Denúncias de assédio eleitoral poderão ser feitas no MP e em sindicatos || Foto ABr/Arquivo
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O assédio eleitoral é crime e desde 2022 e o número de denúncias só tem crescido. Para evitar que um trabalhador ou servidor público sofra a pressão direta ou indireta dos patrões ou dos chefes imediatos para votar em determinado candidato, as centrais sindicais lançaram, nesta terça-feira (03), um aplicativo onde é possível que o trabalhador denuncie essa prática antidemocrática.

O lançamento acontece em parceria com o Ministério Público do Trabalho (MPT). A iniciativa partiu da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Força Sindical, Nova Central Sindical de Trabalhadores (NCST), União Geral dos Trabalhadores (UGT), Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), Pública, Intersindical e MPT. A denúncia também pode ser feita pela página do Fórum das Centrais Sindicais.

Paulo Oliveira, secretário de Organização e Mobilização da CSB explicou que os trabalhadores não vão precisar baixar o app. Os sites das centrais e o MPT vão colocar em suas páginas o QR Code onde o trabalhador, com seu celular, poderá acessar o canal e denunciar se estiver sendo vítima de assédio eleitoral no ambiente de trabalho.

O assédio eleitoral, muitas vezes, ocorre de maneira sutil, segundo a procuradora do MPT Priscila Moreto, quando um empregador defende que seus funcionários votem em determinado candidato porque, assim, a empresa continuará crescendo. Caso o trabalhador não vote no candidato do patrão, o empregador diz que haverá mudanças, quando não demissões. “Essa é uma das formas do assédio eleitoral”, disse ela.

Valeir Ertle, secretário nacional de Assuntos Jurídicos da CUT, alerta que o assédio eleitoral é muito forte no Brasil, até porque em 73% dos 5,7 mil municípios, a população varia entre 10 e 20 mil habitantes. “Nessas cidades, é muito comum que os trabalhadores conheçam os candidatos preferidos do empregador, e a pressão para que os funcionários votem no candidato indicado é muito forte. A mesma pressão, o assédio, ocorre com os funcionários das prefeituras”, disse ele.

O voto livre e esse exercício democrático é um direito fundamental que deve prevalecer em todas as situações, de acordo com a também procuradora do trabalho Danielle Olivares Corrêa, porque, caso contrário, o trabalhador torna-se um instrumento dos interesses exclusivos do empregador. Assédio eleitoral é crime e o MPT estará atento a toda e qualquer denúncia que chegar pelo app.

Nas eleições de 2022, as centrais sindicais e o MPT fizeram a mesma parceria de agora, e o resultado foi o recebimento de 3,5 mil denúncias de assédio eleitoral, um percentual 1.600% maior do que ocorreu nas eleições de 2018.

O assédio eleitoral ou o famigerado “voto de cabresto” não se vê mais nos rincões do país, onde os coronéis determinavam em qual ou quais candidatos os empregados deviam votar. Esse fenômeno cresceu e veio para os grandes centros urbanos também. Dados extraídos do sistema informatizado do MPT, em 2022 foram expedidas 1.512 recomendações e ajuizadas 105 ações civis públicas contra o assédio eleitoral.

As centrais sindicais e o MPT disponibilizaram cartilhas para que os trabalhadores identifiquem as abordagens ilícitas no ambiente de trabalho. D´Agência Brasil.

Determinação de Moraes suspendeu rede X (ex-Twitter) em todo o Brasil || Reprodução
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Globalmente, não se verifica uma democracia perfeita, mas, certamente, ela jamais se aperfeiçoará diante de descumprimento de decisão judicial pela via da mera insatisfação pessoal ou de um conglomerado econômico.

 

Efson Lima

O Estado brasileiro tem sido desafiado em face das redes sociais. E, nos últimos dias, a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, de suspender o funcionamento da rede social X, antigo Twitter, no território nacional impôs limitações à empresa responsável pela rede, bem como, de algum modo, restringiu o acesso dos usuários a ela, especialmente, os de boa-fé que fazem uso da rede social para os diversos fins, entre eles: lazer e comercializar, por exemplo. Ficam algumas reflexões: até onde todos podem ser “punidos” ou vale limitar direitos para proteger o escopo do Estado brasileiro?

À unanimidade, a 5ª Turma do STF manteve a decisão do Ministro – relator, tornando a decisão em colegiada, deixando-a de ser monocrática e, agora, passando a pertencer, literalmente, ao coletivo do Supremo. Salvo melhor juízo, verifica-se também uma estratégia política, pois, protege o julgador e assegura o exercício da jurisdição constitucional de forma plena na República Federativa do Brasil. Ficou nítido nos votos que democracia exige responsabilidade e comprometimento com os seus contornos.

É verdade que a liberdade de expressão é um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito, entretanto, o seu uso para fins ilícitos é vedado por essa mesma engrenagem jurídico-política. Não obstante, estabelecer limites a uma empresa transnacional é testar a soberania nacional e o alcance da responsabilização. Os próximos dias vão jogar luzes não só para o Brasil, mas para tantos outros países. Afinal, a decisão é paradigmática, razão pela qual repercutiu internacionalmente. Outros países já vedaram as redes sociais, entretanto, o caso brasileiro se mostra curioso por ser uma decisão judicial e dentro de um contexto considerado democrático.

A atuação do STF  na suspensão da rede social X assegura também o papel constitucional do Congresso Nacional, elaborador das normas legislativas  que disciplinaram o uso da internet e das redes sociais no País. Globalmente, não se verifica uma democracia perfeita, mas, certamente, ela jamais se aperfeiçoará diante de descumprimento de decisão judicial pela via da mera insatisfação pessoal ou de um conglomerado econômico. Provavelmente, agora, o cidadão está prejudicado, entretanto, essa mesma decisão o protegerá de um ambiente  aparentemente sem lei e/ou da terra de ninguém.

Efson Lima é advogado e doutor e mestre em Direito (UFBA).

Turrão e Tolé, ídolos do passado na Confraria d'O Berimbau || Foto Walmir Rosário
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Com inteligência, levam algumas latas de cerveja sem álcool e não se fazem de rogados em abri-las com aquele conhecido barulho ao retirar os lacres. Mais que isso, Turrão e Tolé participavam ativamente da degustação do filé mal assado preparado com esmero por Zé do Gás.

 

Walmir Rosário

Reafirmo que muito já foi dito, contado e recontado sobre a Confraria d’O Berimbau, instituição recreativa, etílica e cultura da vida mundana de Canavieiras. Porém, consta dos anais que os frequentadores jamais abandonam o recinto, a não ser por causa mortis, embora digam alguns dos mais exaltados confrades, que eles continuam a povoar o local, agora meramente em espírito.

Mas esse é um assunto que não costumo discutir por não ter habilidade, competência, especialização ou comprometimento com temas que envolvam o plano espiritual. Reconheço que me faltam essas e outras características, mas não deixo de meter minha colher em temas quase tão relevantes como esses, e jamais me furtarei em discorrer sobre frequentadores ainda lépidos e faceiros, mas reconhecidamente fora das atividades etílicas.

E posso falar de cátedra, pois tenho amigos tantos que após muita labuta na parte de fora dos balcões dos botequins, hoje se encontram ausente das pelejas, afastados pelos mais diversos motivos. Posso até comparar com o futebol, em que alguns pedem para sair, enquanto outros são retirados pelos técnicos, por não se comportarem bem em campo.

