Ponte do Tororó no Rio Cachoeira, em Itabuna || Foto Arquivo Walmir Rosário
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Gostaria de, em cima das pontes atuais e das que serão construídas, poder apreciar o Cachoeira revitalizado na Itabuna altaneira que sempre acostumamos a ver. Espero um dia possa ter essa oportunidade, assim como todos os itabunenses – daqui e de fora – que aprenderam a amar essa terra.

Walmir Rosário || wallaw2008@outlook.com

Confesso que sou um pouco saudosista, mas quem há de resistir àquelas boas lembranças dos tempos de criança e adolescente? Poucos insensíveis, diria eu, recordando a belezas e a funcionalidade do rio Cachoeira dos anos 1950/60. A beleza plástica está quase toda registrada nas telas dos nossos artistas, com suas pedras à mostra, às vezes nem tanto, pois também serviam de “quarador” para as centenas de lavadeiras de ganho, ou de casa, que utilizavam as abundantes águas.

Labutavam, ainda, nas águas do velho Cachoeira pescadores – alguns especializados – de pitus, calambaus e camarões; peixes das mais variadas espécies, em sua maioria nobre, a exemplo de robalos, jundiás, tucunarés; os areeiros, que retiravam a areia para as construções com suas canoas e transportadas nos jegues; tipo de transporte também utilizados para levar água (de gasto e de beber) às residências que não dispunham de água encanada, artigo (melhor, serviço) raro à época.

Com poucos esgotos in natura (tratamento também não existia) despejando no nosso rio, era o local da higiene corporal de muitos moradores, alguns que se exibiam com saltos e braçadas durante a natação num simples banho. As águas límpidas – embora salobra – era um convite, inclusive durante a noite quando alguns se aventuravam a mergulhar e nadar sorrateiramente para furtar os peixes capturados nas grozeiras e outras armadilhas colocadas em frentes às residências.

Os donos sabiam quem eram os larápios, mas nada de chegar às vias de fato, bastava uma simples censura, como geralmente assim fazia Pepê, hoje o advogado Pedro Carlos Nunes de Almeida, que tinha suas armadilhas ali na rua da Jaqueira, hoje avenida Fernando Cordier. Nos tempos atuais, mesmo com os parcos recursos, poucos se aventurariam a entrar nas águas superpoluídas do nosso velho rio, ainda mais com peixes suscetíveis a todos os tipos de doenças.

Sem medo de errar ou ser interpretado como politicamente incorreto, até as inundações do rio Cachoeira eram de encher os olhos e correr o mundo com as notícias da invasão das águas na pujante Itabuna. E olhe que naquela época não existia internet ou redes sociais, ganhava o mundo através dos jornais, telégrafo e dos microfones das rádios Clube, Difusora e Jornal, já que os serviços de alto-falante Tabu (bairro Conceição) e a Voz da Cidade não tinham longo alcance.

Passada a refrega, o comércio contabilizava seu prejuízo, refazia seus planos e tudo voltava à normalidade. A economia cacaueira dava o seu ar da graça e todos voltavam a ser o grapiúna de sempre, rico mesmo sem ter dinheiro no bolso, mas com muito crédito na praça. Nenhuma cidade do porte de Itabuna possuía o número de agências bancárias numa mesma avenida, a Cinquentenário, e todas funcionando, emprestando dinheiro e recebendo aplicações da venda do cacau.

Voltando ao comércio, a Cinquentenário e adjacentes se impunham com a galhardia de seus luminosos, confeccionados em gás neon, apagando e acendendo em intervalos diferentes, como só se viam nas grandes metrópoles pelo mundo afora. E os visitantes ficavam de “queixo caído” com nossa beleza feérica, tanto assim que muitos anos depois um conhecido biólogo da capital fluminense (à época Niterói), José Zambrotti, enchia os pulmões para nominar Itabuna como a Broadway brasileira.

Nem parecia que meses atrás tinha sofrido a grande catástrofe e, assim como no comércio, indústria e serviços maiores, a vida do rio voltava ao normal, com todos utilizando o que as águas produziam e permitam que fosse retirado para o bem do homem. Até as pontes voltavam ao normal. Me refiro às pontes do Tororó (conhecida como dos Velhacos), estreita, baixa e somente para pedestres, e a do Marabá, cujo nome, Miguel Calmon, ainda é desconhecido da maioria da população, que eram interditadas.

Hoje maltratado, o rio Cachoeira ainda tenta sobreviver, mesmo contra a falta de vontade dos nossos governantes, que pela importância dos rios, já poderia merecer tratamento diferenciado, com um projeto de despoluição desde sua nascente até o chamado “mar de Ilhéus”, onde deságua. Atualmente nenhum artista plástico dedicaria parte do seu tempo para retratar seu leito tomado pelas baronesas, criadouro do mosquito da dengue, ou as águas fétidas e de cor encardida pelo caldo derramado pelos esgotos.

Mesmo assim, ainda tenho a esperança de vê-lo, se não como o de antigamente, mas um rio importante na nossa vida e na socioeconomia do itabunense, do grapiúna. Gostaria de, em cima das pontes atuais e das que serão construídas, poder apreciar o Cachoeira revitalizado na Itabuna altaneira que sempre acostumamos a ver. Espero um dia possa ter essa oportunidade, assim como todos os itabunenses – daqui e de fora – que aprenderam a amar essa terra.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

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Cida Berger era corretora quando tomou a decisão de ir para a Europa tocar o próprio negócio e morar pertinho dos irmãos Bob e Adriana.

Manuela Berbert || manuelaberbert@yahoo.com.br

Dizem os especialistas em performance que somos a média das cinco pessoas com quem mais convivemos. Logo, se essas pessoas não nos inspiram, é hora de rever essas companhias! Particularmente acredito que somos as nossas conexões, afinal ninguém nasce pronto e os dispostos acabam entrelaçando a vida de alguma forma, em algum momento. (O que torna o fim destes ciclos algo comum também, com cada um seguindo seu baile com o seu “cada qual” do momento!) Ok, concordo que falamos quase a mesma coisa, mas acrescento a possibilidade dos rompimentos como algo natural!

E foi pensando nisso tudo que escrevi esse artigo sobre os intrépidos, que são, para quem não sabe, as pessoas arrojadas e corajosas. Aprendi esse termo com minha amiga Cida Berger, natural de Itabuna, hoje empresária do ramo alimentício em Portugal.

Eu fico num orgulho “da porra” (permitam-me a gíria baiana, mas o momento pede!), quando vejo outra amiga nossa, que mora na Espanha, reclamar no WhatsApp: “Não consigo comprar os queijos Estrela do Sul porque vivem esgotando no mercado daqui!” Cida sorri e pede paciência, afinal sua fábrica já não tem dado conta realmente de abastecer os mercados dos países vizinhos, mas a expansão da produção está sendo montada.

Cida Berger era corretora quando tomou a decisão de ir para a Europa tocar o próprio negócio e morar pertinho dos irmãos Bob e Adriana. Nós dividíamos apartamento em Salvador na época (mesmo eu não podendo pagar o aluguel), e escutava diariamente a frase “Manuca, o mundo é dos intrépidos!”, enquanto assistia TV e fazia companhia a ela, que passava horas sentada na mesa da sala planejando a futura empresa.

Cida foi, naturalmente, uma das primeiras pessoas a saber o rumo que a marca Cola Na Manu estava tomando, apesar da distância física atual. “Estamos abrindo duas lojas, com marca própria de camisetas, sandálias e outras coisinhas em Porto Seguro e Itacaré. Uma marca genuinamente baiana, com a nossa cara. Será que um dia você vai passar por um turista aí em Portugal usando uma tee-shirt Cola Na Manu Store?”, questionei, sorrindo. “Manuca, o mundo é dos intrépidos!”

Manuela Berbert é publicitária.

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O poeta saiu pela tangente de maneira bem-humorada: “Então, Baden, Chopin esqueceu de fazer essa”. Em seguida se dirigiu à máquina de escrever.

Marival Guedes || marivalguedes@yahoo.com.br

Há duas décadas o Brasil perdeu um dos maiores músicos. Baden Powel morreu de infarto, aos 63 anos, no dia 26 de setembro de 2000. Aproveito e compartilho uma história interessante que ele contou durante um show.

Baden era amigo de Vinicius de Moraes (1913-1980) e frequentava a casa do poeta em Petrópolis para comporem e beberem uísque. Ou vice-versa.

