Eduardo Mello, Walmir Rosário e Antônio Carlos Mello no alambique da Coqueiro || Foto Arquivo/Walmir Rosário
Tempo de leitura: 4 minutos

 

 

 

Precavidos, providenciamos o abastecimento da “Kombi” e a provisão de víveres: um litro de cachaça, alguns sanduíches de filé e uma caixa de cervejas em latas. De cara, Madalena, a cozinheira do “Bem-me-Quer”, se negou a preparar os sanduíches, mas acatou os conselhos do proprietário.

 

Walmir Rosário 

Costumeiramente sou chamado de cachaceiro pelo hábito de apreciar esse fantástico néctar da cana. Não tergiverso e parto para o ataque contra o ingênuo: Alto lá, exijo tratamento correto e adequado! Sou apenas um apreciador da boa cachaça, e provo que conheço os bons e verdadeiros cachaceiros, aqueles que sabem destilar a cana, transformando-a em cachaça de primeira qualidade.

E, na ponta da língua, me recordo das boas cachaças que bebi. Não foram poucas, assim de contar na hora, sem fazer conta dos anos, meses e dias, além de tirar uma média, sem a precisão científica. O melhor cachaceiro que conheci até a presente data foi Antônio Mello, de Paraty, o alquimista das cachaças Vamos Nessa, Quero Essa e Coqueiro.

E Antônio Mello fez todas elas bem-feitas, com rigor na escolha das canas, plantadas por ele e adubadas com uma mistura que somente ele conhecia. Cortou a cana, tem que moer no mesmo dia, e não tirava o olho do alambique, controlando o fogo, desprezando a cabeça e o rabo. Como ele dizia, “a cachaça não basta ser boa, tem que ter alma, por isso feita com o coração”.

Não conheci outro cachaceiro com tanto capricho e parecia que cada litro alambicado era um filho. E não é que de tanto ele pensar assim, iniciou o seu filho primogênito, Eduardo Mello, na arte de modelar cachaça. Quando se despediu deste mundo, partiu com o sentimento do dever cumprido, por ter oferecido não apenas um produto, e sim o néctar do bem-estar, da satisfação, da alegria, do prazer.

E essa história é longa, o que comprova a sabedoria da família Melo, que desde 1803, labuta na produção de cachaça. Com a venda da Fazenda Boa Vista, onde se localizava o Engenho a Vapor, no final da década de 1970, a tradição esteve ameaçada. E é justamente aí que entra a vocação familiar herdada por Eduardo Mello (Eduardinho), disposto a continuar a fabricação de cachaça de alta qualidade.

E do nascimento da cachaça Coqueiro sob a batuta de Eduardo Melo, assumo que falo de cátedra, pois acompanhei, pessoalmente, desde as primeiras conversas da negociação de Eduardinho com Ormindo até o fechamento. E a concretização da aquisição da marca Coqueiro – com alambique, inclusive – ganhou ares de roteiro de cinema, tanto pela data quanto pelas testemunhas.

Lembro-me bem daquela Sexta-Feira Santa – ou da Paixão –, de 1979, dia em que acordamos cedo – apesar da noitada no Paratiense Atlético Clube (PAC) – para embarcar na “Kombi”, barco cedido por Jorginho de Mané Rita, o comandante. E a tripulação era composta por Eduardinho, Neguinho (Antônio Carlos Mello), Luiz Mello (Piranha) e este que vos narra esta epopeia.

O percurso até fazenda de Ormindo não era muito longo, mas o único meio de acesso era o marítimo. Precavidos, providenciamos o abastecimento da “Kombi” e a provisão de víveres: um litro de cachaça, alguns sanduíches de filé e uma caixa de cervejas em latas. De cara, Madalena, a cozinheira do “Bem-me-Quer”, se negou a preparar os sanduíches, mas acatou os conselhos do proprietário.

Embarcados, buscamos a melhor rota e a viagem tomou rumo em mar de almirante. Nossa expectativa em relação ao fechamento do negócio era positiva, como realmente aconteceu. Enquanto Eduardinho negociava, bebemos um litro de Coqueiro, da “zuleiga ou zuleica” (azulada). Era só retornar à cidade e continuar a comemoração. Afinal, nossa cachaça de qualidade estava garantida.

