Estátua de Jorge Amado em Ilhéus em frente à Casa de Cultura, no Centro Histórico || Foto Divulgação
Tempo de leitura: 4minutos
Diante da veracidade do documento, assentado em 11 de março de 1931, rogo aos ilheenses de boa índole, que se abstenham da apropriação de Jorge Amado, que por direito pertence a Itabuna. Por outro lado, de papel passado, os verdadeiros conterrâneos passarão a admiti-lo como um deles, uma homenagem pra lá de interessante e muito justa.
Walmir Rosário
Há dias passados me encontrava em Itabuna visitando amigos nos bares mais frequentados da cidade, oportunidade que tive de rever o amigo e vereador Ronaldo Geraldo dos Santos, o Ronaldão. Após os cumprimentos de praxe, me prometeu um presente: a garantia de que Jorge Amado nasceu em Itabuna, mimo esse de papel passado, assinado em cartório.
Por si só, a notícia não teria nada de interessante, pois o próprio Jorge Amado garantiu e jurou de pés juntos que era itabunense, declarando em todas as entrevistas ser um Papa-jaca autêntico. Mas isso aconteceu muitos anos após Ilhéus ter se apropriado, não só do escritor, como também da figura humana e seus personagens, sem qualquer documento comprobatório.
Para os ilheenses, o que importava era o tempo em que Jorge Amado morou em Ilhéus, escreveu sobre a cidade, suas figuras humanas, muitas das quais estereotipadas, a exemplo dos cacauicultores, tudo registrado em livros. Foi uma expropriação violenta, sem respeitar os documentos oficiais, a exemplo da certidão de nascimento guardada em livro apropriado em cartório.
Eu até tenho a impressão que o próprio Jorge Amado tenha “surfado nessa onda”, motivadora da celeuma entre ilheenses e itabunenses, agravada com a publicação do livro Terras do Sem-fim, em que sugeria adjetivos não condizentes com os itabunenses. Sem querer meter minha colher em prato alheio, diria até sinônimos desairosos.
Embora sempre respeitado pelos itabunenses, os fatos levam a crer que Jorge Amado não era um amigo bem chegado, daqueles que convidamos pra ir à nossa casa fazer uma farra, devidamente forrada com uma farta feijoada, um churrasco. Alguns mais afoitos não mediam as palavras em considerá-lo um vira-casaca, por se tornar um Papa-caranguejo empedernido, como dito àquela época.
Uma rusga atoa, sem pé nem cabeça, de uma população com um ilustre conterrâneo. Tanto era assim que nunca foi desmerecido e sempre reconhecido pelas suas obras. Mas o nó górdio da questão estava na naturalidade ensovacada pelos ilheenses, sem qualquer razão, pois no ato do nascimento de Jorge Amado, Itabuna já se encontrava emancipada há longos dois anos e livre de qualquer amarra.
Dias depois, meu amigo e testemunha da promessa do vereador Ronaldão, o advogado José Augusto Ferreira Filho, me liga informando que enviara para o meu WhatsApp a certidão passada em cartório e assinada pelo Tabelião Ottoni José da Silva. E isso em 02 de março de 1944, afirmando que Jorge Amado nasceu na Fazenda Auricídia, em Ferradas (Itabuna), em 10-08-1912.
As diferenças entre os itabunenses e seu laureado conterrâneo já chegaram à delegacia quando um busto de Jorge Amado foi depredado em Ferradas, no século passado. Em outra feita mais recente, uma estátua do escritor foi alvo de tiros, além de pedradas, na calada da noite, por pessoas embriagadas, apenas pelo fito de danificar um equipamento público. Coisas do passado!
Lembro-me que no século passado, por volta do início da década de 1990, cheguei a elaborar reportagens para o Correio da Bahia, sobre a possível renomeação da principal avenida de Itabuna, a Cinquentenário, que passaria a ser nomeada Jorge Amado. A campanha encetada pelo jornalista e escritor Hélio Pólvora, não ganhou ampla adesão por ser ano de eleições municipais.
Acredito que essa homenagem teria selado, definitivamente, a paz, a amizade entre os itabunense e seu filho ilustre, mas não chegou a sair do papel. Em 1994, Jorge Amado lança A Descoberta da América Pelos Turcos, uma verdadeira homenagem a Itabuna. O livro foi considerado bem-vindo pelos itabunenses, entretanto faltaram eventos dignos no lançamento da obra na cidade.
A Certidão de Nascimento para eliminar a dúvida
Se antes essas diferenças eram levadas a “ferro e fogo” hoje provocam apenas bons debates. E não é pra menos, pois no livro 1-B destinado aos registros de nascimento, à folha 231, consta o termo nº 516, do nascimento de Jorge Amado, com toda a filiação, acompanhados dos nomes dos avós paternos, maternos além de testemunhas.
Diante da veracidade do documento, assentado em 11 de março de 1931, rogo aos ilheenses de boa índole, que se abstenham da apropriação de Jorge Amado, que por direito pertence a Itabuna. Por outro lado, de papel passado, os verdadeiros conterrâneos passarão a admiti-lo como um deles, uma homenagem pra lá de interessante e muito justa.
De minha parte, prometo adquirir um kit Papa-Caranguejo completo (camisa, caneca e protetor de lata de cerveja), junto às organizações “Lá ele!”. E para tanto deixo registrado o meu pedido a Afonso Dantas, convocando, ainda, o vereador Ronaldão, Augusto Ferreira, José Carlos (Beca) e outros parceiros de mesa de bar para selarmos o armistício definitivo entre Papa-Jacas e Papa-Caranguejos.
Walmir Rosário transforma entrevista em aula de jornalismo
Tempo de leitura: 7minutos
Walmir Rosário é um contador de histórias, no melhor sentido da expressão. Radialista, jornalista, escritor e advogado, faz da palavra instrumento de trabalho. Com cinco décadas na estrada, sua trajetória se confunde com a história recente do jornalismo no sul da Bahia. Tudo começou no rádio. “Por acaso”, recorda Walmir ao PIMENTA. Estreou com participações em programas religiosos da Rádio Sociedade de Feira de Santana, dos Capuchinhos.
Nascido em Ibirataia, em 1950, viveu em Itabuna desde os dois anos. Deixou o município cedo para estudar nos seminários dos Capuchinhos, em Vitória da Conquista e Feira de Santana. Quando a ordem de inspiração franciscana assumiu a Rádio Clube de Itabuna, sob o comando de Frei Hermenegildo, Walmir voltou para a cidade, manteve as participações em programas religiosos e foi contratado pela emissora.
Nos tempos áureos do cacau, integrou a equipe de comunicação da Ceplac. Também apresentou o programa De Fazenda em Fazenda, na Rádio Difusora de Itabuna. Na imprensa escrita, foi editor dos jornais A Região e Agora e repórter do Correio da Bahia – hoje Correio 24h. Prestou serviços, como freelancer, a jornais de Salvador e das regiões Sudeste e Sul do Brasil.
Ainda na comunicação, atuou em campanhas eleitorais e foi assessor e secretário das prefeituras de Itabuna, Ilhéus, Itajuípe, Floresta Azul e Canavieiras. Com a persona de advogado, militou em Itabuna (inclusive, como procurador do município), Ilhéus e Canavieiras, onde mora atualmente.
Já publicou livros como Josias Miguel – 70 anos de história; Crônicas de Boteco, um guia sem ordem; Como sobreviver à pandemia; Os Grandes craques que eu vi jogar – nos estádios de Itabuna e Canavieiras; O Berimbau, valhacouto de boêmios. Tem mais quatro obras no prelo e escreve crônicas semanais no blog que leva seu nome. e que também é reproduzido por este site.
Nesta entrevista ao PIMENTA, Walmir Rosário recupera os grandes nomes das redações grapiúnas e conta momentos pitorescos e tensos que viveu na cobertura da política. Também analisa o exercício da profissão no sul da Bahia e compara a dinâmica entre a sociedade civil organizada e a imprensa nas cidades de Ilhéus e Itabuna. Leia.
PIMENTA – Quais são as características elementares de uma boa história?