Numa dessas mostrou uma música para o parceiro colocar letra. Vinicius gostou, mas até a madrugada não tomou iniciativa alguma. Baden reclamou: Já estamos na terceira garrafa, quase bêbados, são três da madrugada e a letra não saiu…

O poeta disse que aconteceu uma coisa chata, mas não iria contar por ser muito desagradável. Diante da insistência, revelou:

-Eu acho que é plágio

-Porque não disse antes? Eu não teria tocado tantas vezes.

-Mas é e não fica bem. Vai sair nos jornais, “ Vinicius e Baden plagiam música.

-Não é plágio. Mas diga, de quem?

-É claro, Baden, isso aí é Chopin

-Não Vinicius, eu conheço Chopin, não tem nada a ver

-Eu tenho ouvido, Baden, isso é Chopin puro. Você bebeu demais, fez uma música pensando que era sua e não é.

-Não Vinicius, eu acho que quem bebeu demais foi você e está implicando comigo.

-Então pra acabar esta dúvida vou chamar minha mulher, a Lucinha. Ela toca piano e conhece toda a obra de Chopin.

-Vai acordar sua mulher esta hora?

-Ela está acostumada.

Lucinha chega e oferece café, mas Baden gentilmente rejeita argumentando não ser bom misturar. O poeta pediu pra o músico tocar. Em seguida, afirma que é Chopin e pede a opinião de Lucinha, que dá o veredicto: “ Não Vinicius, eu conheço as coisas de Chopin, isso não é Chopin.

Segundo Baden, Vinicius ficou “sem graça” e falou: “até você tá contra mim?”

“Não Vinicius, ninguém está contra você,” interferiu o músico.

O poeta saiu pela tangente de maneira bem-humorada: “Então, Baden, Chopin esqueceu de fazer essa”. Em seguida se dirigiu à máquina de escrever.

Nascia a belíssima Samba em Prelúdio.

Marival Guedes é jornalista.

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Não podemos permitir a desestruturação desse nosso patrimônio, que neste mês completa 30 anos de muita luta. Precisamos fazer sua defesa permanentemente e avançarmos ainda mais na sua eficiência.

Rosivaldo Pinheiro || rpmvida@yahoo.com.br

O SUS é o maior sistema público de saúde do mundo, fruto de uma intensa luta que acabou garantida na Constituição Federal em 1988 e nas Leis 8.080 e 8.142, em 19 de setembro de 1990. Sua gestão é tripartite – de responsabilidade dos três níveis de poder: federal, estadual e municipal. Funciona em consonância com os princípios da universalização, equidade e integralidade.

Segundo informa o Conselho Federal de Medicina, 75% dos brasileiros dependem 100% do SUS, representando um custo total anual de R$ 103 bilhões para o tesouro nacional. Para fazermos um comparativo, os outros 25% dos brasileiros que usam plano de saúde gastam, por ano, R$ 90 bilhões, significando dizer que investem três vezes mais no cuidado com a saúde, se comparados aos usuários do Sistema Único.

É importante destacar que a nossa população está envelhecendo e já ultrapassa as 30 milhões de pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e a população com 65 anos ou mais alcançará um contingente de mais de 55 milhões de pessoas em 2060.

É sabido por todos os brasileiros que as políticas de saúde passam por cotidianas dificuldades no tocante à redução dos recursos, em função da promulgação, no apagar das luzes de 2016, da Emenda Constitucional 95, que fixou teto de gastos para saúde, educação e segurança pública por 20 anos.

Mesmo diante desses ataques provocados pelo teto de gastos, desvios por corrupção, impactos provocados por gestores sem qualificação e compromisso com a missão desse poderoso sistema de saúde, sua face de humanidade foi demonstrada nessa pandemia do novo coronavírus, evitando que tivéssemos ainda mais mortes.

Os profissionais dos SUS deram a vida e se agigantaram, mostrando para todos o quão importante é o nosso SUS, especialmente para os mais vulneráveis economicamente, demonstrando toda a sua capacidade e importância na luta em defesa da vida, fazendo valer a máxima do artigo 196 da CF/88: “a saúde é um direito de todos e dever do estado”.

Portanto, defender o SUS é defender as nossas próprias vidas, garantindo assistência à saúde gratuita e de qualidade para um número cada vez maior de brasileiros que precisam dessa política pública comprovadamente essencial em nossas vidas. Não podemos permitir a desestruturação desse nosso patrimônio, que neste mês completa 30 anos de muita luta. Precisamos fazer sua defesa permanentemente e avançarmos ainda mais na sua eficiência.

Rosivaldo Pinheiro é economista e especialista em Planejamento de Cidades (Uesc).

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Para completar o serviço era preciso entregar o “troféu” ao delegado para as providências de praxe. Então a comitiva desfilou pelas ruas do bairro da Conceição, em direção à feira livre – no local onde hoje funciona a FTC –, onde o delegado calça curta trabalhava em sua barraca de farinha.

Walmir Rosário || wallaw2008@outlook.com

Lembro-me bem que nos tempos em que ainda criança, a segurança pública era feita com muito esmero, embora os exageros também fossem fecundos. Não era pra menos, pois os tempos eram outros, em que não se falava em direitos humanos. O que valia mesmo era a palavra das autoridades, ou na falta delas, de alguém que detivesse algum poder.

Em matéria de segurança, em Itabuna, os equipamentos eram bem distribuídos. Em cada um dos bairros existia um aparelho da delegacia, com delegado e os chamados “inspetores”, geralmente um funcionário da prefeitura destinado para este fim, ou alguém que tinha a polícia como vocação, vontade essa não realizada.

A autoridade competente em cada um desses bairros era alguém indicado pelo prefeito por ser seu amigo, seu cabo eleitoral, ou alguém com coragem suficiente para meter os meliantes no xadrez. Sim, em cada um desses aparatos existia uma cela, onde eram “enjaulados” aqueles que cometiam qualquer deslises contra a comunidade.

De pequenos furtos, roubos, brigas de ruas, bares e de marido e mulher, tudo era resolvido pelo delegado (chamado de calça curta), com o auxílio do inspetor. A depender do crime praticado, o meliante, pra começo de conversa, tinha que respeitar a autoridade e era submetido a uma sova, que podia ser na “mão grande” ou outros apetrechos mais apropriados, como a uma palmatória, bainha de facão, ou o próprio, batido com a banda ou folha, para que aprendesse a se comportar.

Mas, pelo que pude observar, não era uma profissão – se é que assim pode ser chamada essa obrigação – muito segura, pois tinha lá os seus percalços, que o diga um amigo meu que assumiu esse posto máximo de segurança em Ferradas. Ao receber a voz de prisão do delegado, o bandido que ceifou a vida de um irmão de sangue ameaçou, dizendo de pronto: “Se o delegado está vendo o que fiz com ele, que é meu irmão, pode imaginar o que farei com o senhor quando for solto”. Imediatamente, a voz de prisão se transformou em “esteja solto”. O que facultou o amigo Faruk a desfrutar sua proveitosa aposentadoria.

Apesar dessas exceções, a regra era da chamada “maré mansa”, sem grande sobressaltos para a sua segurança, pois os transgressores da lei eram mais chegados às contravenções penais do que aos crimes maiores. Pulavam um quintal ali, subtraíam uma mercadoria num ponto de venda do comércio em geral, ou davam uns tapas numa briga num jogo de gude ou jogavam dados pra valer (apostado).

No caso dos amigos do alheio, a depender do modus operandi, os agentes da lei já sabiam quem eram os prováveis autores e davam uma busca no bairro, inclusive na residência da família. E essa providência não dependia de nenhum mandado judicial, bastava apenas e tão somente a vontade da “autoridade”. Alegações outras contra a obstrução da “autoridade policial” simplesmente não eram admitidas e ponto final.

Volta e meia um crime mais significativo, ou fatal, era cometido e aí, sim, era requisitada a Polícia Militar e Civil para dar conta dos fatos. Mas não era todo o dia que um fato dessa grandeza merecesse a atenção dos verdadeiros agentes de segurança, ou da lei, como costumavam a ser chamados. A cidade ainda gozava de certa tranquilidade.

Os “delegados calça curta”, dentro das condições existentes, davam conta do recado, mesmo que vez em quando eram chamados a atenção pela condução nem sempre legal dos inquéritos. Por ouvir dizer, lembro desses abnegados da segurança que já indiciaram até mesmo animais, como a vaca Florisbela, na vizinha cidade de Itapé, inquérito esse tornado sem feito pela atenção de um zeloso promotor de justiça.

No bairro Conceição, em Itabuna, também por ouvir dizer, acumulei conhecimento de muitas dessas histórias – ou estórias –, a depender do grau de credibilidade de quem nos contava. Uma delas me marcou bem, pois foi narrada por uma pessoa tida e havida como de bem, conhecida por Turrão, que era antigamente chamado pelo nome de Albertino César, zeloso funcionário do Banco do Brasil.

