Tempo de leitura: 2minutosGovernador e ministro também se reuniram com representantes de órgãos ligados à questão indígena e à área da segurança (foto Alberto Coutinho)
Cautelosamente separados, representantes de índios e produtores rurais do sul da Bahia se reuniram nesta sexta-feira (25) com o governador da Bahia, Jaques Wagner, e o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Foram seis horas de diálogo, primeiro com os agricultores, na Procuradoria Geral do Estado, e em seguida com lideranças indígenas, na Fundação Luís Eduardo Magalhães.
O que ficou encaminhado foi a proposta de uma mediação para facilitar a busca de entendimento na questão em torno da disputa de uma área de 47 mil hectares, que abrange fatias significativas dos municípios de Ilhéus, Buerarema e Una.
“O que garante a legalidade de qualquer ato é uma sentença do Poder Judiciário. Fora isso, só teremos a pacificação se as partes aceitarem a mediação que estamos tentando construir. O fundamental é não sacrificar as duas partes com esse ambiente de hostilidade permanente em Buerarema e esta é uma questão que o Estado brasileiro precisa resolver” – declarou Wagner.
A informação oficial é de que, até a próxima semana, Governo da Bahia e Ministério da Justiça assinarão um termo de cooperação técnica para formatar uma versão do Plano de Segurança com Cidadania, especificamente voltado para comunidades indígenas. O governador e o ministro também se reuniram ontem com representantes de órgãos ligados à questão indígena e da área de segurança
O Corpo de Bombeiros encontrou, na manhã desta quarta-feira (23), o corpo do adolescente João Paulo Oliveira Santos, que havia desaparecido na segunda (21), após mergulhar no Rio Macuco, em Buerarema. O jovem de 15 anos foi encontrado em uma represa, próximo a uma fazenda do município.
Amigos de João Paulo disseram que ele estava em companhia de um irmão quando pulou de uma ponte no bairro São Bento e desapareceu sob as águas turvas do Rio Macuco.
Tempo de leitura: < 1minutoWagner e Cardozo conversaram sobre o conflito em Buerarema
O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, recebeu nesta terça-feira, 8, em Brasília, o governador da Bahia, Jaques Wagner. O assunto tratado pelos dois foi o conflito entre índios e pequenos produtores rurais no sul da Bahia, principalmente em Buerarema.
Cardozo defendeu uma solução dialogada e se comprometeu a visitar a região, sinalizando como data provável da visita o dia 25 de outubro. A intenção do ministro é ouvir ambos os lados envolvidos no conflito, o que foi confirmado por Wagner.
Segundo o governador, a agenda do ministro da Justiça no sul da Bahia “será elaborada de forma que possa ter contato com os índios e com os produtores rurais”. Wagner elogiou a decisão de Cardozo de verificar a situação pessoalmente.
A audiência em Brasília contou também com a presença do diretor-geral da Polícia Federal, Leandro Daiello Coimbra.
Tempo de leitura: < 1minutoJosé Eduardo Cardozo receberá produtores e políticos de Buerarema e São José da Vitória
Uma comitiva formada por políticos e agricultores da região afetada pelo conflito entre índios e pequenos produtores rurais no sul da Bahia se reúne nesta terça-feira, 1º, em Brasília, com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.
Fazem parte do grupo os vice-prefeitos de Buerarema, Juninho, e de São José da Vitória, Vavado, o presidente da Câmara de Vereadores de Buerarema, Geraldo Aragão, e o vereador Elinho Almeida, do mesmo município. Quatro produtores rurais também integram a comitiva.
Na audiência, os produtores esperam ouvir o posicionamento oficial do Governo Federal sobre o conflito e alguma proposta que possa devolver a paz à região. “A população de Buerarema está ansiosa por boas notícias e a expectativa é de isso se concretize para que possamos evitar novos protestos no município”, afirma Elinho Almeida.
