Marcos Bandeira é membro da Academia de Letras de Itabuna (Alita), advogado, professor de Direito e juiz aposentado
Tempo de leitura: 9 minutos

Antônio Presépio se esmerava nas espécies de torturas cometidas contra Luan, que chorava copiosamente, apoiando-se nas muletas. No local, apenas o barulho provocado pelas rãs e a escuridão sem fim.

 

Marcos Bandeira

O sol ainda brilhava no crepúsculo, quando Luan resolveu ligar para sua mãe Margarida, funcionária pública, que estava saindo do trabalho na prefeitura municipal de Albedaran. O motivo do telefonema era para que sua mãe comprasse o leite de Malu que havia acabado. Luan estava em casa sozinho tomando conta de Malu, sua filha com apenas dois anos de idade, e também se recuperava de uma fratura na tíbia, provocada por uma disputa de bola num jogo de futebol que ainda o obrigava a andar com o auxílio de uma muleta.

O dia escurecia rapidamente e um vento frio penetrava no quarto de Luan, situado no 1º andar de um prédio antigo, com uma garagem na parte térrea, e ao lado uma escada que levava ao 1º pavimento, onde Luan morava com a mãe, a avó e uma filha, fruto de um romance passageiro.

Luan era um jovem branco, com estatura mediana, vinte e dois anos de idade, estudava Direito e trabalhava como publicitário na agência “Midia em Ação” situada no centro da cidade. Sua mãe, Margarida, era divorciada, trabalhava na prefeitura havia mais de vinte e cinco anos e possuía cinquenta anos de idade. Ela mantinha uma relação muito afetiva com Luan, seu único filho. A avó de Luan, com os cabelos totalmente grisalhos, já tinha setenta anos de idade e adorava o neto, com quem sempre conversava e contava histórias. Agora, com a chegada de Malu, todas as atenções se voltaram para a pequena.

O telefone continuava chamando. A campainha tocava, chamava, chamava, mas sua mãe não atendia. Certamente estava no silencioso. Depois de sucessivas chamadas Luan acabou desistindo..

Esse momento foi crucial, pois se a mãe de Luan tivesse atendido ao telefone, certamente os fatos se desenrolariam de forma diferente. Luan pensava: “poxa, por que mãe não atendeu? Daqui a pouco vai fechar o mercado e Malu não pode ficar sem leite”. Luan estava angustiado, pois estava sozinho em casa com sua filha e sua avó também havia saído. A noite já se precipitava e sua mãe não chegava.

Decorridas mais de duas horas, Margarida, visivelmente cansada, chegou em casa e pegou sua neta Malu no colo. Nesse momento, Luan se dirigiu a ela e perguntou: o que foi que houve que a senhora não atendeu ao meu chamado de telefone? Liguei várias vezes. Era para comprar o leite de Malu!

Margarida respondeu: Oh, meu filho me perdoe! Deixei o celular no silencioso no carro e fui fazer umas compras. Estou vendo agora que tem várias chamadas, me perdoe meu filho. Vixe, meu filho, então eu vou comprar!

Luan retrucou: de jeito nenhum! A senhora está exausta, e eu já estou bem; posso perfeitamente dirigir e ir até no Mercado Popular, aqui pertinho, comprar o leite de Malu.

Margarida não insistiu. Estava muito cansada. Havia trabalhado duramente o dia todo. De qualquer forma, o mercado fica aqui perto. Luan pegou as chaves do carro e com o auxílio das muletas passou a descer as escadas em direção ao veículo.

Acomodou-se na poltrona do motorista e ligou a ignição, deixando as muletas na poltrona do carona. Seguiu em direção ao Supermercado Popular, que ficava situado no mesmo bairro onde morava, Palestina.

Eram 19h45 e o Supermercado Popular já estava com as portas semicerradas. Luan taxiava nas imediações para estacionar o veículo. Nesse mesmo momento, uma viatura, com dois policiais militares trafegava pelo bairro Palestina, quando recebeu uma informação de que naquelas imediações havia dois elementos suspeitos num veículo HB20 branco, coincidentemente, a mesma marca e cor do veículo guiado por Luan.

Na vida acontece coisas, que muitas vezes encontram alguma explicação num detalhe, ou numa terrível coincidência, quando o vento do destino muda completamente a vida das pessoas. A vida de Luan estava marcada pelo destino. Ali, naquele momento, tudo poderia mudar… e mudou!

A viatura se aproxima do Mercado Popular e os dois policiais observam um veículo Hb20 parado em frente ao estabelecimento, que já estava fechando. Já eram 20h a noite estava fria. A rua, iluminada apenas por um poste distante cerca de dez metros, trazia pouca iluminação para o local, que estava quase deserto, à exceção de alguns transeuntes que passavam indo para suas casas.

Luan saiu do Mercado, caminhando com o auxílio das muletas e segurando o leite de Malu, dirigiu-se ao seu veículo, quando foi abordado pelo policial Antônio Presépio, alto, negro, com quarenta e dois anos de idade, conhecido matador, frio e calculista, que já contava à época mais de trinta mortes nas costas, entretanto, nunca fora punido. Diz-se que tem um coronel padrinho que o protege. As famílias das vítimas também, com medo de morrer, acabavam silenciando.

Antônio Presépio abordou Luan e com a arma na mão perguntou: cadê o seu comparsa? Vamos, rapaz, diga logo, senão você vai morrer!

Luan, apoiando-se nas muletas, responde: eu não tenho nenhum comparsa. Eu vim aqui para comprar o leite de minha filha. E mostrava a lata de leite.

Antônio Presépio, bastante irado, ordenou: deixe de conversa mole, rapaz. Entre aí no veículo e me dê as chaves. Luan entregou as chaves e ficou do lado do carona. Antônio Presépio dirigiu o veículo, enquanto o outro colega, Luiz, dirigia a viatura. Os veículos foram em direção à Ponte da Ilha, distrito rural, distante mais de 6 km da sede, com apenas uma ruela no meio do matagal na escuridão daquela noite fria.

Luan não estava entendendo nada, e pensava consigo mesmo: “esses caras vão me matar”!

Voltou a falar para Presépio: eu não fiz nada. Por que vocês estão me trazendo para aqui? Não deveria ser para a Delegacia?

Antônio Presépio, então falou: “Vamos ter uma conversinha primeiro!”

Os veículos pararam, numa parte da estrada, distante um pouco do povoado, e Antônio Presépio arrancou violentamente Luan do veículo e o empurrou com muleta e tudo no chão, dizendo em alto som: “agora, você vai me dizer quem estava com você no seu carro. Vamos, rapaz, diga logo, senão você vai morrer aqui!

Luan voltou a dizer que o veículo era de sua mãe e que estava sozinho no carro, mas Antônio Presépio não acreditava no que ele falava e passou a esmurrar Luan, que pulava com um pé só, segurando a muleta, caindo no chão novamente.

Antônio Presépio tentava puxar as unhas de Luan com um alicate. Luan começou a chorar de dor, quando recebeu um golpe no pescoço e caiu novamente no chão.

Antônio Presépio continuava a torturar Luan, Luiz Santos, seu colega, manuseava o celular, quando, de repente, recebeu uma mensagem de Whats App informando sobre a abordagem que acontecera em frente ao supermercado Popular.

Enquanto isso acontecia na Ponte da Ilha, um transeunte que passava pela rua do Supermercado Popular, no momento em que Luan era abordado pelos policiais, passou na casa de Luan e avisou à mãe dele: “A polícia prendeu Luan em frente ao Supermercado Popular. Acho que o levou para a Delegacia”.

Margarida, bastante nervosa, entrou em contato com sua amiga Cecília, que é investigadora policial e trabalha na Polícia Civil, informando sobre a prisão de Luan. Inicialmente achou que fosse porque Luan estava sem a carteira de habilitação, já que ele pegou o veículo apenas para comprar o leite de Malu. Imediatamente, pegou um uber e foi para a Delegacia de Albedaran, enquanto Cecília colocava uma mensagem pelo WhatsApp no grupo de policiais militares comunicando a prisão de Luan. Foi essa a mensagem que Luiz Santos, parceiro de Antônio Presépio, recebeu em seu celular.

Antônio Presépio se esmerava nas espécies de torturas cometidas contra Luan, que chorava copiosamente, apoiando-se nas muletas. No local, apenas o barulho provocado pelas rãs e a escuridão sem fim. Antônio Presépio pegou uma pistola 40 e mandou Luan segurá-la. Luan, com muito medo e chorando, segurou a pistola. Neste momento, Luan pensou: “Eles vão me matar. Agora, tenho certeza. Depois vão justificar que eu estava portando uma arma e resisti à prisão”.

Nesse momento, Luiz Santos chamou Antônio Presépio e disse, mostrando o celular: “olhe aqui. Já sabem que estamos com o garoto. Temos que levá-lo para a Delegacia. Agora, temos que encontrar uma justificativa. Antônio Presépio se dirigiu até a viatura e, na parte de trás do veículo, dentro de uma sacola, pegou um pacote de cocaína, com uma embalagem vermelha com alguns detalhes, que havia sido apreendida dois dias antes, no centro de Albedaran. Havia várias sacos de cocaína, mas pegou apenas um deles. Saiu da viatura e foi direto para o veículo de Luan onde plantou a droga.

Antônio Presépio tinha o modus operandi já conhecido, de plantar drogas em veículos e imóveis de pessoas perseguidas pela Polícia. Na semana passada, ele adentrou num edifício no centro da cidade, onde foi surpreendido e filmado plantando drogas na casa do suspeito, que fora preso, mas logo liberado pelo juiz, após ter acesso a essas imagens. Apesar disso, ele continuava se escudando na farda da Polícia e protegido por pessoas poderosas da própria Polícia, onde tinha licença para matar. Estava certo da impunidade e assim, continuava sua caminhada criminosa, maculando a boa imagem da briosa corporação.

Antônio Presépio pegou Luan pela gola da camisa e violentamente o jogou no banco de trás da viatura, e voltou-se para o veículo de Luan, guiando-o em direção à Delegacia.

Margarida estava muito nervosa e a toda hora olhava o relógio. Já estava na Delegacia há mais de uma hora e nada de notícia de seu filho. À medida que o tempo passava, mais aumentava a sua apreensão. Finalmente, estava chegando uma viatura. Margarida viu Luan no banco de trás, algemado. Logo atrás da viatura chegava também o seu veículo, guiado por outro policial.

Na Delegacia, Antônio Presépio apresentou Luan e a droga – um saco de cocaína – ao Delegado, dizendo: É um flagrante de tráfico de drogas. Pegamos essa droga no veículo dele, Dra.

Luan chorava, e disse: Não é verdade! Essa droga não é minha. Eu não mexo com isso! Antônio Presépio retrucou: cale a boca, vagabundo. Você está preso!

Margarida tentou entrar na sala da Delegacia para ver seu filho! O Delegado permitiu e ela procurou saber o que havia acontecido. Luan apenas chorava e dizia que não fez nada.

Não houve jeito. Luan foi preso e flagrado por tráfico de droga. Após ser ouvido, foi encaminhado para o Presídio de Itabuna. A mídia, principalmente, a sensacionalista, proclamava aos quatros ventos: Polícia prende o estudante de Direito, Luan, traficante de drogas. O traficante estava portando um kg de cocaína e foi conduzido para o Presidio de Itabuna.

E assim, o destino se encarregou de mudar a vida de Luan. Um jovem estudante de Direito, que trabalhava com publicidade, e que nunca havia se envolvido com drogas ou qualquer crime. Seu único hobby era jogar futebol. Foi jogando futebol que fraturou a tíbia, de cuja lesão estava se recuperando. Agora, o estudante, trabalhador e pai de uma menina de dois anos, era traficante e estava preso! A segunda notícia não importa, ninguém lembra. A pecha de um jovem envolvido com a droga é que fica.

Luan já estava preso havia três meses e não conseguia recuperar sua liberdade. A mãe de Luan então contratou um advogado experiente, Dr. Filgueiras, criminalista, cuja primeira atitude foi visitar o cliente no Presídio. Lá chegando, depois de passar pela fiscalização dos agentes, dirigiu-se ao parlatório, quando conheceu e conversou com Luan. Este disse, com lágrimas nos olhos: “Doutor, acredite em mim. Sou inocente, estou limpo. Eles plantaram essa droga no carro de minha mãe. Tudo não passou de 10 minutos, quando saí de casa e fui abordado por esses policiais.