WALMIR ROSÁRIO – Todas as histórias são boas, dependendo de como são contadas. Basta ter começo, meio e fim bem definidos que agradará. Claro que um personagem forte, por si só, se garantirá. É preciso que o comunicador compreenda a mensagem que o personagem carrega e a transmita para o texto. O personagem pode ser político, empresário, médico, engenheiro, policial, infrator, cumprindo pena ou não, padre, pastor, ou o chamado “alguém do povo”. Basta que tenha uma história verdadeira para contar. E todas as histórias são boas, volto a dizer, a depender do ponto de vista, pois pouco se conhece da vida de uma pessoa, desde a mais simples até as que ocupam os altos cargos, os poderosos. Cada um tem o que dizer.
E as de um bom narrador?
Saber ouvir, apurar, ter paciência e senso de desconfiança quando não conhece o personagem. Não pode deixar o personagem correr solto, falar à vontade. É bom interromper a entrevista quando acredita que a fala não tem sentido. Se for verdadeira, ele retomará sem problemas. Um bom narrador tem que ter um bom ouvido, anotar tudo que considere importante e, se possível, gravar. Na gravação dá para sentir a emoção do entrevistado, se fala a verdade ou não, a depender da segurança – não confundir com nervosismo. O comunicador tem que ser um profissional especialista em conhecimentos gerais, saber concatenar a história, ligar um fato a outro, conhecer lógica, mesmo de forma rudimentar, e ter raciocínio rápido. É esse feeling que vai tornar a narrativa agradável, texto simples e de fácil leitura, e, sobretudo, verdadeira. E isso é tudo que agradará a um leitor, não importando o seu nível de escolaridade. Escrever para todos é o ideal e mais inteligente.
É possível comparar a qualidade do jornalismo de 40 anos atrás com a do atual? Evoluiu?
Apesar de saudosista, as comparações nem sempre são verdadeiras, pois é preciso situar o tempo, o espaço, os costumes. No século passado, até o início da década de 1950, boa parte dos jornais eram veículos de propaganda de partidos e governo. Em Itabuna este fato está bem documentado por Ramiro Aquino no seu livro De Taboca a Itabuna, 100 anos de jornalismo. A partir de 1960, houve uma mudança na forma da apresentação dos textos e diagramação. Dessa época pra cá muito se falou em jornalismo com isenção, e até que chegou a ser praticado pela direção dos principais veículos, embora muitos pequenos também tenham feito o dever de casa. Do ano 2000 para cá, a militância política voltou em cheio aos meios de comunicação, só que agora com o engajamento da direção.
Falta isenção?
Briguei muito nos veículos de comunicação para manter a democracia, dividindo os espaços com a sociedade. Muitas vezes, fui incompreendido. Cada um tem sua ideologia, mas não pode ser vendida se sobrepondo aos fatos. Se o jornalista quer expressar opinião, que assine seu pensamento. Não pode é influenciar numa matéria substantiva, adjetivando-a, distorcendo os fatos. Há algum tempo os comunicadores se revestem de policiais, representantes do ministério público, juízes, sem os poderes conferidos. Muitas vezes, causam prejuízos irreparáveis e o mea-culpa não é feito com o destaque do dano. Sempre dei espaço a todos os segmentos. Vez ou outra, no mesmo número do jornal, assinava um artigo contrário àquela posição. Então, posso afirmar, houve uma perda de qualidade, embora tenhamos bons veículos e excelentes profissionais.
Poderia citar profissionais em quem se inspirou no jornalismo?
Minha infância e adolescência foi bastante rica na comunicação, pois ouvíamos e líamos grandes profissionais. Em Itabuna, em frente ao Colégio Estadual, ficava a sede do Intransigente, para onde eu ia ver formatar o texto do jornal em tipos frios, conversar com os redatores. No Diário de Itabuna, ainda na Paulino Vieira, ficava horas conversando com Milton Rosário, o editor da época. Na publicidade, me encantava com as sacadas rápidas de Cristóvão Colombo Crispim de Carvalho (CCCC); o mesmo com Nelito Carvalho, os editoriais do poeta santamarense Plínio de Almeida no rádio e nos jornais; o poder da lábia de Titio Brandão, Germano da Silva, Pedro Lemos, Gonzales Pereira, Orlando Cardoso, Geraldo Santos (Borges), Edson Almeida, Iedo Nogueira. E, nos jornais do sul, Carlos Castelo Branco, Nélson Rodrigues, Waldir Amaral, Rui Porto e tantos outros.
O jornalismo do sul da Bahia conseguiu estabelecer identidade e marcas próprias? Ele tem (teve) expoentes no patamar da nossa literatura, por exemplo?
O poeta e escritor Plínio de Almeida é um deles. Alguns jornais, muitos deles de vida efêmera, trouxeram grandes nomes. Um desses veículos foi o SB – Informações e Negócios, uma maternidade do jornalismo e literatura de Itabuna, capitaneado por Nelito Carvalho. Época de Jorge Araújo, Manoel Lins, Hélio e Célio Nunes, Firmino Rocha, Antônio Lopes, Kleber Torres. Quase esqueci de dois monstros sagrados, Telmo Padilha e Hélio Pólvora.
Qual foi o episódio mais pitoresco que viveu na comunicação política?Walmir relembra episódio pitoresco ao lado de José Adervan
No jornal Agora, fazíamos constantes matérias sobre os serviços públicos nos bairros. Numa delas, recebemos reclamações da Prefeitura de Itabuna, de que não seriam verdadeiras. Como confiava na repórter, resolvi convidar o diretor José Advervan para ir constatar a veracidade. Quando chegamos lá, a situação era pior do que a narrada. Quando voltávamos, Adervan recebeu uma ligação do prefeito para dizer que era tudo mentira, no que o diretor revela que ele estava justamente vindo de lá e que teria comprovado as denúncias já publicadas e outras várias. E tudo acabou em risadas.
Tem mais?
Eu era editor do jornal A Região e repórter do Correio da Bahia. A Região não era bem-vista pelo governo municipal e eu fui atender a um convite da assessoria para elaborar um caderno especial de 32 páginas para a Prefeitura de Ilhéus. Época de festas juninas, inauguração de obras, apresentação de um novo futuro com a vinda de empreendimentos. Cheguei, fui anunciado e me pediram para aguardar numa antessala, até que fosse encerrada uma reunião com os profissionais. De onde eu estava, ouvia tudo que falavam. De repente, o assunto da reunião deles foi a elaboração de um caderno vibrante sobre Ilhéus, que eles comparavam com uma edição de A Região. Isto até que fui visto, quando passaram a esculhambar o jornal A Região. Tranquilo, continuei sentado, aguardando ser chamado para a pauta do especial do Correio da Bahia.
E o momento mais tenso que já enfrentou?
O jornalismo é sempre tenso, desde a entrevista, a apuração, a redação e o fechamento do jornal – escrito, falado e televisado. Imagine quando alguém se sente contrariado em seus interesses. Já recebi a visita de pessoas que já chegam prometendo bater, matar. Como editor, sempre tinha que comprar a briga, por telefone ou pessoalmente. Nunca me intimidei e, de início, busquei uma conversa franca e educada, o que quase sempre conseguíamos.
Já teve ameaça?
Várias. A primeira no caso da venda da Sulba, em que fiz uma série de reportagens para o Agora; de outra feita prometeram me matar quando estivesse em um bar; que poderia ser preso em flagrante por posse de drogas em meu carro. Nesse caso sugeri que melhor seria colocar litros de whisky ou cachaça, do contrário ninguém acreditaria. Mas continuo vivo.
Os movimentos sociais, as entidades de classe e a imprensa de Itabuna têm mais influência nas disputas eleitorais do que em Ilhéus?
