais para a Bahia de janeiro a setembro deste ano, com 68.130 chegadas, 69,30% a mais que no mesmo período de 2024. Em segundo lugar, Portugal registou 15.366 desembarques, cerca de 50,37% de aumento.
Na terceira posição, o Uruguai enviou 13.547 viajantes ao estado, um aumento de 23,96%. A França, na sequência, teve o maior aumento percentual, com 11.465 entradas, valor 216% maior que o mesmo período anterior. Em quinto lugar, a Itália teve 9,5 mil entradas, 48,93% a mais que o registrado entre janeiro e setembro do ano passado.
Para o secretário de Turismo do Estado (Setur-BA), Maurício Bacelar, a Bahia conquista mais um novo marco na atração de turistas estrangeiros, performance que tem sido contínua. “É o resultado do esforço do Governo do Estado em ações estruturantes, qualificação dos serviços, promoção e ampliação da malha aérea. Temos indicativos de que iremos seguir em rota de crescimento, também no próximo verão, com a ampliação das frequências de voos internacionais e a retomada da rota do Panamá”, avaliou.
Por tanto, comemoramos hoje os 50 anos da volta do nosso Amado Jorge a conviver com Ilhéus. Com ele e Zélia, vieram João Jorge e Dora, filho e nora; Paloma, filha; James e Luiza, irmão e cunhada; Calazans Neto e Auta Rosa, amigos íntimos.
José Nazal Pacheco Soub
No mês de agosto de 1912, nasceu Jorge Amado. No mês de agosto de 1975, Jorge Amado voltou a conviver com Ilhéus, como amigos de longas data e muitos admiradores. No mês de agosto de 2001, faleceu Jorge Amado.
A importância desse escritor para Ilhéus é imensurável. Penso eu que todas as homenagens já lhe feitas e as que vierem são poucas para devolver a Jorge o quão bem ele fez a nossa terra, tornando-a conhecida em quase todos os confins da Terra. Seu nome está registrado na Rua Jorge Amado, Casa Jorge Amado, Rodovia Jorge Amado, Dia Jorge Amado, Mirante Jorge Amado, Ponte Jorge Amado, Rotary Clube Jorge Amado e Escola Jorge Amado. Parece muito, mas é pouco, se comparado com o número de dezenas de países, milhares de cidades e milhões de leitores que tiveram conhecimento de que Ilhéus existe e que é uma terra cheia de história, magia, de um povo maravilhoso.
Dentre os romances brotados da mente brilhante do grapiúna Amado, nascido em Itabuna e crescido em Ilhéus, talvez o mais importante e conhecido seja Gabriela, Cravo e Canela, lançado em 1958, quando o Brasil vivia os anos dourados do governo de Juscelino Kubitscheck, mas com o cacau atravessando momentos de crise, resultando na criação da CEPLAC. O romance caiu como uma bomba, causando grande frisson entre a sociedade ilheuense, que tentava identificar quem seria cada personagem do livro com alguém da cidade.
Depois do sucesso de Gabriela, Jorge Amado e Zélia Gattai visitaram Ilhéus em 1960, trazendo o casal Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre para conhecer nossa cidade. Fizeram visita ao porto em construção, uma fazenda de cacau, na companhia de Wilson Rosa e Moisés Alves, e encerraram o dia jantando a convite de Sá Barreto, na residência do casal Anacélia e João Diogo Soub, na então Avenida Bahia, Cidade Nova.
Meses após essa visita do casal Amado a Ilhéus, o cronista água-pretense Jorge Emílio Medauar escreveu uma matéria em revista de circulação nacional, muito famosa na época, ligando os personagens do livro a pessoas da vida real, causando um grande alvoroço na conservadora sociedade ilheuense, com muita gente se sentindo ofendida. A partir desse episódio, os dois Jorge passaram a ser malvistos pelas famílias cujos nomes apareceram na matéria. Daí em diante não mais voltaram a Ilhéus.
Em 1974, a Rede Globo decidiu reproduzir a história do gringo Nacib e da retirante Gabriela em novela e, para tanto, deram início às pesquisas, resultando na visita da equipe técnica da emissora à terra do Vesúvio, do Bataclan e do cacau. Lembro-me com segurança do momento em que estiveram na residência de minha avó Esther, na Boa Vista. Foram Walter George Durst, Walter Avancini, Edwaldo Pacote, Kaká e Mário Monteiro, dentre outros. A novela não foi gravada em Ilhéus, e sim numa cidade cenográfica, salvo engano, em Guaratiba, Rio de Janeiro. Reproduziram fielmente o traçado das ruas e das construções, com base em antigas fotos da cidade.