Segundo contou, um desses costumeiros praticantes de contravenções penais pulou o muro de um vizinho e atacou o galinheiro, subtraindo alguns frangos de raça, mantidos para as homéricas brigas de galo na rinha do bairro da Conceição. Ao receber a queixa, o zeloso “inspetor” não se fez de rogado e, pelo conhecido modus operandi, se dirigiu à casa do meliante dando voz de prisão.

Ao resistir à voz de prisão, tentou correr, mas foi detido prontamente pela grande plateia que acompanhava o inspetor, sendo contido e amarrado com cordas. E o inspetor tinha que prestar contas da ação com rapidez, haja vista que o proprietário dos galináceos era pessoa de importância na sociedade, amigo pessoal do prefeito e quase vereador, pois perdeu a eleição por umas três dúzias de votos.

Para completar o serviço era preciso entregar o “troféu” ao delegado para as providências de praxe. Então a comitiva desfilou pelas ruas do bairro da Conceição, em direção à feira livre – no local onde hoje funciona a FTC –, onde o delegado calça curta trabalhava em sua barraca de farinha. Por onde passavam, a comitiva aumentava, bem como as dores das porradas sofridas pelo amigo do alheio.

Ao chegar à barraca, nosso bravo delegado deixou de atender um freguês para dar ouvidos ao subordinado, que contou o crime ocorrido, com a gravidade de ter sido aplicado contra uma pessoa de bem. E assim que a plateia aumentou o suficiente, para o desespero do prisioneiro, o delegado largou a medida de farinha, sacou de seu revólver, e do alto dos seus pulmões, em voz solene anunciou:

“Teje preso, seu amarrado!”.

E com o sentimento do dever cumprido ainda ordenou: “Leve-o à delegacia para os costumes de sempre!”.

Em seguida, o delegado Juquinha fez um gesto próprios dos vencedores, deu meia volta e voltou a atender ao comprador de farinha.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

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A bem da verdade, os bares não acabaram, mas perderam o charme dos botequins, o que também perde um pouco da graça. E bota a saideira!

 

Walmir Rosário || wallaw2008@outlook.com

Podem falar da Canavieiras de tempos idos quem quiser, mas os que viveram àquela época, apreciadores de uma caninha da roça, uma cerveja bem gelada e os mais exigentes, que preferem gim, vermute, whisky e outras bebidas importadas tiveram do bom e do melhor. Pois tenham ciência que aqui pra bandas da Princesinha do Sul essas beberagens nunca faltaram, melhor dizendo, sempre foram encontradas em profusão.

E tenho uns amigos que se lembram com muita saudade da falta daqueles bares, um deles, que atualmente não bebe mais, sempre se emociona quando lembra deles que chegam a escorrer duas lágrimas faces abaixo. É o Antônio Amorim Tolentino (Tolé), bebedor de boa cepa, hoje considerado traidor das causas etílicas e que conta com muita satisfação a localização dos bares e as nuances de cada um.

Não tenho ciência do mal que praticamente exterminou esses bares e botecos, mas é certo que tal e qual um fungo exterminador como o da vassoura de bruxa varreu eles das ruas, praças, avenidas e travessas. Alguns poucos teimaram em continuar sentando praça e servido a antiga e nova freguesia – hoje chamada de clientela –, mas sem o glamour de tempos pretéritos.

Quer dizer, salvando algumas pequeníssimas exceções, ainda encontramos firmes e fortes o Berimbau; o Mac Vita, onde tudo acontecia em Canavieiras; O Meu Cacete, na Atalaia; e um ou outro escondido pelos bairros. Mas nada se compara aos de antes e até mesmo O Brazão, de Pitipiti, acabou se rendendo e fechou suas portas há cerca de dois anos. Outros, como o Padeirinho, depois Casablanca, virou churrascaria até dias atrás.

Pra não dizerem que estou floreando ou mesmo mentindo, em maio de 1993, o poeta e filósofo Zé Emídio publicou no jornal Tabu uma página inteira sobre os bares presentes e os passados. Também em 1993, eu mesmo elaborei o “Roteiro Turístico-Etílico e Gastronômico de Canavieiras” no caderno Sul da Bahia, do Correio da Bahia, no qual era mostrado um roteiro fora dos roteiros de conhecimento dos turistas.

Se hoje somos pobres nesse segmento, podemos dizer que a opulência era presente em tempos idos, como ressalta o velho amigo Tolé, alertando para as dificuldades da época, em que o motor da energia elétrica era desligado às 22, 23 horas. Ele lembra do esplendoroso Bar e Sorveteria Triunfo, que possuía motor-gerador próprio para gelar a salmoura dos sorvetes e picolés, mas cismava de fechar o bar no mesmo horário em que a energia era desligada. Sem deferência para os clientes.

E existiam bares luxuosos pras bandas do brega, como o Céu Azul, que comercializava bebidas no andar térreo e o amor em forma de sexo no andar de cima. Juntinho, se localizava o Bar Irajá, em que o homem só poderia dançar se estivesse uniformizado com terno completo e as mulheres de longo. O Bar do Batista, no Porto Grande e no Beco do Fuxico (hoje sem bar algum), tinham tantos como o Arrastão e o Beco ainda se dava ao luxo de ter até uma leiteria.

O Bar Misterioso fez muito sucesso. Em frente, do mesmo dono, uma boate abrigava os solteiros e alguns casados puladores de cerca, que embreavam na luz negra ficando irreconhecíveis. Mesmo assim, as restrições às frequentadoras eram feitas com muito esmero pelo porteiro Si Brasil, que não as deixava entrar no Aeroclube, sob o argumento de que as figuras que dançam em Dácio [na boate] não podem entrar no Aeroclube.

Como esquecer do Bar Luso-Brasileiro, do Ranchinho dos Meus Amores – ali na praça da Capelinha –; do Society Bar, depois Nosso Bar, Aerobar, na praça Maçônica; do Araketo – na rua do Gravatá; e de Parmênio, na Birindiba. Esses dois últimos funcionavam como pronto-socorro nos dias em que faltavam energia elétrica a mando de Valdemar Broxinha, por estarem equipados com geladeira a querosene, trocadas posteriormente para gás de cozinha. Não faltava cerveja gelada.

E os donos de bar eram comerciantes abnegados que se estabeleciam onde os clientes estivessem e não mediam esforços para levar os pesados engradados (de madeira) de cerveja, panelas e insumos para os tira-gostos nas canoas até a praia da Costa. Assim foi com Zé Sapinho, cuja cabana pioneira na praia da Atalaia foi apelidada de Sapolândia; a cabana Samburá, de Neném de Argemiro.

Na ilha da Atalaia também prosperaram outros bares, como o Bar Atalaia, mais conhecido pela alcunha de A Visgueira de Mílton, por motivos mais que óbvios, e “O Meu Cacete”, de Domingão, um nome sui generis que espantavam os turistas quando eram convidados para dar uma chegada no “Meu Cacete”. Para alívio deles, eram bem recebidos por Domingão e passavam a frequentar o local com assiduidade.

No bairro Birindiba também era parada obrigatória no Coquinho de Quelé, famoso aqui e alhures depois que o coquinho começou a viajar na bagagem dos turistas e se transformou em encomenda a pedido dos nativos que moravam fora e os visitantes que não poderiam vir bebê-lo pessoalmente. Além do coquinho, Quelé também era famosa pela cerveja bem gelada, cachaça em infusão de folhas e tira-gostos.

Na reportagem de Zé Emídio ficaram registrados, ainda, o Bar e Lanchonete Plaza, O Arrastão, famoso por suas batidas, O Petiskos, O Devia’s Vir, O Paladar, onde se comia muito bem, O Terra, O Mangue. Muitos deles fizeram grande sucesso – alguns efêmeros – e muitos não resistiram à mudança dos tempos. Um deles, o Berimbau se transformou em sede da Confraria d’O Berimbau e ainda resiste, se bem que de férias na pandemia.

A bem da verdade, os bares não acabaram, mas perderam o charme dos botequins, o que também perde um pouco da graça. E bota a saideira!

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

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Do alto dos seus 81 anos, e com toda a experiência adquirida em todos esses anos, acredito que Fernando Gomes tenha adotado uma tática para “derrubar” seus adversários, se mostrando em pleno vigor aos seus eleitores.