A região do conflito tem vivenciado episódios de violência e uma série de protestos contra as ocupações de fazendas. Na semana passada, cerca de 3 mil pessoas interditaram a BR-101, provocando um engarrafamento de 15 quilômetros (relembre).
Tempo de leitura: 2minutosPelotão da PM tentou em vão liberar o tráfego na BR-101.
A BR-101 está interditada há quase quatro horas, no trecho de Buerarema (reveja aqui), e os manifestantes, a maioria produtores rurais, cobra um retorno do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, para liberar a rodovia. Os agricultores entendem que o Ministério da Justiça “lavou as mãos” quanto à disputa pelos 47 mil hectares com os índios tupinambás.
Nem mesmo o grande efetivo das polícias rodoviárias Estadual e Federal e da Polícia Militar fez dissuadir os manifestantes. Em agosto, quatro veículos oficiais foram incendiados durante os protestos. “Os produtores querem a garantia de que o ministro fará visita ao município”, disse o vereador Elio Almeida Júnior (PDT) ao PIMENTA.
Vereadores de Buerarema fizeram contato com o articulador de política do campo da secretaria-geral da Presidência da República, Nilton Godoy, para tentar retorno do ministro da Justiça. Godoy informou que faria os contatos, mas não sinalizou se haveria retorno. O PIMENTA buscou contato com o articulador, mas o telefone estava ocupado.
Barricadas com madeira e pneu foram incendiadas para interditar rodovia.
Atualizada às 22h21min– O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, entrou em contato com a comissão federal que negocia com os manifestantes. Cardozo teria espaço na agenda para o dia 10, quando receberia, no máximo, 10 representantes dos produtores. A audiência seria em Brasília. A proposta foi rejeitada pelos agricultores.
Policiais observam barricada e movimentação dos manifestantes.
Há pouco, a tropa de elite da PM iniciou movimentação para tentar liberar a pista. Do outro lado, cerca de 3 mil manifestantes reagiram. Os ânimos estão exaltados.
Tempo de leitura: < 1minutoMinistra informa que demarcações estão suspensas (Foto Antonio Cruz/ABr).
O deputado Geraldo Simões participou, na noite dessa quarta-feira (11), de reunião com a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann (foto), que analisou o processo de demarcação de terras indígenas no País e os conflitos na Bahia. A reunião contou com a participação dos ministros da Agricultura, Antônio Andrade, do Desenvolvimento Agrário, Pepe Vargas, da Justiça, Eduardo Cardozo, e da Advocacia-Geral da União, Luiz Inácio Adams, além de vários parlamentares de todo o Brasil.
De acordo com Geraldo Simões, a ministra Gleisi Hoffmann afirmou que, como havia prometido, os processos de demarcação estão suspensos enquanto se busca uma solução para os problemas, de maneira a garantir a paz. “O Governo vai propor um novo processo para decidir sobre as terras indígenas”, declara.
A proposta, inicialmente, é que a decisão seja tomada em comum, com a participação de diversos órgãos, como o Ministério do Desenvolvimento Agrário, da Agricultura, Meio Ambiente, Cidades, entre outros.
Na próxima semana o Governo Federal vai instalar uma Mesa de Negociações na região Sul da Bahia, especificamente na região de Buerarema, Una e Ilhéus. “Aproveitei a ocasião para explicar como estavam ocorrendo as demarcações e porque elas estão provocando conflitos”, afirma Geraldo.
Tempo de leitura: < 1minutoDiane e Jabes preferem o silêncio (Fotos Tabu Online e A Região).
O confronto entre produtores rurais e índios tupinambás já registrou um produtor baleado e um índio morto. Os dois casos ocorreram na região entre Ilhéus e Una. Registre-se o silêncio dos prefeitos Jabes Ribeiro (Ilhéus) e Diane Rusciolelli (Una) na questão nestes dias tensos.