A novela foi ao ar em 1975, com sucesso absoluto de audiência, especialmente em Ilhéus, sendo estrelada por Sonia Braga e Armando Bogus, levando o nome de Ilhéus a todos os recantos do Brasil. Com o advento desse sucesso, Raymundo Pacheco Sá Barretto, o “último dos coronéis”, segundo Jorge Amado, escreveu para o seu amigo, convidando-o para receber homenagens em Ilhéus. Em 29 de julho, Jorge confirmou que aceitaria, sugerindo os três finais de semana de agosto como opção. Ficou acertado para os dias 30 e 31 de agosto.
Por tanto, comemoramos hoje os 50 anos da volta do nosso Amado Jorge a conviver com Ilhéus. Com ele e Zélia, vieram João Jorge e Dora, filho e nora; Paloma, filha; James e Luiza, irmão e cunhada; Calazans Neto e Auta Rosa, amigos íntimos. Vieram também os atores globais: Paulo Gracindo, Sônia Braga, Armando Bogus, Elizabeth Savalla, Marcos Paulo, Ana Maria Magalhães, Fúlvio Stefanini, Rafael de Carvalho, Jorge Cherques. Todos ficaram hospedados no Britânia Hotel.
No sábado (30), houve um jantar no Clube Social de Ilhéus e, no domingo (31), festa com a colocação da placa na Rua Jorge Amado, na Boa Vista (somente depois houve a troca com a rua 28 de junho), além de uma escultura do artista plástico Tatti Moreno, infelizmente destruída por vândalos. Tive a honra e o privilégio de registrar o feliz momento.
De lá para cá, Jorge veio algumas vezes a Ilhéus, a convite oficial ou por iniciativa pessoal, sempre acompanhando Sá Barretto, eu estive junto. Uma das vezes, o casal Zélia e Jorge não pisaram na cidade, pois estavam a bordo do Funchal, seguindo para a Europa. Convidaram Sá Barretto para o café e lá fui eu a reboque. Entramos no navio às 8h e o café se estendeu até às 12h. Foi um momento ímpar, indescritível. O que mais me impressionou foi o tanto de assunto que conversaram, que reviveram. Agradeço a Deus por tanto e por tanta dádiva.
José Nazal Pacheco Soub é fotógrafo, memorialista e autor do livro Minha Ilhéus – Fotografias do Século XX e um pouco de nossa história, lançado pela Via Litterarum.
Escultura caiu de suporte e quebrou, admite Secult || Foto Michele Cristini/Pinterest
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Do PIMENTA
A Iemanjá da Casa de Jorge Amado, em Ilhéus, foi danificada. O dano ocorreu quando a Secretaria Municipal de Cultura interditou o imóvel e transferiu o acervo dele para o Teatro Municipal, do outro lado da rua que também leva o nome do escritor, no Centro Histórico. A obra faz parte de conjunto de dez esculturas de orixás doadas ao município pelo artista plástico Osmundo Teixeira, outro gênio grapiúna.
Na coleção, Osmundinho empregou técnica conhecida como casa de abelha. “Consiste em criar paredes de barro dentro da peça para sustentar a estrutura por fora. Sendo assim, a peça é oca e não maciça”, informou a assessoria do artista à reportagem do PIMENTA.
A secretária de Cultura do município, Anarleide Menezes, confirmou que, ao ser transportada, a peça se desprendeu do suporte e caiu. Segundo a gestora, não há registro fotográfico de como a escultura ficou após a queda. A Secult a entregou a Osmundinho, que doou a coleção e vai restaurá-la de forma gratuita.
Osmundo Teixeira recebe peça para restaurarão || Foto Secult
A assessoria do artista comentou o tamanho do estrago: “Ele vai tentar restaurar a peça, já que está muito quebrada. Caso não consiga, terá que ser feita uma nova para repor”. Também explicou que não é possível disponibilizar foto da obra hoje, pois o ateliê está fechado e será reaberto na próxima segunda-feira (3). Antes, no domingo (2), as comunidades dos povos de terreiro de Ilhéus celebram o Dia de Iemanjá, rainha das águas e mãe de todos os orixás.