É uma questão individual, bem sei, embora não me conforme em perder parceiros de uma vida inteira, que mais que de repente, aplicam um drible da vaca nos parceiros e se retiram do boteco. Conheço mais que uma dúzia de seduzidos pela religião, obrigados pelos discursos das lideranças espirituais a se afastarem, definitivamente, desse nosso restrito convívio.

Outros tomaram essas tresloucadas atitudes por vontade própria, quem sabe com os aconselhamentos de pé de orelha da patroa, com toda a razão. Mas existem outros tantos que ainda não consegui identificar quais os motivos que os levaram a romper com as coisas boas da vida, deixadas por Deus para todos os filhos, sem distinção, acredito eu.

Desses últimos, alguns, sem mais nem menos, sequer se esforçaram em fazer uma visita aos amigos nos locais de costume, que no caso da Confraria d’O Berimbau, aos sábados, preferencialmente ao meio-dia em pino. Festejo aqui outros nessa mesma classe que não se fazem rogados em comparecer em datas festivas, cumprimentam jogam uma conversa fora e vão embora.

Não pretendo impingir a alguns a pecha de algum defeito ou vício, e até acredito que alguns cometam essas ausências por simples bizarria ou excentricidade. Dos desaparecidos nas atividades etílicas da Confraria d’O Berimbau, mereceram distinção e louvor alguns desses valorosos quadros retirados dos campos etílicos os cunhados Turrão (José Albertino Bonfim de Lima) e Tolé (Antônio Amorim Tolentino).

Convidados para alguma efeméride ou simples data comemorativa não se furtavam em dar o ar da graça com suas presenças. Com inteligência, levam algumas latas de cerveja sem álcool e não se fazem de rogados em abri-las com aquele conhecido barulho ao retirar os lacres. Mais que isso, Turrão e Tolé participavam ativamente da degustação do filé mal assado preparado com esmero por Zé do Gás.

Com toda serenidade, cumprimentavam a todos os ex-colegas de copo, buscavam assento à mesa ou cadeiras que melhor lhes convinham e faziam de conta que nada mudou. Contavam histórias e estórias, fiscalizavam o velho e surrado caderno de contas e o livro de atas, tudo na mais perfeita sintonia, como se os velhos costumes estivessem mortos e enterrados.

Até hoje não faltam os efusivos convites à dupla (Turrão e Tolé) para retornar às atividades etílicas, por serem considerados quadros valorosos, daqueles bastantes disputados em convites, escolhidos de primeira como na escolha “dos babas” de antigamente. Apenas gracejam das propostas e garantem ser fruto de um passado que não volta mais, bananeira que deu cacho.

Como no futebol, são aposentadorias sentidas, consideradas precoces que não se coadunam com a qualidade de cada um deles. Mas assim é a vida, mudam os costumes, não apenas os relegam como sendo uma atividade a esconder, mas acreditam que o presente é outro. Para tanto, dão uma olhada no retrovisor para garantir as ações do futuro. Sem traumas.

Turão e Tolé, dois ídolos da boemia do passado em Canavieiras.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

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Deixo aqui o meu singelo conselho: se você nunca foi a uma Agrovila ou não sabe exatamente como se dão as políticas públicas voltadas para a agricultura familiar, permita-se conhecer um pouquinho só, e nunca mais a sua visão de mundo será a mesma!

 

Lanns

No início da gestão do governador Jerônimo, ele disse uma frase que trago como um lema de vida: “precisamos levar as políticas públicas a quem mais precisa”, se referindo às ações da Bahiater e a todos os desdobramentos positivos que a Extensão Rural leva para a vida das pessoas.

Como a missão dada é missão cumprida, vivo nas minhas andanças por cada município do nosso Estado, principalmente no meio rural de cada região, verificando ações, perguntando o que mudou, se já mudou de verdade e como podemos fazer ainda mais.

Neste mês de agosto, por exemplo, visitei a Agrovila 16, no município de Carinhanha, um grande exemplo: ela abriga um projeto que libertou, inicialmente, 22 mulheres (hoje 30) agricultoras familiares da fome, da escassez, da sensação de impotência e até da depressão. Experiências contadas por elas mesmas na minha visita. Um trabalho que está transformando as mulheres que viviam sem expectativas em agricultoras com formação e bem remuneradas, com hortas, galinheiros estruturados, classificadora de ovos e assistidas por políticas públicas como o PAA e o PNAE.

Lanss durante visita a agrovila || Foto Divulgação

Ver aquilo tudo de perto e escutar, além das histórias de superação pessoal e familiar, que as verduras e hortaliças plantadas, cultivadas e colhidas por elas – e as centenas de ovos que saem dali – são adquiridas pela própria gestão municipal e chegam a à mesas baianas com dignidade, me anima ainda mais.

Deixo aqui o meu singelo conselho: se você nunca foi a uma Agrovila ou não sabe exatamente como se dão as políticas públicas voltadas para a agricultura familiar, permita-se conhecer um pouquinho só, e nunca mais a sua visão de mundo será a mesma!

Lanns é engenheiro agrônomo e superintendente da Bahiater

Uma das formações da Seleção de Itabuna da época. Luiz Carlos, Abiezer, Zé David, Carlos Alberto, Leto e Ronaldo; Jonga, Santinho, Gajé, Carlos Riela e Fernando Riela || Foto Acervo Walmir Rosário
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Neste dia Afrânio Lima estava possesso, pois tinha perdido algumas apostas no jogo anterior (manipulado, dizia), inclusive uma joia com um brilhante caríssimo. Mas Afrânio estava confiante na vitória e não regateou: apostou todo o dinheiro que carregava numa pequena maleta.

 

Walmir Rosário

A cada jogo da Seleção Amadora de Itabuna a torcida comemorava em duas festas: a vitória dentro de campo e as intermináveis festanças pelas ruas das cidades, tanto em Itabuna ou nas casas adversárias. Não importava o local, os efusivos festejos eram garantidos pelos resultados positivos. Nos terreiros alheios Itabuna sempre “cantava de galo”.

E esses rituais eram sagrados e garantidos pela força da torcida que acompanhava o escrete alvianil. Um substancial exemplo foi a festança em comemoração à conquista do Hexacampeonato Baiano de Futebol Amador, em Alagoinhas. Embora a festa tivesse sido preparada pelo adversário, os itabunense festejaram até o dia raiar como se estivesse em casa.

E dentre a grande comitiva que acompanhava a Seleção de Itabuna, dirigentes e torcedores dos mais diferentes níveis sociais, o que fazia a diferença. Como queria o escritor francês Alexandre Dumas em Os Três Mosqueteiros, era “um por todos, e todos por um”. E assim as festas rolavam até que voltassem a Itabuna, onde a comemoração continuava sem horário para encerrar.

No Campeonato Baiano de 1964, a Seleção de Itabuna disputou a final com a Seleção de Feira de Santana. No primeiro jogo, realizado em Itabuna, Feira de Santana foi goleada pelo placar de 4X0, três gols de Gajé e um de Santinho. Foi um passeio completo. Para ficar com a taça, poderia até perder para o selecionado da Princesa do Sertão por um placar menor.

Afrânio Souza Lima dobrou aposta e encheu a mala || Foto Acervo Walmir Rosário

E em Feira de Santana Itabuna perde para o selecionado local por 1X0, após o árbitro, caprichosamente, anular três gols do craque Fernando Riela. Como o regulamento do campeonato foi modificado, as duas equipes teriam que disputar uma terceira partida, justamente no estádio Joia da Princesa. Mais um osso duro de roer. Menos para Afrânio Souza Lima, que não jogava conversa fora e acreditava no penta.