Motor ligado, apontamos a proa da “Kombi” em direção ao cais de Paraty e continuamos as comemorações. Yes, we have Coqueiro! E não é que aí surge o Sobrenatural de Almeida, como queria Nelson Rodrigues, com reais intenções de colocar água em nossa cachaça. É que o motor da velha “Kombi” cansada de guerra começou a falhar.

Após uma refinada análise da tripulação, eis que é conhecido o diagnóstico: junta de tampão queimada. E aí iniciamos uma verdadeira operação de guerra para aportamos no cais sãos e salvos. Bastava ligar o motor e fazer o barco se deslocar por cerca de 10 minutos, desligando-o em seguida para evitar superaquecimento. E calmamente continuamos a viagem.

Em terra, nossos familiares nos esperavam impacientes. E a notícia (hoje fake news) circulava com celeridade para além da beirada do cais. Na língua de Madalena, castigo divino aos hereges que comeram carne na Sexta-Feira da Paixão. Para muitos, estaríamos acomodados no fundo do mar, enquanto outros tantos não perdiam a esperança.

Por volta das 21 horas (cerca de três de atraso) os teimosos que permaneciam no cais vislumbraram uma tênue luz se movendo vagarosamente no horizonte. “Com certeza são eles”, desabafavam nossos familiares, agradecendo a Deus. E éramos nós, contentes e satisfeitos pelo dever cumprido. Não tomaríamos chá com torradas enquanto existisse a Coqueiro em Paraty. A emoção contagiou.

Como esquecer a montagem do engenho d’água, do alambique, na fazenda São João, região do Cabral, com a supervisão do alquimista Antônio Mello, que continuou a repassar todo o conhecimento ao primogênito Eduardinho. Foi pule de 10, como se diz na gíria, e a Coqueiro ganhou Paraty e os apreciadores da boa cachaça no Brasil e no mundo.

Como testemunha ocular do fato, testei, aprovei e até hoje degusto a Coqueiro.

Walmir Rosário é  radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieirasdisponível na Amazon.

Tempo de leitura: 4 minutos

Âncora ao mar, barco amarrado na ponte, seguimos desfazendo a curiosidade alheia e a bronca das mulheres. E fizemos o primeiro pit stop etílico no “Bem-me-quer”, ponto de origem de toda a fofoca sobre nossas quase mortes no mar da Baía de Paraty.

 

Walmir Rosário

O ano era 1977 – salvo melhor juízo – período em que retornei de Salvador para Paraty (Rio de Janeiro). À época, com a BR-101, a cidade passava por uma transformação, porém ainda mantinha seu espírito bucólico, em que prevalecia a amizade, apesar da recém-chegada onda consumista. A chegada do progresso era fato e todos queriam se beneficiar dele e de seus efeitos, mas de forma honesta, no pensamento de alguns.

Entre as atividades em ascensão a produção de cachaça era a mais promissora delas, notadamente para quem conhecia do ofício, como Eduardo Mello, o Eduardinho, fiel seguidor dos ensinamentos do seu pai, Antônio Melo, produtor – por anos a fio – da cachaça “Quero Essa”. Com a venda da Fazenda Boa Vista, os novos proprietários – industriais paulistas, creio eu – fecharam o alambique, deixando órfãos uma legião de cachacistas apreciadores do bom e precioso néctar da cana.

E nada tirava da cabeça de Eduardinho continuar a desempenhar o mister aprendido por anos e anos, plantando, colhendo, moendo cana e destilando o seu caldo até chegar ao ponto ideal da excelente cachaça. Não é de hoje que a cachaça de Paraty era cantada verso e prosa Brasil afora, e a semelhança não é mera coincidência, Paraty cidade, paraty cachaça, da boa, como convém aos apreciadores mais entendidos.

Até que chegou a oportunidade de ouro para o filho de Antônio Mello. Após várias tentativas, eis que um dos bons produtores de cachaça, o Ormindo, que fabricava a Coqueiro, pretendia se aposentar. Por outro lado, Eduardinho, que se aposentara precocemente e temporariamente, queria voltar a trabalhar, alambicar cachaça, cachaça do mesmo padrão de qualidade da “Quero Essa”, ou da “Vamos Nessa”, feita pelos seus avós. Era o caldo de qualidade, no fogo adequado.