Dr. Filgueiras respondeu: Eu acredito em você. É por isso que estou aqui. Agora, eu quero que você me fale tudo o que aconteceu.

Luan passou a contar com detalhes toda a história, até que o Dr. Filgueiras se desse por satisfeito. Já ia se retirar, quando Luan disse: “Espere um pouco, Dr. Por favor, me tire daqui. Não é só por mim não. É por minha mãe e minha avó, que sofrem muito por me verem aqui, além de passar por muitas humilhações. Por favor, Dr. me ajude! Sensibilizado com a ponderação do garoto, disse o seguinte: Vou lutar por você, vamos ver o que podemos fazer. Um abraço.

Dr. Filgueiras ingressou com um pedido de revogação de preventiva e juntou provas muito fortes, inclusive provou que a droga plantada possuía o mesmo invólucro das drogas que foram apreendidas na casa de um traficante pelo mesmo Antônio Presépio, inclusive com as imagens de outra abordagem feita pelo referido policial, quando foi filmado plantando a droga no apartamento de um perseguido pela Polícia.

Próximo do Natal, ainda na rua, Dr.Filgueiras recebeu a notícia de que o juiz havia revogado a prisão de Luan. No escritório de Dr. Filgueiras, todos: advogado, estagiário e funcionários, estavam vibrando com a soltura do rapaz, pois se tratava de celebrar a vitória de um inocente.

Dias felizes. Margarida apareceu com Luan para conversar com Dr. Filgueiras. Luan narrou toda a história. Disse que voltaria à sua vida normal, retornando à Faculdade de Direito. O Dr. Filgueiras recomendou cuidados, no sentido de evitar o máximo de sair de casa. E assim aconteceu, Luan voltou para o aconchego de seu lar, abraçando a sua filhinha Malu, que já estava sentindo falta do pai. Vida que agora, seguia normal. E uma injustiça reparada!

O tempo passou e Luan estava muito empolgado com o curso de Direito, onde tirava boas notas e era sempre elogiado pelos professores. Transcorrido quase quatro meses depois que saiu do cárcere, numa noite de abril, Luan pegou sua moto e foi para a Faculdade estudar. Nesse dia ele iria fazer uma avaliação. E assim o fez. O professor despediu-se dele que foi para o pátio da faculdade e ligou sua moto para retornar à sua casa.

Os ventos fortes do destino ainda não haviam se acalmado. Luan, no instante em que ligou a moto de volta para casa não sabia o que lhe esperava. Só não via a hora de chegar em casa, pegar Malu no colo e depois dormir a seu lado. A moto saiu da faculdade. A noite já estava mais fria, pois caía uma chuva fina. Uma moto, a escuridão, o Terminal Rodoviário e um tiro no escuro. A moto se desgovernou e caiu. Havia um corpo estendido no chão. Luan no chão enquanto o sangue escorria. As pessoas se aglomeravam em torno do corpo que agonizava. Alguns tiravam fotos. Vida interrompida!

Adeus Malu, adeus sonhos dourados, adeus o projeto de ser advogado um dia, adeus minha mãe, adeus minha avó! Adeus vida cruel e estúpida! Fui engolido pelo destino. Antônio Presépio realizou o seu desejo de me expulsar deste mundo e aumentou ainda mais o número de suas vítimas!

O celular encontrado com Luan constavam mensagens dando conta de que Presépio estava atrás dele. Ele havia passado uma mensagem para o pai, que era separado da mãe e morava no Rio de Janeiro, informando isso e pediu para que o pai não informasse à mãe para não preocupá-la. Ele sabia que Presépio estava lhe perseguindo, mas não acreditava que ele fosse capaz de lhe matar.

Infelizmente, nada poderia ser feito. A mãe procurou o Ministério Público para denunciar, mas a investigação não evoluiu. Presépio continua praticando seus crimes contra pessoas inocentes, escudado e protegido pela sua farda! Vida que segue… e vidas que continuam sendo interrompidas!

Marcos Bandeira é advogado, professor, juiz de Direito aposentado e membro da Academia de Letras de Itabuna (Alita).

Mesa da Diretoria aos sábados na Fuxicaria do Beco
Tempo de leitura: 4 minutos

 

Somente dois bastiões seguraram as pontas: o Caboclo Alencar, do ABC da Noite, fundado em 28 de julho de 1962, e Eduardo Gomes (nome de Brigadeiro) do Artigos para Beber. E seguraram as pontas mesmo, Caboclo Alencar à esquerda no primeiro quarteirão, no baixo beco; Eduardo Gomes à direita no terceiro quarteirão, no alto beco.

 

Walmir Rosário

É caso pra se pensar, mas não creio que tenha nada a ver com a mitologia grega. Acredito que seja apenas uma simples coincidência comparar a situação atual do Beco do Fuxico, em Itabuna, com o ressurgimento da Fênix, tal e qual as aparências. Não duvido que seja algum projeto saído da prancheta de algum conceituado marqueteiro, daqueles que têm o hábito de frequentar botecos.

O certo é que as mudanças foram profundas, bem fundadas e o “novo” Beco do Fuxico já pode ser considerado um perfeito case de sucesso. Há pouco tempo passava por uma crise interminável, daquelas que obrigaram o fechamento das portas dos bares, o fim do negócio, provocando um divórcio entre os donos dos botecos e os fidelíssimos clientes.

É que o peso da idade foi chegando como quem não queria nada, afastando alguns, de forma definitiva, aposentando outros, causando um prejuízo incalculável nos clientes, que mais do que de repente, ficaram solitários, perdendo seu personal boteco, e o segundo lar. E o mais grave: desagregando uma legião de amigos, irmãos, melhor dizendo.

Há anos que o Beco do Fuxico participa ativamente como personagem vivo e atuante da história de Itabuna. Deixou-nos Pedrão, Itiel, Dortas, Mota, Mário, Batutinha fechou as portas e guardou o saxofone, deixamos de sentar nos sacos de feijão, arroz e farinha de Alcides Rodrigues Roma, lamentávamos o fim do Quitandinha, e até a Confraria do Alto Beco do Fuxico foi fechada com a mudança de José D’Almeida Senna para Salvador.

Somente dois bastiões seguraram as pontas: o Caboclo Alencar, do ABC da Noite, fundado em 28 de julho de 1962, e Eduardo Gomes (nome de Brigadeiro) do Artigos para Beber. E seguraram as pontas mesmo, Caboclo Alencar à esquerda no primeiro quarteirão, no baixo beco; Eduardo Gomes à direita no terceiro quarteirão, no alto beco.

E o Caboclo Alencar, do alto dos seus 94 anos completados com festa em 2 de fevereiro, dia dedicado a Iemanjá, decidiu dar um freio de arrumação no ABC da Noite, criando uma consternação em seus alunos repetentes. Por ordens médicas, o “caboco” estava com as pernas cansadas, e mesmo assim, em respeito aos clientes, passou a abrir apenas aos sábados, das 10 às 13 horas.

E logo o ABC da Noite, famoso por seu rigoroso horário de atendimento aos clientes, conforme a placa de bronze afixada na parede. De segunda a sexta-feira: das 11 às 12h30min, e das 17 às 19 horas; aos sábados das 11 às 12h30min; sem expediente aos domingos. Não deu outra, as reclamações vieram de pronto, pois os alunos não sabiam onde frequentar nos dias de semana.

Clientes fidelizados se comunicam em grupos de whatsapp

E aí é onde entra o tal do projeto de marketing de Erick Senna, logo após a decisão de seu tio José Senna se mudar para a capital. Bem coladinho com o ABC da Noite, na esquina com o Calçadão da Ruy Barbosa, inaugurou a Fuxicaria do Beco, um bar sem espaço para os clientes de pé do balcão, porém com muitas mesas ao ar livre, no Calçadão, em meio do povo.

E não é que os confrades do Alto Beco do Fuxico atenderam aos reclames de Erick Senna e desceram a ladeira, especialmente aos sábados, os quais abancados nas extensas mesas discutem desde parto de elefante às ações de Donald Trump, sem a menor cerimônia. O debate político voltou a ganhar seu espaço ao som de renomados músicos, da forma mais democrática possível, como nos velhos tempos.

Músicos renomados se apresentam no coreto Caboclo Alencar

Música ao vivo, sim, e para tanto está presente o coreto batizado Caboclo Alencar, homenagem mais que justa, diria justíssima, ao alquimista das tradicionais batidas, que abriu mão de ser coroado Rei do Beco do Fuxico, como queria Roberto Carlos Goodygroves Bezerra, o Dr. Malaca, quando da instituição da Lavagem do Beco do Fuxico.

E assim, grande parte da Confraria do Alto Beco do Fuxico se mudou para a Fuxicaria do Beco, dando uma no cravo e outra na ferradura, melhor dizendo: se abastece das encantadoras batidas do Caboclo Alencar, enquanto degustam cervejas e outras bebericagens. E o Beco do Fuxico voltou aos seus gloriosos tempos em que comercializavam a amizade e a alegria engarrafadas.

A fidelidade dos clientes é de tamanha monta que eles utilizam a tecnologia das redes sociais para se comunicarem com o grande público, e entre si por meio do Whatsapp. As diversas tribos atendem no zap pelos nomes de Confraria do Alto Beco do Fuxico, Amigos do Beco do Fuxico, Grupo da Fuxicaria do Beco e até o inusitado Bodes do Caboclo, este exclusivo dos maçons frequentadores.

Sempre que posso ir a Itabuna num sábado não deixo de rever os amigos e confrades, jogando conversa fora, às vezes solucionando os problemas do mundo de uma só canetada. E foram justamente a Fuxicaria do Beco e o ABC da Noite que escolhi como palco para lançar os meus livros Crônicas de Boteco – um guia sem ordem e Como Sobreviver à Pandemia, em grande estilo, em meu segundo lar.

De minha parte, desejo sucesso ad aeternum.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de  autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

Fotos Acervo José Nazal
Foto Acervo José Nazal
Tempo de leitura: 4 minutos

 

 

 

Por tanto, comemoramos hoje os 50 anos da volta do nosso Amado Jorge a conviver com Ilhéus. Com ele e Zélia, vieram João Jorge e Dora, filho e nora; Paloma, filha; James e Luiza, irmão e cunhada; Calazans Neto e Auta Rosa, amigos íntimos.

 

 

José Nazal Pacheco Soub

No mês de agosto de 1912, nasceu Jorge Amado. No mês de agosto de 1975, Jorge Amado voltou a conviver com Ilhéus, como amigos de longas data e muitos admiradores. No mês de agosto de 2001, faleceu Jorge Amado.

A importância desse escritor para Ilhéus é imensurável. Penso eu que todas as homenagens já lhe feitas e as que vierem são poucas para devolver a Jorge o quão bem ele fez a nossa terra, tornando-a conhecida em quase todos os confins da Terra. Seu nome está registrado na Rua Jorge Amado, Casa Jorge Amado, Rodovia Jorge Amado, Dia Jorge Amado, Mirante Jorge Amado, Ponte Jorge Amado, Rotary Clube Jorge Amado e Escola Jorge Amado. Parece muito, mas é pouco, se comparado com o número de dezenas de países, milhares de cidades e milhões de leitores que tiveram conhecimento de que Ilhéus existe e que é uma terra cheia de história, magia, de um povo maravilhoso.

Dentre os romances brotados da mente brilhante do grapiúna Amado, nascido em Itabuna e crescido em Ilhéus, talvez o mais importante e conhecido seja Gabriela, Cravo e Canela, lançado em 1958, quando o Brasil vivia os anos dourados do governo de Juscelino Kubitscheck, mas com o cacau atravessando momentos de crise, resultando na criação da CEPLAC. O romance caiu como uma bomba, causando grande frisson entre a sociedade ilheuense, que tentava identificar quem seria cada personagem do livro com alguém da cidade.

Depois do sucesso de Gabriela, Jorge Amado e Zélia Gattai visitaram Ilhéus em 1960, trazendo o casal Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre para conhecer nossa cidade. Fizeram visita ao porto em construção, uma fazenda de cacau, na companhia de Wilson Rosa e Moisés Alves, e encerraram o dia jantando a convite de Sá Barreto, na residência do casal Anacélia e João Diogo Soub, na então Avenida Bahia, Cidade Nova.