Para os craques itabunense a mudança não faria diferença e o que somente importava era ganhar o jogo e levar mais uma taça para Itabuna. No terceiro jogo, Itabuna entra em campo para ganhar e pouco se importou com a pressão dos feirenses que lotavam o estádio. Apesar de pequena, a torcida itabunense era barulhenta e incentivava a seleção em mais uma brilhante vitória por 3X1.

Se em campo a guerra era intensa, nas arquibancadas não era diferente e os itabunenses confiavam na vitória. Um deles era Afrânio Lima, cacauicultor e pecuarista que acompanhava a Seleção de Itabuna em todos os jogos. Mais do que a simples presença, gostava de desafiar os adversários, os chamando para apostar. E ainda oferecia vantagem.

E neste dia Afrânio Lima estava possesso, pois tinha perdido algumas apostas no jogo anterior (manipulado, dizia), inclusive uma joia com um brilhante caríssimo. Mas Afrânio estava confiante na vitória e não regateou: apostou todo o dinheiro que carregava numa pequena maleta. Saiu do estádio com a maleta e os bolsos entupidos de dinheiro dos torcedores feirenses. “Patos”, dizia.

Era chegada a hora da festa e ninguém sabia comemorar mais que Afrânio Lima. Saiu do estádio e foi o primeiro a chegar à boate contratada para a comemoração da vitória da Seleção de Itabuna. E entre as primeiras providências tomadas, o fechamento da casa e lavá-la por inteiro com a melhor e mais gelada cerveja. Estava tudo pronto para comemorar o Pentacampeonato Baiano de Amadores.

Assim que os jogadores e comissão técnica iam entrando, passavam pelo banho de cerveja. A festa na boate feirense atravessou a madrugada. Cedo, embarcaram no ônibus da Sulba, especialmente fretado, e uma nova parada para o café da manhã em Sapeaçu. E assim as comemorações continuavam nas sucessivas e providenciais paradas. Festas das boas.

Em Itabuna a multidão aguardava a Seleção Pentacampeã Baiana, em plena segunda-feira, transformada em feriado pelo prefeito Félix Mendonça. Mas os vitoriosos jogadores ainda tinham uma obrigação, entrar na vizinha cidade de Itajuípe e participar do banquete promovido pelo presidente do Bahia local, Oswaldo Gigante. E assim foi feito.

Em Itabuna uma multidão, com charangas a postos para batucar no desfile pelas ruas da cidade, aguardava os jogadores e torcida na praça Adami. Carro de Bombeiros a postos, os itabunenses se rendiam aos eternos campeões. Já Afrânio Lima, assim que chegou, se despediu dos jogadores e rumou para se encontrar com os amigos no Bar Avenida, de Olímpio, e comemorar. Na farra, abriu a valise e mostrou a vultosa aposta que ganhara dos “patos” feirenses.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Livro traz o diálogo histórico e curto entre Paulo Henrique Amorim e Silvio Santos || Fotos Divulgação
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Numa tarde, depois de nove meses desempregado, recebeu um telefonema da amiga Hebe Camargo. 

 

Marival Guedes

O jornalista Paulo Henrique Amorim quando demitido do Jornal do Brasil foi trabalhar na TV Manchete, TV Globo, Bandeirantes, TV Cultura de São Paulo e TV Record.

Numa tarde, depois de nove meses desempregado, recebeu um telefonema da amiga Hebe Camargo.

– Paulo Henrique, estou aqui na sala do Sílvio. Estou dizendo a ele que você deveria vir pra cá. Você toparia?

– Claro, Hebe, muito obrigado. Estou desempregado.

-Viu, Sílvio, ele topa! Fale com ele, Sílvio.

Vai Sílvio Santos ao telefone.

– Olá, Paulo Henrique. Eu gosto muito do seu trabalho. Muito, mesmo. Mas, eu gosto do seu trabalho, na televisão dos outros.

Esta história foi relatada por Paulo Henrique Amorim no livro O quarto Poder – uma outra história, de sua autoria, publicado pela Editora Hedra em 2015.

Marival Guedes é jornalista.

A capa de "Pedra Branca" e o seu criador, Ramon Fernandes || Fotos Walmir Rosário
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Como no juízo final, os personagens ganham o lugar que merecem na história, sem atropelos, de acordo com seus procedimentos.

 

Walmir Rosário

Em apenas duas sentadas – com muito fôlego – li o novíssimo romance Pedra Branca, sangue e poder, lançado no último sábado (10-08-24), no restaurante Porto dos Milagres, em Canavieiras, por Ramon Fernandes. O livro marca a estreia do autor na literatura, com uma obra bem engendrada e que contribui para o enriquecimento da intelectualidade regional.

A história é ambientada na fictícia Pedra Branca, pequena cidade interiorana fincada nas barrancas do rio Jequitinhonha, bem na divisa dos estados da Bahia e Minas Gerais. Como todo o romance que busca prender o leitor, já no início nos apresenta um personagem que morre cedo, mas deixa um imenso legado.

A história é bem fiel ao estilo de vida interiorano, com fortes raízes fincadas na família campestre e na pachorra das pequenas cidades, com a predominância dos seus personagens marcantes. E todos estão bem situados, cada um com seus destaques: o padre, os coronéis, os comerciantes, os políticos, o delegado, a dona do bordel, ou casa de conveniência, como queiram.

Ramon Fernandes é formado em Filosofia pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), professor na rede particular de ensino, servidor público municipal da Prefeitura de Canavieiras e ex-secretário de Cultura. Embora com vida fincada em Canavieiras, conhece e viveu em outras cidades regionais, algumas bastante parecidas como a descrita no romance.

Daí é que após a leitura de Pedra Branca, sangue e poder tomei a liberdade e indiscrição ao perguntar ao autor se o livro era oriundo de uma história verdadeira e por ele romanceada. Respondeu que era apenas fruto de sua imaginação – criativa, digo eu, diante do bom argumento, desenvolvimento e ambientação.

Os personagens com vida breve na história saem com dignidade e os longevos sempre aparecem em bons momentos. Não sei se é redundante observar que nas cidades pequenas – no estilo Pedra Branca – as ocorrências são sempre monótonas, contrastando com os fuxicos e brigas normalmente resolvidas entre as partes, no estilo mais agressivo.

As diferenças menores são resolvidas por meio dos conselhos do delegado, que a todos conhece e há muito se tornou amigo. Mas só que mora ou morou em pequenas cidades interioranas, notadamente nas divisas de estados, conhecem de perto as rusgas entre as pessoas influentes e seus apaniguados, que vão desde as questões de terras e as políticas.

E em Pedra Branca as guerras não acontecem somente entre as diversas famílias, mas também dentre um mesmo clã, geralmente derivadas por ciúmes, posição social e riqueza. E essa questão está presente no romance com briga fraticida entre coronéis, sem faltar motivação para a expropriação de terras com o apoio dos revólveres e rifles dos jagunços.

A personalidade feminina aparece com muita distinção e força, desde a coronela, senhora de si e que comanda com mão-de-ferro suas propriedades e família. Com a ajuda de bons jagunços, defende seus bens contra pessoas da própria família; resolve sua vida conjugal de uma hora pra outra após a viuvez; ajuda seus protegidos. Uma mulher resolvida.

Também aparece com altivez e se torna personagem marcante a figura meiga da senhora do delegado, com ares de professorinha, que assume o protagonismo de uma hora pra outra, sem que alguém esperasse. Outra personagem, esposa de um coronel, vítima de maus-tratos, resolve se libertar do jugo do marido, toma uma atitude inesperada e vai viver nova relação. Esta proibida pelas leis dos homens e de Deus.