INTERDIÇÃOEstátua do escritor em frente à casa onde residiu || Foto PMI
De acordo com a secretária Anarleide Menezes, que é museóloga, a Casa de Jorge Amado foi interditada no último dia 8, pois não oferecia segurança ao próprio acervo e aos funcionários da Secult, que funcionava no mesmo espaço e se transferiu, provisoriamente, para o Teatro. A gestora disse que, desde 2022, documentos atestam a insalubridade do imóvel e os riscos a quem o frequentava.
Questionada se a decisão de interditá-lo deveria ter sido submetida ao Conselho Municipal de Cultura, respondeu que o órgão tinha ciência dos problemas há mais de dois anos e não cumpriu seu papel de fiscalização. Acrescentou que a Secretaria de Infraestrutura e Defesa Civil e a Vigilância Sanitária do município vão apresentar relatórios sobre a situação do imóvel, tombado como patrimônio histórico de Ilhéus desde 1993.
A secretária enviou ao site imagens para mostrar as condições atuais da Casa de Cultura Jorge Amado (veja as fotos ao final do texto). Contou que, em agosto passado, uma pessoa sofreu acidente no local. “Uma funcionária afundou, literalmente, num desses buracos do assoalho”. O imóvel, disse, foi entregue à nova gestão com espaços tomados por excrementos de gatos. Funcionários e visitantes estavam submetidos ao aroma fétido pairando no ar e expostos a doenças como a toxoplasmose, emendou.
Falando em nome da equipe da Secult, a gestora reafirmou compromisso com a população do município. “Estamos empenhados em trazer de volta à cena cultural a cidade que tanto amamos. Devolver Ilhéus ao lugar de onde nunca deveria ter saído, como protagonista da arte e da cultura regionais”.
Buraco no assoalho da Casa de Jorge Amado || Foto SecultDossiê reúne imagens da casa onde Jorge Amado escreveu O País do Carnaval || Foto SecultRelatório aponta presença de insetos e fungos no imóvel || Foto SecultSubsolo da Casa de Jorge Amado || Foto Secult
Deputado Hilton Coelho cobra valorização da cultura de Ferradas || Foto Divulgação
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A Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA) recebeu indicação do deputado Hilton Coelho (Psol) para que o Estado da Bahia viabilize a proteção e promova a valorização cultural de Ferradas, em Itabuna. De acordo com o parlamentar, o objetivo é preservar o legado de Jorge Amado, um dos maiores ícones da literatura brasileira e mundial, nascido na localidade.
No pedido, Hilton Coelho informa que, apesar da imensa importância de Jorge Amado para a história da Bahia, do Brasil e do mundo, Ferradas ainda carece de uma ação mais efetiva por parte do Poder Público para a preservação e promoção de seu legado.
“As ações de memória de Jorge Amado, que têm sido realizadas por pessoas dedicadas e comprometidas com a causa, são notáveis, como o memorial, a estátua em homenagem ao escritor, e a corrida ‘Filho Amado’, que percorre os caminhos de Jorge em Ferradas, Ilhéus, Salvador e até Portugal. No entanto, tais iniciativas carecem de maior apoio e estrutura, para que possam alcançar todo o seu potencial”, afirma o parlamentar.
RECONHECIMENTO DE FERRADAS E DO SUL DA BAHIA
Para Hilton Coelho, “a valorização de Ferradas não é apenas uma homenagem ao escritor, mas também um reconhecimento daquele bairro e da região sul da Bahia como um berço de grandes talentos culturais. Diante disso, é essencial que Ferradas seja incluída no Circuito Jorge Amado, um roteiro turístico que já engloba diversos pontos significativos da trajetória do escritor. A inclusão de Ferradas nesse circuito representaria um passo fundamental para a valorização do distrito, promovendo o turismo cultural e gerando benefícios para a economia local”.
O parlamentar solicita que o Governo da Bahia tome medidas concretas para garantir a proteção e preservação do local de nascimento de Jorge Amado, incentivando o fomento de projetos culturais e turísticos, investindo em infraestrutura no distrito, como a criação de museus e outros equipamentos culturais, bem como promovendo mecanismos de apoio às iniciativas locais voltadas à preservação da memória, como a corrida “Filho Amado”.