Quem assiste a certa distância, pode ter a falsa impressão que o conflito restringe-se a Buerarema. Dos mais de 47 mil hectares em disputa, mais de 20% estão em área ilheense, principalmente Olivença. Não se sabe de articulação, de participação dos dois prefeitos no caso. Até mesmo as câmaras municipais dos dois municípios não se movimentam.
Tempo de leitura: < 1minutoCentral de Distribuição foi esvaziada, mas a promessa é de reabertura.
A presidência da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal-Cesta do Povo) desistiu de fechar a central de distribuição de Buerarema. Após enviar comunicado aos funcionários no qual os obriga a optar entre as centrais de Feira de Santana e Vitória da Conquista, a direção da empresa informou hoje que reabrirá a central, que retoma as atividades no município sul-baiano nesta quarta (11). O comunicado foi feito internamente.
Há pouco, os vereadores Gildásio Gonzaga (PCdoB) e Elio Júnior, Elinho (PDT), também foram informados da decisão, que ainda não foi anunciada oficialmente. Os dois vereadores denunciaram ontem, no PIMENTA, uma operação para fechar a central (relembre aqui). Os dois vereadores haviam marcado audiência com o presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Nilo, para tratar do assunto amanhã.
A Ebal mantém cerca de 150 empregos diretos e indiretos na central em Buerarema, atendendo a 61 municípios e 63 unidades da Cesta do Povo. A unidade movimenta, aproximadamente, R$ 3 milhões em mercadorias por mês. A direção da empresa havia anunciado fechamento da unidade após os saques registrados em agosto e que provocaram cerca de R$ 100 mil de prejuízos.
Tempo de leitura: < 1minutoForça Nacional está há 20 dias na região do conflito (Foto Gilvan Martins).
Homens da Força Nacional de Segurança foram alvos de tiros disparados por índios tupinambás, no último sábado (7), quando guarnições escoltavam famílias que foram à Fazenda São Pedro para retirar os últimos pertences. As duas guarnições tiveram que retornar, segundo fontes ouvidas pelo PIMENTA. O episódio não foi tornado público.
Após as guarnições da Força Nacional serem recebidas à bala na região de Serra das Trempes, a missão retornou a Buerarema e somente conseguiu voltar à fazenda na manhã de domingo (8) para recuperar objetos e móveis dos produtores expulsos. Desta vez, com reforço. O blog não conseguiu falar com o comando da FNS em Buerarema.
A fazenda é a mesma onde o trabalhador rural Adailton Santos, de 50 anos, foi baleado na madrugada da última terça (3) e dias depois mataram um índio pataxó identificado como Edilson Gonçalves dos Santos.
A hipótese mais provável é que ele tenha sido assassinado por um tupinambá. Apesar de ser pataxó, Edilson teria ido se abrigar na Serra das Trempes como auxílio aos tupinambás no conflito. A polícia tem o nome do suspeito do assassinato, um homem que se autodeclarou índio há pouco tempo e é filho de produtor rural.
Tempo de leitura: < 1minutoConflito deixou Buerarema em situação caótica
A Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa da Bahia confirmou, na manhã desta terça-feira, 10, o agendamento de uma sessão especial para o próximo dia 23, com o objetivo de discutir o conflito entre pequenos produtores e grupos que se autodeclaram como pertencentes à etnia tupinambá na região da Serra do Padeiro, em Buerarema.
A intenção de promover a discussão na Assembleia havia sido antecipadano dia 5, quando deputados estiveram em Itabuna e em Buerarema, a fim de colher informações e produzir um relatório sobre o conflito. Porém, na ocasião, os parlamentares ouviram apenas relatos de produtores rurais.
Uma proposta do deputado Yulo Oiticica (PT), também aprovada nesta terça, determinou a formação de uma subcomissão que deverá ir até a Serra do Padeiro para ouvir lideranças ligadas aos índios tupinambás, em data ainda a ser definida, mas antes do dia 23. Segundo Yulo, seria impossível construir um relatório sem ouvir as duas partes envolvidas.,
A subcomissão que ficou encarregada de escutar “o outro lado” é formada pelo próprio Yulo, além dos deputados Rosemberg Pinto (PT), Pedro Tavares (PMDB) e Augusto Castro (PSDB).