Lançamento do romance de Ramon Fernandes, no Restaurante Porto dos Milagres

Não poderia faltar na trama os forasteiros que chegam, encontram oportunidades e as aproveitam. Alguns metem os pés pelas mãos, mas conseguem se segurar devido às habilidades no relacionamento social e político. Mas como sempre nessa vida terrena, a avareza, a inveja e soberba promovem a própria destruição.

Como no juízo final, os personagens ganham o lugar que merecem na história, sem atropelos, de acordo com seus procedimentos. Os maus geralmente acabam na cadeia ou cemitério, os bons continuam distribuindo felicidade, os menos atrevidos sem destaque. Cada qual no seu quadrado, como determina Ramon Fernandes, com minha posterior aprovação. Recomendo.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Maurício Maron escreve sobre ataque xenófobo a pré-candidata a prefeita de Ilhéus
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Adélia nasceu em Itabuna, como nasceram Antônio Olímpio e Jabes Ribeiro. E essa identidade territorial não lhe tira a legitimidade do pertencimento e nem sua trajetória tão presente em Ilhéus.

Maurício Maron

A pré-candidata a prefeita de Ilhéus, Adélia Pinheiro, nasceu em Itabuna e com apenas seis dias veio morar em Ilhéus, onde os pais já viviam. Passou a infância no Pontal, no Centro e na Conquista. Começou o Jardim de Infância no Vovó Isaura, na Cidade Nova. Estudou o maternal na Escola Perpétua Marques. Ingressou no Colégio Piedade até concluir o 1° ano científico. No Colégio Vitória fez até o terceirão.

Saiu temporariamente de Ilhéus em 1982 para cursar medicina na UFBA.

Não existia este curso em outro lugar na Bahia.

Adélia foi atleta da seleção ilheense de vôlei.

Estudou, formou, voltou. Tornou-se professora da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), reitora por dois mandatos e, convocada pelos governos de Rui Costa e Jerônimo Rodrigues, foi servir à Bahia. Dois dos seus três filhos nasceram em Ilhéus. O terceiro só não, por que foi prematuro e ela precisou, por segurança, ser transferida para Salvador. Pena que não existia o Materno-Infantil que ela, como secretária, cuidou tão bem.

Feita essa linha do tempo, é, portanto, inaceitável e mesquinho que os seus opositores políticos e setores da imprensa ligados a eles, a tratem como uma “pessoa de fora e sem identidade com Ilhéus”. Adélia nasceu em Itabuna, como nasceram Antônio Olímpio e Jabes Ribeiro. Ou como nasceu João Lyrio em Itapé ou Herval Soledade, em Salvador. Adélia nasceu em Itabuna, como nasceu Valderico Reis, em Ibirataia. E essa identidade territorial não lhe tira a legitimidade do pertencimento e nem sua trajetória tão presente em Ilhéus.

Trabalhei em vários estados do Brasil. E foi em Itabuna onde vivenciei o desagradável protesto pelo fato de um prefeito da época ter contratado “uma pessoa de fora” para sua assessoria. Esse “estrangeiro” era eu, numa cidade onde os meus antepassados ajudaram a construir.

Acho isso de uma imensa pequenez quando numa campanha o assunto prioritário a ser debatido é outro. O fato de não ter nascido numa cidade, não diminui a história de uma pessoa ou o vínculo que você ao longo de uma vida inteira conseguiu construir com ela.

É como li uma certa vez: os laços afetivos que vamos fazendo durante a jornada da vida são, muitas vezes, mais firmes que nós apertados.

Maurício Maron é jornalista.

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Ao se aproximar dos 500 anos, Ilhéus está muito perto de ter, pela primeira vez, uma mulher prefeita.

 

Cris Calabraro

As eleições municipais em Ilhéus terão a participação de mulheres em todas as chapas majoritárias. Podemos dizer que estamos vivendo um momento histórico, que marca muitas mudanças. Uma luta milenar de toda a sociedade. A trajetória das mulheres na política é uma história de batalhas e conquistas e, de forma efetiva, começa a se concretizar. Vemos um novo cenário político ilheense.

A presença das mulheres na política é fundamental, pois é um passo enorme para diminuir as injustiças e as desigualdades, servindo de inspiração para futuras gerações, priorizando saúde, educação e o cuidado com as pessoas. O potencial feminino de promover mudanças positivas sustenta o argumento de que mais mulheres na política geram gestões inovadoras para o desenvolvimento social.

Mais do que representatividade, é ter no centro das atenções pautas supostamente secundárias, muitas vezes vistas como irrelevantes, mas que, quando centralizadas, demonstram ser determinantes para verdadeiras transformações. Um desafio a ser enfrentado.

Ao se aproximar dos 500 anos, Ilhéus está muito perto de ter, pela primeira vez, uma mulher prefeita. A pré-candidatura da professora Adélia, da Federação Brasil da Esperança (PT-PCdoB-PV), influenciou a maior participação efetiva de mulheres nas disputas eleitorais, sendo a única a concorrer à Prefeitura, uma vez que nas demais chapas as mulheres ocupam a vaga de vice.

As candidaturas femininas para o legislativo também ganham destaque, temos mais mulheres preparadas e prontas para assumir cadeiras na Câmara de Vereadores e a clareza de que mais mulheres devem ocupar espaços de decisão na administração municipal. Um passo importante para o futuro dessa amada terra chamada Ilhéus!

Cris Calabraro é vice-presidente do PCdoB em Ilhéus e diretora estadual da União Brasileira de Mulheres.

A torcida itabunense lotava o estádio Luiz Viana Filho || Foto Waldyr Gomes
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Vem o segundo tempo e Geraldo Santos abre a transmissão com o grito de guerra “Vamos lá Itabuna”, os times se estudam, como no início de jogo, mas ao que tudo indica, os técnicos Paulinho de Almeida, do Vitória, e Tombinho, do Itabuna, pedem para os jogadores apenas tocar a bola. 

 

Walmir Rosário

Guardem bem essa data: 28 de julho de 1973. Dia da Cidade de Itabuna e inauguração do Estádio Luiz Viana Filho. A cidade repleta de autoridades, como o governador Antônio Carlos Magalhães, o secretário do Bem-Estar Social, Bernardo Spector, os presidentes do Vitória, do Bahia, da Federação Bahiana de Futebol, o prefeito José Oduque e o presidente do Itabuna, Charles Henri.

E para inaugurar o estádio, que ficou conhecido como o “Gigante do Itabunão”, dois jogos foram agendados: o primeiro, entre Itabuna Esporte Clube e Vitória, no sábado (28-07-1973), e o segundo, entre Bahia e Cruzeiro, este no domingo (29-07-1973). Uma festa esportiva pra ninguém botar defeito, com público de várias cidades baianas, além da imprensa de diversos estados brasileiros.

Até hoje sinto bastante não estar presente à efeméride esportiva grapiúna, pois à época morava em Paraty (RJ), de onde ouvi resenhas e parte do jogo pela Rádio Sociedade da Bahia. Claro que não lembro exatamente o que ouvi, mas faço escrita das palavras dos colegas radialistas, Geraldo Santos, Yedo Nogueira, Ramiro Aquino, Roberto, Juca e Jota Hage, por meio da Rádio Jornal de Itabuna, cuja gravação ostento com carinho em minha biblioteca.