“O Coletivo local já realizou várias ações no sentido de preservar o rico acervo cultural ligado a Jorge Amado no município, como a preservação do imóvel onde nasceu o escritor. Entretanto, é preciso firme atuação do Estado para que haja consolidação protetiva em Ferradas, como, por exemplo, a aquisição de imóveis vizinhos à residência onde nasceu o escritor, para transformação em museu. Cientes de que o reconhecimento e o investimento no patrimônio cultural de Ferradas contribuirão para o desenvolvimento sustentável da região e a valorização de sua história e identidade, contamos com a ação imediata do Legislativo e do Executivo”, conclui Hilton Coelho.
Para deputado, terra Natal do escritor merece mais atenção do estado
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O deputado estadual Hilton Coelho (PSOL) avalia que o Governo do Estado deve adotar medidas para a valorização do legado de Jorge Amado (1912-2001) e a proteção cultural do distrito de Ferradas, em Itabuna, onde o escritor nasceu. O posicionamento é objeto de indicação a ser apreciada pela Assembleia Legislativa da Bahia.
Para o socialista, há descompasso entre a grandeza da obra amadiana e as ações dos poderes públicos visando à preservação e promoção do legado do escritor em Ferradas. Hoje, segundo o parlamentar, esse trabalho é feito por pessoas dedicadas, mas sem o apoio e a estrutura para desenvolver todo o seu potencial. Ele ressaltou o memorial, a estátua e a corrida Filho Amado, que percorre os caminhos de Jorge em Ferradas, Ilhéus, Salvador e Portugal.
O parlamentar solicita que o Governo da Bahia tome medidas concretas para garantir a proteção e preservação do local de nascimento de Jorge Amado, incentivando o fomento de projetos culturais e turísticos, investindo em infraestrutura no distrito, como a criação de museus e outros equipamentos culturais, bem como promovendo mecanismos de apoio às iniciativas locais voltadas à preservação da memória, como a corrida Filho Amado.
A valorização de Ferradas, conforme Hilton Coelho, ultrapassa a homenagem a Jorge Amado, porque também é um reconhecimento do distrito e do sul da Bahia como berços de grandes talentos culturais. “É essencial que Ferradas seja incluída no Circuito Jorge Amado, um roteiro turístico que já engloba diversos pontos significativos da trajetória do escritor. A inclusão de Ferradas nesse circuito representaria um passo fundamental para a valorização do distrito, promovendo o turismo cultural e gerando benefícios para a economia local”, acrescentou.
Na indicação, o deputado solicita que o estado tome medidas para garantir a proteção e preservação do local de nascimento de Jorge Amado, fomentando projetos culturais e turísticos e investindo em infraestrutura no distrito, como na criação de museus. Também indica mecanismos de apoio às iniciativas locais voltadas à preservação da memória social, a exemplo da corrida Filho Amado.
A Festa Literária de Ilhéus vai ter a maior edição de sua história, com a presença de grandes nomes da literatura, de 13 a 15 de novembro deste ano, no Centro de Convenções, localizado na Avenida Soares Lopes. A 7ª FLI reunirá escritores, palestrantes e leitores da região sul da Bahia, do Brasil e do mundo.
Com o tema A Princesinha do Sul no Mundo da Literatura, a programação terá mesas de diálogo, palestras, amostras artísticas, encontros, exibição de filmes, intervenções urbanas, lançamento de livros, espetáculos e contação de histórias. Também será palco da interação da alta literatura com as manifestações populares da música, poesia, teatro e outras linguagens.
PARA TOD@S
Com o objetivo de envolver gentes de todos os gostos, a 7ª Festa Literária de Ilhéus vai ter as mesas principais no Espaço Jorge Amado; o Juventudes FLI, voltado para o público de 14 a 24 anos; e o Flizinha, com atividades especiais para a criançada. Apesar da distribuição das atrações em espaços e momentos distintos, todas são de livre indicação etária.
O Espaço Governo será dedicado às apresentações e intervenções das secretarias estaduais da Bahia. Também vai abrigar estandes de editoras, da economia criativa/solidária e de outras atividades.