Meses após essa visita do casal Amado a Ilhéus, o cronista água-pretense Jorge Emílio Medauar escreveu uma matéria em revista de circulação nacional, muito famosa na época, ligando os personagens do livro a pessoas da vida real, causando um grande alvoroço na conservadora sociedade ilheuense, com muita gente se sentindo ofendida. A partir desse episódio, os dois Jorge passaram a ser malvistos pelas famílias cujos nomes apareceram na matéria. Daí em diante não mais voltaram a Ilhéus.

Em 1974, a Rede Globo decidiu reproduzir a história do gringo Nacib e da retirante Gabriela em novela e, para tanto, deram início às pesquisas, resultando na visita da equipe técnica da emissora à terra do Vesúvio, do Bataclan e do cacau. Lembro-me com segurança do momento em que estiveram na residência de minha avó Esther, na Boa Vista. Foram Walter George Durst, Walter Avancini, Edwaldo Pacote, Kaká e Mário Monteiro, dentre outros. A novela não foi gravada em Ilhéus, e sim numa cidade cenográfica, salvo engano, em Guaratiba, Rio de Janeiro. Reproduziram fielmente o traçado das ruas e das construções, com base em antigas fotos da cidade.

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A novela foi ao ar em 1975, com sucesso absoluto de audiência, especialmente em Ilhéus, sendo estrelada por Sonia Braga e Armando Bogus, levando o nome de Ilhéus a todos os recantos do Brasil. Com o advento desse sucesso, Raymundo Pacheco Sá Barretto, o “último dos coronéis”, segundo Jorge Amado, escreveu para o seu amigo, convidando-o para receber homenagens em Ilhéus. Em 29 de julho, Jorge confirmou que aceitaria, sugerindo os três finais de semana de agosto como opção. Ficou acertado para os dias 30 e 31 de agosto.

Por tanto, comemoramos hoje os 50 anos da volta do nosso Amado Jorge a conviver com Ilhéus. Com ele e Zélia, vieram João Jorge e Dora, filho e nora; Paloma, filha; James e Luiza, irmão e cunhada; Calazans Neto e Auta Rosa, amigos íntimos. Vieram também os atores globais: Paulo Gracindo, Sônia Braga, Armando Bogus, Elizabeth Savalla, Marcos Paulo, Ana Maria Magalhães, Fúlvio Stefanini, Rafael de Carvalho, Jorge Cherques. Todos ficaram hospedados no Britânia Hotel.

No sábado (30), houve um jantar no Clube Social de Ilhéus e, no domingo (31), festa com a colocação da placa na Rua Jorge Amado, na Boa Vista (somente depois houve a troca com a rua 28 de junho), além de uma escultura do artista plástico Tatti Moreno, infelizmente destruída por vândalos. Tive a honra e o privilégio de registrar o feliz momento.

De lá para cá, Jorge veio algumas vezes a Ilhéus, a convite oficial ou por iniciativa pessoal, sempre acompanhando Sá Barretto, eu estive junto. Uma das vezes, o casal Zélia e Jorge não pisaram na cidade, pois estavam a bordo do Funchal, seguindo para a Europa. Convidaram Sá Barretto para o café e lá fui eu a reboque. Entramos no navio às 8h e o café se estendeu até às 12h. Foi um momento ímpar, indescritível. O que mais me impressionou foi o tanto de assunto que conversaram, que reviveram. Agradeço a Deus por tanto e por tanta dádiva.

José Nazal Pacheco Soub é fotógrafo, memorialista e autor do livro Minha Ilhéus – Fotografias do Século XX e um pouco de nossa história, lançado pela Via Litterarum.

Prédio e equipe do lendário Baby Beef de Itabuna || Montagem Walmir Rosário
Tempo de leitura: 4 minutos

 

 

 

No dia seguinte, na primeira aula, às 7h30min, o professor de Direito Civil, o então juiz do Trabalho Érito Machado (depois desembargador presidente do TRT-5), escreveu no quadro os temas da aula, virou-se para os alunos e disse: “Aqui tem uns caipiras que chegaram ao Baby Beef, em Itabuna, sem dinheiro para pagar a conta, como se estivessem na pensão de sua cidadezinha”.

 

Walmi Rosário

Eu sempre utilizo um ditado como modo de conduta: “Não vou a tudo em que sou convidado, muito menos onde sequer fui lembrado”. Por todo esse tempo esse costume não me causou qualquer arrependimento ou dissabor. Sei que não sou um bom conselheiro, pois me faltam predicados, embora não me furte a dar algumas dicas sobre os riscos que podem acometer aos penetras.

Outro comportamento que faz bem a qualquer desprevenido é não aparecer em locais nos quais seus bolsos são desqualificados, monetariamente. Em tempos passados, o velho talão de cheque poderia quebrar um galho no acerto de contas, embora nos dias seguintes fosse ele convidado a comparecer ao banco com os recursos para o competente depósito e cobrir o cheque voador. Hoje não mais, o cartão de crédito é rejeitado na hora e o Pix nem por sonho.

Durante toda a minha vida convivi com amigos de todos os comportamentos. Uns mais afoitos e de boa lábia, cujo poder de convencimento quebrava o mau humor do dono do estabelecimento e o permitia assinar um vale de quitação duvidosa. Um deles, após muitos goles de cachaça e cerveja, não contou conversa e puxou do bolso um talão de cheque e o preencheu com o valor da conta da mesa. Só que era a folha da requisição do talão de cheques, conforme ficou sabendo na segunda-feira, com a visita do dono do bar.

Desses casos coleciono algumas dúzias, mas um deles me chamou a atenção, e dia desses, ainda me fez lembrá-lo o colega causídico Antônio Apóstolo. Éramos estudantes de Direito, nos velhos tempos da Fespi, depois Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc). Estávamos no saudoso Baby Beef, disparado o melhor restaurante que Itabuna “já teve”.

Numa mesa, dois de nossos professores da faculdade, um deles recém-conhecido de dois colegas do curso. Ambos de uma pequena cidade do Recôncavo, e entraram no Baby Beef apenas para conhecer o restaurante, conceituado pelo serviço, comidas e bebidas. O certo é que ficaram embasbacados e começaram a circular entre as mesas, verificando as iguarias.

Ao se depararem com os ilustres professores, na maior inocência resolveram cumprimentá-los. Ao serem reconhecidos, os mestres responderam às saudações e um pequeno bate-papo foi estabelecido. Por educação, acredito, foram convidados a sentar-se à mesa e os visitantes não fizeram cerimônia. O garçom logo providenciou duas taças e pratos para o couvert.

Durante um bom tempo da noite de sexta-feira o quarteto conversou sobre a qualidade do vinho Liebfraumilch (garrafa azul), da comida, e da qualidade dos restaurantes de Itabuna, da faculdade e do que mais lhes apeteciam. E num restaurante da categoria do Baby Beef os solícitos maitre e garçons atentos à mesa, a abasteciam com muita frequência. Comeram um Peixe à Belle Meunière, que consideraram comida dos deuses.

Um pouco depois da meia-noite, bem satisfeitos, os professores elogiam a bela noitada num restaurante de primeira linha e anunciam que iriam embora, pois naquele sábado teriam que ministrar aulas logo nos primeiros horários. Pedem a conta e a conferem assim que chega. Num simples cálculo promovem a divisão equitativa, ou seja, fracionam o total entre os quatros participantes.

Os dois convidados começaram a gaguejar e suar frio, pedindo desculpas por se encontrarem desprevenidos de recursos, em dinheiro ou outro meio de pagamento, pois tinham ido ao Baby Beef apenas para conhecer o conceituado ambiente. Os professores não contaram conversa, pagaram as suas partes e avisaram aos dois alunos que resolvessem o problema com o maitre e partiram.

Atônitos, os dois se dirigiram ao balcão e quase em prantos relataram que não eram de Itabuna, embora gente de bem, estudantes de direito na Fespi, filhos de boas famílias e o único recurso para solucionar o problema seria fazer uma ligação telefônica para a família de um deles. Era a época do telefone fixo, e àquela hora ligaram para o pai, relatando o ocorrido, sendo liberados após a garantia de uma ordem de pagamento urgente na próxima segunda-feira.

No dia seguinte, na primeira aula, às 7h30min, o professor de Direito Civil, o então juiz do Trabalho Érito Machado (depois desembargador presidente do TRT-5), escreveu no quadro os temas da aula, virou-se para os alunos e disse: “Aqui tem uns caipiras que chegaram ao Baby Beef, em Itabuna, sem dinheiro para pagar a conta, como se estivessem na pensão de sua cidadezinha”.

Em seguida, deu início à aula, criando uma apreensão entre os alunos, ávidos em saber quais seriam os personagens descritos pelo mestre. Depois desta lição, nunca mais saíram desprevenidos, financeiramente, para uma noitada, mesmo de reconhecimento.

Walmir Rosário é radialista, jornalista, advogado e autor de  autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

Camacãense, José Cássio Varjão é cientista político com MBA em Cooperação Internacional e Políticas Públicas
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Entre esse pensamento e hoje, já se passaram 30 longos anos e a penumbra cinzenta, que abraça Camacã, nunca se dissipou, continua dizimando nossas expectativas e nossos sonhos.

José Cássio Varjão 

Continuando com o que foi proposto no artigo anterior, tendo como evento principal o decréscimo populacional que o município de Camacã vem enfrentando, de forma mais acentuada, na última década e meia, o que provocou, a perda de duas vagas na Câmara Municipal, trataremos aqui sobre quais ações foram propostas pelas administrações desse período, relativamente a proposições concretas, no sentido de criar planos e metas para acelerar o desenvolvimento econômico local, objetivando mitigar a migração voluntária de parte da nossa população. Baseando-se no ano de 1990, que foi o início da queda da lavoura cacaueira, em 35 anos não seria tempo suficiente para dar um novo rumo na economia de Camacã?

Por dois motivos, decidi fazer a divisão desse material em dois períodos, tendo como base os 64 anos de emancipação política de Camacã. Num primeiro momento, para separar as administrações amadoras, capitaneadas pelos coronéis do cacau e alicerçadas na alta arrecadação de ICM. Em seguida, o período pós-coronelismo, com administrações que não romperam com velhas práticas de governos anteriores, porém foram afetadas pela diminuição gradativa das arrecadações, o que aumenta exponencialmente as dificuldades de governabilidade.

Quero deixar evidente que não falo de pessoas, analiso planos e propostas de governo que, a princípio, deveriam nortear as administrações que passaram pela Prefeitura de Camacã nesse período. Todavia, convém salientar que a determinação da apresentação de um plano de governo no ato de registro de candidatura no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) passou a valer nas eleições de 2012. Essa exigência foi introduzida pela Lei nº 12.034, de 29 de setembro de 2009, alterando a Lei 9.504/97. Mas, como admitir que alguém se proponha a administrar uma cidade sem o mínimo conhecimento e sem ter previamente uma planificação do que pretende fazer e, principalmente, de como fazer?

Quem planta vento, colhe tempestade. Com grandes consequências e nenhuma responsabilização, o rastro de atraso estrutural herdado por Camacã inaugurou o período de penúria, que se acentua cada vez mais. A cidade começa a colher o que “nunca foi plantado” nos primeiros 32 anos, e, juntando os fatores migratórios e econômicos, vários órgãos começaram a deixar a cidade. O que era latente ficou explícito. Como dito anteriormente, a população que já tinha começado uma migração gradual, entre 1980 e 2010, aumentou exponencialmente. Entre 2010 e 2024, apenas 14 anos, 8,7 mil pessoas deixaram Camacã – 27,61% da população. Essas são informações do IBGE. Vale o que está documentado.

A partir da primeira eleição pós-coronelismo, em 1996, os governos, nessa e nas eleições posteriores, trabalharam de acordo com as circunstâncias. Na primeira parte da história política de Camacã, os coronéis, com todas as condições financeiras disponíveis, construíram como destaque dos seus governos uma Fonte de Água Luminosa, que nem existe mais. No período subsequente, até os dias atuais, também nenhuma obra de impacto foi realizada. Os gestores dessa segunda etapa, pós-emancipação, cada um com suas virtudes e seus defeitos, trabalharam dentro das suas possibilidades, fizeram as obras que estavam ao seu alcance, mas nada que mudasse o contexto econômico-social local, causa da forte migração.