Infelizmente, os jornais perderam espaço em Itabuna e Ilhéus. Os que continuam sobrevivem como podem e bem-feitos. Há uma grande diferença na comunicação entre Itabuna e Ilhéus, e uma distinção é a sede dos canais de TV. De certa forma, em Itabuna, a comunicação sempre foi mais incisiva, e as entidades de classe sempre souberam utilizar os veículos de comunicação em causa própria. Esse poder ficou maior com as mídias sociais, de maior agilidade e sem filtros. Os políticos que sabem interagir com a dita imprensa e as redes sociais levam grande vantagem. Mas, nos últimos anos, Ilhéus avançou no poder da mídia tradicional e da rede social, não só com as notícias corriqueiras, como também das analíticas, influenciando mais eleitores. Desde os anos 1980 que o sociólogo Agenor Gasparetto costuma dizer que a eleição em Ilhéus é decidida um ano antes. Como exemplo mais antigo, a eleição de Valderico Reis, em 2004. Duas cidades, pesos diferentes, mas que passam a ficar com a mesma cara, pelo trabalho de alguns dos comunicadores ilheenses.
Ilhéus deve perseguir o título de Cidade Literária da Unesco. Ainda não há cidade brasileira na área de literatura. Assim como Florianópolis foi a primeira cidade brasileira a conquistar seu espaço na rede Unesco de Cidades Criativas pela área de gastronomia, em 2014, a Princesa do Sul merece que seu povo se reúna e a confirme como CIDADE LITERÁRIA.
A cidade de São Jorge de Ilhéus é conhecida internacionalmente pelas belezas naturais e pela História, mas não somente essas características demarcam a cidade. A Princesa do Sul chama a nossa atenção, a dos visitantes e de diversos interessados também pela literatura. Não nos resta dúvida que o campo literário é construtor do imaginário da cidade de Ilhéus. Vários são os espaços físicos, as ruas e os alimentos que nos tocam pela literatura. A literatura oriunda das terras de Ilhéus até pode ser considerada de cunho regionalista, mas foi universalizada e alcança o mundo.
Aproveito, com a devida vênia, para sensibilizar alguns, que Ilhéus pode aproveitar a qualidade de cidade literária para fazer parte do projeto da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) batizado de Rede de Cidades Criativas. Salvador integra no campo da música. Ilhéus pode fazer parte do clube pela via da literatura. Certamente fará bem à Princesa do Sul e à literatura regional. Certa vez, o escritor Adonias Filho perguntado sobre o que Ilhéus produzia, além de cacau. Ele respondeu: escritores.
A Rede de Cidades Criativas foi criada pela Unesco em 2004, cujo objetivo é promover a cooperação com e entre as cidades que identificaram a criatividade como um fator estratégico para o desenvolvimento urbano sustentável. A rede também está comprometida com o desenvolvimento da Agenda para o Desenvolvimento Sustentável 2030 e estão entre seus objetivos o estímulo e o reforço às iniciativas lideradas pelas cidades-membros para tornar a criatividade um componente essencial do desenvolvimento urbano por meio de parcerias entre os setores público e privado e a sociedade civil.
É transformador para os apaixonados por livros caminhar por cenários de obras e lugares onde viveram escritores. Pode se vislumbrar uma experiência romântica, alvissareira, transformadora ou até mesmo alfabetizadora… os sentimentos são os mais diferentes. Afinal, a literatura nos leva a diferentes lugares, deixa-nos curiosos para conhecer e Ilhéus desperta esse fascínio internacionalmente.
A literatura pode ser instrumento de emancipação. Lembro até hoje da minha primeira obra lida – Capitães da Areia, de Jorge Amado. Como não agradecer à professora Ana Maria, do IME. Nunca mais fui o mesmo. Obrigado!
Para uma cidade ser considerada literária, a Unesco impõe algumas exigências: que ocorram eventos literários, como festivais, a existência de bibliotecas, livrarias e centros culturais, públicos ou privados e que tenham por fim último a promoção da literatura.
A cidade de Ilhéus é também uma urbis literária pelos aspectos tão comuns ao campo literário. A cidade pertence a grandes escritores, como Jorge Amado, Adonias Filho, Sosígenes Costa, Hélio Pólvora. A cidade foi parar nos livros e se transformou em cenário e enredo. É a cidade também dos hai-kais de Abel Pereira. É a terra de coração do historiador Arléo Barbosa, personagem vivo e encantador, com seu best-seller regional Notícia Histórica de Ilhéus.
A cidade também é celeiro de jovens escritores como Fabrício Brandão, Gustavo Cunha, Marcus Vinicius Rodrigues, Carlos Roberto Santos Araujo, Geraldo Lavigne, do paulista Gustavo Felicíssimo, às vezes, alguns deles com origem extra Ilhéus, mas que burilam os textos a partir deste lugar. A cidade também é lugar privilegiado para a literatura popular. Aqui merecem registros os cordéis da Mestra Janete Lainha e a sua xilogravura que tanto abrilhanta o mundo da literatura e nos insere neste lugar de destaque.
A cidade é palco do Festival Literário de Ilhéus (FLIOS), que alcança a quarta edição em 2019. Vida longa! É lugar da Mostra Jorge Amado de Arte & Cultura. Esses eventos demarcam o lugar da literatura. A cidade é cenário para diversas obras literárias. É cidade de novela – isto soma e enriquece o aspecto literário.
A cidade possui a Academia de Letras de Ilhéus, que completa 60 anos em março de 2019, cujo lema de “Servir à pátria cultuando as letras”, e não deixa dúvida da qualidade destes abnegados que insistem e nos alimentam com a chama literária (André, Rosas, Pawlo Cidade, Maria Schaun, Maria Luiza Heine, Ruy Póvoas e tantos outros, que injustamente vou deixando de citar). Este é locus importante para a formação e promoção da cultura regional. A UESC pode contribuir para o projeto. Em seu seio está a Editus, que muito tem contribuído para as obras de escritores regionais. A própria Universidade tem desenvolvido seminários e inserido os estudos da literatura regional em seus cursos.
Não obstante, o Programa Estratégico da Cultura – Cultura 500, da Secretaria de Cultura de Ilhéus, traça um cenário para a cidade nos próximos 15 anos e lança as estratégias para Ilhéus chegar aos seus 500 anos, sendo um município referência na área da Cultura, portanto, Ilhéus, Cidade Literária é um caminho.
Por tudo isto, Ilhéus deve perseguir o título de Cidade Literária da Unesco. Ainda não há cidade brasileira na área de literatura. Assim como Florianópolis foi a primeira cidade brasileira a conquistar seu espaço na rede Unesco de Cidades Criativas pela área de gastronomia, em 2014, a Princesa do Sul merece que seu povo se reúna e a confirme como CIDADE LITERÁRIA. De fato, ela já é. Mais que um título, é a confirmação de sua contribuição para a literatura e mais uma porta para a consolidação do turismo e da cultura local. A literatura, a História de Ilhéus com suas estórias e as belezas naturais da Terra de São Jorge encantam a todos.
Efson Lima é advogado, coordenador-geral da Pós-graduação, Pesquisa e Extensão da Faculdade 2 de Julho, coordena o Laboratório de Empreendedorismo, Criatividade e Inovação. Organizador do Projeto Conviver – atividade responsável pela produção de livros/UFBA, além de ser doutorando, mestre e bacharel em Direito pela UFBA.
A partir da esquerda, Antônio Lopes, Aramis Ribeiro Costa, Evelina Hoisel e Gerana Damulakis
O escritor itabunense Hélio Pólvora, falecido em 26 de março de 2015, recebeu importante homenagem no urso Castro Alves de Literatura da Academia de Letras da Bahia (ALB), na quarta-feira (4), em Salvador.
A solenidade foi realizada num dos auditórios do Solar Góes Calmon, sede da ALB, em Nazaré, perante um público formado por familiares de Hélio (entre os quais a viúva Maria Pólvora e Hélio Jr.), estudantes, intelectuais e amigos do escritor.
A obra literária do autor de Os galos da aurora foi na alisada por três convidados. Pela ordem de apresentação: Antônio Lopes falou sobre a crônica (“Entre o vivido e o imaginado”), Aramis Ribeiro Costa, sobre o conto (“O singular contista”) e Gerana Damulakis discorreu sobre o romance (tendo por tema “o romance como consequência”).
