Wenceslau Júnior, Joaquim Bastos e Davi Pedreira relembram história da estadualização da Uesc || Fotos PIMENTA
Tempo de leitura: 3 minutos

Thiago Dias

O consenso deu o tom da sessão especial que marcou os 30 anos da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), realizada na quinta-feira (2) pela Câmara de Ilhéus, a pedido do vereador Cláudio Magalhães (PCdoB). Uma das poucas divergências foi sobre o papel do ex-ministro e ex-governador Antônio Carlos Magalhães (1927-2007) na estadualização da Federação das Escolas Superiores de Ilhéus e Itabuna (Fespi).

Reitor da Uesc de 2004 a 2011, o professor Antônio Joaquim Bastos teve papel ativo em defesa da estadualização. Em 1979, assumiu a coordenação do Escritório de Projetos de Pesquisa e Extensão da Fespi. Antes de deixar o cargo, num contexto de dificuldades financeiras da instituição, enviou ao governador ACM o primeiro requerimento indicando a possibilidade de transferência da entidade para a Administração Pública. “Anotei aqui: em 30 de agosto de 82, eu fiz encaminhamento daquele ofício ao governador Antônio Carlos Magalhães”, informou Joaquim. A informação foi corroborada pela ex-reitora Renée Albagli, que também participou da solenidade.

Muitos dos presentes no ato de quinta-feira são ou foram filiados ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Boa parte foi bolsista da Fespi. Conforme Joaquim, antes do corte definitivo das bolsas mantidas pela Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira, setores da Ceplac já eram contra o patrocínio dos bolsistas, a quem chamou de “Pupilos de Haroldo Lima”, referência ao ex-deputado federal do PCdoB. Para o ex-reitor, os estudantes ligados ao partido tiveram papel fundamental na estadualização.

Os ex-governadores e ex-ministros Waldir Pires e Antônio Carlos Magalhães

A constatação de Joaquim sobre os comunistas arrancou aplausos da audiência, mas a declaração seguinte não seria acolhida com o mesmo entusiasmo. Ele atribuiu a ACM posicionamento receptivo à estatização da Fespi. “O que aconteceu em 87? Aconteceu um movimento pesado, um movimento grevista. Nós ficamos seis meses sem aula e sem salário. E Antônio Carlos Magalhães se mostrou altamente receptivo para pensar em estadualizar, porque o primeiro pedido foi a federalização”, declarou.

– Waldir Pires, Waldir Pires – gritou um homem sentado a poucos metros do púlpito da Câmara de Ilhéus, interrompendo o orador, como se tentasse lembrar que Waldir Pires (1926-2018) governava a Bahia em 1987. Em resposta, o ex-reitor disse que se referia mesmo a ACM, então ministro das Comunicações do governo Sarney, já que a federalização surgira como alternativa para a Fespi antes da ideia de passá-la à responsabilidade do governo estadual.

“Pupilos de Haroldo Lima”, o professor de Direito da Uesc e ex-vice-prefeito de Itabuna Wenceslau Júnior (PCdoB) e o advogado Davi Pedreira abriram divergência sobre a postura de ACM naquele processo político.

O ex-deputado federal Haroldo Lima (1939-2021)

“Antônio Carlos Magalhães, após ser eleito governador, em janeiro de 1991, declarou, em entrevista nas páginas amarelas da Veja, que não iria criar mais uma universidade, pois ‘a responsabilidade do estado da Bahia era com o ensino de primeiro e segundo graus’ – palavras dele – e que o terceiro grau era responsabilidade da União. Porém, o movimento ganhou grande proporção e amplitude, o que o pressionou a institucionalizar o que já era uma realidade, o financiamento estadual da Fespi”, disse Wenceslau.

Já Davi Pedreira lembrou que mesmo a transferência da manutenção da Fespi para o estado, na gestão de Waldir Pires, dependeu de grande pressão popular, com viagens frequentes de comitivas do sul da Bahia a Salvador. Segundo o advogado, ex-presidente do Diretório Central dos Estudantes da Uesc (DEC), a proposta de estatização era contra a hegemonia das ideias neoliberais da época. “A gente vai de encontro ao processo histórico do capitalismo, Waldir Pires assume a conta, ACM ganha a eleição, ACM não quer assumir e a luta continua”.

Apesar de o estado ter assumido o custeio e a folha salarial da Fespi em 1988, no governo de Waldir, a estadualização da Uesc foi formalizada em 6 de dezembro de 1991, data da Lei Estadual 6.344/91, sancionada pelo então governador Antônio Carlos Magalhães.

Esta é a segunda da série de três reportagens do PIMENTA sobre os 30 anos da Uesc. Clique aqui para ler a primeira.

Deixe aqui seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.