Imagem aérea de Camacã, no sul da Bahia || Foto PMC/Divulgação

Como imaginar que a cidade, que já colheu 1,3 milhão de arrobas de cacau, a maior produção de cacau do Brasil, nunca construiu as sedes para os poderes executivo e legislativo municipal? Como imaginar que Camacã, movida, exclusivamente, pela agricultura do cacau, não tenha pleiteado na Ceplac a construção de uma Escola Média de Agricultura Regional da Ceplac (Emarc), que tinha como finalidade formar mão de obra qualificada para a região cacaueira? Não pensaram no futuro dos seus jovens, obrigando-os a sair do município para cursar Técnicas Agrícolas ou Agrimensura em outras localidades. A Ceplac construiu as escolas em Uruçuca, Itapetinga, Valença e Teixeira de Freitas.

A Constituição Federal de 1988, no artigo 29, conferiu aos municípios brasileiros um status de ente federativo autônomo, consolidando sua posição no Estado Democrático de Direito. Essa autonomia se manifesta em três dimensões, a política, a administrativa e a financeira, e garante aos municípios a capacidade de se autogovernarem, elaborando suas próprias leis por meio da Lei Orgânica Municipal, desde que em conformidade com os princípios das Constituições Federal e Estadual. Com isso, os municípios passam a ter competências legislativas para tratar de assuntos de interesse local, promovendo a descentralização do poder e permitindo uma gestão mais eficiente e próxima da realidade de suas populações. A autonomia municipal, portanto, é essencial para o fortalecimento da democracia e para o desenvolvimento local sustentável. O entrave, está na falta de qualificação de parte dos servidores públicos, principalmente nos 2.476 municípios menores de 10 mil habitantes, ou 44,8% das cidades brasileiras, em conjunto a inaptidão para os cargos dos agentes políticos, os gestores municipais.

Na base econômica das pessoas, é primordial uma renda para ter acesso a bens de consumo pessoal, como alimentação, aluguel, vestuário, lazer e outros, com percentual equivalente a 60% dos seus ganhos. Os serviços públicos, como saúde, educação e segurança, que são classificados como bens de consumo coletivos, são compartilhados entre o governo federal, o estadual e o municipal. Como exposto, se a população não tem acesso aos proventos para suprir as suas necessidades pessoais, e essa é uma responsabilidade do município, gerando trabalho e renda, Camacã demonstra que quase nunca correspondeu às necessidades do total da população, ocasionando exclusão social e econômica, motivo do deslocamento populacional interno, ou seja, dentro do mesmo país. A essência desse quesito, está na falta de competência, amparadas por promessas vazias das administrações passadas e atuais, em promover o desenvolvimento econômico do município para além da agricultura. Eis a motivação da migração promovida por quase metade da população nesses últimos anos. Aquela cidade que atraia pessoas até de fora do estado da Bahia, há anos não abraça seus moradores. O desenvolvimento local não se espera, se assume e se constrói.

Reconhecendo o disposto na Constituição Federal, que dá autonomia aos municípios, vamos entender porque determinadas ações devem ocorrer de baixo para cima, da base da pirâmide para o topo, melhor dizendo, partindo dos municípios. Se o Brasil é uma República Federativa, composta por um governo federal, por 27 governos estaduais e por 5.570 governos municipais, de onde deve nascer a resolução dos problemas locais, cada um com suas peculiaridades, o status de sua economia e localização geográfica? O papel dos governos federal e estadual nesse processo, é agir como elemento colaborador dessas realizações propostas pelos municípios. Esperar que saia de Brasília, por parte da estrutura federal ou de parlamentares, a solução dos problemas caseiros de cada um dos 5.570 municípios é engano proposital e inaceitável.

O primeiro passo é sempre fazer a lição de casa. Como legado e como todo processo arcaico, a população de Camacã traz da época do coronelismo a péssima prática de fazer suas compras, inclusive as despesas mensais com alimentação, em Itabuna. Aquela era a época áurea do cacau, do Hipermercado Messias e do Restaurante Baby Beef, portanto, um ambiente para ver e ser visto, (pena não existir celular na época). Eis que, quando se usa o dinheiro auferido em sua cidade, fruto do seu trabalho ou do seu comércio, para gastos em outro local, você fragiliza a demanda do comércio da cidade em que reside, contribuindo para o enfraquecimento econômico local e, consequentemente, para a menor necessidade de empregabilidade nos estabelecimentos locais. Esse costume tem se perpetuado por décadas. Para efeito de comparação, se somente 200 pessoas da sede e dos distritos, gastarem mensalmente em outras localidades R$ 1.000,00, em média com suas despesas pessoais primárias, perfazem R$ 200.000,00 por mês. O total anual será de R$ 2.400.000,00, que deixou de circular no comércio da cidade. Quantos empregos seriam criados com a mudança desse hábito?

Não há economia forte se a base da sociedade for excluída. É ela que dá sustentação ao comércio, é ela que está todos os dias no supermercado, vendendo o almoço para comprar a janta, na padaria, no açougue, fazendo compras, enquanto os mais abastados fazem aplicações financeiras e não geram um único emprego. É a base que dinamiza e movimenta o capital local e, quando essa base não tem renda, quebra-se o ciclo econômico e os reflexos são sentidos por toda a sociedade. Portanto, assim como o sangue precisa se circular para manter o corpo vivo e nutrido, a economia precisa de movimento, com produção, consumo, investimento, crédito e inovação, para manter a sociedade saudável. A primeira ação no sentido de criar emprego em uma localidade é fazer circular nesse entorno toda a riqueza local. Assim sendo, de forma didática, o poder público deveria fazer campanhas de conscientização com a CDL, com a população e com os comerciantes, para que, de um lado, melhores produtos sejam disponibilizados nas prateleiras das lojas e supermercados, com preços adequados e, do outro, a população, instruída para realizar suas comprar no comércio local. Essa é primeira lição, a de casa.

Para efeito de comparação, de acordo com dados de 2024, do IBGE, a cidade de Camacã tinha 22.756 habitantes, dos quais somente 3.692 pessoas estavam ocupadas, um percentual de 16,35% da população, com PIB Per Capta de R$ 11.067,74. Tendo como base o mesmo critério populacional usado no texto anterior, comparamos os mesmos itens das principais cidades baianas margeadas pela BR-101, com Camacã.

Da mesmo forma que o comparativo anterior, Gandu e Itamaraju ficam com os menores índices, pelos mesmos motivos citados anteriormente. Por outro lado, usando como parâmetro o percentual de pessoas ocupadas nas sete cidades citadas, resulta em 22,58% de média. Assim, Camacã precisaria ter, para se equiparar à média obtida, 5.138 pessoas ocupadas, ou seja, mais 1.446 postos de trabalho preenchidos.

No quesito arrecadação, Camacã, que já foi equiparada a Juazeiro, no norte da Bahia, teve receitas brutas arrecadadas no montante de R$ 130.449.684,43 em 2024. Juazeiro, por sua vez, aproveitando o boom da implementação da agricultura irrigada no Vale do São Francisco, a partir da década de 1990, teve como receitas brutas R$ 1.298.063.475.42 também em 2024. Em termos percentuais Juazeiro é o município com a 5ª maior arrecadação no estado da Bahia, Camacã está chegando ao 170º lugar, clarificando que creditar nossas desgraças somente ao declínio do cacau é mascarar a falta de planejamento do poder público local. Com critério idêntico aos anteriores, a arrecadação dos sete municípios margeados pela BR 101 são os seguintes:

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Ivan Maia é presidente da Emasa || Foto Divulgação
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Ainda enfrentamos o imperativo de expandir a rede de coleta e tratamento de esgoto. Esse é um grande obstáculo, mas também uma oportunidade para demonstrarmos resiliência e visão estratégica.

 

Ivan Maia

No próximo dia 28 de agosto, a Empresa Municipal de Águas e Saneamento de Itabuna (Emasa) completa 36 anos de fundação. É com imensa satisfação e orgulho que, como presidente desta instituição, celebro essa data emblemática, que marca não apenas o passar do tempo, mas uma trajetória de dedicação incansável ao bem-estar da nossa comunidade. Fundada no ano de 1989, hoje, mais do que nunca, reafirma seu papel como pilar fundamental para o desenvolvimento sustentável de Itabuna.

Quando olhamos para trás, recordamos uma Itabuna onde o acesso à água era precário e irregular, impactando a qualidade de vida e o crescimento econômico. Graças ao Mais Água, fruto da coragem e ousadia do prefeito Augusto Castro (PSD) e realizado com o fundamental apoio do governador do Estado Jerônimo Rodrigues (PT), mudamos essa realidade, com água de qualidade distribuída todos os dias.

Indústrias, comércios e residências florescem quando contam com um suprimento confiável de água, gerando empregos, atraindo investimentos e fomentando o ciclo virtuoso da prosperidade. A atual fase da Emasa está intrinsecamente ligada ao progresso econômico de Itabuna. Somos o motor invisível que impulsiona o agronegócio cacaueiro, os setores de serviços e industrial e o turismo emergente, garantindo que nossa cidade se posicione como um polo regional atrativo e competitivo.

Essa transformação se alinha perfeitamente aos feitos históricos recentes da administração municipal, sob a liderança do prefeito Augusto Castro, que marcou a primeira reeleição na história de Itabuna, refletindo a confiança da população em uma gestão comprometida com o progresso.

Projetos emblemáticos como o novo aeroporto de Itabuna, que avança de forma acelerada, prometem elevar nossa conectividade aérea. Da mesma forma, as duplicações de rodovias, como a BR-415 entre Nova Itabuna e Nova Ferradas, a BR-101 na zona urbana, e a construção da BA-649 ligando Itabuna à Ilhéus melhoram a logística regional, facilitando o escoamento de produtos e impulsionando a economia. Esses avanços em mobilidade urbana e intermunicipal, sob a coordenação da excepcional secretária de Infraestrutura e Urbanismo, Sônia Fontes, ampliam o potencial econômico. Esses empreendimentos não só fomentarão o turismo e o comércio, mas também demandarão uma infraestrutura de saneamento robusta para suportar o influxo de visitantes e investimentos, área onde a Emasa se destaca como parceira essencial.

Outro marco importante é a criação da Região Metropolitana do Sul da Bahia, uma iniciativa defendida pelo prefeito Augusto Castro desde sua época como deputado estadual. Essa integração de municípios fomentará parcerias em áreas importantes como o saneamento, fortalecendo a posição de Itabuna como centro regional. A Emasa, com sua expertise, será vital para harmonizar os serviços de água e esgoto nessa nova configuração metropolitana, promovendo equidade e desenvolvimento compartilhado.

No entanto, reconhecemos que os desafios persistem, especialmente no âmbito do esgotamento sanitário. Ainda enfrentamos o imperativo de expandir a rede de coleta e tratamento de esgoto. Esse é um grande obstáculo, mas também uma oportunidade para demonstrarmos resiliência e visão estratégica.

A poluição de rios como o Cachoeira e o impacto ambiental decorrente da falta de saneamento adequado afetam não só o meio ambiente, mas também a saúde da população e o potencial econômico do município.

É aqui que exaltamos a competência técnica e o esforço incansável de nossos empregados que, dia após dia, superam adversidades com eficiência, maestria e compromisso. São eles os verdadeiros heróis dessa jornada, aplicando conhecimentos especializados para otimizar recursos, implementar soluções inovadoras e garantir a eficiência operacional. Seu empenho não é apenas um dever funcional, mas uma paixão pelo serviço público que inspira a todos nós.

Olhando para o futuro, a Emasa se posiciona como peça-chave nos projetos que moldarão o amanhã de Itabuna. No momento em que o município está atualizando o Plano Municipal de Saneamento Básico, instrumento essencial que identificará alternativas viáveis para investimentos direcionados à universalização dos serviços prestados. Esse plano, alinhado à legislação federal e às demandas locais, pavimentará o caminho para parcerias, captação de recursos e a adoção de tecnologias sustentáveis.