Walmir Rosário || walmirrosario.blogspot.com

Com a terrível e apavorante pandemia do Coronavírus não teve um filho de Deus neste mundão que não mudou seu comportamento, não importa se pra melhor ou pior, o certo é que as circunstâncias decidiram quais e pra onde. Na maioria dos casos que analisei, o consumo de bebidas e comidas foi lá pra cima e muita gente boa não quer passar perto de uma balança. Nem morto, como diziam antigamente.

Ah, parece até que foi combinado nessas lives, que entraram de vez da vida do povo e estão dando o que falar. Estão fazendo live para acertar a data e horário da promover uma live sobre determinado assunto. Das que cheguei a ver, tinha político falando de política e até votando matérias no congresso, numa espécie da “gazeta”, falta institucionalizada, enquanto outras falavam de economia e a maioria de vinhos e comidas.

Pouquíssimas de educação física, e mesmo assim meu filho explicando conceitos e vantagens da prática do kettlebell, instrumento criado há mais de mil anos e que está virando febre no Brasil e no mundo. Se todos prestavam atenção às aulas teóricas, as práticas não se fizeram presente na telinha do meu computador. Ficar em forma, malhar, suar nas esteiras, levantar peso, pedalar bicicleta sem sair do lugar, nada.

E as desculpas eram as mais variadas, a começar pela proibição de funcionamento das academias de ginásticas. Pelo que soube – apenas por ouvir dizer –, descobriram que o Coronavírus tinham predileção pela forma física e, para precaver, as autoridades vedaram o ingresso dos atletas e candidatos a Hércules para evitar uma contenda qualquer. Nunca se sabe o que poderia acontecer numa luta entre uma pessoa e um vírus desconhecido.

Em moda há, pelo menos, uma década, as academias ao ar livre também foram desprezadas. Intocadas, permaneceram nas praças, rejeitadas pelos atletas de rua, que nem mesmo lembravam da necessidade de fazer um alongamento antes da corrida ou caminhada. Pelo que percebi, em vez da população, quem permaneceu de quarentena foram os aparelhos de musculação.

E eu, que sou um atleta bissexto, me incluo nesse time da inatividade física durante esse período, mas prometo voltar aos exercícios de kettlebell, às caminhadas matutinas pela praia da Costa e centro da cidade. Vontade não falta, mas o incômodo da máscara que me faz inalar gás carbônico é terrível e tenho pena de submeter meus queridos pulmões a esse terrível sacrifício. Um dia retomarei com gosto de gás (simples expressão).

E prometo que vai ser pra já, pois me inspirei na força de vontade do octogenário prefeito de Itabuna, Fernando Gomes, depois que o vi numa academia ao ar livre subindo e descendo num exercício de barra fixa, sob os aplausos de outros malhadores presentes. É certo que a demonstração de Fernando Gomes não foi das melhores, mas ao que parece foi uma espécie de liberação tácita dos exercícios físicos em Itabuna.

Aos 81 anos, vai precisar de muita malhação para subir e descer ladeiras pedindo votos, prática bastante comum entre todos os candidatos, se bem que agora substituída pelas lives, redes sociais e outras modernidades eletrônicas. Mas tenho certeza de que os candidatos precisarão se exercitar, para queimar as calorias dos pratos de sustança que haverão de comer nas casas dos considerados.

Quanto aos outros candidatos, ainda não vi nenhuma demonstração de preparo físico, pelo menos nas redes sociais. Quem sabe, recomendação dos marqueteiros para não entregar o “ouro ao bandido” e conseguir entrar pelo bairro de Fátima e sair no Califórnia de um fôlego só. Um bom treino é entrar pela rua da Floresta, no São Caetano, passar pela Baixa Fria, subir o Morro do Urubu, descer o Daniel Gomes e descambar pelo Zizo.

Aí, sim, sei que ficou pronto durante a pandemia, fazendo os exercícios na surdina, dentro de casa, para não despertar suspeitas aos olheiros dos adversários políticos, ávidos para mostrar o serviço de espionagem ao seu candidato. Vou pedir a um amigo meu, conhecedor dessas arapongagens, para pendurar umas câmeras de vídeos em locais próximos às academias ao ar livre para tentar flagrar os políticos em exercícios.

Pelo que observei atentamente, essas lives de educação física não são bons cabos eleitorais, do contrário o que teria de candidato se esforçando para conquistar o eleitor não estaria nos gibis. Pelo sim, pelo não, recomendo aos candidatos dispostos a ganhar fôlego que procurem uma boa academia e se exercitem com as recomendações e acompanhamento de um profissional de educação física.

Do alto dos seus 81 anos, e com toda a experiência adquirida em todos esses anos, acredito que Fernando Gomes tenha adotado uma tática para “derrubar” seus adversários, se mostrando em pleno vigor aos seus eleitores. Por outro lado, caso os adversários “comam a isca”, nunca mais ele aparecerá em frente a uma academia ao ar livre e praticará as caminhadas no sobe e desce das ladeiras itabunenses.

Como dizia o saudoso técnico de futebol Sotero Monteiro, pelo arriar das malas é que se conhece o jogador.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

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De minha parte, guardo reservas até que minhas conjecturas se confirmem infundadas e possamos sentar à mesa em um bar nos fins de semana e pedir ao garçom meia dúzia de caranguejos grandes e gordos, acompanhado de uma cerveja bem gelada.

Walmir Rosário || walmirrosario.blogspot.com

Não estranho mais nenhuma invenção neste mundo corrido de hoje, em que as tecnologias passam mais rápidos do que os dias da semana, do mês, e em que o ano passado parece que foi ontem. Mas não discordo que tenha lá suas vantagens para sabermos o que está se passando. Se antes tínhamos que ir a uma biblioteca para consultar a Enciclopédia Delta-Larousse, hoje basta uma espiada no Google.

Depois dessa política de proteção aos animais ameaçados de extinção ou coisa que o valha, nossos campos estão mais verdes e nossos mangues mais povoados de caranguejos. Ainda bem, pois a história que vou contar me causou calafrios por simplesmente pensar que deixaria o velho hábito de comer meu caranguejo-uçá, quebrando as patinhas (puã) nos dentes.

É que eu soube que a designer sul-coreana Jeongwon Ji deslumbrou o mundo ao apresentar uma invenção inusitada: transformar caranguejos chineses em plásticos. Olhe que acredito piamente nas novas tecnologias, mas, aqui pra nós, tenho minhas dúvidas sobre a eficácia dessa transformação. Não entendo nada de química, e poucas são as informações que disponho para travar um debate sobre essa estranha invenção.

Mesmo assim, fosse o contrário, minhas dúvidas por certo seriam infundadas, haja vista parecer mais eficaz que transformemos produtos inorgânicos em orgânicos. Não é de agora que nos chegam aos ouvidos notícias alarmantes sobre a destruição do meio ambiente e fiquei deveras atordoado com a possibilidade de ter o caranguejo apenas nas boas lembranças do passado.

Ao que pude perceber após muita pesquisa, essa invenção dá a entender que este é um caminho aberto para alargar essa possibilidade invencionice. Imagino eu a corrida aos mangues para a captura desenfreada dos nossos caranguejos-uçás, guaiamuns, aratus e outros crustáceos nem tão abundantes em nossos manguezais, para transformá-los em brinquedos de plástico. Um verdadeiro absurdo.

Pelos meus nem tão precisos cálculos, nossos novos catadores promoveriam o extermínio desses crustáceos num piscar de olhos, antes mesmo qualquer reação do Ibama, Instituto Chico Mendes ou qualquer outra organização não-governamental recém-criada com a finalidade de coibir a caça desenfreada aos nossos saborosos artrópodes. Afinal, Deus deixou as coisas boas do mundo para seus filhos se deliciarem.

De logo, vou colocando minhas barbas de molho com receio das medidas governamentais que poderão ser tomadas para a criação da Caranguejobras, aparelhada por companheiros e coligados. Devido a importância do empreendimento, por certo também serão acomodadas algumas centenas de ambientalistas, de preferência caranguejólogos, dada a especialidade nos produtos do mangue.

Daqui de Canavieiras, onde mantenho minha sossegada trincheira, antevejo um futuro incerto para os manguezais lavados pelos rios Pardo, Salsa e Patipe, Cipó e outro menos votados que formam esse imenso delta, berçário dessa colossal fauna marinha. Sem os crustáceos circulando na área, o mangue perderia seu grande conceito de berçário esplêndido dos rios e mares.

Em terras canavieirenses o caranguejo é tão importante que é quem dá as boas-vindas aos turistas e visitantes mais amiúdes, numa cópia majestosa em fibra de vidro, sempre pronto para posar para fotos. Ao ler sobre a designer sul-coreana Jeongwon Ji fiquei com a pulga atrás da orelha e me lembrei de um atentado que o caranguejo sofreu em pleno Carnaval do Coronavírus e me pus a puxar o fio da meada para apurar responsabilidades.