A sessão foi presidida pela presidente da ALB, a escritora Evelina Hoisel, ficando a organização geral do encontro a cargo do acadêmico Aleilton Fonseca e da professora de literatura Rosana Patrício.
Tempo de leitura: < 1minutoJornal manterá edição impressa.
O Jornal A Região decidiu manter a sua versão impressa, porém com foco na edição online, segundo anúncio feito nesta semana. A edição impressa terá algumas mudanças.
Dentre as mudanças, a redução de 20 para 16 páginas e da cobrança por anúncio. O Balaio passará a cobrar R$ 2,00 por classificado publicado. “A gente sentiu a obrigação de resistir por mais tempo”, informa a publicação.
A Região foi fundado em abril de 1987 por Manuel Leal e Hélio Pólvora e circulava com 5 mil exemplares a cada edição até o final da década de 90. A tiragem começou a cair por causa dos altos custos da operação impressa e o impacto da internet, que passa a ser o foco maior da própria publicação.
Tempo de leitura: 2minutosAntônio Lopes, na Uesc, com a poeta Dinah Hoisel (Foto Divulgação).
Em solenidade na sexta-feira (20), a Editus-Editora da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc) e o Instituto Macuco Jequitibá promovem o lançamento do livro Com o mar entre os dedos, do jornalista Antônio Lopes. O evento será às 18h30min, na Casa de Cultura Jonas & Pilar (Praça Cristovaldo Monteiro, em Buerarema).
Com o mar… abriga 57 crônicas, muitas delas “rascunhadas” neste Blog, na coluna Universo Paralelo, que publicamos em duas temporadas, a primeira a partir de 2010, a segunda a partir de agosto de 2012.
Neste quinto título, Lopes retoma a forma de expressão literária em que se fez conhecido do público regional: Estória de facão e chuva (Editus/2005) e Luz sobre a memória (Agora Editoria Gráfica/2001) estão em segunda edição – respectivamente pela Editus e a Mondrongo. O novo livro tem apresentação do ficcionista e professor de literatura Aleilton Fonseca, da Academia de Letras da Bahia.
A crítica também tem sido favorável ao autor de Buerarema falando para o mundo: se pronunciaram favoravelmente a respeito da produção do cronista que, segundo Hélio Pólvora, botou Buerarema no mapa da literatura.
O editor Gustavo Felicíssimo, que fez a segunda edição de Luz sobre a memória (Mondrongo/2013), afirma que a escrita de Antônio Lopes é contemporânea, simples, do nosso tempo, “pois é quando carrega no aspecto aparentemente despreocupado, como quem escreve sem maior consequência, muito embora com mergulhos profundos na memória e no significado dos atos e sentimentos humanos, que seus escritos saltam da página”.
Com o mar entre os dedos é o quinto livro de Lopes, o quarto de crônicas literárias e o terceiro publicado pela Editus-Editora da Uesc.
SERVIÇO Com o mar entre os dedos, Antônio Lopes Quando – Dia 20 Horário – 18h30min Onde – Casa de Cultura Jonas & Pilar
Itabuna terá luto oficial de três dias pela morte do escritor e jornalista Hélio Pólvora. O decreto será publicado na edição eletrônica de hoje (26) do Diário Oficial do Município, assinado pelo prefeito Claudevane Leite (Vane do Renascer).
O decreto destaca a contribuição de Pólvora para a cultura nacional e o seu papel como cronista, “um dos mais destacados autores de histórias curtas da literatura brasileira”.
O corpo de Hélio Pólvora será cremado as 17h30min de hoje, no Cemitério Jardim da Saudade, em Salvador. Ele morreu na madrugada desta quinta em decorrência de um câncer.
Hoje, a Prefeitura de Ilhéus e a Associação dos Municípios do Sul, Extremo-Sul e Sudoeste (Amurc) emitiram nota de pesar pela morte do escritor. A Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania (Ficc) também emitiu nota ressaltando a contribuição de Hélio para a literatura.
Além de escrever mais de 20 livros, Hélio também trabalhou em veículos nacionais e fundou, junto com o jornalista Manuel Leal, A Região, em 27 de abril de 1987.
Tempo de leitura: 2minutosEscritor Hélio Pólvora faleceu em Salvador.
A Tarde
Morreu na madrugada desta quinta-feira, 26, aos 86 anos, o escritor baiano Hélio Pólvora, que ocupava a cadeira 29 da Academia de Letras da Bahia desde 1994. Além de escritor, ele também era jornalista, cronista e atuava como editorialista e articulista do Jornal A Tarde – no Caderno 2 e na coluna Opinião – tendo trabalhado ativamente até esta quarta-feira, 25, na produção do editorial.
Nascido no município de Itabuna, Hélio Pólvora era um dos nomes mais destacados de escritores oriundos da região cacaueira da Bahia. Ele deixa esposa e filhos.
Hélio Pólvora de Almeida é natural de Itabuna, Bahia, onde nasceu em 1928, em fazenda de cacau. Fez estudos secundários em Salvador, no Colégio Dois de Julho, Colégio Carneiro Ribeiro e Colégio da Bahia. Iniciou-se no jornalismo como colaborador e editor do semanário Voz de Itabuna, e mais adiante foi correspondente em sua cidade de jornais de Salvador.
Em janeiro de 1953 fixou-se no Rio de Janeiro, para curso universitário, onde morou por cerca de 30 anos. Foi lá que ele iniciou sua carreira literária e uma atividade jornalística intensa, que prosseguiram na Bahia após 1984, nas cidades de Itabuna, onde fundou o Jornal A Região, Ilhéus e Salvador.
Seu primeiro livro publicado foi Os Galos da Aurora (1958, reeditado em 2002, com texto definitivo). Depois dele, seguiram-se 25 títulos de obras de ficção e crítica literária, além de participação em dezenas de antologias nacionais e estrangeiras. Seus contos estão traduzidos em espanhol, inglês, francês, italiano, alemão e holandês.
A partir de 1990, passou a residir em Salvador. Eleito para a Cadeira 29 da Academia de Letras da Bahia, faz parte também da Academia de Letras do Brasil (com sede em Brasília), onde ocupa a cadeira 13, que tem como patrono Graciliano Ramos. Pertence ainda à Academia de Letras de Ilhéus.
É Doutor honoris causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz .Fez parte da Comissão Machado de Assis, instituída pelo Ministro da Educação e Cultura, Jarbas Passarinho, para reconstituir os textos e reeditar a obra do Mestre, e integrou a Comissão Selo Bahia, criada pela Secretaria da Cultura e do Turismo, no âmbito da Fundação Cultural do Estado da Bahia.
Ceres declamando na Casa das Artes, em Bento Gonçalves (RS). A Divine Académie Française des Arts, Lettres et Culture, de Paris, na França, acaba de escolher a poetisa grapiúna Ceres Marylise, como integrante da instituição, em reconhecimento à qualidade da obra poética da autora.
Fundada em outubro de 1995, a Divine Académie, presidida atualmente por Diva Pavesi, costuma selecionar para seus quadros “pessoas que se destacam pelos serviços prestados às artes e à cultura”.
A produção de Ceres (que, na opinião do crítico Hélio Pólvora, “devolve a poesia ao seu estado natural, emotivo, encantatório”) foi publicada apenas em antologias e pela internet (o primeiro livro está em fase de negociações com a Editora Mondrongo), mesmo assim tem encontrado ampla repercussão, no Brasil e no exterior.
Além da Divine Académie, mais provas do bom momento vivido pela escritora: em março, ela toma posse na Academia de Letras e Centro Cultural Castro Alves e Casa do Poeta Latino-Americano, em Porto Alegre/RS; em abril, também em Porto Alegre, será homenageada na festa Mulheres Notáveis, com o Troféu Cecília Meireles, Categoria Especial; em agosto, recebe na Academia de Letras de Itabira o Troféu Carlos Drummond de Andrade; em novembro do ano passado, teve aprovada na Câmara de Vereadores de Itabuna uma moção de aplauso, proposta pelo vereador César Brandão.
Ceres Marylise Rebouças de Souza (professora universitária aposentada, nascida em Ubaitaba) terá, ainda este ano, o lançamento de uma seleção bilíngue (português-francês) de sua poesia, por sugestão da Aliança Francesa.
