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Quem pode se tornar o herdeiro do espólio eleitoral do ex-prefeito Fernando Gomes, falecido em 24 de julho? A coluna Arriba Saia, do PIMENTA, conversou sobre o assunto, nas duas últimas semanas, com o cientista político Cássio Varjão, o jornalista e advogado Walmir Rosário e o comentarista político Marco Wense.

Membro da Sociedade Brasileira de Ciência Política, Cássio Varjão disse que os votos de Fernando tendem a se dispersar. No entanto, também considera que o estilo de Azevedo pode atrair parte desse eleitorado.

– Azevedo vai para os bairros e abraça o povo. Tem esse traquejo que Fernando tinha. Sob esse aspecto, leva vantagem, mas é precoce dizer. Ele pode ter uma pequena vantagem de conseguir mais votos, mas ninguém vai ficar com 100% ou 80% dos votos. Vai ser dividido – aponta.

Para Marco Wense, o maior quinhão será de Azevedo. “Ele tem o estilo mais parecido com o de Fernando, é do mesmo campo político, do populismo, e não é afeito a um ambiente político que requer um discurso mais apurado. Ele gosta desse contato direto com o eleitor, como Fernando também gostava. Considero Azevedo uma cria política de Fernando Gomes. É um fernandista histórico”.

DIVERGÊNCIA

Walmir, Cássio e Wense opinam sobre destino do eleitorado fernandista

Walmir Rosário não vê o Capitão em condições privilegiadas para receber a herança política de Fernando. “Como prefeito, Azevedo procurou se distanciar de Fernando Gomes e, nessas últimas campanhas, tem mostrado que não sabe organizar o pessoal dele. Não tá sabendo ciscar pra dentro. É bem diferente de Fernando”.

DISPERSÃO

Os antigos eleitores do ex-prefeito e ex-deputado federal vão se dispersar muito, segundo Walmir.

– O espólio de Fernando Gomes não vai maciçamente pra ninguém. Isso é fato. Não se fabrica vários Fernandos. É igual a Antônio Carlos Magalhães. Quando Antônio Carlos Magalhães morreu, todo o seu espólio foi dividido e grande parte foi para a esquerda – parece até brincadeira. Foi para o centro e para a esquerda; para a direita ficou pouco. No caso de Fernando Gomes, vai ser a mesma coisa.

MARIA ALICE

O papel de Maria Alice na Itabuna pós-Fernando

Cássio Varjão enfatizou a importância das pessoas que cercam as lideranças políticas. Segundo ele, no grupo liderado por Fernando Gomes durante quatro décadas, Maria Alice destacou-se no papel de articuladora política e continuará a exercê-lo, ainda nos bastidores, sem a herança direta dos votos.

MARIA ALICE 2

Walmir Rosário faz a mesma leitura.

– Maria Alice não conseguiria herdar esse espólio como candidata, mas quem tiver Maria Alice do lado vai conseguir chegar a um monte de gente, porque ela tem liderança. Muita gente vai para o lado que ela for. A figura a ser conquistada pelos políticos será Maria Alice, porque ela pode trazer muitos seguidores de Fernando Gomes.

O PESO DA MÁQUINA

Sede da Prefeitura de Itabuna: ímã de apoio

Perguntamos a Walmir Rosário se Augusto Castro poderia reivindicar, com o eventual apoio de Maria Alice, quinhão da herança política de Fernando.

– Se ele for inteligente, sim. Ele está no poder, tem ferramentas que os outros não têm. O prefeito é o único que pode sair atrás desse povo e conseguir. Fora isso, vai ser um espólio muito dividido – respondeu o mestre.

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TABU…

A mensagem (e a punição) das urnas

O tabu da reeleição a prefeito de Itabuna deve ser interpretado, segundo Cássio Varjão, a partir de duas ressalvas. A primeira é a de que, em 2008, Fernando Gomes não tentou a reeleição, pois teria que transpor os obstáculos legais que viria a superar em 2016. E, naquele ano, lembra o cientista político, o então prefeito Claudevane Leite também não tentou novo mandato. Portanto, em dois contextos importantes da política grapiúna, o tabu não foi colocado à prova.

…E PUNIÇÃO

A outra chave interpretativa, continua o pesquisador, é a constatação de que o eleitor itabunense, tomado como sujeito coletivo, apreendeu a punir seus representantes políticos na intimidade da urna.

ENCARGOS DA HERANÇA

Cássio Varjão acrescenta que o espólio eleitoral em debate não tem histórico invicto. “Fernando teve duas derrotas como prefeito de Itabuna. Perdeu pra Geraldo [Simões, do PT, no ano 2000] e perdeu pra Augusto agora, em 2020. Mas é indiscutível que foi o político de maior destaque da região. Se Fernando tivesse morrido no exercício do cargo, [o destino da herança política] teria um apelo maior”, acrescentou.

RECEITA (DE CAPITAL) ANTITABU  

O prefeito Augusto Castro (PSD) tem mais de dois anos de governo pela frente, lembra Cássio, “pode vir forte para a reeleição e quebrar esse tabu”.

Perguntamos ao cientista político qual seria o impacto do projeto de reurbanização de Itabuna numa eventual tentativa de reeleição de Augusto, que negocia a tomada de empréstimo internacional de até US$ 30 milhões para viabilizar as obras.

– Itabuna precisa de infraestrutura. São vários os problemas das cidades hoje; moradia inadequada, invasão que vira favela, etc. Com dinheiro na mão, todo mundo resolve a vida – respondeu Cássio, ressalvando que falava em tese sobre o projeto, pois não o conhece.

COM QUEM ALICE ESTÁ?

Maria Alice, a mais fiel escudeira do fernandismo em Itabuna, está mais próxima de Augusto Castro. Até conversa com Capitão Azevedo (PDT), mas o chamego é com o hoje prefeito – e desde o ano passado.

No entorno de Augusto, há quem defenda participação mais ativa, no governo municipal, da principal assessora de Fernando em 40 anos de política. Ela pode atuar em pastas como Governo. Caberia apelas a ela definir quando e onde jogar. Antes, há que se respeitar o luto.

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