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A fábrica de agressões e fake news contra Lula e seus aliados era esperada, pois faz parte da técnica fascista de comunicação.

 

Wenceslau Júnior

Não é nenhuma novidade que a eleição para presidente este ano seria polarizada entre Lula e Bolsonaro. A principal razão foi que as forças políticas que se apresentaram como alternativa à polarização não conseguiram viabilizar nenhum nome, embora tivessem tentado vários como Doria, Eduardo Leite, Ciro Gomes, Sergio Moro e Simone Tebet, entre outros menos expressivos.

Nesta pequena análise consideraremos dois aspectos: os dados estatísticos (números que emergiram das urnas, pesquisas de opinião) e os aspectos políticos mais relevantes, que ocorreram após o primeiro turno. Dos mais de 156 milhões de brasileiros aptos a votar no primeiro turno, 123.682.372 foram às urnas. No total, foram 118.229.719 votos válidos (95,59%), 3.487.874 de votos nulos (2,82%) e 1.964.779 votos em branco (1,59%).

O candidato Lula foi líder absoluto na Região Nordeste, obtendo percentuais expressivos dos votos válidos: Piauí – 74,08%, Bahia – 69,49%, Maranhão – 68,14%, Ceará – 65,80%, Pernambuco – 65,16%, Paraíba – 64,20%, Sergipe – 63,82%, Rio Grande do Norte – 62,98% e Alagoas – 56,3%. Para se ter uma ideia da importância da força de Lula no Nordeste, especialmente na Bahia, a diferença entre os dois nos votos nacionais foi de 6.187.159 votos a favor de Lula. Somente na Bahia, a vantagem foi de 3.825.482 votos.

Outro dado que merece atenção é que nos três únicos estados (São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais) com eleitorado maior que a Bahia, Bolsonaro vence no Rio de Janeiro e São Paulo e perde para Lula em Minas Gerais. Sendo que a vantagem nem se compara aos índices do Nordeste. A comparação percentual dos votos válidos para cada um no primeiro turno foi em São Paulo, 47,7% para Bolsonaro e 40,89% para Lula, no Rio de Janeiro, Bolsonaro conseguiu 51,09% e Lula 40,68, e em Minas Gerais, Lula obteve 48,29% contra 43,6% de Bolsonaro. Lula também alcançou melhores desempenhos nos maiores estados do Norte, perdendo espaço no Centro-Oeste, que possui baixa densidade eleitoral, e nos estados do Sul.

Outro dado importante é que os demais candidatos, além de Lula e Bolsonaro, somaram 9.756.502 votos (Tebet – 4.915.423, Ciro – 3.599.287, Soraia Tronicke – 600.955, Felipe D’Ávila – 559.708 e Kelmon – 81.129). Em uma hipótese absurda de Lula não conseguir a migração de nenhum voto dos 9.756.502 e esses votos fossem todos para Bolsonaro, ele ganharia as eleições com uma diferença de 3.569.343 votos.

Ocorre que os dois mais votados – Tebet e Ciro, que obtiveram juntos 8.514.710 votos, declararam apoio a Lula. Com isso, Bolsonaro precisaria conter o crescimento de Lula no Nordeste, virar o jogo em Minas Gerais e ampliar e muito a vantagem em São Paulo e Rio de Janeiro, além de herdar parte significativa dos votos de Tebet e Ciro. Essa conta não fecha!

Já Lula precisa apenas administrar e consolidar sua vantagem nos estados onde venceu, especialmente no Nordeste e em Minas Gerais, intensificar a campanha no Rio de Janeiro e São Paulo para impedir avanços bolsonaristas e conquistar a maioria dos eleitores que votaram em Tebet e Ciro no primeiro turno. Sem dúvida, uma tarefa factível.

Outro aspecto a ser analisado, além dos números, é o aspecto político. Nesse caso, o Bolsonaro tentou criar uma imagem de que estaria obtendo adesões a sua candidatura. Porém, todos nós sabemos que se trata de “marmita requentada”, pois a quase totalidade que foi às cerimônias de “beija mão” no Palácio do Planalto já estava com ele desde o primeiro turno. A fábrica de agressões e fake news contra Lula e seus aliados era esperada, pois faz parte da técnica fascista de comunicação. Contudo, não existe nenhum fato novo. Nenhuma mentira nova contra Lula. É tudo requentado.

Entretanto, não podemos falar o mesmo do adversário. Algumas derrapadas imperdoáveis foram: a) O ato claro de pedofilia que repercutiu internacionalmente e certamente teve repercussão eleitoral, a ponto dele fazer o que não é comum: pedir desculpas publicamente. b) O episódio relacionado ao preconceito contra o nordestino tem fortalecido ainda mais a candidatura de Lula na região, podendo interferir na votação de São Paulo, estado que possui uma enorme população nordestina. c) O confronto desnecessário com a Igreja Católica demonstrou a intolerância religiosa, o ódio e o preconceito, colocando em movimento forças políticas que não estavam se manifestando de forma mais explícita.

Para encerrar por aqui, o adversário de Lula comprou briga desnecessária com a maioria religiosa brasileira: os católicos. E com o eleitorado mais fiel a Lula: os nordestinos. O que abalou fortemente um dos “pilares” do seu discurso – a família, pois, a exceção dos fanáticos, nenhum pai ou mãe de família, especialmente, os que têm filhas adolescentes irá votar em um sexagenário, que afirmou “pintar um clima” entre ele e garotas de 14 anos de idade.

Por tal razão, concluo que a eleição está praticamente decidida a favor de Lula. O restante fica por conta da militância que sabe muito bem o que fazer até as 17 horas do dia 30 de outubro. Alguns irão me perguntar: Por que não falou das eleições entre Jerônimo e ACM Neto? Respondo que essa já nasceu morta a favor de Jerônimo desde o dia 2 de outubro.

Wenceslau Augusto dos Santos Júnior é advogado, professor de Direito da Uesc, ex-vice-prefeito e ex-vereador de Itabuna.

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