A escritora e jornalista itabunense Sônia Coutinho, de 74 anos, morreu na noite de sábado, 24, no Rio de Janeiro, em decorrência de parada cardíaca. Filha do político e escritor Nathan Coutinho (como presidente da Assembleia Legislativa, chegou a assumir o governo baiano no período Antônio Balbino) e irmã do filósofo Carlos Nelson Coutinho (um dos fundadores do PT), Sônia Coutinho foi destaque nas letras brasileiras.
Publicou seu primeiro livro, O herói inútil, em 1964, tendo recebido o Prêmio Jabuti em duas ocasiões: em 1979, pelo conto Os venenos de Lucrécia, e em 1999, pelo livro Os seios de Pandora.
Além desses prêmios, ela recebeu, em 2006, o Clarice Lispector, da Biblioteca Nacional, pelo livro de contos Ovelha negra e amiga loura. Outros livros de destaque de sua autoria são Uma certa felicidade, Mil olhos de uma rosa, O caso Alice e O jogo de Ifá. Conhecida fora do Brasil, a escritora teve livros publicados nos Estados Unidos, França e Alemanha.
Sônia Coutinho, que deixa uma filha e dois netos, foi casada com três escritores do Sul da Bahia (pela ordem): Hélio Pólvora, Florisvaldo Matos e Marcos Santarrita. Membro da Academia de Letras de Itabuna, ela morreu sem tomar posse.
O corpo da escritora foi velado na Capela 9 do Cemitério São João Batista e será cremado nesta segunda, 26, às 11h, no Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro.
O jornal A Tarde, que abriga de Hélio Pólvora uma saborosa crônica todos os sábados (aos domingos, um artigo), revelou à distinta torcida baiana outro cronista de indiscutível qualidade, também aos sábados, que não perdoo, leio. Chama-se Jânio Ferreira Soares (foto) este artista da palavra, capaz de dar leveza e lirismo aos assuntos mais áridos. O gênero tipicamente brasileiro – que tem em Machado de Assis um mestre consumado – viveu dias gloriosos na segunda metade do século passado, com Fernando Sabino (1923-2004), Rubem Braga (1913-1990) e Paulo Mendes Campos (1922-1991), dentre outros. Em Hélio e Jânio a crônica literária se renova.
________________
Bom humor e longevidade “Não sei até que ponto o bom humor das pessoas tem a ver com a sua longevidade, mas tenho pra mim que aqueles que não se levam muito a sério e conseguem rir de si mesmos têm mais chances de receber alguns anos de acréscimo, mesmo depois de esgotado o tempo regulamentar. Agora, aqueles que levam a vida como se ela fosse uma espécie de pós-graduação para algum NBA celestial e agem como se os problemas do mundo dependessem de suas performances de vendedores de Delta Larousse, aí já não sei. Se o juiz for dos meus, é cartão vermelho antes mesmo que a primeira frase de Paulo Coelho saia de suas bocas” (Jânio). ______________ Amigos mudos, fiéis e silenciosos “Livros esperavam, mudos, na escrivaninha de tampos de prata. Estavam sempre lá, sabiam que cedo ou tarde seriam tomados, abertos, lidos. Os amigos permanentes. Os amigos mudos e fiéis. Sobretudo, os amigos silenciosos. Sempre a mesma mensagem: não mudavam de ideias, com eles não havia jogo duplo. Uns traziam estampas. Outros, sem ilustrações, convocavam mais o imaginário. As palavras do texto formavam desenhos perfeitos na imaginação, a donzela aparecia em retrato luminoso, as descrições da natureza é que mudavam um pouco para receber bosques de cacaueiros, ingazeiras e jindibas” (Hélio, no traço de Ramon Muniz). COMENTE! » |
AS LOURAS E A LEI DA OFERTA E PROCURA
“Os homens preferem as louras”, alardeava o filme de Howard Hawkins/1953, com as incendiárias Marilyn Monroe e Jane Russell. Dizem os estudiosos de temas difusos que se trata de fenômeno típico da economia, a lei da oferta e procura: como há poucas louras (cerca de 2% das mulheres do mundo), elas ficaram “valorizadas”. Se acham. E estão aí as morenas comprovando a tese: o número destas que se enlourecem é muito superior ao das louras que escurecem os cabelos (e aqui o maldoso leitor vai querer que eu explique como atestar a “autenticidade” de uma loura – mas eu me recuso, pois esta coluna é mais familiar do que pensão do interior). A julgar pela MPB, que reflete bem a nossa cultura, o brasileiro prefere as morenas.
______________
Fahel canta a morena do Rio Vermelho
De cara, lembro-me da morena boca de ouro (de Ary Barroso), da morena “desse amigo meu” me dando bola (Luiz Ayrão) e do apelo de Alceu Valença: “Morena tropicana eu quero teu sabor” (e quem não quer!). Paulinho da Viola fala de uma morena faceira (que) mexeu as cadeiras (e) “foi um desacato”, Tom Jobim diz que “a morena vai sambar, seu corpo todo balançar…”, o ilheense Oswaldo Fahel canta a morena bela do Rio vermelho, Caymmi fala de uma Rosa, morena, com andar de moça prosa, Ary encontrou a morena “mais frajola da Bahia” – e Jota Sandoval apela: “Ai, morena, deixa eu gostar de você!…” Falta Noel Rosa, mas, antes, abramos espaço para as louras, que elas merecem.
______________
Loura é perfume, sonho, poema e flor
Para Hervê Cordovil (cantado pelo inesquecível Dick Farney), uma loura não é pouca coisa: “frasco de perfume, aroma de flor, espuma fervilhante de champanhe, sonho e poema”. Braguinha, animando a festa: “Lourinha, lourinha/ dos olhos claros de cristal/ desta vez em vez da moreninha/ serás a rainha do meu carnaval”. Noel, grande morenófilo, fez Morena sereia (que se senta na areia e “deixa a praia cheia”) e pediu ao sol que não saísse, “pois as morenas vão logo embora”. Depois, comparou: “Esta morena/ cheia de beleza e graça/ é o símbolo da raça/ cor de leite com café./ E esta loura/ nunca foi nem é meu tipo/ perto dela eu me arrepio/ de tão fria que ela é”. Exagerou.