A Emasa, com sua destreza técnica acumulada, será protagonista nessa iniciativa, contribuindo para metas ambiciosas como a cobertura integral do esgotamento sanitário até 2033, conforme as diretrizes do Marco Legal do Saneamento. Esses esforços não só resolverão pendências históricas, mas também impulsionarão o desenvolvimento econômico, criando empregos na construção civil, melhorando os indicadores na saúde e educação, contribuindo para a atratividade para novos empreendimentos e promovendo a sustentabilidade ambiental – elementos cruciais para uma Itabuna mais próspera e inclusiva.

Em nome de toda a equipe da Emasa, agradeço à população de Itabuna pela confiança depositada em nós ao longo desses 36 anos. Convido a todos a celebrarem conosco essa data, reafirmando nosso compromisso com um futuro onde o saneamento seja sinônimo de equidade e progresso. Juntos, continuaremos a transformar desafios em conquistas, garantindo que nossa cidade avance com água limpa, esgoto tratado e esperança renovada.

Parabéns, Emasa! Parabéns, Itabuna!

Ivan Maia é presidente da Empresa Municipal de Águas e Saneamento (Emasa), bacharel em Administração e em Direito e pós-graduado em Direito Público e em Direito Administrativo.

Durval Filho é homenageado na Igreja Adventista
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Na plateia, a família de Durval acompanhava tudo com muita atenção e as palavras de Jorge soaram como um terrível desatino. No retorno a Canavieiras, Jorge Araujo pega uma carona até Ilhéus e Durval, ainda abismado, resolve esclarecer a dita parceria nas farras.

 

Walmir Rosário

Dizem que algumas frases são como flechas atiradas. Jamais voltam, e nunca serão esquecidas, apagadas do mapa ou da memória das pessoas, embora não façam mal ou bem correm o mundo. E foi justamente o que aconteceu com o coleguinha das redações (desculpem a audácia), Nélson Rodrigues, com algumas de suas mais conhecidas frases de efeito.

E essa – bastante repetida –, “toda a unanimidade é burra”, acredito que Nelson a criou por não ter tido a oportunidade de conhecer o canavieirense Durval Pereira da França Filho, ou simplesmente professor Durval. E não é que ele – Durval – completou 80 anos em 11 de agosto último, cercado de amigos forjados ao longo de sua vida.

Aproveitou o sábado (09-08) para comemorar a data nas formas religiosas e profana. Pela manhã, culto na Igreja Adventista, da qual é membro desde os 8 anos de idade, se não fui traído pela data. À noite, reuniu amigos de Canavieiras e de outras cidades, muitos presente para abraçar o mestre e o colega num clube da melhor idade, entre eles eu e Raimundo Tedesco.

Assim que sua família deixou a fazenda pras bandas de Jacarandá e se transferiu para a cidade de Canavieiras, Durval se dedicou à religião, às letras, à cultura. Ainda menino, buscou recuperar os anos perdidos fora da escola, quando na roça, cursando o antigo primário e o ginásio em tempo recorde, para surpresa dos colegas e professores.

Antes de colocar na parede o quadro com o primeiro diploma já lecionava e continuou com sua paixão pela educação por toda sua vida. Professor da escola da Igreja Adventista do Sétimo Dia, do Colégio Estadual Osmário Batista, Colégio Presbiteriano João Calvino, Faculdade Santo Agostinho, em Ipiaú. É lembrado como professor de cursinhos pré-vestibular, cujos alunos o agradecem até hoje pela formação. Também é um dos fundadores da Academia de Letras e Artes de Canavieiras (Alac), e foi secretário de Cultura e diretor da Biblioteca Afrânio Peixoto, em Canavieiras.

Mais que um simples professor, Durval nunca se limitou a ensinar a matéria de sua responsabilidade e sim formar o caráter das pessoas, a importância da educação física na massa corporal e na arte de pensar. E eles o agradecem, penhoradamente, pela formação e o cobraram por não ter incluído o futebol de campo nos eventos neste aniversário, como na comemoração dos 70 anos.

Empregado aposentado do Banco do Brasil, Durval Filho estudou Filosofia na Faculdade de Filosofia de Itabuna (Fafi), mas não conseguiu completar o curso por incompatibilidade com o horário de trabalho. Anos depois retorna à Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), gradua-se em História e, em seguida, especializa-se em História Regional. Logo depois se torna Mestre em Cultura e Turismo pela Uesc, em parceria com a Ufba. Na conclusão do mestrado apresenta a dissertação “Belmonte, Memória, Cultura e Turismo: numa (re)visão de Iararana”, de Sosígenes Costa.

Na literatura, Durval Filho não se limita aos temas históricos e escreve diversos livros sobre a história de Canavieiras, com destaque para Canavieiras Terra Mater do Cacau, em coautoria com Aurélio Schommer. Também são de sua lavra Pelos Caminhos da Fé, aspectos da cristianização católica na história de Canavieiras, além de Temas e Tempos Diversos, dedicados à poesia.

Nos próximos dias o professor Durval nos brindará com o livro Nos Escrínios da Memória, no qual revela passagens preciosas, do próprio punho, sobre a trajetória de uma pessoa simples, observadora, inteligente, que traçou um modo de vida e o seguiu fielmente, sempre atento às possibilidades. Um chefe de família exemplar, um homem de muitos amigos, entre eles uma imensa legião de ex-discípulos.

Centrado em Canavieiras, percorreu uma banda do mundo em busca de novas culturas, mais conhecimento e novos amigos, com os quais se corresponde, especialmente sobre literatura. Casado com Maria Lúcia Nonato França, é pai de Cassius Marcelus, Lísia Cláudia e Lúcio Marcus Oliveira de Nonato e França, e avô de Brunna, Rafael, Diogo, Maria Eduarda, Ana Cássia e João Gabriel.

Durval Filho é aquela pessoa que todos o querem como amigo. Sabe ouvir, opinar, aconselhar, trocar uns dedos de prosa sobre qualquer assunto. Adventista, sempre que chamado vai à Igreja Católica falar sobre a história de São Boaventura, bem como em outras igrejas protestantes, Loja Maçônica, dentre outras instituições.

Botafoguense, fez questão que o bolo de aniversário fosse elaborado com as cores e a estrela solitária do time de sua predileção. Apesar de abstêmio, coleciona centenas de amigos que cultuam o esporte etílico. Destes recebem convites para comparecer à Confraria d’O Berimbau numa visita eminentemente histórica. Dá uma risadinha, mas por lá nunca deu as caras.

Mas como o inusitado sempre acontece, ao defender sua Dissertação de Mestrado, Durval se encontra com um dos componentes da Banca Examinadora, o Professor-Doutor Jorge Araujo, ex-colega da Fafi e amigo. Lá pelas tantas, Jorge Araújo ressalta as qualidades de Durval, seu parceiro de muitos anos de farras, intelectual de primeira qualidade.

Na plateia, a família de Durval acompanhava tudo com muita atenção e as palavras de Jorge soaram como um terrível desatino. No retorno a Canavieiras, Jorge Araujo pega uma carona até Ilhéus e Durval, ainda abismado, resolve esclarecer a dita parceria nas farras. Sem pestanejar, Jorge responde:

– Ora, Durval, não se preocupe, foi apenas um artifício corriqueiro utilizado para deixar os professores e o mestrando à vontade. Não se preocupe.

E todas as dúvidas familiares foram esclarecidas.

Walmir Rosário é radialista, jornalista, advogado e autor de  autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

Everaldo Anunciação foi dos principais nomes do PT sul-baiano || Foto Divulgação
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Nunca fugiu dos desafios da vida. Assim passou de Ilhéus a Itabuna e depois para Salvador, sempre acompanhado da família, sempre discreto, mas presente.

 

Julio Gomes

Não quero aqui lembrar só do Everaldo Anunciação Farias político, embora tenha sido esta atividade dele a que mais marcou a vida da maioria de nós. Impossível não lembrá-lo em seus pronunciamentos, seja na porta de uma fábrica como sindicalista, na Câmara de Vereadores ou desde as reuniões mais simples do Partido até as plenárias nacionais do PT ao lado de grandes lideranças.

Com ideias claras e firmes que sustentava com argumentação sempre sólida, Everaldo convencia tocando em pontos do cotidiano para relacioná-los às grandes questões nacionais em pauta, algo que poucas pessoas sabem fazer.
Didático em seus pronunciamentos, claro, objetivo, estava sempre aberto a escutar e negociar, algo que se vê cada vez menos hoje em dia, mesmo no âmbito da vida institucional.

Mas havia também um outro Everaldo, o Vevéu! Este não era para todos, mas para aqueles com quem era possível ter um diálogo mais próximo, mais amplo, de preferência em locais onde as falas solenes cediam lugar à informalidade que é própria da Bahia e de nosso povo do interior do estado.

Filho de Ilhéus e cria de bairros como a Conquista e o Pontal, Everaldo tinha também o jeito das gentes mais simples, o que facilitava seu diálogo com todos sem perder a sagacidade que o caracterizava, sempre com calor humano e, por isso mesmo, cativante.

Focado no trabalho, mas boêmio. Voltado para grandes objetivos, porém simples na maneira de ser e de agir, amigo de um bom papo e de uma cerveja com os amigos. Por que não? A vida é para ser vivida com alegria!

Mesmo sempre viajando, ligado a tarefas partidárias e à institucionalidade da política, nunca deixou sua família, porto seguro que o recebia de braços abertos como barco que retorna do mar agitado para águas calmas e seguras.

Nasceu sabendo se relacionar e fazer política. Decerto que aprimorou, sim, mas já nasceu sabedor dessa arte que a ensinou muita gente, sendo mentor de uns e guru de outros muito antes da internet entronizar os “coachs” e influenciadores digitais hoje tão em moda.

Nunca fugiu dos desafios da vida. Assim passou de Ilhéus a Itabuna e depois para Salvador, sempre acompanhado da família, sempre discreto, mas presente.

Agora nosso amigo e companheiro Everaldo parte para outra viagem, esta sem volta física, mas também sem o rompimento solene da eternidade porque isso não combinava com ele. Estará, sim, em nossas lembranças enquanto nós também estivermos por aqui.

No mais, viva a vida, trabalhe, ame, faça seu melhor sem violentar sua vocação e suas características como ser humano. Seja você mesmo e encontrará seu caminho. Embora ele nunca tenha dito isto desta forma, sua vida nos mostrou que este é o rumo a ser seguido.

Simples, objetivo e focado no que realmente importa, este é nosso Everaldo, Vevéu: pai, esposo, dirigente partidário, companheiro de inúmeras lutas, amigo sempre que possível. Esteja em Paz!

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc).

Dendezeiros Unauê, da Estação Lemos Maia
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O dendezeiro, que é a segunda planta mais eficiente no sequestro de carbono (logo abaixo do eucalipto), também poderá perder sua importância comercial caso não seja protegida por políticas públicas.

 

Walmir Rosário

Instituição que representou um modelo de inovação na agricultura brasileira, desempenhando um papel na Extensão, Pesquisa e Educação, atualmente passa por inimagináveis percalços. Um deles é o envelhecimento do quadro de pessoal das áreas científica, administrativa e operacional, que a torna incapaz de gerenciar sua estrutura, haja vista o pequeno número de pessoal na ativa.

Com isso, a instituição antes motivo de orgulho estatal na cacauicultura nacional, hoje sofre invasões em suas estações experimentais, locais praticamente sem pessoal. A primeira a sofrer esse tipo de ação foi a Joaquim Baiana, em Itajuípe; a segunda foi a do extremo-sul, localizada em Itabela; e a mais recente, a Lemos Maia, em Una.

Embora a direção da Ceplac tenha agido junto à Polícia Federal e ao Judiciário para retomar a posse, alguns prejuízos são causados pelos invasores, notadamente na execução das ações de pesquisa nelas desenvolvidas. Em todas elas – ainda ativas – pesquisadores desenvolvem projetos sobre cacauicultura, pecuária e café, em Itabela; e solos, cacau e dendê, na Lemos Maia, invadida na semana atrasada.

Mesmo contando com uma equipe reduzida, os técnicos ceplaqueanos vêm obtendo resultados positivos nas pesquisas em desenvolvimento, cujos riscos da permanência das invasões poderão causar prejuízos incalculáveis. A Estação Experimental Lemos Maia (Esmai) sedia pesquisas com o dendê, local onde está implantado o único banco de germoplasma do nordeste.

