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Daniel Thame

Na procissão que se dispersa, cada qual de volta à sua vida e à sua dor pessoal, é possível ouvir alguém pensar: Mas que final trágico para uma história de amor.

No ar pesado do duplo velório, naquele momento de separação e de adeus aos corpos já sem vida, podiam-se ouvir os murmúrios de tristeza, ver as lágrimas brotando nos olhos vermelhos de tanto chorar; os abraços não eram abraços de alegria, mas de conforto e solidariedade; a dor abraçando a dor; e, unidos e ao mesmo tempo distantes, aqueles dois corpos mergulhados na imensidão do desconhecido; uma nova vida para os que creem e o nada para os que acham que a morte é o fim. Havia, naquela eletricidade que permeia os momentos de extrema dor, o choque da indignação. Por que?, todos se perguntavam; entretanto sem nada dizerem, porque já o diziam os centenas de porquês que se cruzavam em busca de uma resposta que não vinha, e se o viesse de nada adiantaria, respostas não tem o dom da ressurreição. Palavras, palavras, quais teriam sido as derradeiras palavras daqueles que já não podiam falar, nem se mover, mortos que estavam? Eu ainda te amo, não posso viver sem você, ele teria dito repetidas vezes; Mas eu não te amo mais, já tenho outra pessoa, deixe-me viver a minha vida, vá viver e sua e vivamos em paz, teria respondido ela; o amor, sempre o amor, primeiro como doce brisa que acaricia o coração, depois como faca que perpassa o peito. Eu quero viver a minha vida, seremos bons amigos, temos um filho para cuidar, ela provavelmente disse; Minha vida sem você não é vida, não consigo imaginá-la com outro que não seja eu, vamos criar o nosso filho juntos; ele possivelmente retrucou; essa paixão que cega os olhos e que começa a matar a razão. Diga sim, clama ele, Não, sentencia ela; o não e o sim se trombam no ar de uma dor que só faz aumentar à medida em que a tarde cai e é preciso dar o último antes que aqueles dois corpos sem vida sejam levados à morada da morte, cimentados na solidão do descanso eterno; mas ainda se buscam as derradeiras das derradeiras palavras, em meio ao nada de um ponto ermo da periferia da cidade que se enluta com a tragédia; Fica comigo ou não ficará com ninguém, o tom dele agora era de ameaça; Não faça isso, pense no nosso filho, você vai encontrar alguém que te fará feliz, o tom dela agora era quase uma súplica diante do que intuía que iria acontecer e aconteceu. A dor do primeiro disparo e depois a escuridão; sem tempo de ouvir e sentir o segundo disparo, menos ainda de vê-lo se auto-imolar; enterrados os corpos, o sol começa a se por na tarde sombria; na procissão que se dispersa, cada qual de volta à sua vida e à sua dor pessoal, é possível ouvir alguém pensar Mas que final trágico para uma história de amor; no quarto de um hospital próximo ao cemitério, uma mulher abatida pelo câncer, em estado terminal no frescor de seus 45 anos, parece responder ao pensamento anônimo, Morte e amor não rimam nem fazem sentido; ela que às portas da morte ainda se emociona com histórias de vida e de amor.

(Esse texto, inspirado pela genialidade de José Saramago, é dedicado a todos aqueles que acreditam no amor como fonte da vida e não da morte.)

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11 respostas

  1. “Não perguntes por quem os sinos dobram, dobram por ti”(Ernest hemingway). A dor dos desenlances passa a ser a dor do coletivo que fica sempre com a interrogação do POR QUE ? e só o milagre da vida nos conforta. Parabéns pelo texto Daniel Thame.

  2. Texto bem sensível.
    Parabéns Thame!
    Eu li a obra de Saramago em 1999, quando cursava história (tenho saudades da biblioteca, afinal ainda não posso comprar todos os livros que desejo ler) na Uesc. Lembro-me de uma profª que achava Ensaio sobre a cegueira “chato”, assim como a obra de Milan Kundera – que também gosto muito.

  3. Semelhanças e dessemelhanças, a emoção expressa neste texto, lembra a beleza da tragédia grega. Belo, belo…

    Felizmente poucas histórias de amor tem esse desfecho. Apesar de acreditarmos, isso não é história de amor, pois “o amor tudo sofre, tudo suporta…”

  4. AINDA NÃO ENTENDI A RELAÇÃO SARAMAGO E VIDA!!!
    UM CARA QUE SIMPATIZAVA COM DITADORES E DEFENDIA IDEIAS QUE LEVARAM MILHÕES A MORTE. PENSAMENTO TIPICO DE UM CARA QUE NEGA A DEUS E AFIRMA TOTALITARISMOS!!!
    ALEM DISSO, LER SARAMAGO É CANSATIVO E SEU MODO DE ESCREVER O TORNA AINDA MAIS CHATO!!!
    QUANTO AO TEME, PARABES!!!
    ADORO SUAS COLUNAS E SUAS OBSERVAÇÕES SÃO SEMPRE PERTINENTES!!!!

  5. PARABENS MESMO DANIEL!!!
    VC TEM UMA SENSIBILIDADE INCRIVÉL!!!
    E EU CONCORDO COM VOCÊ PRINCIPALMENTE EM RELAÇÃO A VIDA.
    EM TODOS OS SENTIDOS!!!!
    TODOS DEVEM SER LIVRES PRA OPINAR E AMAR, VIVER, APRENDER E PRINCIPALMENTE ESCOLHER!!!
    PENA QUE A REFERENCIA A SARAMAGO NÃO SE ENQUADRE A LIBERDADE E QUEM CONHECE A HISTORIA DO ESCRITOR SABE DO ESTOU FALANDO!!!
    NOVAMENTE, PARABENS DANIEL!!!!

  6. Thame,

    hoje gostei da tua literatura. Parabéns!

    Eu trabalho com educação inclusiva. D.V não é simples de se trabalhar, Saramago salientou isso.

    Saramago fez com que eu, hoje, fosse melhor.

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