Geraldo Santos e Yedo Nogueira (com os microfones) || Acervo de Walmir Rosário

Pra começo de conversa, o Itabuna era um time de respeito, com jogadores vindos da vitoriosa Seleção itabunense hexacampeão baiana, bem reforçada com novos jogadores regionais e do Rio de Janeiro. Mas, a bem da verdade, encarar aquele poderoso esquadrão do Vitória era dose pra elefante, como se dizia bem antigamente.

E o jogo entre Itabuna e Vitória valia mais do que o placar de 2X2 anotado ao final da partida. A histórica inauguração do estádio de gramados suspensos, como enaltecia a mídia esportiva, tinha a grandeza do que aconteceria no jogo, como, por exemplo, quem marcasse o primeiro gol seria consagrado para o resto da vida. E esse feito coube ao ponteiro-direito Osny, o endiabrado camisa 7 do Vitória.

Outro aspecto importante dessa inauguração era o privilégio de estar presente no jogo 12 do teste de número 146 da Loteria Esportiva, sob os olhares dos apostadores de todo o Brasil. E ao anunciar o placar, o narrador Geraldo Santos não cansava de enfatizar em qual coluna se encontrava – um, do meio ou a dois, E terminou na coluna do meio, com o placar de 2×2.

E nessa transmissão, a Rádio Jornal ostentava como patrocinador exclusivo o novíssimo Centro Comercial de Itabuna, equipamento urbano considerado o mais moderno do Sul da Bahia. Num dos reclames, Geraldo Santos dizia: “Marque o maior tento de sua vida, compre uma loja no Centro Comercial de Itabuna, a obra do século”, como queria o bom marketing da época.

Após uma parada no jogo para os jogadores baterem uma falta, lateral ou escanteio, Geraldo Santos indicava aos possíveis clientes que poderiam adquirir uma loja na Construtora Fernandes, na avenida Amélia Amado, ou junto ao empreendedor Plínio Assis, na praça Otávio Mangabeira. E o Plínio era aquele mesmo que foi goleiro do Flamengo e da Seleção Amadora de Itabuna.

Enquanto isso, o jogo continuava pegado, com vantagem do Vitória nas jogadas, principalmente de Osny, Mário Sérgio, André e Almiro. Segundo o comentarista Yedo Nogueira, o jogo ainda se encontrava na fase de estudo, reconhecimento do terreno. E o narrador prometia dar um rádio Philips de presente ao jogador que marcasse o primeiro gol no Estádio Luiz Viana, uma gentileza da Loja Rosemblait

Aos sete minutos do primeiro tempo, eis que André, ainda o “Peito de Aço”, invade a área, dribla o goleiro Luiz Carlos, que derruba o centroavante na grande área. Pênalti, marca o árbitro Saul Mendes. O serelepe Osny se prepara para bater a penalidade máxima, chuta com maestria e o resultado foi bola no canto esquerdo e o goleiro caindo no canto direito. Gol do Vitória!

Coluna 2 do jogo 12 do teste 146 da Loteria Esportiva. Em outro lance, enquanto o Itabuna se prepara para bater um escanteio, Geraldo Borges convida os ouvintes de toda a região para assistirem ao super show do cantor Roberto Carlos e Banda RC7 no novíssimo Estádio Luiz Viana Filho, no próximo dia 2 de agosto. Em campo, Reginaldo bate o tiro de canto e a zaga do Vitória rebate para o ataque.

Exatamente aos 16 minutos do primeiro tempo, enquanto o comentarista Yedo Nogueira analisa que o Itabuna está sem qualquer esquema de jogo para entrar na área do Vitória, André volta a receber outra bola e marca o gol. O Segundo do Vitória. Imediatamente os jogadores partem em direção ao bandeirinha Wilson Lopes para reclamar do mais claro e límpido impedimento e são ameaçados de expulsão pelo árbitro Saul Mendes. Só faltou dizer “gol legal”, como Mário Vianna, com dois enes.

E a partida continua na coluna 2 no jogo 12 do teste 146 da Loteria Esportiva. Aos 30 minutos Osny chuta raspando a trave de Luiz Carlos. Aos 33 minutos, Déri invade a grande área e pega o goleiro Agnaldo, do Vitória desprevenido e marca o primeiro gol do Itabuna, fazendo delirar na arquibancada a torcida alvianil.

E o gol deu ânimo aos jogadores do Itabuna e numa jogada de ataque, Rafael passa pelo marcador, a bola é rebatida por Valter (Vitória) cai nos pés de Perivaldo, que passa a pelota a Jaci, que dá o passe para Déri marcar o segundo gol. A torcida, animada pela bateria da Escola de Samba da Mangabinha, comemora pra valer. Itabuna 2, Vitória também 2. Coluna do meio na loteca.

Vem o segundo tempo e Geraldo Santos abre a transmissão com o grito de guerra “Vamos lá Itabuna”, os times se estudam, como no início de jogo, mas, ao que tudo indica, os técnicos Paulinho de Almeida, do Vitória, e Tombinho, do Itabuna, pedem para os jogadores apenas tocar a bola. E assim o placar continuou selado nos 2X2 e Déri também é agraciado com um rádio Philips da Loja Rosemblait.

No dia seguinte o jogo foi entre Cruzeiro e Bahia, e não passou de 1×1.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Fernando Gomes dispensou o voo para seguir o coração
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Apesar de uma só turbina funcionando, o avião pousou com tranquilidade. Em terra, ambulâncias carros de bombeiros junto à pista, completavam a segurança, embora não precisaram intervir.

 

Walmir Rosário

No início de 2007 me deparei com o então prefeito de Itabuna, Fernando Gomes, no aeroporto de Congonhas. Eu vinha de Joinville, após passar uns dias com os filhos; ele de Brasília, onde tinha ido prospectar recursos para a cidade. Estava com uma gripe violenta e disse ter passado a noite em São Paulo, por não ter chegado a tempo do último voo para Ilhéus.

E o motivo não foi um simples atraso, segundo ele, pois o avião em que saiu de Brasília para fazer a conexão com o que iria a Ilhéus apresentou alguns problemas, chegando a São Paulo fora do horário previsto. A alternativa possível seria passar a noite na capital paulista e retomar a viagem no primeiro horário do dia seguinte. Não tinha outro jeito.

Apesar da dificuldade em falar, causada pelas constantes tosses e rouquidão, estava encantado com a atual fachada dos prédios da capital paulista, livre dos anúncios publicitários que tornava feia a paisagem. É que poucos dias antes, o então prefeito da Paulicéia, José Serra, travou uma guerra contra a poluição visual dos anúncios.

De pronto, não ficou um letreiro luminoso – ou não –nas fachadas dos arranha-céus. Outdoor, nem pensar. “Adeus poluição visual”, comemorava Fernando Gomes, elogiando a coragem e determinação do seu colega paulista em tomar uma medida drástica, contrariando o poderoso segmento publicitário paulista, o maior do Brasil.

Enquanto Fernando Gomes falava eu notava um brilho nos seus olhos, apesar de marejados com as lágrimas derramadas pelo mal-estar da forte gripe, ou da estranha virose, conforme tinha diagnosticado o pneumologista na noite passada. Assim que a tosse aliviava, ele voltava a puxar a conversa, sempre focada para o novo aspecto visual de São Paulo, capital.

Lá pelas tantas, me garantiu que assim que chegasse a Itabuna convocaria o Procurador-Geral e os secretários da Administração e Indústria e Comércio para uma reunião, na qual proporia uma ação idêntica à tomada pelo colega José Serra em Itabuna. “Nosso centro da cidade está muito feio, com aquelas placas de publicidade horríveis e que não condizem com a magnitude de Itabuna”, ressaltava o prefeito.