O receio é que as melhores mães Caiaué (Elaeis oleifera), que, quando cruzadas com as plantas africanas, dá uma palmeira híbrida que produz o azeite batizado de Unauê. Esse azeite possui menor quantidade de ácidos graxos livres do que o óleo do dendezeiro, por isso é um azeite com menor acidez e melhor qualidade. É também mais insaturado e com maior teor de vitamina “E” e carotenos que o óleo do dendezeiro.

Essas ações promovidas por grupos ligados ao Movimento Sem-Terra e indígenas vêm se intensificando nos últimos anos no Brasil, e nas áreas da Ceplac podem ficar mais facilitadas pela burocracia estatal. Embora a invasão de terras públicas seja um crime previsto no ordenamento jurídico, esses grupos parecem não temer as consequências jurídicas.

Em diversas regiões do Brasil (não parece ser o caso em Una), geralmente as invasões são seguidas de destruição de material genético, o que causa prejuízos consideráveis em recursos financeiros de investimento e custeio, e o que é mais grave: a perda de dados e do material, inviabilizando anos de pesquisa. Perdem-se o capital público ou privado investido, além do conhecimento científico.

O dendezeiro, que é a segunda planta mais eficiente no sequestro de carbono (logo abaixo do eucalipto), também poderá perder sua importância comercial caso não seja protegida por políticas públicas. Todo o trabalho realizado com o dendê pela Ceplac na Esmai perderá significado por falta de ações governamentais da União e Estado da Bahia, pela simples falta de incentivo na substituição das plantas antigas pela Unauê.

Com a morte por inanição programada para a Ceplac, melhor seria repassar essas áreas para entidades governamentais afins, como a Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc); Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB); Embrapa, a grande responsável pela hibridação desse dendê; dentre outras instituições. Essa transferência seria mais do que viável, haja vista que parte das propriedades da União (Ceplac) passa por transferência de doação a prefeituras e demais órgãos governamentais.

Ainda é tempo que as lideranças regionais possam despertar para contribuir com ações focadas no desenvolvimento do sul e extremo-sul da Bahia, antes que seja conhecida como a terra do já teve. Quem sabe, dar tratamento igual aos particulares ou agricultores que são fiscalizados constantemente e multados por qualquer agressão ao meio ambiente também funcionaria.

Walmir Rosário é radialista, jornalista, advogado e autor de  autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

Camacãense, José Cássio Varjão é cientista político com MBA em Cooperação Internacional e Políticas Públicas
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Aquele final de tarde serviu como um marco, um divisor de águas, inserindo uma mudança significativa entre o antes e o depois da cidade de Camacã. Naquele dia, vi herdeiros de grandes fazendas da região cabisbaixos, um deles chorando, se maldizendo, por ser o responsável por enfrentar o declínio da lavoura cacaueira.

 

José Cássio Varjão

“Quais as cidades do interior da Bahia que mais perderam população nos últimos 45 anos”? Se você, caro leitor, pesquisar no Google ou em outro site de busca exatamente como esta frase foi escrita acima, encontrará a resposta. Nesse período, Camacã perdeu 44,39% da sua população. Dos 41 municípios da região cacaueira do sul da Bahia, foi a cidade que mais perdeu habitantes desde 1980. Uma migração silenciosa, repleta de decepções e simbolismos. A cidade mais rica, entre as produtoras de cacau, nunca olhou para o futuro como deveria, viveu enebriada pela lavoura que a construiu e a destruiu.

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Entre o aluguel e o quilo de carne mais caros da Bahia, o que aconteceu com a cidade outrora próspera? Como ela chega à melhor idade? Quais lembranças estruturais dessa época “dourada” encontramos ao caminhar por suas ruas e praças? Quais riquezas desse período áureo do cacau ficaram enraizadas para as futuras gerações de camacaenses?

Administrada pelos coronéis do cacau por décadas, numa prática política baseada no poder local dos grandes proprietários de terra, Camacã foi uma cidade de imigrantes, aqueles que chegavam de todas as partes, principalmente os comerciantes, e sempre prosperaram. Será a própria lavoura cacaueira, o ouro negro em amêndoas, a culpada por criar gerações de pessoas improdutivas e despreocupadas financeiramente? Como consequência dessa omissão, diferentemente dos outros municípios da região cacaueira do sul da Bahia, Camacã perdeu quase 50% da sua população. A cidade, que já foi o 13º ICM (antes da CF/88 era só ICM) do estado da Bahia, hoje está chegando ao 170º lugar. Onde está o cerne do problema? Por que somente Camacã ruiu?

Ainda antes de completar 10 anos de emancipação, um duro golpe foi desferido nas pretensões do município se tornar um grande centro comercial e de serviços, o que faria o município não depender somente da monocultura cacaueira. A mal contada história da BR-101 passando pelo centro da cidade, com mais verdades do que mitos, nos condenou, junto com administrações capitaneadas por latifundiários, que só enxergavam o limite das suas terras, a ser a cidade que mais perdeu habitantes no estado da Bahia nas últimas décadas. Era a época dos coronéis, os mesmos retratados por Vitor Nunes Leal, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, em seu livro, Coronelismo, Enxada e Voto, demonstrando como o dono das terras, o trabalhador e o voto estavam ligados umbilicalmente.

O enredo conclusivo, criado em torno do trajeto da BR-101 em Camacã, foi discutido numa reunião entre cacauicultores e os formadores de opinião dentro da comunidade, realizada em determinada fazenda do município, em que a versão de que os custos pelo trajeto original ficariam mais caros foi difundido. Waldeck Ribeiro, ex-presidente da Câmara de Vereadores, me mostrou uma fotografia, em 1993, com mais de uma dezena de cacauicultores de Camacã e de Mascote, perfilados na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, junto a Mário Andreazza, Ministro do Interior do Governo Federal, que contava outra história. Após ver “os representantes do povo”, todos vestidos com calças boca de sino e terno com tecido quadriculado, no estilo Agostinho Carrara, cheguei em casa e perguntei ao meu pai, José Loiola Varjão, sobre o tal assunto. Ele me confirmou a reunião na fazenda, para logo em seguida me interromper e sentenciar: “vamos dar um tiro nessa conversa”, papo encerrado. Esse assunto proibido não saiu do meu imaginário nos últimos 32 anos.

Essa passagem é fato consumado. Se tiraram ou não a BR-101 do centro da cidade é um acontecimento que hoje não nos conduzirá a lugar algum. Faz parte do passado, assim como as águas do rio Panelão, que, supostamente, já transportaram até cédulas eleitorais, não voltarão jamais. Nesse período, conversei com várias pessoas de Camacã e região, sempre angariando informações. Também conversei com um ex-funcionário da Bahia Construtora (empresa responsável pela pavimentação entre o Rio Branco e o Rio Pardo da BR 101), que, à época, junto com outros trabalhadores, se perguntavam por que o trajeto foi mudado, se até em Camacã as máquinas já tinham feito cortes nos barrancos onde hoje se situa a Rua Antônio Pereira dos Santos, para passar a estrada?

Imagem aérea de Camacã, no sul da Bahia || Foto PMC/Divulgação

Aqui faço outro questionamento, mudando o contexto: por que os políticos locais, tão bem recebidos em Brasília, não foram pleitear a principal rodovia do Brasil passando pelo centro da cidade, trazendo o progresso sobre rodas para a região?

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Em meados da década de 1970, alguns membros do legislativo municipal, como Arquimedes Carvalho Filho, Waldeck Ribeiro e outros, foram a Brasília pleitear, junto ao Banco do Brasil, a construção de uma agência em Camacã. Após algumas semanas, diretores do banco estavam na cidade, escolheram e compraram o terreno onde funcionava o Clube Vasco da Gama, de propriedade de Álvaro Guerreiro, para construir a agência 0837, do Banco do Brasil. Todo o processo entre a visita dos políticos a Brasília e o início da construção foi célere. Aqui faço outro questionamento, mudando o contexto: por que os políticos locais, tão bem recebidos em Brasília, não foram pleitear a principal rodovia do Brasil passando pelo centro da cidade, trazendo o progresso sobre rodas para a região?

Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Quem iria confrontá-los? Quem iria argumentar que implodir pedreiras por mais de uma dezena de quilômetros até a ponte do Rio Pardo, que ainda seria construída pela Construtora Norberto Odebrecht, seria mais barato do que aproveitar a estrada existente? Quem iria alertá-los de que as pontes do rio Panelinha, já no ramal da fazenda Sapucaia (antiga estrada que fazia o trajeto para Itabuna), do Rio Panelão, em Camacã, do rio Água Preta, nos Quinze, e do Nanci, onde já existia um posto do DNER, foram construídas em concreto bruto para receber a nova estrada? Por que não utilizar essa mesma estrada, que antes nos levava a Porto Seguro, Rio de Janeiro ou São Paulo? O Sr. Zezito Freitas, cacauicultor com propriedade rural nos arredores da estação da Polícia Rodoviária Federal, em Camacã, foi a única voz dissonante nessa história, não queria a estrada nas suas terras.

Para ter certeza em afirmar que o progresso foi afastado de Camacã, li inúmeros artigos e publicações científicas comprovando que ser margeada por uma rodovia federal traz enormes benefícios econômicos às localidades. Em monografia submetida ao Departamento de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Santa Catarina, em agosto de 2002, Silvinei Vasques, ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal, discorre sobre Construção da BR-101 e Seus Reflexos na Economia de Joinville. Outros autores, inclusive da região, pesquisaram sobre o advento da BR-101 no sul e extremo-sul da Bahia, que abriu a região para o Sudeste do Brasil.

Continuando com minhas pesquisas, seguem abaixo, detalhadamente, as informações extraídas do IBGE Cidades com relação à população das maiores cidades da Bahia, margeadas pela BR-101, nas últimas seis décadas:

As cidades de Gandu e Itamaraju ficaram encaixotadas por estarem entre dois grandes polos comerciais e de serviços, como Santo Antônio de Jesus e Itabuna, Eunápolis e Teixeira de Freitas, respectivamente. Nas outras cidades, percebe-se o quão importante foi a construção da BR-101, com a população crescendo, em alguns casos, até mais de duas vezes em relação à década de 1970. Eunápolis se beneficiou também por ser o entroncamento para Porto Seguro. Teixeira de Freitas, por sua vez, obteve o maior crescimento dentre todas as cidades citadas, pela proximidade com o estado do Espírito Santo e algumas cidades de Minas Gerais. Próximo a Camacã, o melhor exemplo é São João do Paraíso, município de Mascote, que antes da rodovia era somente um vilarejo com um punhado de casas.

Para continuar discorrendo sobre os 64 anos de Camacã, farei uma divisão entre os primeiros 32 anos de emancipação e os 32 anos seguintes. Entre 1961 e 1993, apesar de já ter entrado no processo de declínio em 1990, com o surgimento da vassoura de bruxa, a alta arrecadação de ICMS (aqui já era ICMS) quando dinheiro não era o problema, serviu para execução de algumas obras estruturantes na cidade, principalmente entre 1977 e 1982. Naquela época a maioria das obras eram realizadas com verba do município. Importante salientar que a cidade tinha, em 1980, de acordo com o IBGE, uma população de quase 41 mil habitantes.

Em 1990, na fatídica reunião no Clube de Campo de Camacã, em que eu estava presente, o engenheiro agrônomo da Ceplac Mário Tavares informou à população ter encontrado a Crinipellis perniciosa, o fungo que dizimou a lavoura cacaueira e acelerou o declínio de uma cidade sem planejamento e que não sobreviveria sem o cacau. Aquele final de tarde serviu como um marco, um divisor de águas, inserindo uma mudança significativa entre o antes e o depois da cidade de Camacã. Naquele dia, vi herdeiros de grandes fazendas da região cabisbaixos, um deles chorando, se maldizendo, por ser o responsável por enfrentar o declínio da lavoura cacaueira.

Vista panorâmica de Camacã || Foto PMC/Divulgação

Nesses primeiros 32 anos de Camacã, foram 20 anos de governo entre dois coronéis, de 1977 a 1996, intercalando-se os mandatos. Dois latifundiários que traziam pessoas de fora para administrar a cidade.