E para fechar o negócio, marcamos a viagem para a Sexta-feira da Paixão como o “Dia D”. Tudo de forma bem planejada numa das muitas noitadas dançantes no Paratyense Atlético Clube. A contragosto, mas com responsabilidade, cerca de meia-noite saímos da boemia com o compromisso de estarmos de prontidão às 6 da manhã no cais e zarpar para o encontro com o Ormindo, na Fazenda Engenho D’água.

No horário aprazado, lá estávamos nós – eu, Eduardinho, seus irmãos Neguinho (Antônio Carlos) e Luiz (Piranha), além de Jorginho, este amigo e dono do barco que nos levaria ao então alambique, cujo único meio de comunicação era o marítimo. Apesar de cedo, já encontramos aberto o bar “Bem-me-quer”, do Edmir, e encomendamos nossas provisões (víveres) para a viagem. Do pedido constaram 24 latas de cerveja Skol em latas, carteiras de cigarros (ainda tínhamos esse péssimo vício) e 10 sanduíches de filé.

A manipulação dos sanduíches foi prontamente rechaçada pela cozinheira Madalena, que se recusou a cometer tal heresia:

– Comer carne na Sexta-feira Santa é um sacrilégio e Deus vai castigar quem fizer e quem comer – se desesperou Madalena.

Após várias intervenções de Edmir, finalmente, muito a contragosto, Madalena preparou os (mal)ditos sanduíches e rumamos para embarque na Kombi (assim era chamado o barco de Jorginho, pela sua aparência com o veículo fabricado pela Volkswagen). Após umas três cervejas e dois sanduíches de filé, finalmente chegamos à fazenda de Ormindo.

Negócio fechado, comemoramos com mais um litro de Coqueiro e alguns mergulhos no mar. Ao pôr do sol resolvemos rumar de volta para Paraty, fazendo planos para a mudança do alambique e a nova produção. Ávidos para chegar à cidade com as boas notícias, demos mais um mergulho no mar, bebemos mais uma Coqueiro “zuleika” (com folhas de tangerina) e subimos no barco.

Tudo era festa, até notarmos os primeiros sinais de problema no motor da “Kombi flutuante”, que começou a perder força. Diagnóstico feito na hora, era a junta do cabeçote que tinha queimado. Alegres e satisfeitos com a aquisição do alambique, não nos afobamos e a cada cinco ou dez minutos desligávamos o motor até que esfriasse, para navegarmos mais um bom pedaço.

Se os problemas do barco não nos afligia, situação diferente se passava na cidade, após constatado o nosso sumiço. No bar, Madalena não se cansava de pregar os castigos de Deus com os hereges que se atreveram a comer carne na Sexta-feira da Paixão, desafiando os desígnios de Deus. Aos poucos, nossas famílias foram para o cais, apavoradas com a demora do regresso, a notícia “corria costa” e as versões superavam o fato.

De boca em boca, Deus tinha feito justiça e castigado os hereges, que perderam-se no mar, naufragando com o peso dos pecados. No mar, cumpríamos nosso encargo de navegar e parar para esfriar o motor. Enquanto isso, o povo não arredava o pé do cais, para o desespero de nossas famílias.

Persistentes, nós sobreviventes de um quase acidente marítimo, fomos nos aproximando da cidade. Para nossa alegria, já avistávamos as luzes. Ligávamos o motor…logo em seguida desligávamos, e assim nos aproximávamos do cais.

E esse calvário continuou até as 21 horas, quando aportamos, para o alívio e felicidade geral. Âncora ao mar, barco amarrado na ponte, seguimos desfazendo a curiosidade alheia e a bronca das mulheres. E fizemos o primeiro pit stop etílico no “Bem-me-quer”, ponto de origem de toda a fofoca sobre nossas quase mortes no mar da Baía de Paraty.

E, juntos, pedimos ao Edmir uma Coqueiro e à Madalena mais um sanduíche de filé para comemorar a nossa ressurreição!

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

Tempo de leitura: < 1 minuto

O comércio de Itabuna não abre amanhã, 29, Sexta-Feira da Paixão, seguindo o que foi acordado nas Convenções Coletivas de Trabalho. A determinação vale, também, para os supermercados, segundo a diretoria do Sindicato dos Comerciários de Itabuna.
O Shopping Jequitibá também fecha nesta sexta, reabrindo no sábado. O centro de compras terá horário especial no Domingo de Páscoa.