Já nos preparávamos para embarcar num determinado portão, quando tivemos que tomar outro rumo, devido à mudança do local de estacionamento da aeronave. Fernando Gomes não se conteve e foi tomar satisfação com o pessoal da TAM, para saber qual o verdadeiro motivo da transferência repentina. Seria algum problema na aeronave? Perguntava.

Só aí, então, Fernando Gomes mudou de assunto, contando que se não fosse pelo seu agravado problema de saúde, ele abortaria sua viagem nesse voo, que passou a desconfiar de algum problema à vista. Embarcamos no ônibus que nos levaria ao avião e ele passou a me relatar uma situação desagradável que vivera anos antes num voo da Varig.

Teria saído de Brasília para Ilhéus com escalas previstas em São Paulo e Rio de Janeiro. Ele optou por esse voo com a esperança de chegar mais cedo, pois o próximo só sairia 6 horas depois. E como precisava chegar cedo a Itabuna, onde assuntos urgentes lhe aguardavam. Logo chegou a Congonhas e mudou de aeronave, essa com escala no aeroporto Santos Dumont e, em seguida, Ilhéus. Nem desceria do avião.

Assim que chegaram ao Rio de Janeiro foram comunicados que o avião entrara numa pequena pane e que logo retornariam a bordo. Cerca de quarenta minutos depois voltaram a embarcar na mesma aeronave. Assim que decolaram estoura uma turbina, e passaram uns 45 minutos rodando para derramar o combustível, aumentando a segurança do pouso.

Apesar de uma só turbina funcionando, o avião pousou com tranquilidade. Em terra, ambulâncias carros de bombeiros junto à pista, completavam a segurança, embora não precisaram intervir. Mais uma vez teriam que remarcar as passagens, no balcão da Varig, marcada pela enorme fila que se formara pelos assustados passageiros.

Assim que Fernando Gomes recebeu a nova passagem e as orientações sobre o novo voo, disse sentir seu coração avisando: “Não vá nesse voo”. De pronto, falou com a atendente que não embarcaria e queria sua bagagem – já despachada desde Brasília – de volta. E ninguém conseguiu lhe convencer. Iria por terra, alugaria um carro e ele mesmo dirigiria.

Na locadora alugou um automóvel JK, da Alfa Romeo, por Cr$1.500,00 (dinheiro da época) e partiu. Quando estava chegando em Campos, mais um problema: tomba o carro. Chama uns homens e lhe ajudam a desvirar o carro e desamassar o teto. Como não tinha sofrido cortes nem se machucado, toca a viagem até Vitória, onde dormiu. Na tarde do dia seguinte chega a Itabuna.

Já o avião que recusou viajar chegou ao aeroporto de Ilhéus uma hora e meia depois, sem ele, é verdade, pois seu coração não o deixou continuar a viajem. Já o nosso voo de São Paulo a Ilhéus chegou após duas horas de percurso sem qualquer problema, permitindo a Fernando Gomes uma consulta ao seu médico de confiança.

Quanto a seguir o projeto do colega José Serra, ficou para outra oportunidade.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Cambão reinou absoluto na Lavagem do Beco do Fuxico
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A notícia da lavagem do Beco do Fuxico e da escolha real correu como rastilho de pólvora em toda a cidade, noticiada em rádios e jornais, com direito a uma notinha nas emissoras televisivas de Salvador.

 

 

 

 

 

 

 

Walmir Rosário 

Quem foi rei nunca perde a majestade! E esse ditado popular é por demais verídico, tanto na imaginação quanto na vida real. Exemplos nos saltam aos olhos a todos os momentos que vislumbramos uma figura portadora de “sangue azul”, mesmo na imaginação. Mesmo os que já perderam o reino e a coroa continuam ostentando a condição anterior, haja vista Dom Pedro II, exilado em Paris, que até na sua morte recebeu todas as homenagens.

Mas aqui não bisbilhotarei – garanto – a vida dos nossos monarcas vivos e mortos, e sim contar como foi instituído título nobiliárquico de tamanha magnitude no Beco do Fuxico, local em que transita a alta flor da mais fina boemia de Itabuna. E digo mais, não tivemos um só rei, mas dois. E isso porque um deles, o inicialmente escolhido não aceitou o encargo de ostentar a coroa real e abdicou do trono. Quer dizer, não foi bem abdicar.

Numa daquelas tardes conhecidas por sexta-feira, em que todos caminham em direção aos bares para aliviarem as tensões do dia ou dias da semana, eis que os frequentadores do Beco do Fuxico recebem uma notícia bombástica. E foi um momento de grande emoção, pois um grupo de frequentadores se reúne para criar a Lavagem do Beco do Fuxico. E pra já, a uma semana antes do Carnaval.

E eles eram liderados pelo engenheiro Roberto Carlos Godygrover Bezerra (Malaca), de Salvador, que conseguiu convencer seu amigo Bel Moreira, que dava expediente no Beco do Fuxico. Malaca não se conformava de que um Beco como o Maria da Paz, era alvo de uma promoção de alto nível, sendo lavado para o Carnaval, como era que o de Itabuna, sede de tanto botecos deixava uma data momesca passar em brancas nuvens? Inconcebível!

E enquanto os detalhes eram pensados e planejados entre uma cerveja altamente gelada e uma cachaça com folha de figo no bar de Batutinha, a lavagem do Beco do Fuxico ia sendo colocada no papel. Ao final, faltava apenas um comandante para a lavagem, que não seria o Rei Momo, monarca de outras ocupações, ligada ao poder público. Tinha que ser um rei daqueles reais, saído do próprio ambiente, gente do Beco do Fuxico.

E não deu outra, o personagem escolhido foi o Caboclo Alencar, diretor do ABC da Noite há décadas, educando os novos alunos e toda a turma repetente, por anos a fio. E foi aprovado por unanimidade. Assim que comunicado da honraria, Caboclo Alencar não topou o encargo. Se mesmo sem querer já era chamado de rei das batidas, como faria para dar conta de um novo reino. Era muita coroa para um só rei.

E com toda a inteligência que Deus lhe deu, o Caboclo indicou o seu substituto, ali presente e que participou de todo o planejamento da promoção para a Lavagem, por ser um dos frequentadores mais antigos e assíduos frequentadores. Pessoa de bem, amigos de todos, boêmio com assento em diversos botequins de Itabuna e redondezas. Não teria nenhuma oposição à coroação de José Emmanoel de Aquino, melhor dizendo, Cambão, apelido que o nomeava desde a adolescência.

Nunca um grave problema como esse, que envolvia um cobiçado reinado foi resolvido em minutos, sem ameaças de invasões e guerras, indicações ou eleições. Cambão sempre foi uma pessoa que gozou e goza de prestígio em toda a sociedade itabunense, da pessoa mais simples ao alto escalão da política, economia, e que circulava com desenvoltura por todos os recantos da boemia.

Rei abdicado, rei posto, com direito a desfile em todo o Beco do Fuxico e circunvizinhanças, em traje de gala e coroa na cabeça, ainda mais com a indicação do professor Alencar Pereira da Silveira. Daqui pra frente bastava Cambão ir ao alfaiate tirar as medidas e colocar o traje real, circulando com toda a majestade entre os súditos na primeira notória lavagem de Itabuna.