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Nesses primeiros 32 anos de Camacã, foram 20 anos de governo entre dois coronéis, de 1977 a 1996, intercalando-se os mandatos. Dois latifundiários que traziam pessoas de fora para administrar a cidade. Aqui, entra João Ubaldo Ribeiro, no livro Política: Quem manda, por que manda, como manda, com a 1ª edição publicada em 1981, quando escreveu sobre “um fenômeno contemporâneo, que vem pondo em risco até mesmo a representatividade popular nas democracias. Trata-se da diferença, cada vez mais ampla, entre quem detém a autoridade para as decisões e quem tem o conhecimento indispensável para tomá-las, sendo obrigado, cada vez mais, a confiar em assessores, consultores e técnicos, os tais burocratas. Isso resulta no controle das decisões públicas cada vez mais longe dos eleitos, perdendo-se a representatividade entre o povo e quem é escolhido por ele”. Eu particularmente chamo isso de “terceirização da vontade popular”. Um é eleito para outros governarem.

Numa ação contraproducente, tendo como base a construção do Terminal Rodoviário de Camacã, ficou latente a falta de parâmetros daqueles que detinham o poder, ou tomada de decisão por parte dos burocratas, citados no parágrafo anterior, que resultou no esfacelamento das empresas que funcionavam em torno da praça Dr. João Vargens. Com a saída das empresas de ônibus e pela proibição de estacionamento e circulação de kombis e picapes, os comércios entre aquela região e o Instituto de Cacau da Bahia foram cerrando suas atividades, um a um. Nos comentários da época, os executores de tal mudança tinham como objetivo fazer a cidade crescer no percurso entre os Correios e a Rodoviária. A realidade é que isso não passou de especulação imobiliária dos donos das terras naquele perímetro e, por ironia da história, a cidade chegou até onde almejavam, mas pelo lado contrário, descendo morro abaixo. “Cobriram um santo e descobriram outro”.

Os tais coronéis, que, na sua maioria não enxergavam um palmo na frente do nariz, nunca, absolutamente nunca pensaram no futuro de Camacã. Nenhum deles investiu em boas moradias na cidade. Quase todos pernoitavam em suas casas na fazenda. Algumas eram belas mansões, que foram se depreciando junto com o cacau que deixaria de existir.

Quase todos os que viviam exclusivamente da lavoura, sem preocupações ou organização financeira pessoal, terminaram completamente endividados, falidos. Incongruente nessa história foram os comerciantes da cidade, proprietários de lojas, farmácias e armazéns, que também eram pequenos agricultores, os quais viviam do seu empreendimento e não ficaram endividados como os grandes latifundiários. Contrários à emancipação, os coronéis de Canavieiras teriam feito “algum trabalho”, que objetivava o declínio de Camacã? Ou foi o carma dos pequenos agricultores obrigados a vender suas terras para os coronéis a preço de banana? Conjecturas à parte, Camacã subiu como um foguete e ruiu como um castelo construído na areia.

Inaptos na arte de governar, porém habilidosos na perseguição política, os controladores do poder local só o perderam em uma oportunidade, quando o padre Auxêncio da Costa Alves foi eleito em 1972, surpreendendo a todos. O padre governou durante 4 anos, com uma faca nas suas costas. Fora esse interregno, mandaram na cidade desde sua emancipação, intentando contra quem os desafiasse. Um deles, que nunca disputou cargo público, andava na cidade com os nomes de pessoas numa lista para serem expurgadas dos seus trabalhos, alijadas daquela sociedade, como a turma do PT, objetivando dar o lugar aos seus apadrinhados. São vários os que saíram de Camacã e, decepcionados, nunca mais olharam para trás.

Em época de fartura ninguém aprende. É perfeitamente compreensível que algumas pessoas de Camacã, por laços de convivência mais íntimos, contestem o argumento de que os coronéis não deixaram marcas registradas a serviço da coletividade. A realidade é infinitamente superior às narrativas criadas, os mitos produzidos em torno de pessoas que governaram com imposições, perseguições, beneficiando uns poucos. Caso interessante a ser citado foi a época da geração de energia através da barragem de Camacã, quando havia energia elétrica em suas propriedades rurais, mas parte significativa da população da cidade estava às escuras, sem a energia. Aliás, o poderio econômico da lavoura cacaueira transitava somente no centro financeiro da cidade, com suas 7 agências bancárias. Nas áreas periféricas, a miséria era extrema, sem luz, água, saneamento básico e sem farinha no prato.

Como um paciente sobrevivendo com práticas paliativas, Camacã foi sendo esbulhada ao longo das últimas décadas, tendo as suas riquezas investidas em outros lugares. Até os filhos dos cacauicultores saíam para estudar e nunca voltavam, salvo raríssimas exceções. O chamado investimento sem retorno.

Precisamos conhecer nosso passado para termos condições de fazer reparos históricos. Desmistificar esse coronelismo é uma abordagem fundamental para que Camacã se liberte da cultura política baseada na dependência e no medo e isso passa pela educação política, pela valorização do coletivo populacional enquanto capital social de uma comunidade. É romper com o imaginário de que só quem tinha terra e sobrenome poderia governar. É reconstruir o ambiente político a partir do povo, sendo o processo de desmistificação do passado o caminho para construção de um futuro baseado no desenvolvimento econômico, na ética administrativa, na inovação e no compromisso com o bem público. No próximo artigo, vamos discorrer sobre os 32 anos seguintes.

José Cássio Varjão é camacaense, graduado em Ciência Política e possui MBA em Cooperação Internacional e Políticas Públicas e pós-graduação em Administração Pública Municipal e Desenvolvimento Local; Administração Pública e Gestão de Cidades Inteligentes; e Gestão de Negócios Inovadores.

O ex-prefeito de Salvador ACM Neto || Foto Divulgação
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Diante da pesquisa que mostra o elevado potencial de votos de Neto em Ilhéus, quem menospreza o resultado do levantamento ignora fatos políticos relevantes e recentes da Terra da Gabriela.

 

Thiago Dias

Após a divulgação da pesquisa PMX/Rede Portal sobre os potenciais de voto em Ilhéus do vice-presidente nacional do União Brasil, ACM Neto, e do governador Jerônimo Rodrigues (PT), numa eventual reedição da disputa pelo Governo da Bahia, vozes do campo progressista se apressaram em desacreditar o levantamento (confira os números aqui).

Precipitada, a reação pareceu mais um ataque ao mensageiro – no caso, o instituto responsável pela pesquisa – do que análise dos dados disponíveis para avaliação da conjuntura.

Antes de prosseguir com o argumento, duas ressalvas. Primeiro, a um ano e três meses das Eleições 2026, as pesquisas impõem aos entrevistados questionamentos que não estão no horizonte de quem não vive debruçado sobre as movimentações políticas.

Quanto mais distante do pleito, maior a artificialidade da tentativa de antecipar os humores do eleitorado. A maioria das pessoas não está pensando em eleições agora. Isso não significa que as pesquisas extemporâneas não tenham valor. Elas servem, por exemplo, para monitorar tendências e orientar os movimentos dos agentes políticos.

A segunda ressalva é a de que os baianos, com razão, estão ressabiados com pesquisas que, em duas décadas, erraram no excesso de generosidade em relação às forças da direita no estado.

Feitas as devidas ponderações, vamos aos fatos.

No primeiro turno das Eleições 2022 em Ilhéus, Jerônimo obteve 39.706 votos (41,68%) contra 38.666 votos (40,59%) do principal adversário. No segundo, apesar da derrota no pleito, Neto abriu vantagem de 8.195 votos em relação ao petista nas urnas ilheenses. A virada local foi um efeito do alinhamento das forças de direita e extremíssima-direita em torno do ex-prefeito de Salvador.

Vieram as eleições municipais do ano passado, e ACM Neto montou acampamento em Ilhéus. Conhecido o resultado, é difícil imaginar o prefeito Valderico Junior (UB) vencendo a disputa apertadíssima contra Adélia Pinheiro (PT) sem o apoio empolgado do ex-prefeito de Salvador.

Agora, diante da pesquisa que mostra o elevado potencial de votos de Neto em Ilhéus, quem menospreza o resultado do levantamento da PMX/Rede Portal ignora fatos políticos relevantes e recentes da Terra da Gabriela.

Thiago Dias é jornalista do PIMENTA, da Morena FM 98.7 e do Pod Gusma.

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Reverendo Luciano Campelo 

Amados irmãos e irmãs em Cristo,
Paz e Bem!

Neste tempo em que nossa sociedade clama por justiça, igualdade e reconciliação, quero partilhar convosco uma certeza que nasce do coração da fé cristã: Deus é democrático. Sim, o Deus revelado nas Escrituras, o Deus de Jesus Cristo, é um Deus que respeita a liberdade humana, que deseja a participação de todas as pessoas na construção do bem comum, que convoca cada um de nós a ser fermento do Reino de amor, justiça e paz.

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A fé anglicana — enraizada na tradição católica, reformada e aberta à razão e à experiência humana — valoriza profundamente a liberdade de consciência, a dignidade da pessoa e a justiça social.

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A Bíblia nos mostra que Deus criou o ser humano à Sua imagem e semelhança (Gn 1,27). E entre os dons que nos concedeu, destaca-se o livre arbítrio: a liberdade de escolher, de decidir, de participar da história. Não fomos criados como marionetes, mas como seres responsáveis, chamados à comunhão com Ele e com nossos irmãos e irmãs.

“Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2Cor 3,17).

Essa liberdade, no entanto, não é libertinagem. É uma liberdade que se realiza plenamente quando se orienta para o amor. Pois, como nos ensinou o apóstolo João: “Deus é amor” (1Jo 4,8), e o amor verdadeiro não escraviza, mas liberta. O amor de Deus é fonte de liberdade, justiça e participação. Por isso, a democracia, quando autêntica, é expressão política do amor em sociedade. É nela que se dá espaço à diversidade, ao diálogo, à dignidade de cada pessoa.

A fé anglicana — enraizada na tradição católica, reformada e aberta à razão e à experiência humana — valoriza profundamente a liberdade de consciência, a dignidade da pessoa e a justiça social. Como bem expressa a nossa herança anglicana, a autoridade da fé deve ser sempre equilibrada com a razão e com a experiência vivida pelo povo de Deus. E a experiência nos ensina que não há paz duradoura onde há opressão, onde há exclusão, onde não há democracia.

Na perspectiva da Teologia da Libertação, aprendemos que Deus toma partido: o partido da vida, da justiça, dos pobres, dos oprimidos. Não para excluir os outros, mas para que todos tenham vida, e a tenham em abundância (Jo 10,10). O Reino de Deus é um projeto de libertação integral, que começa aqui e agora, na história, na luta por uma sociedade mais justa, democrática e fraterna.

Frei Leonardo Boff, um dos profetas do nosso tempo, nos lembra: “A democracia é a forma política que melhor realiza a liberdade e a igualdade, valores fundamentais do Reino de Deus.”

E não podemos esquecer as palavras sábias do nosso querido Arcebispo Desmond Tutu, farol de esperança e reconciliação na África do Sul e no mundo: “Se você é neutro em situações de injustiça, você escolheu o lado do opressor. Se um elefante tem o pé sobre a cauda de um rato, e você diz que é neutro, o rato não vai apreciar sua neutralidade.”

Desmond Tutu nos recorda que a neutralidade diante do racismo, da homofobia, da misoginia, da pobreza e da exclusão é cumplicidade com o pecado. A verdadeira fé cristã nos move a agir com justiça, a praticar o bem, a amar como Jesus amou — sem fazer acepção de pessoas.

Como afirmou Martin Luther King Jr., pastor batista e mártir da liberdade: “A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar.”

E Dom Helder Câmara, nosso profeta nordestino, nos provoca: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, me chamam de comunista.”

A democracia, amados, não é perfeita. Mas é o terreno onde podemos, com diálogo, respeito e participação, buscar o bem comum, que é sempre superior ao interesse individual. Só haverá paz verdadeira e duradoura quando todos os grupos sociais forem respeitados, quando os direitos de todos forem garantidos, sem qualquer forma de preconceito, discriminação ou exclusão.

Jesus não fundou uma religião elitista, mas uma comunidade de irmãos e irmãs. Ele andava com os pobres, com as mulheres, com os estrangeiros, com os excluídos. Ele nos ensinou: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça” (Mt 5,6).

E também: “Tudo o que fizerdes ao menor dos meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40).

Portanto, sejamos também nós, irmãos e irmãs do Cristo Libertador, cidadãos comprometidos com uma fé encarnada, ativa e libertadora. Lutemos por uma sociedade onde todos possam viver com dignidade. Que nossa espiritualidade não seja alienada, mas profética, crítica, sensível às dores do mundo.