Para minha tristeza, serei testemunha ocular do sumiço da gostosa “cabeça de robalo”, uma das iguarias mais famosas da gastronomia canavieirense. Se fosse só por isso me contentaria, mas ainda não somos conhecedores dos terríveis efeitos causados pelas devastações provocadas pela captura desenfreada do tão gostoso crustáceo.

Mas não pensem os senhores que estou advogando em causa própria com o egoismo tão peculiar dos viciados no primeiro dos sete pecados capitais: a gula, assim definida como tal pelo Papa Gregório Magno. Lembro aqui do grande número de famílias que laboram na enorme cadeia produtiva e que ficarão desprovidas do ganha pão. Ainda bem que os seiscentos reais ao auxílio aliviam, por enquanto, mas…

Brincadeiras à parte, como Deus ainda não me concedeu o dom de prever o futuro, não vislumbro qualquer possibilidade de vantagem nessa invenção, com todo o respeito que devemos aos orientais. De minha parte, guardo reservas até que minhas conjecturas se confirmem infundadas e possamos sentar à mesa em um bar nos fins de semana e pedir ao garçom meia dúzia de caranguejos grandes e gordos, acompanhado de uma cerveja bem gelada.

Mas caso a invenção seja verdade, no mínimo, decretaremos o fim do mundo.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

Tempo de leitura: 3 minutos

Apesar de atuarem em campos opostos, o bancário Luiz Sena e o Tenente PM Souza Neto sempre foram amigos e, ao avistar o militar que vinha chegando para comandar a tropa, o comunista parte para ele e começam um bate-papo amistoso, com muita gesticulação por parte de Luiz Sena.

Walmir Rosário

Me lembro como se fosse hoje dessa história, passada ainda no tempo da ditadura militar que governava o Brasil, e é absolutamente verdadeira. Vi com os meus olhos que a terra há de comer, como diz um antigo ditado popular. Era uma greve geral de bancários em Itabuna e o sindicato da categoria mobilizava seus filiados em frente às agências do Baneb e do Bradesco, ambas na avenida do Cinquentenário.

Todos os bancários paralisados, os caixas eletrônicos sem cédulas e os funcionários com cargos de direção impedidos pelos grevistas de fazer a reposição, provocando uma confusão sem precedentes. Àquela época os cartões de crédito não eram populares como atualmente e a população encontrava sérias dificuldades em fazer compras, pois nem todos os estabelecimentos comerciais aceitavam o dinheiro de plástico.

Os cheques eram aceitos em praticamente todo o comércio, mas com algumas restrições, a mais comum delas a verificação junto ao Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), cuja consulta era feita por telefone. Nos supermercados as filas eram enormes e impacientavam os clientes e funcionários, que nada podiam fazer com acabar com o sufoco criado pela greve.

E como diziam os bancários, greve é para incomodar mesmo, do contrário não valia nada, não atingia os objetivos, fazendo com que as partes sentassem-se civilizadamente à mesa de negociação. Enquanto isso não acontecia, nas ruas, de um lado os grevistas, com faixas, cartazes e muitos discursos repercutidos no carro de som do sindicato, e de outro a Polícia Militar apenas observando o movimento paredista.

No comando da tropa, o ainda tenente Souza Neto – hoje coronel reformado – com parte do efetivo policial em frente a agência do Bradesco. Cerca de 100 metros a frente se localizava a agência do Baneb, onde o sindicalista Luiz Carlos Sena, empregado do Banco do Brasil e dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) incitava os camaradas para não esmorecê-los do movimento.

De vez em quando um cliente chegava para tentar sacar algum dinheiro e era prontamente impedido pelos bancários grevistas, que não permitiam o seu ingresso na antessala da agência, local dos caixas eletrônicos. A agonia e impaciência do cliente era motivo de galhofa dos grevistas, que diziam para ele se virar, pois agora quem mandava nos bancos era o sindicato. Ali ninguém entrava.

E, ainda por cima, sugestionavam que o cliente fosse convencer os donos dos bancos para aumentar o salário dos bancários, e as agências voltariam a funcionar imediatamente em todo o Brasil. E, bandeiras do sindicato e da CUT em punho, amedrontavam o pobre do cidadão, que nada tinha a ver com a briga entre patrões e empregados, com o discurso marxista da mais valia.

E a Polícia Militar tinha ordens expressas para não recrudescer e apenas olhar, manter a calma e somente intervir caso a situação ficasse fora do controle. Os policiais no lado de fora do passeio, parte dos grevistas – a chamada comissão de convencimento – postada em frente às portas das agências bancárias e outra parte no interior, para garantir que ninguém conseguisse ludibriar os companheiros de fora.

Numa cidade como a Itabuna do começo dos anos 1980 todos – policiais e bancários – se conheciam e nas horas mais tranquilas chegavam mesmo a bater papo com a finalidade de diminuir a tensão. E assim passavam os dias postados em frentes aos bancos, cumprido ordens: Os bancários para não deixar os clientes ter acesso ao interior do banco e os policiais militares para evitar qualquer tipo de confronto.

E esse clima amistoso permanecia também entre os dirigentes sindicais e o comando da tropa, que mantinham distância somente nos momentos mais tensionados, até que a situação voltasse à normalidade. Apesar de atuarem em campos opostos, o bancário Luiz Sena e o Tenente PM Souza Neto sempre foram amigos e, ao avistar o militar que vinha chegando para comandar a tropa, o comunista parte para ele e começam um bate-papo amistoso, com muita gesticulação por parte de Luiz Sena.

Ao perceber Luiz Sena apontando o dedo para ele a todo o momento, mesmo sendo o teor da conversa sobre amenidades, o Tenente Souza Neto não titubeou e segurou a mão de Luiz Sena com força e ainda lhe passou um sermão:

– Tire seu dedo da direção do meu rosto, pois seu povo está olhando e pensando que você está me pagando “sugesta” e meus comandados tendo a impressão que estou fraquejando, o que pode desencadear alguma animosidade. Aqui, quem foi treinado para bater fui eu, e para apanhar foi você – gritou Souza Neto, jogando a mão do sindicalista para trás, diante do espanto dos bancários.

Mas tudo terminou bem!

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

Tempo de leitura: 3 minutos

Para o eleitor que ainda tem dúvida sobre quem representa de verdade o antifernandismo, que vem fazendo oposição ao governo municipal desde o início da administração, é só perguntar ao próprio Fernando Gomes quem ele quer mais derrotar.

Marco Wense

Nenhum resquício de dúvida ou expectativa : Fernando Gomes deixou o enigma de lado. É novamente pré-candidato a prefeito de Itabuna, salvo engano pela sétima vez. Colocou o sobrinho Son Gomes como vice. A chapa não é puro-sangue no sentido partidário, já que o alcaide é do PTC e o ex-secretário de Administração do Republicanos. Mas é uma composição puro-sangue familiar.

O gestor do cobiçado Centro Administrativo Firmino Alves, além do PTC e Republicanos, conta com o apoio do Solidariedade, PMN e do PSL. O maior desafio de Fernando é diminuir o alto índice de rejeição apontado em todas as pesquisas de intenções de voto. Tem pela frente um forte sentimento de mudança que toma conta de quase 65% do eleitorado, dispostos a não votar em quem já governou a cidade, o que termina atingindo os ex-prefeitos Geraldo Simões (PT), capitão Azevedo (PL) e Claudevane Leite (PROS).

Com Fernando Gomes na disputa, o cenário político muda totalmente. O fernandismo continua encrustado em uma parcela significativa do eleitorado. Por outro lado, vale lembrar que nenhum chefe do Executivo conseguiu ser reeleito. O tabu da reeleição não foi quebrado, permanece virgem. O último a sofrer com a “maldição” foi o capitão Azevedo.

A candidatura de Fernando é um terremoto no staff de Azevedo. A próxima pesquisa, já com o nome do atual prefeito, deve apontar uma queda do militar. Tenho dito que não há espaço suficiente para dois postulantes populistas, que tem o mesmo reduto eleitoral. O criador e a criatura têm o mesmo manual para conquistar o voto, seguem a mesma cartilha.

Outro prefeiturável que será prejudicado com a candidatura de Fernando é Geraldo Simões (PT). Fernando candidato é a certeza de que o governador Rui Costa ficará distante da sucessão, sequer uma declaração de apoio ao colega petista. Com efeito, o que se comenta nos bastidores do Palácio de Ondina é a frieza de Rui Costa com o “companheiro” Geraldo, que anda esquecido pela cúpula estadual do PT. Do seu lado, em termos de liderança e de apoio verdadeiro, somente o senador Jaques Wagner, que é um companheiro (sem aspas).

