MUNDO VISTO POR SAPO NO FUNDO DO POÇO
Circula na internet um texto de ataque grosseiro aos que adotam a forma presidenta. É um monte de sandices que a direita ora desempregada chama de “aula de português”, misturando presidenta, adolescenta, pacienta e eleganta no mesmo pacote grotesco, etiquetado como “linguagem do PT e seus sequazes”. Trata-se de estultice travestida de erudição, somada a falta do que fazer e preconceito – nascido nas mesmas fontes que se opunham a Lula por ele ser “analfabeto” e beber cachaça. O ex-presidente chamou isso de “pequenez da oposição”. Disse-o bem, pois parte do seu enorme prestígio pode ser creditada justamente a opositores que têm do mundo essa visão de sapo no fundo do poço.O TERMO “PRESIDENTA” É ANTERIOR AO PT

GROTESCA “AULA” DE PRECONCEITO E MÁ-FÉ
A prometida “aula de português” se frustra, sufocada por despreparo, preconceito e má-fé. A analogia de presidente (gênero masculino) com adolescente, paciente e elegante (comuns de dois) é fraudulenta – e ninguém precisa ser linguista para saber dessas coisas primárias. Eu sempre advoguei presidenta, mas tenho como aceitáveis as duas formas (presidente, consagrada pelo uso, e presidenta, por ser gramaticalmente correta). Mas há controvérsias. Para Marcos de Castro (A Imprensa e o Caos na Ortografia) só existe uma forma: “mulher sempre será a presidenta”, diz ele, “não só como reivindicação feminista, mas também por questão linguística”.AFINAL, QUAL É A PIOR FALA BRASILEIRA?
Perguntaram ao professor Pasquale Cipro Neto (famoso comentador de questões de língua portuguesa na mídia) onde se falava o pior português do Brasil e ele insinuou que era São Paulo, exemplificando com “dois pastel” e “acabou as ficha” (esqueceu “um chopes, mano”). Para ele, influência italiana. Mas não há unanimidade quanto a isso. Linguistas outros alertam que suprimir o “s” do plural não é “privilégio” de paulistas, mas uma prática comum nas camadas ditas incultas, do Oiapoque ao Chuí (ou ao Caburaí, se preferem). Nas nossas feiras, por exemplo, ouve-se que a dúzia de banana-maçã custa “dois real”.SÃO PAULO EXPORTA PARA TODO BRASIL

DON FERNANDO PEREIRA LEITE, O GROSSO
Em outros tempos, dizia-se que o Maranhão, berço de Gonçalves Dias (foto), Raimundo Correia, Ferreira Gullar, Alcione e Humberto de Campos, falava o melhor português do Brasil. São Luís era então cidade “culta”, a Atenas brasileira. Noutro momento, por “contaminação” da cultura francesa, o maranhense estranhava se alguma pessoa se dirigia a outra de forma descortês. Conta o acadêmico José Sarney que lá pelo século XIX governava a província um certo D. Fernando Pereira Leite de Foyos, que destoava dos bons modos vigentes na área, por isso foi vitimado pela impiedade do povo: devido à sua escassa fineza de trato com os maranhnses, ganhou o sugestivo epíteto de Cavalo Velho.VIVEMOS NOS TEMPOS DE CAVALO VELHO
Parece que vivemos aqui tempos daquele Cavalo Velho, como se a Bahia fosse um imenso curral (ou um presépio de bestas, como suspeitava Gregório de Mattos). O tempo passou, os bons modos e a linguagem foram jogados no mesmo saco de lixo da “globalização”, e hoje expressar-se deselegantemente é uma lei a ser seguida. Ser grosso é ser pop, e o que era regra virou exceção. Quanto ao sotaque, dizem os linguistas, há de se preservá-lo, pois é uma forma de ligar o indivíduo e sua aldeia, responder à “pasteurização” da linguagem e valorizar os falares locais. Então, defendamos o direito de Sabrina (foto) e Neto, apesar da estranheza a nossos ouvidos nordestinos.A PARAÍBA, APESAR DA FAMA, É FEMININA

OS ESTRANHOS POENTES DE TELMO PADILHA

ANTÔNIO MARIA TINHA SAUDADE DO RECIFE

(O.C)




















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bobeira é perder tempo com bobagens.
já fui preconceituoso, já fui anti-preconceituosos.
Hoje rio de tudo para não chorar; as vezes.
ps.: continuo gostando, por demais, dessa coluna.
Quanto a o topônimo “Recife” pedir o artigo masculino na construção de frases. Há uma regra (talvez não escrita ou não oficial, mas regra existente) que manda pôr o artigo em topônimos designativos de acidentes geográficos. Assim é “o” Rio (de Janeiro, Grande do Sul / do Norte), “o” Cabo, “a” Bahia, e outros. E assim é “o” Recife. E assim deveria ser em outros topônimos em que o artigo anterior não vingou, como “as” Alagoas (esse ainda é usado algumas vezes), “o” Maceió, “os” Ilhéus.
Saudade Ousarme!
Sou sua fã mais ardorosa, sinto muita falta da curiosidade domingueira de ler Universo Paralelo. Está valendo meu humilde pedido de que esta bela coluna seja lançada em livro com todos
os pormenores eletrônicos.
Ah, presidenta ou presidente, sou fã da Dilma Roussef, mulher-destaque pela coragem de comandar com maestria – apesar das oposições -, um grupo de homens machistas e viciados em poder naquele Planalto de meu Deus. Ela não é qualquer presidente, é PresidentA, mesmo!