O governador Jaques Wagner confirmou que irá a Brasília para discutir o conflito entre índios e pequenos produtores rurais no sul da Bahia. A audiência com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, deve ocorrer ainda esta semana.
A situação de Buerarema foi destacada hoje (10) no programa Conversa com o Governador, produzido pela Secretaria da Comunicação do Governo da Bahia. Wagner disse estar atento e “em contato direto com o governo federal, esperando que a gente possa ter um desfecho tranquilo, negociado, para que a paz possa reinar na região”.
O governador declarou ainda que o processo de demarcação em Buerarema ainda está sujeito a questionamentos judiciais e sugeriu, como melhor caminho, “fazer uma negociação para a saída dos não-índios, pagando todas as benfeitorias”.
Sobre os produtores, Wagner observou que não se trata de latifundiários. “São várias famílias, com 60, 70, 80 anos que estão na terra, plantando mandioca, cacau, sobrevivendo disso”.
Tempo de leitura: 2minutosCentral de Distribuição parece um “deserto” após decisão da presidência.
Menos de duas semanas após o presidente da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal-Cesta do Povo), Eduardo Sampaio, negar o fechamento da central de distribuição em Buerarema, os funcionários receberam comunicado para decidir para onde serão transferidos. A central será fechada e os funcionários deverão optar se vão trabalhar na central de Feira de Santana ou Vitória da Conquista.
O sentimento dos funcionários é de apreensão. A presidência da empresa decidiu pela desativação da unidade após a central ser alvo de dois saques que causaram prejuízos de R$ 100 mil. Oficialmente, a promessa é de reativação da central com o fim dos conflitos entre produtores rurais e tupinambás no município.
A comunidade de Buerarema começou a colher assinaturas contra a transferência de funcionários e pedindo a permanência da Ebal no município sul-baiano. A central de distribuição emprega cerca de 150 funcionários e movimento, aproximadamente, R$ 3 milhões por mês em mercadorias, distribuídas entre as 63 unidades Cesta do Povo entre Valença, no Baixo-Sul, e Teixeira de Freitas, no Extremo-Sul do Estado.
Vereadores (à esquerda) conversam com funcionários da Ebal em Buerarema.
Os vereadores Gildásio Gonzaga (PCdoB) e Elio Júnior, Elinho (PDT), têm audiência marcada com o presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Nilo (PDT), para a próxima quarta (11). “Vamos cobrar a manutenção da central de distribuição, que representa empregos e movimenta a economia de Buerarema”, afirmou Elinho.
A central de distribuição foi esvaziada pela empresa. Toda a carga foi distribuída, segunda a presidência da Ebal, entre as unidades.
SEGURANÇA
Os vereadores também fizeram consultas ao comando do 15º Batalhão da PM em Itabuna e ao comando regional da Polícia Militar (CPR-Sul). Nem o comando regional nem o 15º BPM receberam qualquer pedido de reforço na segurança da central de distribuição da Ebal, segundo Elinho e Gildásio. A falta de segurança foi um dos motivos alegados pelo presidente da empresa, Eduardo Sampaio, para transferir a central “temporariamente”.
Adianto à gentil leitora e ao atento leitor que venho de tempos em que falar bem de índio não me fazia candidato a Judas de Sábado de Aleluia. Por isso decorei vastos trechos de I-Juca Pirama, o longo poema de Gonçalves Dias (1823-1864), com aqueles indígenas heroicos, grandiosos, valentes, que tanto me emocionaram – e, acabo de ver, ainda me emocionam. Pois é que voltei àquela fonte da infância, de onde tirei estas expressões: “caiu prisioneiro nas mãos dos Timbiras”; “as almas dos vencidos Tapuias, ainda choram”; “vaguei pelas terras dos vis Aimorés”; “quero provar-te que um filho dos Tupis vive com honra” – creio ser suficiente.