A notícia da lavagem do Beco do Fuxico e da escolha real correu como rastilho de pólvora em toda a cidade, noticiada em rádios e jornais, com direito a uma notinha nas emissoras televisivas de Salvador. A festa, entretanto, esbarrou junto ao poder público municipal, que argumentou falta de tempo e orçamento para incluir a nova lavagem na programação do governo municipal.

Mais aí é que o engenheiro Malaca salva a lavagem ao disponibilizar um trailer de sua empresa, equipamento de aspergir betume no asfaltamento da construção das casas da Urbis (hoje Jardim Primavera). A lavagem estava garantida até as mangueiras estourarem, o que não prejudicou a festa que continuou até o último frequentador teve forças para sambar e beber.

Com a “prefeiturização” da festa, Cambão (José Emmanoel de Aquino) abdicou do cargo de Rei do Beco do Fuxico, mas a lavagem continuou sendo aberta pelos blocos Maria Rosa, Casados I…Responsáveis, Mendigos de Gravata, dentre outros. Hoje, a lavagem do Beco do Fuxico está totalmente descaracterizada da proposta inicial e é praticamente a festa do Carnaval de Itabuna.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Os dois cachorros sempre presentes às funções religiosas || Reprodução Pascom Paraty
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Jamais interpretarei esse costume dos animais que se refugiam ou participam dos atos litúrgicos da Igreja Católica como sendo um aviso de Deus à humanidade pelo seu afastamento das coisas divinas. Mas que parece, parece.

 

Walmir Rosário

Meus personagens de hoje não têm compromisso algum, não devem obediência a ninguém, entram e saem de onde e na hora que querem, levam o tempo a passear pelas ruas de Paraty e ainda aproveitam para dar um “bordejo” pela praia do Pontal. Não usam roupas apropriadas ao banho, e sequer se preparam para a defesa dos raios solares com bronzeadores. Vivem livres e soltos.

Não são seres humanos e sequer têm nomes. Não importam para eles esse costume legal, mas o certo é que são admirados e respeitados por todos, sejam nativos ou turistas. Esses dois seres são animais ditos irracionais, cachorros, cães, como queiram chamar, até de vira-latas, embora eu não tenha o conhecimento adequado para tal.

Poderiam ser apenas mais dois cães entre tantos que preambulam pelas ruas de Paraty. Mas não, basta o repicar dos sinos da Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Remédios, Nossa Senhora do Rosário ou de Santa Rita, que os dois se dirigem para um desses locais. Chegam sem pedir licença, e se acomodam no tapete da passarela de entrada, sem qualquer cerimônia.

Hoje são dois, mas já foram três. Um deles sumiu, dizem que morreu, mas não se sabe ao certo. De vez em quando, aparece mais um para desfrutar da companhia, mas por pouco tempo. Não consegui distinguir o porquê de não se adaptar aos mais diferentes atos litúrgicos, que compreende muitas falas e músicas, ou se não gostou de algo. O certo é que esse terceiro é esporádico.

Como os dois, tem a mesma pelagem e cor, são chamados de Caramelo, quem sabe se por estar surfando nas ondas das redes sociais mundo afora. Os dois costumam se acomodar conforme o ritual litúrgico. Deitados na passarela de entrada, e assim que o cortejo passa para a área do altar – se desviando deles –, também se dirigem ao púlpito no qual descansa a Bíblia Sagrada.

Assim que o celebrante lê o Evangelho e segue pregando a homilia, um deles se coloca na frente e outro atrás do púlpito, em posição de descanso, como se estivesse prestando a atenção ao padre. Recordo que o durante a Celebração de Missa do Divino Espírito Santo, o Padre Roberto (ex-pároco), demonstrou cuidado especial para não incomodá-los, sequer pisá-los, distraidamente.

Parece até que os dois (Caramelos) conhecem, de cor e salteado, a liturgia, se posicionando em locais diferentes. Assim que a Missa está sendo finalizada, eles se dirigem à passarela, como costumam fazer os fiéis. Se estiver programada uma procissão, eles não se fazem de rogado e a acompanham pelas ruas da cidade até o retorno à Igreja.

Confesso que esta não é a primeira vez que tomo conhecimento da predileção desse tipo de animal por igrejas. Já assisti reportagens em alguns canais de TV, uma delas de um cachorro na cidade de Tanquinho, nas proximidades de Feira de Santana. Ele frequenta, religiosamente, as funções litúrgicas, nos horários programados em qualquer dia da semana.

Desconheço totalmente os costumes dos cachorros, pois não crio animais e nem tenho intimidade por eles. Embora respeite qualquer ser vivo, prefiro manter minha privacidade, daí não ter informação alguma sobre a inteligência e costumes. Ouço falar que existem raças inteligentes e que se prestam (ou são melhores) para a guarda, caça, mas nunca para a religião.

Os dois Caramelos acompanham as procissão do Divino em Paraty 

Não me levem a mal e nem pensem que cometo qualquer heresia a falar da relação dos animais e a religião, pois um grande exemplo foi o de São Francisco, que considerava os animais seres criados por Deus. Tanto é assim que é considerado o santo protetor dos animais. Mostra a história que enquanto São Francisco pregava era rodeado por animais.

Jamais interpretarei esse costume dos animais que se refugiam ou participam dos atos litúrgicos da Igreja Católica como sendo um aviso de Deus à humanidade pelo seu afastamento das coisas divinas. Mas que parece, parece. Principalmente quando os cristãos – que se autodenominam católicos – se afastam da Igreja, ignoram os ensinamentos, desprezam as funções religiosas.

Além da igreja, eles também gostam da praia || Imagem de internet

Se não consigo decifrar a teologia, menos, ainda, a vida dos animais. Faltam-me conhecimentos filosóficos e científicos para tal debate, mas não posso me esquivar de trazer o tema às discussões dos entendidos. Caso não seja atendido nessa arguição, acredito que seja válido disseminar essa informação inusitada no comportamento dos cachorros, notadamente os dois de Paraty.

Seria, por acaso, um mistério divino?

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado, além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.

Secretário Rosivaldo Pinheiro analisa sucesso e desafios do Itapedro || Foto Divulgação
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O Itapedro já é uma marca consolidada, colocando nossa cidade como um grande destino turístico, dentre os 10 mais procurados do Brasil. Esse dado reflete a importância de manter o evento nas buscas por meio das agências, inserindo o Itapedro no mapa turístico nacional.

 

Rosivaldo Pinheiro

A primeira oportunidade que surge após o término do Itapedro é a compreensão de que a cidade de Itabuna ganhou amplitude nacional e a marca teve o seu fortalecimento em níveis federal, estadual e fora do país. A festa teve a sua ambiência voltada não apenas para o entretenimento, mas também para o fortalecimento do comércio e dos serviços, que são características fortes da cidade de Itabuna, gerando renda e emprego na região.

A edição 2024 do Itapedro ainda teve um novo desafio, que é justamente fazer novamente essa festa acontecer e superar as expectativas. E, agora, já é uma marca consolidada, colocando nossa cidade como um grande destino turístico, dentre os 10 mais procurados do Brasil. Esse dado reflete a importância de manter o Itapedro nas buscas por meio das agências de turismo, que fazem essa prospecção e atuação no mercado de eventos, já cabendo a Itabuna se inserir no mapa turístico nacional.