É provável que a gentil leitora e o amável leitor já tenham cantado, por divertimento ou castigo, “O meu chapéu tem três pontas/ tem três pontas o meu chapéu/ se não tivesse três pontas/ não seria o meu chapéu…”, canção com que eu costumava “ameaçar” minhas filhas: ou se comportar direito ou cantar “o meu chapéu tem n pontas…” A musiquinha recomeça a cada fim da quadra: depois de 475 pontas, meu chapéu passa a 476 pontas e por aí vai, num conjunto infinito. O “castigo” funciona até o dia em que a criança descobre que nossa paciência vai se esgotar antes da dela – e então somos nós a lhe implorar que pare com essa tortura em tom maior. É o feitiço contra o feiticeiro. _______________
Música é mistério, magia inexplicável
Mas é possível que nem todos saibam que a detestável canção popular origina-se em “Carnaval de Veneza”, mui celebrada peça do genovês Niccolo Paganini (1782-1840). Carnevale di Venezia, Opus 10 (no original, em italiano) é amada principalmente pelos violinistas, que costumam tê-la em seus catálogos de apresentação. Até aí, nada de novo. Novidade para mim foi ver a vetusta Boston Pops Orquestra, com seus solistas a rigor, tendo à frente um dos maiores trompetistas do mundo, a executar, todos cheios de responsabilidade, “O meu chapéu tem três pontas”. Por essas e outras, vejo na música, eu que não sou músico, um quê de milagre, de mistério, de inexplicável magia…
Por e-mail, questionam-me sobre a diferença entre plágio e citação, dúvida que para mim tem quase a idade do ovo e da galinha. Fazendo árbitro o dicionário, fica fácil: plágio é cópia ilegal, apropriação indébita da produção de outra pessoa, coisa sorrateira, sub-reptícia; já a citação exige remessa à fonte, creditando-se a autoria, tudo dito e feito às claras. Mas essa abordagem lexicográfica não satisfaz à consulente (ops!), e a mim muito menos: no escrever, é frequente a referência a outros autores, sem citação de fonte, e que não é plágio, mas homenagem. Certas expressões se tornam de domínio público, a exemplo de “ajuda luxuosa”, “se a montanha não vai a Maomé…”, “última flor do Lácio”…
________________
“Sou apenas um pobre homem de Itabuna” No belo poema “Cacau, canto, clamor”, do livro Poesia reunida e inéditos, Florisvaldo Mattos escreve sobre a ascensão e queda da agricultura regional: “…livres de turbantes, burkas e sandálias,/ outros mais, mais outros, enfim dezenas,/ vieram, por desejo de erguer e construir/ o que a alma na carne gravara como dívida”. É evidente a citação de “As pombas”, de Raimundo Correia (em itálico) – e eu, de propósito, citei Ascensão e queda do terceiro reich, de William Shirer. Hélio Pólvora, um dos poucos para quem vale o lugar-comum “dispensa apresentação”, costuma autointitular-se “apenas um pobre homem de Itabuna” – Eça de Queirós (1845-1900) se disse “apenas um pobre homem de Póvoa de Varzim”. _______________ Voltaire é citado em diário de Itabuna Em artigo recente em importante jornal diário, o autor diz que o povo de Itabuna não vive “no melhor dos mundos” – empregando, bem, uma expressão tirada de Voltaire (1694-1778), em CândidoouO otimismo. Machado de Assis, com sua vasta cultura, usou muito a citação, às vezes em língua estrangeira: Et nunc et semper (do latim, “nunca e sempre”), no conto O anel de Polícrates, é de São Mateus, 5:9; “… como a esposa que desce do Líbano”, no conto Último capítulo, vem do Cântico dos Cânticos. E é impossível não lembrar que Hemingway tirou do livro de Salomão um dos títulos mais importantes da literatura mundial: O sol também se levanta. A citação, sobre ser prova de conhecimento e bom gosto, é homenagem ao citado e ao leitor perspicaz. COMENTE! » |
(ENTRE PARÊNTESES)
É impenetrável o raciocínio da chamada nova direita brasileira: enquanto cerca de 96% dos crimes são cometidos por bandidos adultos, ela se preocupa com o potencial de 3-4% representado pelos menores. Daí, prega que, ao reduzir a maioridade penal (e fechar os olhos aos criminosos engravatados, fardados, togados, nomeados ou concursados), reduz a criminalidade. Combater o crime tornando adultos os marginais infanto-juvenis me lembra a anedota sobre o cara que encontrou a mulher (lá dele!) no sofá, em intimidades com Ricardão. A gentil leitora e o atento leitor sabem como ele resolveu o problema: vendeu o sofá.
No ano passado, um deputado inglês, em palestra na Universidade de Oxford, chamou a atenção sobre “como ter pouco conhecimento é perigoso”. Isto não quer dizer que nos devemos transformar todos em sábios, como num passe de mágica, o que seria impossível; mas que precisamos aprofundar um pouco mais nossas informações, se queremos sair por aí dando opinião. Sobre Hugo Chávez, por exemplo (o tema da palestra do parlamentar), se um indivíduo disser “não sei quem foi”, será um alienado; se disser “foi um ditador da Venezuela”, entrará para a lista dos que alardeiam conceitos tomados de empréstimo, talvez ouvidos em algum telejornal. _______________
Como o “inocente útil” se faz perigoso
O alienado não influi nem contribui, é um inocente inútil; o outro, também inocente (mas útil), é perigoso, pois anda a espalhar “verdades” sob encomenda. É por esse caminho do “pouco conhecimento” que elegemos candidatos inadequados (para empregar um eufemismo) ou transformamos em herói qualquer pessoa que, a exemplo do jurista Joaquim Barbosa, desempenhe razoavelmente bem suas funções. Tentei evitar Brecht, mas não pude: “Triste do povo que precisa de heróis”. A ideia de fazer de JB presidente da República seria hilariante, se não fosse infeliz. Mas eu confesso que gostei quando ele disse que os três maiores jornais brasileiros são “mais ou menos” de direita. É óbvio, mas me fez bem ouvir.
Nenhuma lista (relação, antologia ou coisa que o valha) é inquestionável, pois sempre reflete a opinião de quem a fez. Mas isto nunca foi obstáculo para quem gosta de listar os “melhores” (ou “maiores”) de qualquer coisa. Veículos de imprensa do mundo inteiro andam, às vezes, por esse caminho, e eu, confesso, gosto de ler tais seleções – que me dão o pensamento médio dos outros. Em 2009, a Folha de S. Paulo reuniu dezesseis críticos, pesquisadores e compositores, para escolher as melhores músicas caipiras de todos os tempos. No topo da lista, como melhor de todas, ficou Tristeza do Jeca, de Angelino de Oliveira (1888-1964) – compositor paulista nascido em Itaporanga. _______________
Com 95 anos, parece novinha em folha
Tristeza no Jeca nasceu a 24 de maio de 1918, cantada em público pela primeira vez, pelo autor. Conta, portanto, 95 anos, e parece novinha em folha. Teve gravações de diversos artistas, antigos e novos, caipiras e “caipiras”, mas o registro fundamental é da dupla Tonico e Tinoco. A canção se baseia no livro de Monteiro Lobato, Urupês, que deu vida longa a Jeca Tatu, o tipo rural infeliz e doente, típico brasileiro excluído, morador dos grotões da Pátria. Aqui, a interpretação de Paula Fernandes, ao lado de Sérgio Reis e Renato Teixeira. A gentil leitora, exigente, questionará se a bela Paula já cursou ao menos um semestre de violão; o leitor, de olho rútilo, não questionará nada.
Não sou bom com vendedores de livrarias e casas de discos. Muitos deles lá estão sem nenhum treinamento prévio, nada entendem de técnicas de vendas, não conhecem o produto com que trabalham. Em tempos imemoriais, eu resolvia este problema comprando pelo reembolso postal (os avós do amável leitor sabem do que estou falando). Depois veio a internet e me transformei num habitual comprador em lojas online. Nunca tive problemas sérios (recentemente adquiri uma coleção de 25 CDs da Folha de S. Paulo e faltaram duas unidades: reclamei e foram repostas rapidamente). Pela internet não tenho de lidar com vendedores ignorantes e mal-humorados.
________________
O jazz tratado como caso de polícia
“O livro de Billie Holiday (Lady sings the blues, da Brasiliense), lançado nos EUA em 1956, teve sua versão brasileira entre os mais vendidos de 1985, provando que o jazz é viável como negócio de livraria. Para os jazzófilos de qualquer idade, esta leitura é apaixonante e única. Afinal, a bibliografia por aqui é raríssima, discografia não existe e a ignorância dos que se dedicam ao negócio é, simplesmente, assombrosa: dia desses, mencionei a palavra jazz numa casa de discos de Itabuna, a mocinha ficou corada do dedão do pé à raiz dos cabelos e ameaçou chamar a polícia…” (Antônio Lopes – Buerarema falando para o mundo/1999). COMENTE » |
ENTRE PARÊNTESES
Chova ou faça sol, haja frio enregelante ou calor de derreter o asfalto, qualquer tempo é tempo para se falar (bem) de Abel Pereira. Nesta lembrança, eu, que não sou poeta (“O que sou eu, afinal?” – a interrogação aflitiva ecoa dentro de mim), brinquei de fazer haicai. Nada sério, só saudade daquele bom e simples Abel Pereira que, já com mais de 90 anos quando o conheci, não me permitiu chamá-lo de “seu” Abel. Pedindo clemência à gentil leitora pela pieguice explícita, aqui vai o que parece ser uma eterna lida do homem:
Este amor tão puro
Tenta noite e dia abrir Teu coração duro.