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Academia de vestido longo e salto alto
A universidade brasileira, ainda elitista, arrogante, de vestido longo e salto alto (ou de fraque e bengala), costuma valer-se de linguagem própria, altissonante e, muitas vezes, vazia e ociosa. É o jargão que a identifica e isola, pois, deliberadamente, não atinge os mortais comuns. É bem o caso desse “índios Tupinambá” que a academia emana em flagrante agressão à lógica da linguagem. Gonçalves Dias há de ser copidescado: “nas mãos dos Timbira”, “vencidos Tapuia”, “terras dos vis Aimoré”, “filho dos Tupi” – e por aí vai esse festival de esnobismo. E a mídia, com seu pendor para a repetição, copia e engole tais sandices sem mastigar.
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Forma clássica, sem rasuras ou emendas
“Meninos, eu vi!”: agora mesmo, à luz do fogaréu em que Buerarema ardeu, grupos de estudiosos da questão indígena em Porto Seguro se pronunciaram, denunciando a reincidência de ações violentas na região. É ótimo que se manifestem, mas dispensável é esse festival de “apoio aos Tupinambá” e “conflitos entre índios Tupinambá e fazendeiros”. Penso que com “índios Tupinambá” se queira dizer “índios (da etnia) Tupinambá, obviamente uma complicação (elipse?) desnecessária. É como escolher a linha curva para ir de um ponto a outro. “Índios Tupinambás” é a forma clássica, nos bons autores, que dispensa qualquer tipo de rasura ou emenda.
Leio (ah, a universalidade da internet!) que o office boy Eduardo Carlos de Santana Jr., na flor dos seus 27 anos, foi condenado a sete anos e meio de cadeia por participar de assalto a uma loja de material de construção no bairro Vale dos Reis, em Cariacica/ES. Descubro mais: o Eduardo em apreço está foragido, daí a intimação de sentença, publicada no Diário da Justiça, afirmar que o condenado “encontra-se em lugar incerto e não sabido”, por isso sendo intimado por via do Edital. A expressão “lugar incerto e não sabido” é jargão dos cartórios (juridiquês) que atenta contra a saúde da língua portuguesa.
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Desatenção com a gramática e a lógica
A prática, não raras vezes, consegue mudar a teoria (aliás, nada digo de novo, pois é no dia a dia do escrever e, mais ainda, do falar, que a língua se forma e se transforma). Neste caso, o princípio teórico, a lei, fala em citar pessoa em lugar incerto, não sabido ou indeterminado – atendendo à verdade de que o réu não é onipresente, não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Operadores que não leram a regra com atenção vulgarizaram o “incerto e não sabido”, em detrimento da gramática e da lógica: incerto é “indeterminado”; não sabido, “ignorado”. Diga-se, então, “incerto ou não sabido”, sem traumas à norma.
Dizer que Querelas do Brasil, de Aldir Blanc, é trocadilho com Aquarela do Brasil, de Ari Barroso, é verdade, mas muito pouco. Trata-se de letra “grande” demais para ser analisada em coluna de amenidades, tema para ensaio, tese de mestrado, essas coisas da mais alta responsa: o termo, segundo o Priberam, tem significados principais de discussão, debate, contestação; em lugar da aquarela, a querela não é mais exaltação, é desconstrução do modelo ufanista, louvação de outros valores, para mim sendo o maior deles a língua brasileira inculta e bela. Aldir abusa da sonoridade, ressuscita palavras, colhe outras em matrizes índias e negras: “Jererê, sarará, cururu, olerê/ blablablá, bafafá, sururu, olará”.