É evidente que Fernando não terá mais a expressiva votação da sucessão de 2016. Mas ficará entre os três primeiros nas pesquisas. Na pior das hipóteses em terceiro lugar. A disputa será entre Fernando, Mangabeira e Augusto Castro.

A vantagem de Mangabeira (PDT) em relação a Augusto Castro (PSD) está assentada no antifernandismo, já que o pedetista é visto como o mais antifernandista de todos os prefeituráveis. O antifernandismo é um bom e invejável cabo eleitoral, assim como foi o antipetismo na eleição de Bolsonaro.

Augusto, além de ter sido por um bom tempo aliado de Fernando Gomes, é da base de sustentação política do governador Rui Costa, hoje bem próximo do atual gestor. O chamado voto útil para evitar uma vitória do fernandismo e do seu líder maior, será direcionado para o candidato do PDT.

Para o eleitor que ainda tem dúvida sobre quem representa de verdade o antifernandismo, que vem fazendo oposição ao governo municipal desde o início da administração, é só perguntar ao próprio Fernando Gomes quem ele quer mais derrotar.

Concluo dizendo que com Fernando Gomes disputando sua própria sucessão, Azevedo e Geraldo passam a ser cartas fora do baralho de uma sucessão que caminha para ser acirrada e, infelizmente, impregnada pelo jogo sujo.

Marco Wense é articulista do Diário Bahia.

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O Caboclo se encontrava no merecido período de férias, que gozava na aprazível capital alagoana – Maceió – com sua esposa, integrando uma caravana do não menos impoluto radialista itabunense Cacá Ferreira, o que justifica a ausência

 

Walmir Rosário || wallaw2008@outlook.com

Cliente assíduo por mais de 40 anos do ABC da Noite, o jornalista canavieirense aposentado Tyrone Perrucho, passeando por Itabuna, resolveu dar as caras para tomar umas batidas e rever o amigo Caboclo Alencar. Flanou pelo centro da cidade olhando as vitrines das lojas da avenida do Cinquentenário e adjacências até que chegasse o horário do Caboclo abrir as portas, exatamente às 11 horas, como manda a tradição.

E às 10h55min se apresentou e postou-se em frente ao estabelecimento, como um daqueles alunos rebeldes, ausentes do ABC da Noite por anos a fio, esperando ser o primeiro a se apresentar ao Caboclo como um aluno repetente. Mas eis que nesta fatídica quarta-feira o Caboclo Alencar não cumpriu o prometido, conforme a placa afixada na parede com o horário de funcionamento.

Mas o velho aluno não se fez de rogado e continuou postado no passeio aguardando a abertura para ter a primazia de ser o primeiro a se deliciar com uma batida de tamarino ou gengibre – de acordo com a linha de produção do dia. Exatamente às 11h27min, olhou em sua volta e se deparou com outros fregueses, que assim como ele, aguardavam ansiosamente o horário de abertura.

Mas nada do Caboclo! Pelo olhar que dirigiam ao ABC da Noite – fechado –, pareciam crianças perdidas no meio da multidão à espera da mãe, que nunca aparecia. Eis que então, tomado por uma atitude impensada, dá mais uma olhada no aparelho celular para conferir o horário, confabula com os outros clientes rejeitados e toma a decisão de ir embora, sem voltar a se deliciar com as maravilhosas batidas do Caboclo Alencar.

Maravilhosas, deliciosas, apetitosas, tanto faz, e o desocupado Tyrone Perrucho, sentido o seu orgulho de cliente ferido, resolve ir embora, voltar para sua Canavieiras sem “molhar o bico” e tirar dois dedos de prosa com o Caboclo. Apesar da grande amizade que os une, Tyrone se sentiu traído, por sempre espalhar pelos quatro cantos do mundo a precisão britânica, guiada pelo relógio suíço de Caboclo Alencar, obediente aos horários de abertura e fechamento.

Antes de dar a meia volta e retornar a Canavieiras para dar expediente na Confraria d’O Berimbau, estabelecimento que não prestigia os horários, desde que cheguem após as 10h51min, fez questão de mirar seu celular para a frente do ABC da Noite e clicar uma foto. Da próxima vez que voltar a Itabuna irá exibi-la ao Caboclo com o olhar de reprovação pelo desleixo num dos costumes mais tradicionais da cidade.

Mas o jornalista não foi o primeiro a dar as caras nas portas fechadas do ABC da Noite em horário de pleno expediente, colegas frequentadores tantos já tiveram o mesmo dissabor ao não poder se deliciar das saborosas batidas antes do almoço. Chegam, se postam em frente do ABC e ficam esperando que, como num passe de mágica, o Caboco Alencar apareça do nada para servir sua batida predileta.

Como um filhote de pássaro à espera da mãe para regurgitar o precioso alimento, olham para as portas esperando que se abram, olham para o relógio e não se conformam com o descumprimento do horário. Aos poucos outros vão chegando e se associando ao misterioso sumiço do Caboco, que sem mais nem menos deixa os clientes como filhotes famintos abandonados no ninho.

Ia me esquecendo, e deixo aqui os devidos esclarecimento para os desavisados: Uma placa de bronze fixada na parede proclama os horários de abertura e fechamento do régio expediente: De segunda a sexta-feira: das 11 às 12h30min e das 17 às 19 horas; aos sábados, das 11 às 12h30min; sem expediente aos domingos. De minha parte, acho um exagero a atitude do exigente Tyrone Perrucho, afinal, aos 89 anos bem vividos, que mal faz o caboclo relaxar o horário de vez em quando?

Relaxado não é adjetivo para ser aplicado na impoluta figura do Caboclo Alencar, considerado uma autarquia nos meios em que frequenta. O Caboclo se encontrava no merecido período de férias, que gozava na aprazível capital alagoana – Maceió – com sua esposa, integrando uma caravana do não menos impoluto radialista itabunense Cacá Ferreira, o que justifica a ausência.

Tyrone Perrucho que marque outra viagem a Itabuna!

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

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Âncora ao mar, barco amarrado na ponte, seguimos desfazendo a curiosidade alheia e a bronca das mulheres. E fizemos o primeiro pit stop etílico no “Bem-me-quer”, ponto de origem de toda a fofoca sobre nossas quase mortes no mar da Baía de Paraty.

 

Walmir Rosário

O ano era 1977 – salvo melhor juízo – período em que retornei de Salvador para Paraty (Rio de Janeiro). À época, com a BR-101, a cidade passava por uma transformação, porém ainda mantinha seu espírito bucólico, em que prevalecia a amizade, apesar da recém-chegada onda consumista. A chegada do progresso era fato e todos queriam se beneficiar dele e de seus efeitos, mas de forma honesta, no pensamento de alguns.

Entre as atividades em ascensão a produção de cachaça era a mais promissora delas, notadamente para quem conhecia do ofício, como Eduardo Mello, o Eduardinho, fiel seguidor dos ensinamentos do seu pai, Antônio Melo, produtor – por anos a fio – da cachaça “Quero Essa”. Com a venda da Fazenda Boa Vista, os novos proprietários – industriais paulistas, creio eu – fecharam o alambique, deixando órfãos uma legião de cachacistas apreciadores do bom e precioso néctar da cana.

E nada tirava da cabeça de Eduardinho continuar a desempenhar o mister aprendido por anos e anos, plantando, colhendo, moendo cana e destilando o seu caldo até chegar ao ponto ideal da excelente cachaça. Não é de hoje que a cachaça de Paraty era cantada verso e prosa Brasil afora, e a semelhança não é mera coincidência, Paraty cidade, paraty cachaça, da boa, como convém aos apreciadores mais entendidos.

Até que chegou a oportunidade de ouro para o filho de Antônio Mello. Após várias tentativas, eis que um dos bons produtores de cachaça, o Ormindo, que fabricava a Coqueiro, pretendia se aposentar. Por outro lado, Eduardinho, que se aposentara precocemente e temporariamente, queria voltar a trabalhar, alambicar cachaça, cachaça do mesmo padrão de qualidade da “Quero Essa”, ou da “Vamos Nessa”, feita pelos seus avós. Era o caldo de qualidade, no fogo adequado.