EM LITERATURA, É O LEITOR QUEM DECIDE
Em era que longe vai publicava o extinto Jornal do Brasil (bons tempos, aqueles!), semanalmente, uma seção chamada “O que você está lendo?”, com esta pergunta sempre dirigida a pessoas famosas, é claro. Por ali pesquei várias dicas de leitura, às vezes me dei bem, às vezes, não. É que opiniões sobre literatura (e acho que arte, em geral), por mais “técnico” ou “inteligente” seja quem opine, é sempre avaliação pessoal. O que um crítico conceituadíssimo como Wilson Martins, por exemplo, recomenda não vai, necessariamente, me agradar. Só acredito lendo. Voltando ao JB, foi naquela seção que “descobri” José Saramago. O ator José Lewgoy estava lendo A jangada de pedra – e eu fui na onda (ops!). ________________
José Saramago, antes de ganhar o Nobel
Li A jangada… tão logo me foi possível, e fiquei zonzo: aqueles parágrafos imensos, às vezes tomando toda a página, me dificultaram o entendimento do que o autor queria dizer. Saliente-se que Saramago, naquele fim de 1986, não era o quase best-seller de hoje, Prêmio Nobel lido e aprovado até pelo festejado Harold Bloom: era pouco conhecido por aqui e digo que “estive a consultar” dois intelectuais itabunenses (de quem, compreensivelmente, omito os nomes) que de nada sabiam. No terceiro (aconteceu na fila do Banco Itaú), soube que José Saramago era “grande escritor português, um escritor verdadeiro”. Assim me falou, de passagem, Hélio Pólvora, mas este não conta, porque leu tudo (não de tudo!). _________________ Atenção ao som e ritmo das palavras Mais tarde, já consagrado, Saramago ouviu de um escritor um problema idêntico ao meu, a crítica à narrativa de difícil compreensão. O autor de Caim não passou recibo, não se mostrou disposto a alterar o modelo de escritura, dizendo que seu texto devia ser lido uma segunda vez, com atenção ao som e ritmo das palavras, sugerindo até que se leia em voz alta (ou se imagine uma leitura em voz alta). Parece-me que, por aí, ele se equipara a Guimarães Rosa, cuja beleza da escrita costuma “esconder-se” ao primeiro contato, para desabrochar numa segunda (ou terceira!) visão. Fico “a imaginar” (estou hoje, reconheço, um tanto lusitano) se todo autor não merece esta homenagem da segunda leitura.
UM NAMORADO DE ROSTO “INFOTOGRAFÁVEL”
Já virou lugar-comum neste espaço coluna: as canções mostradas aqui tiveram gravação de “todo mundo”. Por não ser especialista, nem a coluna ser lugar de experimentações, trato apenas de temas consagrados do jazz (os ditos standards), que os leitores já conhecem. É o caso de My funny valentine, da dupla de midas Rodgers-Hart (o que eles tocam vira sucesso), que já teve mais de 1.200 gravações. No original (uma peça da Broadway, de 1937), Valentine é o rapaz – ridicularizado pela namorada. Ela fala da cara risível (laughable) dele, que é “infotografável” (unphotographable) etc. Mas ele a faz rir e, portanto, não precisa mudar nem um fio de cabelo (don’t change a hair for me). Letrinha boba.
_________________
Chet Baker, aos 58 anos, parecia ter 80 Tóquio, 1987. No palco, um Chet Baker devastado pela heroína. Ao seu lado, músicos de alta qualidade, embora os críticos não lhes reconheçam a excelência que o trompetista merecera outrora: Harold Danko (piano), Hein van de Gein (baixo) e John Engels (bateria), no show que resultou num CD duplo, com 11 faixas. Destacamos a quinta do CD 1, My funny valentine. A voz pequena e frágil de Baker teria inspirado um certo João Gilberto a fazer uma revolução no Brasil. Para mim, simples ouvinte, este solo de Chet é um emocionante momento do jazz: definhando a olhos vistos, o trompetista encontra pulmões para uma surpreendente cascata de notas. Morreu no ano seguinte, aos 58 anos. Parecia ter 80.
Quando menino em Buerarema, eu não sabia o que era o mar. Aliás, nenhum de nós sabia. Orlandino, o mais velho da turma, gabava-se de já ter visto o mar, em Ilhéus, mas a gente não acreditava – ele, diziam os mais velhos, era mentiroso e fumador de maconha. Mas sabíamos, talvez do livro de Geografia de Gaspar de Freitas, que o mar era feito de água – a maior parte daquelas três quartas partes de que se formava o planeta, segundo a professora Aflaudísia. Na minha imaginação, multiplicado o rio Macuco, obtinha-se o mar bravio, sem tirar nem pôr… Mas eu queria mesmo era ver o bichão bem de perto, frente a frente, meu olho no olhão dele.
________________
O sono perdido entre o mar e a vizinha
Orlandino dissera que o mar era salgado, mas isso era mentira: pelos meus cálculos, todo o sal das vendas de Gringo e Zé Bazuza não daria para salgar o Poço da Pedra, quanto mais o marzão de Ilhéus. Eu andava com insônia (não só por culpa do mar, mas também de uma vizinha – e o nome dela eu não digo nem sob tortura). Da existência e tamanho desmesurado do mar eu já sabia, pois o vira, meio encoberto e misterioso, lá do alto da Serra do Jequitibá. Foi onde nasceu a árvore símbolo de minha terra, que lhe dá poesia e proteção (o jequitibá primeiro morreu de velho, mas há um filho que lhe herdou a responsabilidade de guardião de Buerarema. _________________
Quis ser um pássaro e voar até o oceano
Fizemos muito piquenique (o pastor Freitas preferia “convescote”) ao pé da árvore generosa, depois de caminhar da cidade à serra. De lá tínhamos uma mal definida vista de Ilhéus, com as águas de tanta insônia. Minha intenção nunca confessada era ser um pássaro, bater as asas na Serra do Jequitibá e voar, voar, voar toda a distância entre a serra e o oceano – Marcelo Ganem, menestrel da minha terra, disse isto em verso e música. Cheguei, em sonho desvairado, a pensar que, por magia só cabível em mente infantil, tal poderia acontecer. Mas não precisou. Certo dia, não sei a troco de quê (talvez devido à boa sorte, que sempre me segue)… _________________ Tonto de emoção, provei o mar salgado … Fui dar com os costados em Ilhéus, fiquei frente a frente com o mar imenso, tendo, afinal, aquele despropósito de água ao alcance dos dedos. Lembro-me agora daquele menino Diego (de Eduardo Galeano, em O Livros dos abraços) que, trêmulo de emoção frente à grandeza do oceano, pediu ao pai: “Me ajuda a olhar”. Não digo que fiz o mesmo, porque sou um triste menino de verdade, não um inteligente ser de ficção. Apenas, emocionado, levei à boca um pouco daquela grandeza. Provei-o. Era salgado o mar, e muito. O gosto era minha única interrogação, pois o existir a Serra do Jequitibá já me confirmara. Foi bom saber que meu amigo Orlandino não mentia nem puxava. Quer dizer: só um pouquinho de cada coisa. COMENTE » |
SEM RIO OU SÃO PAULO, SÓ RESTA O NADA
Ninguém é profeta em sua terra (equivale a santo de casa não faz milagre). Em matéria de arte, não se chega ao êxito se não romper as fronteiras do próprio quintal. Veja-se apenas na região cacaueira da Bahia: Adonias Filho, Jorge Amado, Hélio Pólvora, Marcos Santarrita, Telmo Padilha, Cyro de Mattos – todos que tiveram maior ou menor notoriedade foram buscá-la no Rio de Janeiro. É no Rio (e, nos últimos tempos, também num lugar chamado São Paulo) que as coisas acontecem; fora desse eixo, é o nada. Exemplos, em contrário (os que nunca saíram daqui): Ruy Póvoas, Jorge Araujo, Euclides Neto, Antônio Nahud Jr., Janete Badaró. Dirão que a música baiana, feita em Salvador, ganha o Brasil e o mundo – mas isto é exceção.