Para não deixar ninguém de fora, a 7ª FLI assegurou tradução em Libras, audiodescrição e acessibilidade. Além disso, as principais mesas e ações serão transmitidas ao vivo pelos canais e redes sociais do evento.
COORDENAÇÃO E CURADORIA
Terra mãe de cidades, como escreveu Jorge Amado (1912-2001), Ilhéus tem na obra do escritor grapiúna uma das principais fontes de sua identidade cultural. Mais do que contá-la, a literatura amadiana inventou uma cidade e fez dela um lugar no imaginário do mundo. Sob a coordenação geral da jornalista Vanessa Dantas, especialista em Gestão da Comunicação e Gerenciamento de Projetos, a 7ª FLI vem à vida para fazer justiça a esse legado.
Já a curadoria será formada por Dinalva Melo e Rita Argollo (Espaço Jorge Amado); Camila Gusmão (Juventudes FLI); Bárbara Fálcon (Flizinha); e Romualdo Lisboa (curadoria artística).
A 7ª edição da Festa Literária de Ilhéus (FLI) é uma realização da Sarça Comunicação e conta com o apoio da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc) e do Governo da Bahia, por meio da Bahia Literária, ação da Fundação Pedro Calmon/Secretaria de Cultura, Secretaria do Turismo e Secretaria da Educação do Estado.
Estátua de Jorge Amado em Ilhéus em frente à Casa de Cultura, no Centro Histórico || Foto Divulgação
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Diante da veracidade do documento, assentado em 11 de março de 1931, rogo aos ilheenses de boa índole, que se abstenham da apropriação de Jorge Amado, que por direito pertence a Itabuna. Por outro lado, de papel passado, os verdadeiros conterrâneos passarão a admiti-lo como um deles, uma homenagem pra lá de interessante e muito justa.
Walmir Rosário
Há dias passados me encontrava em Itabuna visitando amigos nos bares mais frequentados da cidade, oportunidade que tive de rever o amigo e vereador Ronaldo Geraldo dos Santos, o Ronaldão. Após os cumprimentos de praxe, me prometeu um presente: a garantia de que Jorge Amado nasceu em Itabuna, mimo esse de papel passado, assinado em cartório.
Por si só, a notícia não teria nada de interessante, pois o próprio Jorge Amado garantiu e jurou de pés juntos que era itabunense, declarando em todas as entrevistas ser um Papa-jaca autêntico. Mas isso aconteceu muitos anos após Ilhéus ter se apropriado, não só do escritor, como também da figura humana e seus personagens, sem qualquer documento comprobatório.
Para os ilheenses, o que importava era o tempo em que Jorge Amado morou em Ilhéus, escreveu sobre a cidade, suas figuras humanas, muitas das quais estereotipadas, a exemplo dos cacauicultores, tudo registrado em livros. Foi uma expropriação violenta, sem respeitar os documentos oficiais, a exemplo da certidão de nascimento guardada em livro apropriado em cartório.
Eu até tenho a impressão que o próprio Jorge Amado tenha “surfado nessa onda”, motivadora da celeuma entre ilheenses e itabunenses, agravada com a publicação do livro Terras do Sem-fim, em que sugeria adjetivos não condizentes com os itabunenses. Sem querer meter minha colher em prato alheio, diria até sinônimos desairosos.
Embora sempre respeitado pelos itabunenses, os fatos levam a crer que Jorge Amado não era um amigo bem chegado, daqueles que convidamos pra ir à nossa casa fazer uma farra, devidamente forrada com uma farta feijoada, um churrasco. Alguns mais afoitos não mediam as palavras em considerá-lo um vira-casaca, por se tornar um Papa-caranguejo empedernido, como dito àquela época.
Uma rusga atoa, sem pé nem cabeça, de uma população com um ilustre conterrâneo. Tanto era assim que nunca foi desmerecido e sempre reconhecido pelas suas obras. Mas o nó górdio da questão estava na naturalidade ensovacada pelos ilheenses, sem qualquer razão, pois no ato do nascimento de Jorge Amado, Itabuna já se encontrava emancipada há longos dois anos e livre de qualquer amarra.
Dias depois, meu amigo e testemunha da promessa do vereador Ronaldão, o advogado José Augusto Ferreira Filho, me liga informando que enviara para o meu WhatsApp a certidão passada em cartório e assinada pelo Tabelião Ottoni José da Silva. E isso em 02 de março de 1944, afirmando que Jorge Amado nasceu na Fazenda Auricídia, em Ferradas (Itabuna), em 10-08-1912.