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Dos sertões de Guimarães a Jobim-açu
É notável a “louvação” que o poeta faz de grandes nomes das artes brasileiras, muitas vezes fundindo palavras. Lá estão “sertões, Guimarães” (lembrança de Guimarães Rosa e seu ambiente romanesco), “Caandrades” (sobre os Andrade: Drummond, Mário e Oswald), “Marionaíma” (fusão de Mário de Andrade e Macunaíma), “Bachianas” (referência direta às Bachianas Brasileiras de Villa-Lobos), “Tinhorão” (homenagem ao crítico musical José Ramos Tinhorão). Porém, o mais louvado de todos é Tom Jobim, com acréscimos que sugerem “grandeza”: “Jobim-açu” (açu é “grande”, em tupi), Jobim akarore (akarores são índios gigantes) e Ujobim (alguma coisa como Jobim pai).É o Brasil que o Brazil não conhece, de que fala o refrão.
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O Brasil que pode socorrer o Brasil
É curiosa a oposição Brasil/Brazil (com grafia e pronúncia distintas), como a confrontar “brasis” diversos: “o Brazil não conhece o Brasil/ o Brasil nunca foi ao Brazil”. Esta dicotomia vai confluir para uma espécie de sub-refrão em que desaparece o Brazil, e o Brasil ressurge a pedir socorro… ao Brasil. O autor parece querer dizer que as soluções dependem de nós mesmos. (Parte da “erudição” mostrada neste texto foi apreendida de um estudo publicado por Jussara DalleLucca, que explica o significado dos estranhos termos empregados por Aldir Blanc). E quase não tive espaço para dizer que Elis Regina, como sempre, está à altura desta forte mensagem política, de 1979, do autor de O bêbado e o equilibrista (1978).
Entre os que contestam a real existência de tupinambás no sul da Bahia, convencionou-se chamá-los de “supostos índios”. Por outro lado, os que defendem a causa indígena rebatem, chamando pequenos produtores de “supostos fazendeiros”.
No grupo mais equilibrado, prevalece o entendimento de que existem índios e produtores de verdade, assim como falsificações nas duas trincheiras.
Repórteres que cobrem o conflito em Buerarema já detectaram, por exemplo, figuras “estranhas” nas manifestações de produtores na BR-101.
Entre os mais violentos, há manifestantes que aparentam estar sob efeito de drogas e exibindo aquelas tatuagens que bandidos utilizam para indicar a facção a que pertencem ou a modalidade de crime na qual são especialistas.
Esses são, de fato, “supostos fazendeiros”, e há suspeita de que vêm sendo contratados e pagos para ultrapassar os limites nos protestos. Leia-se: incendiar carros, promover saques e agredir pessoas. No outro lado do campo de batalha, há também informações sobre muitos não-índios infiltrados e formação de milícias.
Uma certeza que fica no ar: quanto mais “supostos” se envolvem no conflito, mais este se afasta da solução.
Tempo de leitura: < 1minutoYulo Oiticica afirma ser necessário ouvir os dois lados do conflito
Para não ser acusada de parcial, a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa da Bahia poderá ouvir também representantes do grupo de pessoas autodeclaradas tupinambás sobre o conflito na região da Serra do Padeiro.
Ontem, os deputados participaram de audiências em Itabuna e Buerarema. Nesta última, ouviram depoimentos de pequenos produtores da área conflagrada. A ausência dos tupinambás é compreensível, dado o grau de animosidade existente na região.
Yulo Oiticica, deputado estadual do PT, que tem uma atuação mais afinada com a questão dos direitos humanos, é quem mais defende a oitiva dos índios. Nesta quinta, 5, em Itabuna, Yulo enfrentou o presidente da Comissão, deputado Timóteo Brito (PSD), que negou a existência de tupinambás na região. Para o petista, a posição do presidente “não ajuda”.
A proposta do deputado do PT é, inclusive, de que o Cacique Babau, representante dos tupinambás, seja ouvido antes da sessão especial que deverá acontecer no dia 23. A sugestão será discutida na próxima terça-feira, 10, na Comissão de Direitos Humanos.