______________
Na Bahia, os caminhos são obstruídos
Afora minha humilde opinião de que ivetinhas, harmonias, claudinhas, chicletes e danielas ficariam melhor no anonimato, a exceção confirma a regra: Caymmi, João Gilberto, Gal, Gil, Nana, Caetano e Bethânia foram vencer no Rio (e João Ubaldo também, se falamos em literatura). A reflexão me vem a propósito de O desterro dos mortos (Via Litterarum), belo livro de Aleilton Fonseca. Contista excepcional, comparável aos grandes do Brasil, ele não ocupa o espaço nacional merecido – e eu atribuo isto ao fato de (nascido em Firmino Alves) morar em Salvador. Mesmo recebendo incentivadoras menções na Europa, notadamente na França, o autor ainda não foi “descoberto” pelo sul maravilha, o que lhe obstrui os caminhos. COMENTE » |
VÍDEO PROVA QUE O IMPOSSÍVEL ACONTECE
Os tenoristas Coleman Hawkins, Ben Webster e “Pres” Lester Young, mais Gerry Mulligan (sax barítono), Roy Eldridge (trompete), Milt Hinton (baixo) e a voz mágica de Billie Holiday juntos – seria um delírio difícil de imaginar até como delírio. Pois, creiam, o encontro aconteceu, em 1957, numa apresentação ao vivo, da qual destacamos Fine and mellow, uma composição da própria Billie. E ainda teve Mal Waldron (piano), Doc Cheatham (trompete), Vic Dickenson (trombone), Danny Barker (guitarra) e Osie Johnson (bateria). O vídeo nos dá, mais de meio século depois, a emoção desse momento raro do jazz (Billie morreria em 1959). ________________
“Pres”, o favorito de Billie Holiday
Ela canta os primeiros versos do tema, para a entrada de Webster e, em seguida, Lester Young. Billie, em close, tem os olhos brilhantes e segue o solo, balançando a cabeça, como em aprovação ao sopro suave de Young, seu saxofonista favorito – foi ela quem o apelidou de “Pres” (President). Após a segunda intervenção de Lady Day, vem o “choro” do trombone de Vic Dickenson e o som particularíssimo de Gerry Mulligan, o único branquelo do grupo. Mais Billie (“O amor vai fazer você beber e jogar” – Love will make you drink and gamble), para o solo do mestre Coleman Hawkins, meu saxofonista preferido, seguido de Roy Eldridge. Sublime.
Estilo, lenda, escola, inovação, marcante, clássico, definidor de um gênero, divisor de águas – são expressões que o mundo do jazz tem repetido a propósito do disco Kind of blue, de Miles Davis, gravado em 1959. Ruy Castro (Tempestade de ritmos) prefere o adjetivo “insuperável”. Passando ao largo dos especialistas, que não é minha praia (sou apenas alguém que “gosta” de jazz), resta a fria verdade: a gravação já atravessou meio século, vendeu mais de 3 milhões de cópias (só eu comprei umas seis!), sendo um dos três discos mais vendidos dentre os que foram gravados nos anos cinquenta, em qualquer gênero. Demais, para um disco de jazz instrumental.
________________
Mil dólares e cinco pontos na cabeça
À gravação de Kind of blue seguiram-se alguns problemas com Miles Davis. Este, por exemplo: no intervalo de um show no Birdland (famoso clube de jazz em Nova Iorque) ele acompanhou uma garota branca até um táxi e ficou tomando ar na calçada, quando foi abordado por um policial. Este perguntou o que ele fazia ali e o mandou embora. O trompetista explicou que estava trabalhando na casa de shows, mas o policial, rispidamente, disse-lhe que iria prendê-lo, se não saísse logo do local. Enquanto o músico argumentava, foi atacado por outro policial, por trás, tendo a cabeça acertada com um cassetete. Miles passou a noite na cadeia, perdeu o show, gastou mil dólares de fiança e recebeu cinco pontos na cabeça.
_________________
Um presente para quem gosta do Pimenta
Kind of blue (registrado no livro 1.001 discos para ouvir antes de morrer) consumiu nove horas de gravação, muito pouco tempo, considerando-se que os liderados de Davis não conheciam as partituras. Reza a lenda que o Divino usava esse truque para manter seus músicos “acesos”, absolutamente concentrados. Este grande momento do jazz está à disposição dos leitores. Os três primeiros que enviarem ao nosso e-mail (acima, à direita) um comentário qualquer que contenha a expressão “eu gosto do Pimenta” receberão um Kind of blue novinho em folha, não pirata. É indispensável oferecer um nome (mesmo fictício) e endereço completo (no Brasil!) para o envio. A divulgação dos sorteados não será feita sem autorização.
Aprendi com Telmo Padilha que um mau livro é aquele do qual saímos, ao final da leitura, sem sofrer nenhum impacto. O bom livro, logicamente, é o que tem efeito contrário. Se tivesse que escolher um só livro de ficção que me marcou muito seria O coronel e o lobisomem – que li em 1964 (o ano que só terminaria em 1985). Em meio a Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Jorge Amado e semelhantes, José Cândido de Carvalho foi uma descoberta: a linguagem renovada, as invenções, o humor, o misticismo brasileiro, aquele jeito de Barão de Münchausen que tem o coronel Ponciano de Azeredo Furtado. Mais tarde eu conheceria a teoria da lanterna de Diógenes, coisa do crítico Hélio Pólvora.
________________
Deliciosa síndrome de tocha olímpica
É mais ou menos assim: a literatura, feito tocha olímpica, passa de mão em mão, levada por pessoas diversas. Assim, ela se movimenta, visita autores com variados padrões estéticos, sofre influências desses indivíduos. Por trás de todo grande escritor identificam-se (desde que haja arte e engenho bastantes para isso) presenças marcantes. Um gera o outro, que gera o outro, que gera o outro, nessa deliciosa síndrome de tocha olímpica. Assim, raramente se encontra um “inventor” em literatura, mas um continuador, renovador, transformador, adaptador. De Guimarães Rosa veio José Cândido de Carvalho, que gerou Dias Gomes e O bem-amado (uma caricatura que funcionou bem na tevê).
__________________
A lanterna com o azeite renovado
Lembro dessas coisas (já ditas aqui), a propósito de Os desvalidos (Francisco J. C. Dantas), cuja leitura apressei, por sugestão do leitor Ricardo Seixas. Abre parênteses: se escrever é sugestionar pessoas, e eu me deixo levar pelos leitores, parece que algo está fora dos eixos – mas quem estaria interessado em eixos? – fecha parênteses. O escritor sergipano é soberbo. Sua linguagem é revolucionária, nos reportando a Guimarães Rosa, Rachel de Queirós, Graciliano e, sobretudo, José Cândido de Carvalho (nunca Dias Gomes!). Não lembro de nenhum autor brasileiro, depois de JCC, que me tenha causado tão positiva impressão. A lanterna de Diógenes está acesa e de azeite renovado.
Blue Christmas é uma canção bobinha que fala da solidão no Natal, um tema country (a música “sertaneja” deles) do fim dos anos quarenta. Foi regravado por Elvis Presley em 1957 (e, num repeteco, em 1968), obtendo inesperado sucesso em 2008, quando foi uma das músicas mais tocadas nos EUA: só que numa montagem de computador, em que o Rei do Rock está em dueto com Martina McBride, estrela do gênero “caipira”. Para quem é vidrado em tecnologia digital, um prato cheio: os dois artistas cantando “juntos”, embora 40 anos os separem: Elvis canta em 1968; Martina, em 2008.
________________
É Natal, e os flocos de neves vão cair
Essa “mistura” de cantores e épocas não é nova (Nat King Cole já cantou Unforgettable com a filha, Natalie), Celine Dion com Elvis, e por aí vai – mesmo assim, juntar Elvis Presley e Martina McBride despertou a curiosidade do pessoal que gosta de mexer com as máquinas modernas, além de causar certo frisson no mercado discográfico. Vamos à canção, mesmo que a letra nos soe estranha, com coisas do tipo “lembranças tristes começarem a clamar” (blue memories start calling). Estamos no Nordeste, mas o tempo é de Natal, e a imaginação sem rédeas admite coisas do tipo “e quando aqueles melancólicos flocos de neve começarem a cair” (and when those blue snowflakes start falling).