As diferenças entre os itabunenses e seu laureado conterrâneo já chegaram à delegacia quando um busto de Jorge Amado foi depredado em Ferradas, no século passado. Em outra feita mais recente, uma estátua do escritor foi alvo de tiros, além de pedradas, na calada da noite, por pessoas embriagadas, apenas pelo fito de danificar um equipamento público. Coisas do passado!
Lembro-me que no século passado, por volta do início da década de 1990, cheguei a elaborar reportagens para o Correio da Bahia, sobre a possível renomeação da principal avenida de Itabuna, a Cinquentenário, que passaria a ser nomeada Jorge Amado. A campanha encetada pelo jornalista e escritor Hélio Pólvora, não ganhou ampla adesão por ser ano de eleições municipais.
Acredito que essa homenagem teria selado, definitivamente, a paz, a amizade entre os itabunense e seu filho ilustre, mas não chegou a sair do papel. Em 1994, Jorge Amado lança A Descoberta da América Pelos Turcos, uma verdadeira homenagem a Itabuna. O livro foi considerado bem-vindo pelos itabunenses, entretanto faltaram eventos dignos no lançamento da obra na cidade.
A Certidão de Nascimento para eliminar a dúvida
Se antes essas diferenças eram levadas a “ferro e fogo” hoje provocam apenas bons debates. E não é pra menos, pois no livro 1-B destinado aos registros de nascimento, à folha 231, consta o termo nº 516, do nascimento de Jorge Amado, com toda a filiação, acompanhados dos nomes dos avós paternos, maternos além de testemunhas.
Diante da veracidade do documento, assentado em 11 de março de 1931, rogo aos ilheenses de boa índole, que se abstenham da apropriação de Jorge Amado, que por direito pertence a Itabuna. Por outro lado, de papel passado, os verdadeiros conterrâneos passarão a admiti-lo como um deles, uma homenagem pra lá de interessante e muito justa.
De minha parte, prometo adquirir um kit Papa-Caranguejo completo (camisa, caneca e protetor de lata de cerveja), junto às organizações “Lá ele!”. E para tanto deixo registrado o meu pedido a Afonso Dantas, convocando, ainda, o vereador Ronaldão, Augusto Ferreira, José Carlos (Beca) e outros parceiros de mesa de bar para selarmos o armistício definitivo entre Papa-Jacas e Papa-Caranguejos.
Jornalista e escritor Ederivaldo Benedito numa de suas participações na Flimd 2024
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Nas últimas oito décadas a obra literária do escritor itabunense Jorge Amado é reconhecida e reverenciada em todo o mundo, mas é ignorada em sua terra natal, no sul da Bahia, pelos seus conterrâneos, afirmou o jornalista Ederivaldo Benedito em sua participação na II Feira Literária do Colégio Estadual Manoel Devoto, em Salvador.
Bené, que também é itabunense, participou da II Flimd, apresentando o trabalho Tendas dos Milagres: Identidade, religiosidade e interação social na obra de Jorge Amado”, sobre uma das obras mais famosas do escritor grapiúna. “Apesar de ser reconhecido e reverenciado nacionalmente, estranhamente Jorge não é lembrado em sua terra natal”, afirmou.
Para Ederivaldo Benedito, Itabuna ainda não valorizou o legado legado literário de Jorge Amado, como merece. “A comunidade itabunense precisa rever seu relacionamento com a obra amadiana”, declarou Bené.
CONTRADITÓRIO E IRÔNICO
Durante a Flimd, Bené ressaltou um aspecto contraditório e irônico: mesmo sem ter lido os 49 livros do escritor itabunense, um grande número de seus conterrâneos o criticam duramente. “Itabuna tem uma dívida histórica para com o seu filho mais ilustre. Estranha e historicamente, Itabuna nunca amou Jorge. O filho mais ilustre das terras do cacau nunca foi amado pelos seus conterrâneos”, garantiu.