É natural que uma festa dessa envergadura, dessa magnitude, tenha sempre a necessidade de ajustes ao final de cada etapa, e assim agregando novos serviços, novas oportunidades de gerar mais atrativos e, dessa forma, ir fortalecendo os elos do setor turístico para que todos possam aproveitar a oportunidade gerada por esse mega evento e, consequentemente, poderem ampliar suas fontes de renda, como muitos aproveitaram neste Itapedro, colocando suas casas para locação, comercializando alimentos, água e outras bebidas em suas barracas, guardando carros etc. Sem falar nas vias públicas, que vão cada vez mais recebendo investimento para melhorar a mobilidade e a infraestrutura urbana, que já vêm mudando, mas passam a ter ainda mais impacto de organização.

Esse ecossistema abriga ainda hotéis, pousadas, restaurantes, táxi, aplicativos, mototáxi, farmácias e assim por diante. Ou seja, o Itapedro é algo muito positivo para Itabuna e os itabunenses. Essa dimensão é preciso ser visualizada também pelos que não compreendem o volume de negócios gerados a partir de um evento da natureza do Itapedro. A segunda fase dessa história é a mensagem da necessidade de uma região como o Litoral Sul discutir uma agenda que seja global, onde Itabuna, Ilhéus e Itacaré assumam a liderança dessa construção, uma oportunidade para todos os municípios da região.

Por último e não menos importante, eventos como o nosso Itapedro elevam a autoestima do povo, que fala com orgulho que a sua cidade está entre os grandes centros de atração de oportunidades de negócios e está atraindo olhares de todo o Brasil pelo seu lado positivo, de um povo acolhedor, que trabalha com muita dedicação e dignidade. Parabéns a todos os milhares de itabunenses que estão fazendo parte desta linda história.

Rosivaldo Pinheiro é economista, especialista em Planejamento e Gestão de Cidades e secretário de Governo de Itabuna.

Edson Almeida começou no rádio aos 15 anos || Foto Bocão News
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Aos poucos, soube criar seu estilo e permanecer no rol dos melhores comunicadores baianos. E melhor, sem perder suas características.

 

 

 

 

 

 

 

Walmir Rosário

Poucos, pouquíssimos, têm a capacidade e sorte de iniciar como profissional do rádio aos 15 anos de idade. Os que conseguiram essa proeza possuíam bastante capacidade de raciocínio, conhecer do “riscado”, e ser um vocacionado. No rádio esportivo, então, precisavam conhecer os jogadores, a regra de futebol e desenvoltura para analisar uma partida, sem pestanejar e em alto e bom som.

Edson Almeida foi um desses predestinados, que aos 15 anos, em 1960, trocou o emprego na Loja Invencível para iniciar sua brilhante carreira de comentarista esportivo na pequena Rádio Clube de Itabuna. Mas não foi fácil! Primeiro, teve que vencer um concurso, superando outros 36 pretendentes ao cargo. Segundo, foi obrigado a convencer o diretor da emissora, Gerson Souza, que era a pessoa certa, apesar da idade.

No dia seguinte a primeira prova de fogo seria comentar um jogo de futebol ao vivo, direto do Campo da Desportiva, ao lado do narrador José Maria Gottschalk, que “encheu sua bola” ao anunciá-lo: “Nos comentários aqui pela primeira vez, o prodígio do rádio itabunense, Edson Almeida”. Sem mais nem menos, pegou o microfone e deu conta do recado, nos mesmos moldes em que fazia o grande Rui Porto. Começou bem.

E Edson Almeida se firmava como um prodígio no microfone, embora a recíproca salarial não combinasse com seu trabalho, que somente passou a ver o primeiro pagamento depois de seis meses. O importante é que ele acreditou no que fazia e cerca de um ano depois recebeu o convite para se mudar para Salvador, indicado que foi por Nílton Nogueira, após assistir seus comentários num jogo Bahia e Santos, em Ilhéus.

Em Salvador, passou a trabalhar com os “monstros sagrados” do rádio baiano, a exemplo de José Ataíde, mas não se adaptou à mudança de vida do interior para a capital. Resolveu fazer as malas e retornar para Itabuna. Continuou os estudos e os comentários esportivos, se notabilizando como um grande profissional do rádio jornalismo baiano, distinguindo-se, também como chefe de equipe, como na Rádio Jornal de Itabuna.

Daí foi um pulo para a Rádio Sociedade da Bahia, Diário de Notícias e a TV Itapoan, TV Bahia, Bocão News, dentre outras. Enfim, ganhou o mundo da comunicação esportiva do rádio e da TV, bem como do jornalismo escrito. A notícia e a análise narrada por Edson Almeida passava credibilidade desde o seu timbre de voz à postura da interpretação. Aos poucos era chamado para novos veículos de comunicação, portanto, novas atividades.

Mas Edson Almeida não ganhou credibilidade por acaso, era fiel à tradição familiar e aos costumes do interior, no qual a palavra dada, o comportamento no dia a dia importava, chegava a ser sagrado. Também continuou se preparando intelectualmente para as novas missões que assumia. Como se o rádio, a TV e o jornalismo não bastassem, fez boas e produtivas incursões na publicidade, com sucesso, é bom que se diga.

Na assessoria de comunicação não foi diferente, trabalhou na política, e como não deveria deixar de ser, no futebol. Só um profissional como Edson Almeida seria capaz de assessorar o Vitória e o Bahia, os dois adversários mais renhidos do estado. É certo que no Bahia não deu tão certo, mas foi convocado por Paulo Carneiro para voltar ao Leão da Barra. Continuou de cabeça ereta.

Assessorar dois presidentes do temperamento de Paulo Carneiro e Paulo Maracajá, por si só, já é motivo para o crescimento do currículo de Edson Almeida, que de tão imenso e qualificado não se restringe aos assessorados, mas que é um case de sucesso, não se pode negar. Mais que isso, são duas torcidas distintas, diferentes, antagônicas, que desconfiam uns dos outros, numa eterna briga de gato e rato.

E Edson Almeida sempre administrou essas passagens com bastante profissionalismo e seriedade, atributos que carrega desde os tempos das rádios Clube e Jornal, em Itabuna, na Sociedade ou Excelsior, nas quais formou e preparou dezenas de profissionais. Soube, como poucos, trabalhar nos dois lados do “balcão”, abastecendo com informações os veículos de comunicação, ou neles garimpando as notícias.

Em Itabuna, o conceito de Edson Almeida pode ser medido em diferentes fases. Quando por aqui militava, nas emissoras de rádios e TV de Salvador, ou nas assessorias, especialmente pelos que mais experientes pela idade. Não foi relegado ao esquecimento e em qualquer discussão sobre o futebol do passado sempre foi tido e havido como uma referência aos bons comunicadores, notadamente pelos colegas.

É certo que 99% dos méritos cabem a Edson Almeida, que de forma pessoal acreditou no seu potencial e conseguiu superar os 36 concorrentes no concurso para a “velha” e pioneira Rádio Clube de Itabuna. Entretanto, não poderemos deixar de exaltar José Maria Gottschalk por ter acreditado no então garoto candidato e recomendá-lo ao diretor Gerson Souza a contratá-lo.

No rádio esportivo de Itabuna daquela época, ainda feito de forma empírica por alguns abnegados, Edson Almeida soube dar o tom de modernidade a pensar introduzir, de primeira, o comentário de Rui Porto, não com uma cópia, mas como modelo. Aos poucos, soube criar seu estilo e permanecer no rol dos melhores comunicadores baianos. E melhor, sem perder suas características.

Walmir Rosário é radialista, jornalista, advogado e além de autor de livros como Os grandes craques que vi jogar: Nos estádios e campos de Itabuna e Canavieiras, disponível na Amazon.