E para fechar o negócio, marcamos a viagem para a Sexta-feira da Paixão como o “Dia D”. Tudo de forma bem planejada numa das muitas noitadas dançantes no Paratyense Atlético Clube. A contragosto, mas com responsabilidade, cerca de meia-noite saímos da boemia com o compromisso de estarmos de prontidão às 6 da manhã no cais e zarpar para o encontro com o Ormindo, na Fazenda Engenho D’água.

No horário aprazado, lá estávamos nós – eu, Eduardinho, seus irmãos Neguinho (Antônio Carlos) e Luiz (Piranha), além de Jorginho, este amigo e dono do barco que nos levaria ao então alambique, cujo único meio de comunicação era o marítimo. Apesar de cedo, já encontramos aberto o bar “Bem-me-quer”, do Edmir, e encomendamos nossas provisões (víveres) para a viagem. Do pedido constaram 24 latas de cerveja Skol em latas, carteiras de cigarros (ainda tínhamos esse péssimo vício) e 10 sanduíches de filé.

A manipulação dos sanduíches foi prontamente rechaçada pela cozinheira Madalena, que se recusou a cometer tal heresia:

– Comer carne na Sexta-feira Santa é um sacrilégio e Deus vai castigar quem fizer e quem comer – se desesperou Madalena.

Após várias intervenções de Edmir, finalmente, muito a contragosto, Madalena preparou os (mal)ditos sanduíches e rumamos para embarque na Kombi (assim era chamado o barco de Jorginho, pela sua aparência com o veículo fabricado pela Volkswagen). Após umas três cervejas e dois sanduíches de filé, finalmente chegamos à fazenda de Ormindo.

Negócio fechado, comemoramos com mais um litro de Coqueiro e alguns mergulhos no mar. Ao pôr do sol resolvemos rumar de volta para Paraty, fazendo planos para a mudança do alambique e a nova produção. Ávidos para chegar à cidade com as boas notícias, demos mais um mergulho no mar, bebemos mais uma Coqueiro “zuleika” (com folhas de tangerina) e subimos no barco.

Tudo era festa, até notarmos os primeiros sinais de problema no motor da “Kombi flutuante”, que começou a perder força. Diagnóstico feito na hora, era a junta do cabeçote que tinha queimado. Alegres e satisfeitos com a aquisição do alambique, não nos afobamos e a cada cinco ou dez minutos desligávamos o motor até que esfriasse, para navegarmos mais um bom pedaço.

Se os problemas do barco não nos afligia, situação diferente se passava na cidade, após constatado o nosso sumiço. No bar, Madalena não se cansava de pregar os castigos de Deus com os hereges que se atreveram a comer carne na Sexta-feira da Paixão, desafiando os desígnios de Deus. Aos poucos, nossas famílias foram para o cais, apavoradas com a demora do regresso, a notícia “corria costa” e as versões superavam o fato.

De boca em boca, Deus tinha feito justiça e castigado os hereges, que perderam-se no mar, naufragando com o peso dos pecados. No mar, cumpríamos nosso encargo de navegar e parar para esfriar o motor. Enquanto isso, o povo não arredava o pé do cais, para o desespero de nossas famílias.

Persistentes, nós sobreviventes de um quase acidente marítimo, fomos nos aproximando da cidade. Para nossa alegria, já avistávamos as luzes. Ligávamos o motor…logo em seguida desligávamos, e assim nos aproximávamos do cais.

E esse calvário continuou até as 21 horas, quando aportamos, para o alívio e felicidade geral. Âncora ao mar, barco amarrado na ponte, seguimos desfazendo a curiosidade alheia e a bronca das mulheres. E fizemos o primeiro pit stop etílico no “Bem-me-quer”, ponto de origem de toda a fofoca sobre nossas quase mortes no mar da Baía de Paraty.

E, juntos, pedimos ao Edmir uma Coqueiro e à Madalena mais um sanduíche de filé para comemorar a nossa ressurreição!

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

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Em tempos de Covid – 19 e de cenário econômico previsivelmente recessivo, modificar toda a estrutura documental e de layout por causa da ausência de registro da marca não é medida de gestão eficiente, sendo muito mais rentável e economicamente viável a prévia proteção de um dos mais valiosos ativos que uma empresa pode ter, pois a conecta diretamente com sua clientela.

Mateus Santiago || mateus.santiago@gmail.com

Mesmo em tempos de pandemia, com o comércio funcionando de forma diferenciada, percebe-se que a preocupação com a proteção de um importante ativo das empresas está viva. Tem-se visto importantes estabelecimentos comerciais da cidade mudando seus layouts em virtude da intervenção de titulares da marca cujo registro pré-existente os torna proprietários do símbolo e senhores de sua exploração comercial.

A Lei da propriedade industrial no Brasil sinaliza que as marcas são “sinais distintivos visualmente perceptíveis, não compreendidos nas proibições legais”. A norma ainda caracteriza a marca como “aquela usada para distinguir produto ou serviço de outro idêntico, semelhante ou afim, de origem diversa”.

Desta forma a marca é o símbolo que tem a função de diferenciar um item específico de outros que podem ter função e qualidades semelhantes, com a clara intenção de atrair consumidores ou mesmo facilitar o acesso ao referido produto ou serviço particularizado.

Para que ocorra a proteção e exploração exclusiva da marca dentro de um ramo de atividade, é necessário que se proceda o registro, feito através de uma autarquia federal vinculada ao Ministério da Economia, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), o que torna o titular da marca autorizado não só a explorar esse ativo econômico, mas também para determinar quem pode utilizar o símbolo em sua atividade, o que se faz através de cessão ou licença.

O registro e a exploração do ativo marca trazem consigo benefícios consideráveis. Segundo Domeneghetti e Meir (2009), a marca é um dos ativos intangíveis mais valiosos e um elemento capaz de trazer estabilidade econômica para a empresa. Basta olhar para conhecidas empresas multinacionais em que a marca é mais valiosa do que propriedades e outros bens físicos.

Em termos gerais, o registro da marca confere proteção contra terceiros que a utilizam de forma idêntica ou com estrutura que se assemelha à original, com o objetivo de evitar confusão nos consumidores já familiarizados com a marca de tempo maior no mercado.

Apesar da necessidade de proteção da marca, inclusive como forma de ter assegurada a possibilidade de uso e exploração, cuidando-se para não ter anos de trabalho perdidos pela necessidade de modificação do nome do estabelecimento e correr o risco de ter de responder judicialmente por perdas e danos e eventuais indenizações e prejuízos, o número de empresários que protegem sua marca precisa melhorar, para se evitar o risco de ver anos de trabalho em reputação e credibilidade se perderem.

No ano de 2018 o Sebrae, por meio de uma pesquisa em todo território nacional entre donos de pequenos negócios, identificou um baixo índice de aproveitamento da marca como ativo e uma notória ausência de proteção. Dos entrevistados, 81% (oitenta e um por cento) não fizeram registro de marca no INPI, sendo que a maioria possuía um nome ou símbolo passível de registro junto ao INPI.

Em tempos de Covid – 19 e de cenário econômico previsivelmente recessivo, modificar toda a estrutura documental e de layout por causa da ausência de registro da marca não é medida de gestão eficiente, sendo muito mais rentável e economicamente viável a prévia proteção de um dos mais valiosos ativos que uma empresa pode ter, pois a conecta diretamente com sua clientela.

Mateus Santiago S. Silva é advogado no escritório Harrison Leite Advogados Associados, presidente da Comissão Especial de Propriedade Intelectual da OAB/BA Subseção de Itabuna – BA e mestrando em Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia para Inovação (Profnit-Uesc).

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Pra não dizer que esqueci dos R$ 16 bilhões da medida provisória, para os municípios esses recursos chegam na hora H, agora que falta um pequeno tempo para as eleições municipais e poderão ter outro destino que não aquele prioritário.

Walmir Rosário || wallaw2008@outlook.com

Na terça-feira (18), os prefeitos e governadores comemoraram a sanção da medida provisória 938 pelo presidente Bolsonaro, que destina R$ 16 bilhões aos estados e municípios brasileiros. Esses recursos reforçarão o Fundo de Participação dos Estados e Municípios para compensar as perdas de arrecadação durante o fechamento da economia, anotada no livro de contabilidade da pandemia da Covid-19.

Esses recursos não chegarão de vez aos cofres desses entes federativos, mas representam um novo esforço do governo federal para equilibrar as contas dos estados e municípios, muitos em situação financeira difícil, o que não representa nenhuma novidade. Não é de hoje nem de ontem que deixaram de fazer o dever de casa, gastando (diferente de investindo) mais do que arrecada.