Concluo com mais uma palavra de Desmond Tutu: “Meu cristianismo não me permite ficar em silêncio quando vejo o sofrimento. Minha fé me obriga a agir.”

Que o Espírito Santo nos ilumine, nos fortaleça e nos una neste compromisso com o Reino de Deus, que é justiça, paz e alegria no Espírito (Rm 14,17). Que a democracia não seja para nós apenas um sistema político, mas um caminho de amor social, onde todos tenham vez, voz e vida plena.

Assim seja. Amém.

Reverendo Luciano Campelo é padre da Igreja Católica Apostólica Anglicana e frade da Ordem Franciscana Anglicana.

Lançamento do livro "O Berimbau - Valhacouto de boêmios" no Mac Vita
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De uma vez só conseguimos reunir a mais fina flor da boemia canavieirense e das redondezas, com a presença maciça dos membros das gloriosas instituições Confraria d’O Berimbau e do Clube dos Rolas Cansadas, como em tempos pretéritos.

 

Walmir Rosário

Em plena manhã desta sexta-feira, 8 de agosto, me senti abatido, diria até exausto, em meio a um estudo comparado de rituais com vistas à elaboração de uma peça. A cabeça, os miolos, ou sei lá como explicar, ferviam com o vai-e-vem da leitura, justamente num dia considerado o início do fim de semana nos bares e botequins da vida.

Resolvi dar um tempo e me entreter assistindo ao filme Meu Vizinho Adolfo, iniciado na noite passada. De repente, ouço alguém bater à porta se passando por um entregador de uma dessas empresas internacionais de vendas pela internet. Desconfiado, pois não esperava a chegada de encomenda, mesmo assim abro o portão e encontro o amigo e irmão Arenilson.

Após risadas e o costumeiro abraço, me entrega um presente trazido em seu passeio pelas bandas de Bom Jesus da Lapa e Correntina: um litro da preciosa aguardente, ou melhor, cachaça, com o nome de Brejeira. Eu esperava um tijolão de rapadura, conforme promessa feita, mas resolvi não reclamar, haja vista a superioridade do regalo.

Enquanto examino o “precioso líquido”, adjetivo proibido nas boas redações, recebo, via whatsapp, o estímulo do amigo Toncar, direto de Campo Formoso, dando conta que o relógio badalava 11 horas, horário de abrir os trabalhos com o toque de um pequeno sino. Transmiti uma foto da Brejeira pra ele, que fez questão de me garantir que era uma das cachaças de sua predileção.

Confesso que minha estranha sexta-feira com o trabalho de pesquisa e nenhuma perspectiva de encontrar os amigos ao meio-dia em pino nos botecos bateu imediatamente em retirada. Guardei os rituais e escritos e me dirigi à cozinha para providenciar alguns tira-gostos à altura do presente recebido, alterando a rotina com um adeus em alto e bom som ao trabalho.

Muito reservadamente posso contar para você que me concedi férias há pouco mais de dois meses, após o trabalho estafante de editar o livro O Berimbau – Valhacouto de Boêmios, já impresso. Após alguns adiamentos, finalmente, no dia 26 de julho passado, realizamos o lançamento em grande estilo, no Mac Vita, um dos nossos mais acolhedores abrigos em Canavieiras.

De uma vez só conseguimos reunir a mais fina flor da boemia canavieirense e das redondezas, com a presença maciça dos membros das gloriosas instituições Confraria d’O Berimbau e do Clube dos Rolas Cansadas, como em tempos pretéritos. Uma festa pra ninguém botar defeito, regada a uma boa cachaça com Cambuí em infusão e cerveja bem gelada, e ao som luxuoso do saxofone de Cadu Perrucho.

Como era do procedimento regulamentar em alguns sábados na Confraria d’O Berimbau, os confrades prepararam com esmero o famoso “Tiquinho”, nome pomposo para os pratos elaborados e colocados à disposição dos estômagos famintos. Como sempre, para subverter a ordem, Trajano Júnior chegou com duas enormes panelas de com pernil suíno e fatada.

Não quero aqui falar mal ou reclamar do evento, mas fui bastante prejudicado por ter que me ater a receber os confrades e familiares, bem como autografar cerca de uma centena de livros, além de posar para as fotos. Enquanto isso, os convidados se esbaldavam nas bebidas e comidas e nas rodinhas de bate-papo, lembrando com saudade os velhos tempos.

E eu, que sonhava com um longo período de férias, provando da inatividade e dos benefícios do ócio, fui obrigado a interromper a vagabundagem planejada com bastante esmero. Bem que minha mulher me avisou que essa ideia de aposentado tirar férias se tratava de redundância, no bom português, uma utopia desnecessária de ser sonhada. Realmente, por duas vezes fui obrigado a interrompê-la, mas faz parte da vida.

Com a chegada dos confrades do retiro espiritual em Bom Jesus da Lapa, também interrompido pelos passeios nas cachoeiras e alambiques em Correntina, só aguardar o irmãozinho Batista. É que ele se recupera dos dissabores da gota de estimação e breve promoveremos uma inspeção nos botecos de Canavieiras. Desta vez, sem interrupção.

Walmir Rosário é radialista, jornalista, advogado e autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.

José Alberto de Lima Filho é vereador de Itabuna e advogado || Foto Divulgação
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Essa é a agenda de desenvolvimento que proponho para a nossa cidade e que precisa continuar a ser colocada em prática nos próximos anos.

 

José Alberto de Lima Filho

Roberto Carlos começa a sua canção A Guerra dos Meninos afirmando: “hoje eu tive um sonho, que foi o mais bonito que sonhei em toda a minha vida”. Eu também tenho um sonho chamado Itabuna, sobretudo no limiar dos seus 115 anos de emancipação política; uma Itabuna mais próspera, justa, criativa e sustentável. E, ao acordar, me dei conta de que esse sonho já começa a se tornar realidade.

Próspera é a cidade com a capacidade e as condições de se desenvolver economicamente, gerando emprego e renda para a sua população, e os investimentos que vêm sendo realizados nos últimos quatro anos e meio pela gestão do prefeito Augusto Castro colocaram Itabuna no caminho do crescimento.

Temos avançado na melhoria do ambiente de negócios em nossa cidade, através dos investimentos em infraestrutura, mobilidade, equipamentos públicos e na criação de marcos legais necessários para a segurança jurídica. Isso sem falar no complexo FIOL—Porto Sul, um importante e necessário vetor de crescimento para Itabuna e região.

Justa é a cidade que, através da riqueza gerada pelo seu desenvolvimento econômico, consegue melhorar a qualidade de vida e bem-estar da sua população com avanços nas áreas da saúde, educação e assistência social, sobretudo, para os mais vulneráveis economicamente.

E, aqui, não se quer dizer apenas investimentos em obras e equipamentos, mas, principalmente, na valorização dos profissionais, verdadeiros abnegados, que prestam esses serviços que são essenciais à população.

Criativa é a cidade que consegue se inserir em uma cultura de inovação tecnológica, ainda mais na era da tecnologia da informação e suas sucessivas ondas, primeiro com os computadores, depois com a internet e agora, mais recentemente, com a inteligência artificial (IA). Precisamos criar todo um ecossistema para que Itabuna se beneficie dos avanços da tecnologia digital, tanto no setor público, quanto privado, inserindo-nos, assim, na vanguarda do século XXI.

Sustentável é a cidade que se desenvolve nos três aspectos acima sem se esquecer da importância da preservação e recuperação do meio ambiente. Estamos localizados em um dos ecossistemas mais ricos em biodiversidade do mundo inteiro.

Precisamos valorizar a nossa cultura de preservação da mata atlântica e de todo o seu bioma, preservação essa que devemos em grande parte ao cacau cabruca. Precisamos ainda recuperar o Rio Cachoeira para que volte a ser um espaço de lazer e de geração de riqueza para nossa sociedade e, para isso, precisamos executar projetos de saneamento básico que o livrem dos esgotos sanitários e demais contaminantes.

Enfim, essa é a Itabuna dos sonhos que começa a se tornar realidade. Essa é a agenda de desenvolvimento que proponho para a nossa cidade e que precisa continuar a ser colocada em prática nos próximos anos.

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) em um de seus poemas mais célebres, Tabacaria, recitou: “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”.

As grandes realizações e os avanços da humanidade começaram justamente de sonhos. Assim, convido a todos os grapiúnas que amam esta terra a nos unirmos em prol da ITABUNA que almejamos e merecemos.

José Alberto de Lima Filho é advogado especialista em Direito Público e vereador do Município de Itabuna.

Preta Gil faleceu no último domingo (20), nos Estados Unidos || Reprodução Instagram
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E Drão foi a música escolhida para a despedida musical de pai e filha no palco, emocionando a todos nós. É duro ver o velho mestre nessa dura caminhada, sabendo que vai levar essa dor pela vida afora. Mas a vida segue.

 

Afonso Dantas

Confesso que não acompanhava muito a carreira de Preta Gil, mas era impossível não ver as coisas que ela fazia, pela exposição de mídia que tinha. E, coisa difícil para quem é filha de uma super estrela, como Gilberto Gil, conseguiu brilhar muito também. E ocupou seu espaço.

E nesse espaço teve bloco no carnaval do Rio, fez música, shows, atuou como atriz e empoderou muitas mulheres pelo país, quebrando tabus, como a exposição do corpo fora dos padrões estabelecidos e também pelos discursos em defesa das minorias e da liberdade sexual. Com isso, ganhou seguidores, mas incomodou muita gente, pois quem brilha, incomoda, pois não é todo mundo que se acostuma com a luz.

Mas, ao contrário da carreira de Preta, sempre acompanhei com muito interesse a carreira de um dos maiores gênios da música de todos os tempos, Gilberto Gil. Conheço quase todas as suas músicas e admiro suas incursões por tantos gêneros musicais, como a MPB, o reggae, o funk (o verdadeiro), o rock e o reggae, sempre com muita qualidade e com sucessos que fazem parte de nossa vida.

Quem é da Bahia, de uma certa faixa etária e principalmente quem viveu em Salvador, considera Gil – e Caetano também – como uma espécie de parente que sempre esteve ali por perto e que nos representa. E mexer com qualquer um deles é como mexer com a gente. E quem acompanha Gil, acaba acompanhando sua grande e talentosa família. Seus filhos e netos que herdaram o talento do pai e avô. E mexer com eles, incomoda nosso Gil. E por isso também não gostamos que mexam com eles. Não venha não.

Mas por que falar de Gil, se quem se foi, foi Preta, sua filha? Natural. Por também ser pai de uma filha, que amo mais que tudo, estou sentindo a dor da perda do pai. A dor inimaginável e temida por todos os pais. A dor que já foi sentida por Gil em outra etapa da vida com a perda de Pedro, aos vinte anos, de forma trágica, porém rápida, em contraste com essa perda cheia de sofrimento, com a despedida devagar e extremamente dolorosa de sua filha Preta, aos cinquenta anos.

Gil é extremamente espiritualizado e acompanhamos aflitos como ele tentou preparar sua filha e sua família para a triste, mas inevitável despedida, dizendo para ela ir com calma, tranquilidade e sobretudo com fé, tentando conter uma dor que com certeza, explodia em seu coração de poeta, sempre mais sensível que os dos outros.

E a música Drão é bastante representativa sobre essa vida, essa relação de então amor dos pais de Preta, e essas dores, principalmente quando Gil fala que “os meninos são todos sãos” para Sandra, cujo apelido Drão batiza essa que é uma das músicas mais bonitas que já ouvi, mas que em outro momento da vida, alguns desses meninos já não se encontram mais entre eles, o que é uma dor terrível para os pais, pois contraria o caminho natural da vida.

E Drão foi a música escolhida para a despedida musical de pai e filha no palco, emocionando a todos nós. É duro ver o velho mestre nessa dura caminhada, sabendo que vai levar essa dor pela vida afora. Mas a vida segue. E o show tem que continuar. Força para Gil. E luz para Preta.

Afonso Dantas é publicitário, sócio e diretor de criação da Camará Comunicação Total, CEO da Lá ele! Camisas e Coisas, especialista em Gestão Cultural, membro da AGRAL, torcedor do Bahia e pai de Maria.

Publicado originalmente no Ipolítica.