Flimd teve grande participação da comunidade escolar
“Jorge Amado, que abordou em suas obras as realidades sociais e políticas do sul da Bahia, foi um crítico ferrenho das desigualdades e das mazelas sociais, tendo sua escrita muitas vezes ligada à sua militância política. O fato de ter sido comunista e ter denunciado as injustiças sociais em seus romances não foi bem aceito por um segmento da sociedade local”, lembrou Bené, referindo-se à forte presença de coronéis do cacau e de jagunços no sul da Bahia, no início do século passado.
“É momento de Itabuna olhar para o passado e reconhecer seus valores. A Literatura de Jorge Amado precisa ser revalorizada. Ela é, essencialmente, um reflexo da nossa própria história”, concluiu.
A Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) publicou, nesta sexta-feira (10), no Boletim de Serviço Extraordinário, que abrirá 66 vagas em concurso público para técnico administrativo nos campi Jorge Amado, em Itabuna; Sosígenes Costa, em Porto Seguro; e Paulo Freire, em Teixeira de Freitas.
Além da quantidade geral de vagas, foi informado o conteúdo programático para cada cargo. Será exigido do candidato conhecimentos de Língua Portuguesa, Noções de Raciocínio Lógico, Informática e Legislação (incluindo capítulos da Constituição Federal). A UFSB adiantou também qual o conteúdo específico que será cobrado para os cargos com exigências de níveis médio, técnico e superior.
A expectativa do candidato é para as próximas etapas do concurso, que incluem a licitação para contratação da banca organizadora e publicação de editais, com o cronograma do certame. O último concurso público da UFSB para técnico administrativo foi realizado em 2016, com oferta de vagas para diferentes cargos nos campi de Itabuna, Porto Seguro e Teixeira de Freitas.
COMO SERÃO DISTRIBUÍDAS AS VAGAS
De acordo com o informativo publicado pela UFSB, quase metade das vagas é para o cargo de Administrador. Inicialmente, a estimativa é de abertura de 30 vagas para o cargo. Para assistente em administração, que exige o ensino superior como escolaridade mínima, serão 17 vagas.
As demais vagas são para os cargos de Analista em Tecnologia da Informação (2); Arquivista (1); Assistente Social (1); Auditor; Bibliotecário/Documentalista (1); Biólogo (1); Enfermeiro (1); Engenheiro Mecânico; Engenheiro de Segurança do Trabalho (1); Jornalista e Médico Psiquiatra (1).
Há ainda oportunidade para os cargos de Nutricionista (1); Pedagogo (1); Programador Visual (1); Psicólogo Organizacional; Técnico de enfermagem (1); Técnico de laboratório/Análise Clínica (1); Técnico de laboratório/Química (3); Técnico de Segurança do Trabalho; Técnico em Tecnologia da Informação (2).
Estamos perto das eleições municipais. Será que com o prefeito que vai chegar, ou mesmo que o atual se reeleja, ocorrerá mudança nessa mentalidade tacanha? Tomara! Ainda há tempo para amparar a nossa cultura, que é rica de conteúdo e história, e salvar o que resta. Basta boa vontade.
Cyro de Mattos
A quem cabe zelar pela cultura de um povo e não corresponde aos seus apelos comete omissão imperdoável. A cultura alimenta a autoestima e reforça os laços identitários de uma sociedade nas suas relações com a vida. Se a educação é o corpo da sociedade, que precisa ser bem alimentado, que dizer de sua alma, a cultura? Quem não valoriza a cultura de seu povo, contribui para que não haja resposta quando se pergunta qual é o seu nome, onde você nasceu e para onde você vai. Torna assim o ser humano um caminhante no vazio do estar para viver ou, se quiserem, cadáver ambulante que procria, como diz o poeta Fernando Pessoa.
O que vemos por aqui entristece. Ainda hoje viceja esse comportamento atávico para anular o que foi produzido para representar e permanecer como referência do nosso patrimônio cultural. O Museu da Casa Verde, por exemplo, que antes foi o espaço de convivência social da elite, com reuniões importantes de políticos, quando então eram debatidos assuntos relevantes de nossa cidade, encontra-se fechado há tempos. Seu patrimônio valioso, que muito diz sobre a história da burguesia cacaueira no tempo dos coronéis, está encoberto pelas sombras da indiferença do poder público. Assim contribui para que o visitante, o estudante e o habitante dessa terra desconheçam um capítulo importante da civilização do cacau, com seus costumes, valores, linguagens, suas relações políticas e sociais como marcas de uma maneira singular de proceder perante o mundo. Não recebe o mínimo apoio do poder público, da classe empresarial e de clube de serviço, para que se torne um espaço movimentado com vistas ao conhecimento da história coletiva municipal e regional.
