A escritora de origem ucraniana Clarice Lispector (1920-1977)
Tempo de leitura: 3 minutos

 

Afinal, em uma sociedade “pseudoglobalizada”, o que mais sobram são as mazelas para uma porção de pessoas a enfrentá-las. Vão ser verificados o aumento do custo dos alimentos e do combustível e a escassez de diversas mercadorias.

 

Efson Lima – efsonlima@gmail.com

A guerra travada entre Rússia e Ucrânia muito chama a atenção dos brasileiros. O conflito rapidamente se incorporou às conversas da população. Deixou de ser tema exclusivo da diplomacia e adentrou aos milhares de lares. Para além de se tratar do maior conflito armado após a Segunda Guerra Mundial na Europa, o Brasil recebeu milhares de ucranianos nos séculos XIX e XX, permitindo uma ligação forte entre brasileiros e ucranianos. Sabemos que a maior parte desses imigrantes foi para o sul do país, mas registramos que uma das representações ucranianas advém da literatura, cuja incursão da família se iniciou no Nordeste, no Recife: Clarice Lispector.

Quando fui ao teatro pela primeira vez, em Ilhéus, pude assistir ao espetáculo “Hora da Estrela”, texto adaptado da obra homônima da escritora Clarice Lispector por uma companhia de teatro de Salvador. A minha ida ao teatro foi mediada pela estimada professora Tereza Damásio, hoje docente da Uneb, em Ipiaú. Tocado pela narrativa da obra, fui procurá-la para fazer a leitura. O enredo do livro conta a história de Macabéa, jovem nordestina de Alagoas, que, aos 19 anos, vivia no Rio de Janeiro. Órfã, mal se lembrava dos pais, que morreram quando ela ainda era criança. Para além de nós brasileiros que ganhamos com a presença de Clarice Lispector, o mundo foi impactado pela literatura da judia ucraniana.

A professora Neuzamaria Kerner, membro da Academia de Letras de Ilhéus, provoca nossa reflexão sobre a “Terra de Clarice”, leia-se Ucrânia, por meio de sua poesia:

Insanidades/beligerâncias/fingidas inteligências/fincadas na lei do poder/ Os reinos reencarnados/retornam com reis revoltados/brincando de ver morrer/ Ó, Clarice, onde está você?/ Como está a sua Ucrânia/sofrida pela insânia/de um desejo de ter?/ Os mandantes mal domados/que detêm sujos segredos/ainda não sabem que terra/é só um punhado de terra/que escorre por entre os dedos./ Ó, Clarice, sua gente Macabéa,/neste mundo onde se erra/dá um outro valor à terra/que poucos podem saber/.

A poética denuncia o conflito e exprime a violência adotada pela Rússia para o controle do território ucraniano.

Clarice Lispector foi uma exímia cronista. Certamente, se viva estivesse, estaria sofrendo com suas angústias e sua eterna introspecção. Seguramente, buscaria narrar que, enquanto as bombas despencam sobre a Ucrânia, cujo país luta para afirmar sua identidade, em razão de sempre ter sofrido invasões e anexações, os brasileiros vão tomando partido. Não obstante, sinalizaria que fica aparentemente fácil se posicionar quando estamos a milhares de quilômetros de distância e esses não serão os corpos que servirão de escudos. Muitos menos não conhecerão a orfandade provocada por guerras inúteis e desprovidas de bem-estar à coletividade.

Por outro lado, ela saberia reconhecer que se trata de um conflito complexo. A situação da geopolítica levou o planeta ao alerta jamais visto após a Guerra Fria. De um lado, a Ucrânia com seu pleno direito de autodeterminação, em tese, de ingressar na OTAN e na União Europeia; por outro lado, a Rússia, cercada por um arco de forças militares, as quais por diversas vezes já foram usadas para atender interesses do Ocidente. Antes que nos esqueçamos, a nossa geração está a conhecer novas duras sanções econômicas impostas a uma nação. No início, a desconfiança da efetividade das medidas propostas, na sequência, uma Europa unida pela primeira vez e um Ocidente à espera do próximo capítulo.

A histórica neutralidade da Suíça foi quebrada e a nossa geração conheceu a ameaça nuclear. O último domingo foi histórico: a ONU precisou adotar uma estratégia para convocar sua Assembleia Geral para deliberar sobre o conflito. Os nossos olhos ficaram arregalados e vão continuar nos próximos dias. Afinal, em uma sociedade “pseudoglobalizada”, o que mais sobram são as mazelas para uma porção de pessoas a enfrentá-las. Vão ser verificados o aumento do custo dos alimentos e do combustível e a escassez de diversas mercadorias.

Efson Lima é doutor em Direito pela UFBA, advogado, professor de Direito Internacional e membro da Academia Grapiúna de Letras e da Academia de Letras de Ilhéus.

6 respostas

  1. Maravilhoso articulista Efson Lima. Ganhamos todos com a presença brilhante dele na imprensa. Leio com carinho e afeto os textos de autoria do meu nobre amigo e poeta Grapiúna da nova safra.

  2. Efson, você descreve com propriedade trazendo uma realidade sofrida. A ganância e o poder no desrespeito a vida humana.
    Ainda contaremos muitos corpos nesta guerra insana e bestial. Muita oferta de armamento para aumentar o rio de sangue.

  3. Prezado professor Alderacy,

    Grato pelas gentis palavras. Obrigado por ser um leitor de meus textos. É motivo de muito orgulho para mim. É prazeroso saber quando o texo estabelece algum diálogo com o leitor e se torna desafiante e significante ainda mais quando esse leitor foi professor do articulista. Interessante que a relação professor – aluno foi estabelecida há quase duas décadas. Saudações!

  4. O poema da escritora Neuza Maria Kerner, descreve com clareza a ganância do orgulhoso presidente Russo e seus aliados. Desrespeito e falta de humanidade.

  5. Efson, que bom ler este texto! Realmente, Brasil e Ucrânia estabeleceram fortes laços mediados sobretudo pelos imigrantes ucranianos em nossa terra e, por causa disso, pela existência literária de Clarice. Ao mesmo tempo, é muito digno de destaque a existência literária de sua irmã mais velha, Elisa Lispector, que publicou 11 títulos, dos quais um dá relevo testemunhal e autobiográfico tanto do sofrido trânsito dos Lispector para o Brasil e a origem judaico-ucraniana da família, quanto da crítica histórica e política das perseguições do império russo contra os ucranianos. Caso não conheça, o nome da obra é “No exílio”, publicada, pela primeira vez, em 1948, ano da criação do Estado de Israel, com edições posteriores de 1971 e de 2005.

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