E agora, com a pandemia, têm a oportunidade de refazer suas combalidas contas com a providencial ajuda. Mesmo sem números e estatísticas para apresentar, não tenho receio de dizer que, se caiu a arrecadação nesse período – por conta do lockdown –, também diminuíram as despesas, haja vista que muitos dos serviços que deveriam ser prestados deixaram de ser realizados.

Mas o conceito do princípio federativo é esse mesmo. O Brasil é um grande país, com entes federativos autônomos em determinadas competências e que devem ser socorridos pela União nas dificuldades. E ao longo dos anos tem sido sempre assim: socializam as dificuldades e mantêm a individualidade no período de bonança. É o mesmo que fazer mesura com o chapéu alheio.

De vez em quando nos chegam notícias de que determinados municípios ou estados resolvem “apertar os cintos” com a finalidade de equilibrar as contas, restringindo as despesas, para o desespero de alguns setores. Como costumo repetir, instituições públicas não recebem herança, não fazem grandes negócios e tampouco ganham milhões nas diversas loterias coordenadas pela Caixa Econômica Federal, que dirá no jogo do bicho.

Os que resolvem partir para o caminho do equilíbrio sempre se dão bem, com resultados positivos após o fechamento de torneiras, nas quais despejavam o dinheiro do coitado do contribuinte e esvaiam-se as esperanças por um futuro melhor. E o futuro começa a ser presente, com os recursos disponíveis para os investimentos e custeio na máquina pública, antes direcionados para setores nem sempre recomendados.

Mais fácil que “apertar os cintos” é construir a narrativa com os velhos e carcomidos chavões de terem recebido “uma herança maldita”. Como dizem que o feitiço vira contra o feiticeiro, a narrativa se perpetua pelos quatro anos de desesperança. E o motivo é simples: a cada 10 dias chega uma parcela do Fundo de Participação; todas as terças-feiras é depositado o ICMS, todos os dias pinga o pagamento de tributos municipais. Cofres sempre cheios.

Uma vida bem diferente da iniciativa privada, em que o empreendedor tem que “matar um leão por dia” (não me levem a mal, é apenas no sentido figurado) para que possa abrir as portas do seu negócio no dia seguinte. Paga os impostos, os funcionários, os fornecedores, o aluguel do imóvel e, caso sobre algum trocado, investirá na aquisição de alimentos, vestuários, escolas de filhos, dentre as demais obrigações familiares.

Pra não dizer que esqueci dos R$ 16 bilhões da medida provisória, para os municípios esses recursos chegam na hora H, agora que falta um pequeno tempo para as eleições municipais e poderão ter outro destino que não aquele prioritário. Em outros, por certo, chegarão em boa hora e serão providenciais para o atendimento das necessidades mais prementes da população.

Em alguns municípios o caixa da saúde está superlotado, acumulado desde os primeiros repasses do governo federal nas contas bancárias, embora a destinação correta deveria ter sido a aquisição de equipamentos e medicamentos para a prevenção da Covid-19 e o protocolo precoce. Apesar do carimbo, muitos gestores dão pouca importância à seletividade por confiar nas engenhosas prestações de contas.

As eleições se aproximam e os cuidados com as despesas devem ser redobrados, notadamente nos municípios que muito recebem e utilizam esses recursos de forma estropiada e eleitoreira. No meio político existe um ditado considerado infalível, que diz mais ou menos isso: O prefeito sai da prefeitura, mas a prefeitura nunca sai dele, é uma cumplicidade que dura para o resto da vida.

Espero que isso nunca aconteça, mas…

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

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De vez em quando faz uma vítima. Uns pelas visitas da Polícia Federal e Ministério Público, outros pela perda do cargo e dos valores em reais e dólares que costumam guardar em casa.

 

Walmir Rosário

O Coronavírus chinês está dando o que falar em todo o mundo, mas no Brasil chegou às raias do absurdo, pois deixou de ser tratado como doença e a Covid-19 perdeu seu status de exclusividade na ciência médica e biológica. A cada dia estou mais convencido que o ex-presidente francês Charles De Gaulle teria mesmo dito aquele célebre frase, desmentida exaustivamente: “O Brasil não é um país sério”.

Não quero criar polêmica com ninguém, nem os historiadores que dedicaram anos de pesquisa para descobrir se a verdade era mesmo verdade, ou seria mais um caso de fake news (e olha que esse nome era só coisa de americano). Tampouco quero confusões com os médicos, aqueles que costumeiramente costumam enterrar seus erros, como teria dito o Barão de Itararé, ou outro confusento qualquer deste país.

Mas, como ia dizendo, esses estrangeiros não conhecem o Brasil e pensam que tudo por aqui funciona como conforme os costumes ou ao pé da letra na medida do planejado pelos nossos especialistas. Erroooouuuuu, como gritava a pleno pulmões o ex-árbitro de futebol e comentarista esportivo radiofônico Mário Vianna (com dois enes). Aqui a parada é mais embaixo e vai funcionar como a turma decidir.

Pra começo de conversa, a Covid-19 perdeu todos os status que ostentava e ainda ostenta no exterior. Primeiro, na economia passou a ser uma simples estatística, mesmo assim sem credibilidade, cujos números são questionados a três por dois, como diziam os vendedores de bala de antigamente. Se pensava que destruiria o antes frágil mercado brasileiro, quebrou a cara. Nunca se consumiu tanto e com tanta seletividade.

A cada manchete que lemos o balanço das exportações nos dá um monte de vantagens nas vendas ao exterior, como não víamos há dezenas de anos. Classificaram a carne e vegetais como suscetíveis ao vírus, mas esses produtos nem deram bola e desembarcam no costado dos transatlânticos dia e noite rumo a outros países. Nunca se fez tanto churrasco e até o leite se revigorou, pois não se vê mais choradeira dos pecuaristas.

Se estamos exportando a todo o vapor, o consumo interno é dos melhores. As cervejarias estão dando risadas e batendo recordes de produção. Nunca os repositores de supermercados trabalharam tando para repor as mercadorias e já pensam em pedir aumento de salário. Também, o dia inteiro em casa sem ter o que fazer… Quer dizer, menos a turma do home office, que tem que entregar sua produção.

Na medicina não deixou por menos e criou um bate-boca dos diabos (cruz-credo) entre os profissionais da medicina, que ainda aos 60 minutos do segundo tempo não conseguiram marcar o gol da vitória. A cada chute pra frente, com todo o apoio das torcidas, não conseguem fazer com que a bola chegue às redes. E catimba é que não falta nesse vai e vem de jogo duro. Bola pro mato que o jogo é de campeonato.

Pelo visto, as mudanças também são vistas a olho nu nos campos da sociologia e antropologia, com as desobediências às ordens gerais do fique em casa, que não pegou como queriam. Ora, aqui é o Brasil. Tem coisa que pega, outras não, a exemplo das leis ordinárias (fico em dúvida se a palavra ordinária não seria na frente da palavra lei, mas deixa pra lá) e a constituição. Sem falar nas quarentenas solidárias e comunitárias.

Estrago mesmo a Covid-19 causou foi na política. Coisa nunca vista desde o Império até a República, passando pelos períodos mais crespos. Não há fundamento de marketing que resista por muito tempo. Com as redes sociais em pleno movimento, os dedos trabalham nas telas dos smartfones com mais velocidade e precisão de que os consagrados mocinhos americanos nos gatilhos dos revólveres nos filmes de faroeste.

E de vez em quando faz uma vítima. Uns pelas visitas da Polícia Federal e Ministério Público, outros pela perda do cargo e dos valores em reais e dólares que costumam guardar em casa. Enquanto uma nova turma nada de braçadas em mar de almirante, sem se preocupar com o peixe que está vendendo, entregue sem qualquer tipo de embalagem bonitinha e ou cheirosinha.

Sem tirar a lente da câmera dos smartphones em direção às autoridades um só segundo, nem mesmo aquelas fotos para pose na hora da vacina são vistas e “engolidas” sem mais nem menos. Na mesma hora, uma equipe de especialistas é posta em ação, e os mínimos detalhes são analisados tintim por tintim, pelos mais variados ângulos, de forma meticulosa, para saber se a agulha perfurou ou não a epiderme e derme do indivíduo.

Em alguns casos, como aconteceu com o mais marqueteiro dos governadores, os especialistas descobriram que a foto não era da aplicação de uma vacina chinesa contra a Covid-19 (valha-me Jesus!) e sim de uma reles vacina contra a gripe, uma gripezinha qualquer. Como se isso não bastasse para o trabalho de desconstrução, os especialistas ainda descobriram que a foto foi clicada em data retroativa. Bastou cruzar os dados.

A Covid-19 que se cuide, seus dias estão contados. Assim espero.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.