O quiosque Walter Moreira, na praça Olinto Leoni, obra realizada na gestão do professor Flávio Simões, quando presidente da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania, foi demolido. Já serviu para exposições de artistas plásticos locais, comércio de artesanato, lançamento de livro e local como parte das comemorações no Dia de Cidade, com exposição de fotos históricas e dos prefeitos. Dá pena saber o destino que impuseram ao Quiosque Walter Moreira no jardim da Praça Olinto Leoni. A memória desse artista da cor, que passou uma vida retratando na tela a paisagem humana e física dessa terra, não merece essa pancada.
O Monumento da Saga Grapiúna, criado pelo artista Richard Wagner, itabunense de fama mundial, erguido nas proximidades do Supermercado Jequitibá, é uma homenagem aos elementos formadores da civilização grapiúna – o sergipano, o negro, o índio e o árabe, e não está tendo melhor destino. Monumento que remete as gerações de hoje e de amanhã à infância da civilização do cacau, em nossa cidade e na região, encontra-se também no descaso. O gradil protetor ao seu redor está danificado, lá dentro o seu interior serve de depósito de coisas imprestáveis e lixo. Não existe fiscalização nem proteção para preservar uma obra artística e cultural de valor inestimável. Árvores cresceram ao seu redor, tirando-lhe a visibilidade.
Com sua beleza rica de significados, em que se retrata a história da civilização cacaueira baiana, representada em figuras, símbolos, cenas e paisagens, o painel composto de azulejos, criado pela arte genial de Genaro de Carvalho, instalado no prédio Comendador Firmino Alves, onde funcionava o antigo Banco Econômico, entre a avenida do Cinquentenário e a praça Adami, nos idos de 1953, é indiscutivelmente um dos patrimônios artísticos de incalculável valor dessa terra onde nasceram o romancista Jorge Amado e o poeta Telmo Padilha.
Essa obra de arte magnífica esteve entregue à indiferença de autoridades, ao longo dos anos. Ficou sem alguns azulejos, na frente serviu para que camelôs fixassem seus produtos à venda no comércio informal. A FICC fez a reconstituição das avarias no painel, mas até hoje a valiosa obra de Genaro de Carvalho não teve a preservação merecida para que seu estado não volte como antes. Na frente dele, camelôs improvisam o gradil como expositor para vender seus produtos. Dentro do gradil protetor guardam a bicicleta. A poluição visual do painel às vezes prossegue com a faixa estendida de um poste a outro, na frente, para anunciar a venda de um produto novo chegado ao comércio local.
O prédio do Colégio Divina Providência e o do Cine Itabuna tomaram uma destinação comercial, nem parece que ali a vida saudável fez morada, através de gerações que aprendiam com mestres do ensino em um e se divertiam com Oscarito e Grande Otelo, o Gordo e o Magro, no outro.
Perdemos o Castelinho, o Cine Itabuna, o prédio do Ginásio Divina Providência, o casarão do coronel Henrique Alves dos Reis, o Campo da Desportiva, o Teatrinho ABC na Praça Camacã, a fachada da residência onde morou o comendador Firmino Alves e sua família na praça Olinto Leoni está desfigurada. Até quando vamos continuar maltratando a nossa memória e o nosso patrimônio arquitetônico, portador de rico simbolismo em nossa história?
E o rio Cachoeira, que tanto contribuiu para a progressão da cidade, alimentou os pobres, forneceu ganho às gentes do povo, teve peixe em abundância quando as águas eram claras? Há tempos vem chorando água, virou um esgoto a céu aberto.
Estamos perto das eleições municipais. Será que com o prefeito que vai chegar, ou mesmo que o atual se reeleja, ocorrerá mudança nessa mentalidade tacanha? Tomara! Ainda há tempo para amparar a nossa cultura, que é rica de conteúdo e história, e salvar o que resta. Basta boa vontade.
Cyro de Mattos é itabunense, autor de 67 livros editados e publicados também em vários países, premiado internacionalmente, além de ser detentor da Comenda Dois de Julho e do título de Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc).