Tempo de leitura: 2 minutos

Daniel Thame | www.danielthame.blogspot.com

Em Itabuna, os relógios marcam cinco horas da manhã e os primeiros raios de sol anunciam um dia quente e abafado. O Rio Cachoeira exala o inconfundível cheiro de esgoto sem tratamento e os mendigos começam a desocupar as marquises, escadarias e calçadas onde passaram a noite.

Eventuais arrombadores se dirigem para casa, em busca do sono reparador após uma noite de “trabalho”. Moçoilas de fino trato, que exercem a mais antiga das profissões (essas, com dignidade, pois não surrupiam ninguém) também se preparam para o merecido descanso.

A cidade centenária começa a acordar.

E José da Silva, nome fictício, se prepara para ser personagem de fatos reais, repetitivos e irritantes.

José encara a primeira fila do dia. Há pelo menos um mês tenta marcar uma consulta médica com um especialista. Quando chega ao local, a fila já é imensa, teve gente que chegou na noite anterior.

Ele espera, espera, espera. Duas horas na fila.

Não consegue marcar a consulta. Vai ter que voltar outro dia, encarar outra fila.

Da central de (des)marcação de consultas, segue para o posto onde precisa tirar a segunda via de um documento.

Descobre que chegou tarde. Ainda assim, entra na fila imensa e espera outras três horas.

Inútil, acabaram as senhas bem na sua vez de ser atendido. Fica, de novo, para outro dia.

O sol forte faz da avenida do Cinqüentenário um caldeirão, em que camelôs disputam espaço com os pedestres e pedintes e, em algumas lojas, os clientes são chamados através de megafones, como em feiras livres das cidades mulambentas do interior.

José agora está numa agência bancária. Precisa de atendimento no caixa. Nova senha, nova fila e lá se vão mais de duas horas de espera. O atendimento propriamente dito, não leva nem três minutos.

Mas, pelo menos foi atendido.

Passa numa lotérica para pagar a conta de água e fazer uma “fezinha” na Mega Sena. Mais trinta minutos de fila. “Quem me dera ganhar sozinho”, pensa, enquanto sonha com as possibilidades da vida de rico.

Entre elas, a de não precisar encarar tanta fila.

E, por falar em fila, José decide dar uma passada rápida no supermercado do shopping e comprar algumas coisas, para fazer média com a esposa, a essa altura imaginando que o marido anda aprontando alguma coisa pela rua.

Rápida? No supermercado, encara mais uma hora de fila. E José ainda tem que empacotar os produtos que comprou por um preço nem tão bom assim.

Chega em casa a tempo de assistir no telejornal local uma matéria sobre a lei que determina o tempo máximo de espera nas filas.

Num acesso de fúria, atira um cinzeiro no aparelho de televisão.

Amanhã, terá que encarar a fila do conserto.

Ou a fila do pronto socorro, já que a esposa está com um jarro pesado apontado na direção de sua cabeça…

_____________

Daniel Thame é jornalista e blogueiro

Tempo de leitura: 2 minutos

Marco Wense

Geraldo, Azevedo (c) e Wagner (Foto Pimenta).

Quem deve se preocupar ou tomar alguma atitude em relação a um possível apoio do prefeito de Itabuna à reeleição do governador Jaques Wagner é o DEM.

José Nilton Azevedo foi eleito pelo Partido do Democratas. Usou a legenda para chegar ao comando do Centro Administrativo Firmino Alves. Sua candidatura, no entanto, foi tratada com desdém por Paulo Souto, então e atual presidente estadual do DEM.

Hoje, Paulo Souto, pré-candidato ao governo da Bahia, segundo colocado nas pesquisas de intenção de voto, recebe o troco na mesma moeda. O desdém do Capitão Azevedo é na mesma intensidade.

E Geraldo Simões? Ora, o deputado, que é o vice-líder do PT na Câmara Federal, pode até ter sua opinião contrária a essa inusitada aproximação entre o prefeito e o governador.

O que é inaceitável é Geraldo Simões, como coordenador da campanha no sul da Bahia, criar obstáculos para uma aliança que fortalece a cada vez mais provável reeleição já no primeiro turno.

O prefeito de Camaçari, o petista Luiz Caetano, que é o coordenador-mor, disse, se referindo ao PT, que “alguns setores não querem que amplie a base de sustentação do governo. Não querem que tragam novas forças políticas”.

Luiz Caetano, como estivesse mandando um recado do governador Jaques Wagner, finaliza dizendo que “é bom trazer o que puder para fazer a campanha ter apenas um turno, consolidando nosso projeto na Bahia”.

Marco Wense é articulista do Diário Bahia.

Tempo de leitura: 3 minutos

Allah Góes | allah.goes@hotmail.com

Quem hoje observa o rio Cheonggyecheon, que corta a cidade Seul, na Coréia do Sul, e pode ver as áreas verdes que tornaram o centro de cidade mais agradável, não imagina que, até o início desta década, aquela era apenas mais uma zona urbana degradada, a exemplo de tantas outras pelo mundo afora.

Para garantir a recuperação ambiental da área degradada, e que não se limitava apenas ao leito do rio, a prefeitura local tomou decisões radicais, incluindo a demolição de um viaduto que cobria esse canal urbano totalmente poluído.

Cerca de 620 mil toneladas de concreto foram ao chão e investimentos na ordem de US$380 milhões, tornaram realidade o que parecia impossível: assegurar a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos a partir da paisagem restaurada e da revitalização do seu rio.

A recuperação do rio Cheonggyecheon é considerada uma referência mundial em humanização de cidades, não só pela despoluição das águas, mas pela construção de parques lineares que devolveram o contato das margens aos moradores, daquela que é a sétima maior cidade do mundo em número de habitantes – tem 10,3 milhões de pessoas. (informações de artigo de Elizabeth Oliveira, Revista Sustenta)

Por aqui, em nossa Itabuna, mesmo sem contarmos com uma prefeitura em condições de realizar um investimento de tal envergadura, e até mesmo por conta do nível de poluição de nosso Cachoeira (que é infinitamente menor que o encontrado no Cheonggyecheon), em apenas se aplicando aquilo que se arrecada com a “taxa de esgoto”, já se teria condições de começarmos a amenizar o problema.

Sim, é possível, por conta da ainda pequena degradação de nosso rio, com boa vontade e investimentos localizados, iniciarmos medidas de pouco custo visando a sua revitalização.

Há até poucos anos ainda era possível ver no nosso rio diversas lavadeiras, além de pescadores e outras pessoas que se utilizavam de um rio limpo, para tomar banho, trabalhar, se divertir. Uma cena impensável nesses dias atuais de “rio verde” e mal cheiroso.

Hoje o que se vê, e se sente, é um rio transformado em esgoto a céu aberto. As pessoas que diariamente andam nas suas margens, fazendo o já tradicional “cooper do Beira-rio”, a qualquer hora do dia, são brindadas com um cheiro fétido, sendo que, por conta dessa degradação, de há muito não  mais avistamos nem mesmo peixes tentando respirar na superfície.

Lembro-me das histórias contadas por meu pai que, além de jogar bola num dos areais que se formavam do meio do rio, costumeiramente pescava acaris e se banhava nas límpidas águas do nosso Cachoeira.

Mas hoje, mesmo pagando-se “taxa de esgoto”, vemos, passivos, 100% do esgoto residencial de nossa cidade ser jogado, sem qualquer tipo de tratamento, diretamente no Cachoeira, o que por certo é o responsável, não apenas pela mortandade de peixes, mas pela nova e estranha coloração de suas águas.

Crescemos e nos desenvolvemos graças ao Cachoeira, e como grapiúnas, temos que cobrar de nossas autoridades que gastem o que é arrecadado com a “taxa de esgoto”, com o tratamento do esgoto, o que, neste centenário sem maiores “acontecimentos ou comemorações”, seria até um bom presente, pois com isto não seria apenas o Cachoeira, os seus peixes e a natureza quem seriam presenteados, mas todos nós, moradores de Itabuna.

Allah Góes é advogado municipalista e articulista do Jornal Agora

Tempo de leitura: 2 minutos

Marco Wense

Souto, Wagner e Geddel.

Os coordenadores de campanha, inconformados com a posição dos seus pré-candidatos no cenário eleitoral de 2010, estão massacrando os institutos que realizam pesquisas de intenção de voto.

O mínimo que se diz é que eles são fajutos. Palavras mais duras, ditas principalmente em conversas reservadas, onde o político xinga a genitora do concorrente, são impublicáveis.

Vale ressaltar que existem institutos sem nenhuma credibilidade, que manipulam os dados de acordo com o que foi combinado com as agremiações partidárias e os senhores políticos.

Aqui na Bahia, o PMDB, tendo como porta-voz o presidente estadual Lúcio Vieira Lima, só vai acreditar nas pesquisas quando o ministro Geddel estiver em empate técnico com o petista Jaques Wagner (PT).

O sonolento DEM, em estado de letargia política, parece conformado. Apenas algumas lideranças isoladas, como o deputado José Carlos Aleluia, se manifestam contra os resultados das consultas populares.

A última pesquisa sobre a corrida sucessória, realizada pelo instituto Vox Populi, aponta o governador Jaques Wagner com 44%, Paulo Souto 29% e o ministro Geddel 8%. O petista seria reeleito no primeiro turno.

O otimismo, até mesmo como forma de manter a militância unida, é importante em uma campanha. A infantilidade é inaceitável. Alguns peemedebistas, por exemplo, acham que Geddel já ultrapassou Paulo Souto, pré-candidato do DEM.

Essa infantilidade, bem próxima de uma imbecilidade, existe. Não é nenhuma invencionice. Tem um membro do diretório do PMDB de Itabuna que aposta na eleição do ministro Geddel já no primeiro turno. A diferença entre Wagner e Geddel é de 36 pontos.

O que mais irritou os peemedebistas na pesquisa da Vox Populi não foi os 8% na estimulada, e sim, com certeza, o irrisório, decepcionante e insignificante 1% na modalidade espontânea contra 4% de Souto e 17% de Wagner.

O presidente estadual do PMDB, Lúcio Vieira Lima, quando é questionado sobre as pesquisas, diz que “não leva em consideração nenhuma delas”, nem mesmo a da Datafolha, que também aponta uma vitória de Wagner no primeiro round.

É bom lembrar que, com essa da Vox Populi, já são seis pesquisas de intenção de voto que indicam uma possível e cada vez mais provável vitória do petista na primeira etapa eleitoral.

Se o cenário continuar favorável ao chefe do Executivo, apontando uma vitória no primeiro turno, a debandada de prefeitos do DEM, PSDB e PMDB para o projeto de reeleição é inevitável.

Petistas gozadores, adeptos do desaconselhável “já ganhou”, andam dizendo que o governador Jaques Wagner, pelo andar da carruagem, só vai precisar de “meio turno”.

Marco Wense é articulista do Diário Bahia.

Tempo de leitura: 2 minutos

Daniel Thame | danielthame.blogspot.com

A morte, especialmente a morte trágica, tem o dom de sepultar junto com o corpo físico os defeitos de algumas pessoas.

É como se a dor do instante final tivesse uma espécie de condão redentor, capaz de transformar em pó maldades e pecados cometidos em vida.

Esse não era – e pode-se afirmar aqui com absoluta certeza – o caso de Eliane Almeida de Oliveira, a Liu.

Liu era essencialmente uma pessoa boa, batalhadora, que irradiava simpatia e que ajudava, sem esperar nada em troca, as pessoas que enfrentavam dificuldades.

Era, enfim, uma mulher a quem os parentes e amigos admiravam e sentiam-se felizes quando desfrutavam de sua presença.

Uma pessoa que, boa como era, merecia encontrar a felicidade depois de dois relacionamentos infelizes.

E que, ao cruzar com o que parecia a felicidade tão ansiada e merecida, trombou com a tragédia.

O anjo que Eliane imaginou ter encontrado, escondia sob os gestos corteses e o sorriso fácil, a face do lobo devorador.

Quando Eliane passou a namorar com Francisco Paulo Lins da Silva, o Chico, imaginou ter encontrado o amor eterno.

Foi eterno, enquanto durou.

E quando acabou, o anjo que Eliane imaginou ter encontrado, escondia sob os gestos corteses e o sorriso fácil, a face do lobo devorador.

Eliane foi assassinada com um tiro na cabeça, num crime que chocou Itabuna e desde então mobiliza uma cidade inteira, na busca por justiça.

Chico, de quem Eliane havia separado-se poucas semanas antes de morrer, é o principal suspeito do crime, está foragido e com a prisão preventiva decretada.

Além de morte de Eliane, é acusado de homicídios em São Paulo e Goiânia.

Eliane provavelmente não sabia disso e pagou com a vida pela cegueira, que é um subproduto do amor e, se sabia, entrou em cena um outro subproduto do amor, a compaixão, a quem os enlevados costumam atribuir dons como transformar demônios em anjos.

O fato é que Chico não agiu num impulso de raiva repentina, o que nem assim minimizaria a brutalidade que cometeu.

Evidência disso é que, coisa que nunca fazia, locou um carro e foi buscar Eliane em Itapetinga, onde ela estava trabalhando, para trazê-la a Itabuna. E mais, aceitou que Eliane, em outro gesto de bondade cega, o ajudasse a procurar uma casa para onde ele mudaria. Chegou a sair com familiares dela na véspera do crime, numa encenação do seu melhor papel de companheiro. Ali, é muito provável que já tinha em mente o que pretendia fazer.

E fez, para então desaparecer e, quem sabe, reaparecer em outro local, a espera de uma nova presa para devorar.

Fazer Justiça, através da prisão e do julgamento de Francisco, é o mínimo que se pode esperar.

Em nome da memória de Eliane, esse sim um anjo bom, de quem restou um exemplo de vida e uma imensa saudade que a impunidade faz doer ainda mais em todos os que com ela conviveram.

___________

Daniel Thame é jornalista e blogueiro

Tempo de leitura: < 1 minuto

Sérgio Oliveira

Após toda a polêmica gerada pela derrota para o Bahia de Feira, de goleada, dentro de casa, culminando na demissão do técnico Célio Costa, não terá desculpas para que o time do Itabuna não enfrente o time de Conquista de igual para igual neste domingo.

Se houve algum mal-estar entre o grupo e o técnico, supostamente um boicote ao cabra, este não está mais no Itabuna (inclusive, retornou ao time o jogador que afastado por ele e que teria sido a causa da suposta insatisfação do grupo).

Vamos ver o que acontece e, conforme o resultado, as desculpas que serão encontradas desta vez (de problemas psicológicos – hipótese defendida pelo radialista e vereador Roberto de Souza, no programa de rádio da Silmara Souza, logo após a derrota – até o próprio boicote, corpo mole, falta de empenho – hipótese esta levantada pelo presidente do Itabuna, Ricardo Xavier, no mesmo programa, durante sua participação, em entrevista concedida – e por aí vai).

Eu estou de olho e dizendo isso antes, ainda na noite do sábado, para que, depois do jogo, não sejam inventadas novas desculpas, pois contra fatos não há argumentos!!!

Lembro-me que, ao final do referido programa de rádio, na noite da quarta-feira pregressa, o que se dizia era o seguinte: “A diretoria e o presidente do Itabuna se reunirão, ainda esta noite, e cabeças irão rolar!”.

Vamos aguardar!

Sérgio Oliveira é professor da Uesc e torcedor-sofredor do Itabuna.

Tempo de leitura: 2 minutos

Marco Wense

Dilma Roussef em visita ao estado (Foto Manu Dias).
Dilma Roussef em visita ao estado (Foto Manu Dias).

A prioridade do PT nacional, com o aval do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é a eleição da ministra Dilma Rousseff para o cobiçado e disputadíssimo Palácio do Planalto.

O presidente Lula já bateu o martelo em relação aos palanques regionais: não vai participar de nenhum ato político nos Estados com dois ou três candidatos a governador da mesma base aliada.

Cabe ao PT, com a decisão do presidente Lula, não criar mais problemas para a difícil eleição de Dilma, que tem pela frente um bom e competitivo concorrente, o tucano José Serra, governador de São Paulo e pré-candidato do PSDB.

É bom lembrar que o lulismo é infinitamente mais forte do que o petismo. Os radicais de plantão devem ser afastados das negociações envolvendo a legenda, os partidos aliados e a sucessão estadual.

O PT, no entanto, não pode, em nome dessa prioridade para eleger a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), aceitar tudo. Não pode perder a compostura e, muito menos, a autoestima.

PMDB

Ministro Hélio Costa.
Ministro Hélio Costa.

Chega a ser constrangedor, quase que uma humilhação, a insistência de setores do PMDB com o nome do deputado Michel Temer (SP) para vice-presidente na chapa encabeçada pela petista Dilma Rousseff.

A lista tríplice sugerida pelo presidente Lula, para que Dilma escolha o seu vice – quem vai escolher é Lula –, é motivo mais do que suficiente para que o PMDB descarte o carrancudo Temer.

O presidente da Câmara dos Deputados, como vice de Dilma, não acrescenta nada. Nada mesmo. É como se a ministra estivesse sozinha. Aliás, o estilo fechado do parlamentar é muito parecido com o da petista.

O melhor companheiro de chapa para Dilma Rousseff é, sem dúvida, Hélio Costa, que é peemedebista e ministro das Comunicações. O licenciado senador mineiro ocupa a primeira posição nas pesquisas de intenção de voto para o governo de Minas.

DOBRADINHA

As chamadas dobradinhas, uma espécie de “Cosme e Damião” do processo político, estão cada vez mais aceleradas.

Aqui em Itabuna, a do vereador Solon Pinheiro com ACM Neto, respectivamente pré-candidato ao Parlamento estadual (PSDB) e a deputado federal (DEM-reeleição), é a mais comentada.

O democrata sempre foi bem votado em Itabuna, onde tem um eleitorado cativo, formado por históricos, enraizados e fiéis carlistas. O voto no parlamentar é uma forma de homenagear o falecido senador Antonio Carlos Magalhães.

Como é que ACM Neto vai “medir” o trabalho de Solon em Itabuna? Reunião com dezenas de pessoas, com a maioria aparecendo porque recebeu alguma contrapartida, não quer dizer nada. É só oba-oba.

Tempo de leitura: 2 minutos

Daniel Thame | danielthame.blogspot.com

.

W. S. O. e J. S. S. não são apenas duas iniciais, embora seja melhor que continuem  conhecidos assim, para poupá-los de novos constrangimentos.

Porque, de constrangimentos e de privações W. S. O. e J. S. S. já devem estar cheios.

W. S. O. e J. S. S. são feitos de carne, osso e alma.

Talvez mais osso do que carne, talvez nem liguem para essa coisa de alma ou nem tenham tempo para se preocuparem com isso, dadas as necessidades menos transcendentais e mais reais de suas vidas.

W. S. O. e J. S. S. são dois meninos de Itabuna, meninos da Bahia, meninos do Brasil.

Meninos de um mundo absurdamente desigual.

W. S. O. e J. S. S. cresceram num meio em que lhes falta tudo, da comida que sacia a fome aos serviços básicos que garantem uma existência digna.

Integram aquela legião que a estatística aponta como excluídos sociais. Exclusão que uma considerável parte da população brasileira traz no código genético, passando de pai para filho, ainda que seja necessário destacar a validade de programas como o Bolsa Família, porta de acesso para que milhões de brasileiros rompessem a barreira da miséria absoluta e adentrassem, mesmo que de forma modesta, ao planeta cidadania.

Infelizmente esse não é o caso de W. S. O. e J. S. S., detentores da Bolsa Miséria e habitantes do planeta fome.

W. S. O. e J. S. S. são exemplos de que ainda há muito que ser feito, um longo caminho a ser percorrido para que eles e seus colegas de infortúnio deixem de ser apenas estatística.

Ou iniciais que impedem suas identificações.

Poderiam ser Wilson e João, por exemplo, colegas de escola e de time de futebol, filhos de dona Maria e seu José e de dona Antonia e seu Pedro, trabalhadores que moram num bairro onde existe saneamento, lazer, escola de qualidade e posto de saúde que funciona de verdade.

Mas são apenas W. S. O. e J. S. S., que além de engrossarem a estatística da exclusão social, agora engrossam também a estatística de menores que cometem ato infracional.

Na noite de quarta-feira, W. S. O. e J. S. S. foram apreendidos pela Polícia Militar e encaminhados ao Complexo Policial de Itabuna.

O “crime” que eles cometeram: furtar comida, brinquedo e material escolar num supermercado do Shopping Jequitibá.

Para alguns, W. S. O. e J. S. S. estavam pisando no primeiro degrau da escada da criminalidade.

Idiotice pura.

W. S. O. e J. S. S., ao pegarem comida, brinquedo e material escolar sinalizaram apenas as necessidades básicas de que eles foram privados.

Caso efetivamente subam novos degraus nessa escalada infame, a culpa é menos deles e mais de quem deveria zelar para que meninos e meninas como eles tenham presente e tenham futuro.

Um presente e um futuro que lhes está sendo roubado.

Quem é mesmo o ladrão nessa história?

___________

Daniel Thame é jornalista e blogueiro

Tempo de leitura: 2 minutos

Marco Wense

Paulo Souto: desistência?
Paulo Souto: desistência?

Nos bastidores, longe do povão de Deus, o comentário é que com Paulo Souto e Geddel na disputa pelo Palácio de Ondina, a chance de reeleição do governador Jaques Wagner, logo no primeiro turno, aumenta.

A pré-candidatura de Souto, para muitos analistas políticos, não só daqui como do eixo Rio-São Paulo, não vai decolar. Além de um discurso insosso, o democrata estaria perdendo o espaço de oposição para o ministro Geddel.

Segundo o jornalista Ricardo Noblat, o presidenciável José Serra “quer juntar na Bahia o DEM do ex-governador Paulo Souto com o PMDB do ministro Geddel. De preferência com Geddel para o governo e Souto para o Senado”.

Algumas lideranças do DEM já admitem, em conversas reservadas, a hipótese da desistência de Paulo Souto, que sairia candidato ao Senado na chapa encabeçada por Geddel.

Essa insistência de Serra em unir o PMDB e o DEM da Bahia, com o aval do comando nacional dos partidos, defenestrando a pré-candidatura de Paulo Souto, é a prova inconteste de que a reeleição de Wagner no primeiro turno é mais do que provável.

O MACACO E O TUCANO

O governador Jaques Wagner vem sendo alvo de uma avalanche de críticas em relação aos gastos do governo com publicidade. Os tucanos acham que o petista está passando do limite.

O orçamento do Estado de São Paulo com publicidade para 2010, segundo o editorial da Folha de São Paulo, está estimado em R$ 204 milhões. O governador de lá é o tucano José Serra, pré-candidato à presidência da República.

A sabedoria popular costuma dizer que “macaco não olha para o próprio rabo”. No caso em tela, envolvendo o presidenciável do PSDB, “o tucano não olha para o próprio bico”.

Marco Wense é articulista do Diário Bahia.

Tempo de leitura: 2 minutos

Marco Wense

.
.

Toda vez que é questionado sobre o segundo turno da sucessão estadual, na hipótese de ficar de fora da disputa pelo Palácio de Ondina, o ministro Geddel Vieira Lima sai pela tangente.

O ministro Geddel (Integração Nacional) tem um prazo limite para tergiversar diante da sua posição em relação ao processo sucessório, mas especificamente no tocante ao segundo round.

Esse prazo encerra na conversa que deverá ter com o presidente Lula assim que se desincompatibilizar do ministério para disputar o cobiçado cargo de governador da Bahia.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com sua popularidade lá nas nuvens, vai cobrar uma posição de Geddel diante de um eventual segundo turno com o petista Wagner e o democrata Paulo Souto.

Lula, que não criou nenhum obstáculo para a construção de dois palanques para a presidenciável Dilma Rousseff, vai exigir do ministro uma contrapartida, que é o apoio ao governador Jaques Wagner.

O ministro Geddel, com a desincompatibilização – condição sem a qual não poderá ser candidato –, se quiser indicar o seu substituto no ministério da Integração Nacional, terá que apoiar Wagner na segunda etapa.

Não tem cabimento Geddel indicar o seu sucessor e, depois, junto com ele, apoiar o candidato do DEM, partido que o presidente Lula escolheu como seu principal adversário na eleição de 2010.

O presidente Lula, que não é nenhum “menino” e, nem tão pouco, um “Zé Mané”, não vai aceitar um Geddel escorregadio, titubeante, saindo pela tangente. Um Geddel, digamos, atucanado, em cima do muro.

E o segundo turno, como fica, deve perguntar o presidente Lula a um Geddel que não poderá ser evasivo diante daquele que foi o responsável direto por sua ascensão política.

Marco Wense é articulista do Diário Bahia

Tempo de leitura: 2 minutos

.

Carlos Mascarenhas | carlos.consultic@gmail.com

Ilhéus tem hoje um Pólo de Informática que, de acordo com informações do Sinec, produz 15% dos computadores comercializados no Brasil.

Porém, a história da informática na nossa região, na época chamada de “processamento de dados”, começa em 1970, com a instalação de um computador na CEPLAC.

A instalação contou com a participação inicial de quatro ilheenses: Carlos da Silva Mascarenhas, José Alberto Maia, José Dias Santos e Martial Batista Câmara, que foram selecionados e treinados por técnicos da IBM do Brasil. Ainda nesta época, outros ilheenses vieram se juntar à equipe. Foram eles Cecília Tavares, Marcelo Mendonça e Guy Valério.

Modelo de computador usado em 1970 pela Ceplac.
Modelo de computador usado em 1970 pela Ceplac.

Ilustramos este artigo com a foto de um computador IBM /360 modelo 25, mas na verdade o computador instalado na CEPLAC tinha menos recursos que o que aparece na foto, pois não tinha fitas e tinha apenas uma unidade de discos com dois drives.

Veja a seguir a configuração do primeiro Cérebro Eletrônico, como se chamava na época, instalado no interior do Estado da Bahia:

CONFIGURAÇÃO

    • – IBM /360, modelo 25
    • – 24 kbytes de memória
    • – 2 (duas) unidades de disco com 7,5MB cada
    • – 1 leitora/perfuradora de cartões de 80 colunas
    • – 1 impressora de 600 linhas por minuto com 132 caracteres por linha

Pois é, assim começou a história da informática na nossa cidade. E naquela época ninguém poderia imaginar que 40 anos depois teriamos aqui um Pólo de Informática. Apesar das dificuldades que atravessa, o pólo ainda é um grande gerador de empregos e renda.

Com a instalação de um Núcleo Softex ao seu lado, luta que deve ser encampada pelos nossos políticos, com algumas mudanças na legislação, com um aeroporto alfandegado e com um maior apoio do Governo do Estado, poderá vir a se  consolidar e ter uma importância ainda maior na nossa economia.

Carlos Mascarenhas é especialista em Tecnologia da Informação e mantém o blog da Consultic

Tempo de leitura: 4 minutos

Valmir Assunção

.

A construção da paz começa no coração das pessoas, é uma conquista coletiva. Esta foi uma das últimas mensagens da coordenadora da Pastoral da Criança, Zilda Arns Neumann, proferidas no Haiti, no dia 12 de janeiro deste ano, antes do desastroso terremoto que matou cerca de 100 mil civis, inclusive a missionária. Ela deixará muitas saudades e um vazio enorme na luta por um mundo melhor para as crianças e adolescentes de todo o planeta que estão em situação vulnerável.

Retomando o sentido das palavras de Arns e da história da diáspora negra, que faz parte da origem do Haiti e do Brasil, principalmente da origem da Bahia, afirmo que, nós, baianos, temos de abraçar a luta do povo haitiano para minimizar as consequências desse desastre, como se fosse a nossa própria luta.

Estive no Haiti em 2005, numa missão internacional, na qual também participaram a atriz Lucélia Santos e diversos parlamentares e lideranças da América do Sul. Por mais de 15 dias, participei de encontros com lideranças da sociedade civil e do governo daquele país. Nesse tempo, pude ver de perto a pobreza e a miséria em que as pessoas vivem lá.

O Haiti foi um país que viveu muitos anos na ditadura, apesar de ter sido o primeiro a se tornar independente entre todos os outros da América Latina. Guarda, no entanto, de forma muito mais devastadora que o Brasil, as consequências do colonialismo e do imperialismo, como a condição de país mais pobre do continente.

Mais do que nunca, com os novos ventos que sopram na América Latina, é que nós, latino-americanos, temos que nos ajudar, temos que erguer os que estão mais abatidos. Por isso, nesse momento de tragédia no Haiti, é importante que cada um de nós, baianos, se torne solidário com esse povo.

E nenhum segmento, senão o movimento negro do nosso Estado, seria mais importante para liderar uma campanha de solidariedade ao povo haitiano. O que o governo Lula está fazendo são iniciativas importantes, mas nós, enquanto baianos, identificados com aquele povo, devemos também fazer nossa parte. Todas as religiões, todos os meios de comunicação, todas as forças políticas podem transformar isso numa mobilização do povo baiano.

Seria profundamente legítimo, por exemplo, que o carnaval de Salvador fosse o “Carnaval de Solidariedade ao Povo do Haiti”. Que os meios de comunicação incorporem essa campanha como uma tarefa importante da disseminação da solidariedade através da informação. Isso iria contribuir para a arrecadação de recursos e alimentação não perecível: um gesto que pode ser multiplicado em todo o Brasil.

Não basta ficarmos chocados com a tragédia, devemos agir, ajudar. Porque, como frutos da diáspora negra, o povo baiano tem uma co-responsabilidade social para com o povo haitiano.

Valmir Assunção é secretário de Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza da Bahia e deputado estadual licenciado.

A construção da paz começa no coração das pessoas, é uma conquista coletiva. Esta foi uma das últimas mensagens da coordenadora da Pastoral da Criança, Zilda Arns Neumann, proferidas no Haiti, no dia 12 de janeiro deste ano, antes do desastroso terremoto que matou cerca de 100 mil civis, inclusive a missionária. Ela deixará muitas saudades e um vazio enorme na luta por um mundo melhor para as crianças e adolescentes de todo o planeta que estão em situação vulnerável.

Retomando o sentido das palavras de Arns e da história da diáspora negra, que faz parte da origem do Haiti e do Brasil, principalmente da origem da Bahia, afirmo que, nós, baianos, temos de abraçar a luta do povo haitiano para minimizar as consequências desse desastre, como se fosse a nossa própria luta.

Estive no Haiti em 2005, numa missão internacional, na qual também participaram a atriz Lucélia Santos e diversos parlamentares e lideranças da América do Sul. Por mais de 15 dias, participei de encontros com lideranças da sociedade civil e do governo daquele país. Nesse tempo, pude ver de perto a pobreza e a miséria em que as pessoas vivem lá. O Haiti foi um país que viveu muitos anos na ditadura, apesar de ter sido o primeiro a se tornar independente entre todos os outros da América Latina. Guarda, no entanto, de forma muito mais devastadora que o Brasil, as consequências do colonialismo e do imperialismo, como a condição de país mais pobre do continente.

Mais do que nunca, com os novos ventos que sopram na América Latina, é que nós, latino-americanos, temos que nos ajudar, temos que erguer os que estão mais abatidos. Por isso, nesse momento de tragédia no Haiti, é importante que cada um de nós, baianos, se torne solidário com esse povo.

E nenhum segmento, senão o movimento negro do nosso Estado, seria mais importante para liderar uma campanha de solidariedade ao povo haitiano. O que o governo Lula está fazendo são iniciativas importantes, mas nós, enquanto baianos, identificados com aquele povo, devemos também fazer nossa parte. Todas as religiões, todos os meios de comunicação, todas as forças políticas podem transformar isso numa mobilização do povo baiano.

Seria profundamente legítimo, por exemplo, que o carnaval de Salvador fosse o “Carnaval de Solidariedade ao Povo do Haiti”. Que os meios de comunicação incorporem essa campanha como uma tarefa importante da disseminação da solidariedade através da informação. Isso iria contribuir para a arrecadação de recursos e alimentação não perecível: um gesto que pode ser multiplicado em todo o Brasil. Não basta ficarmos chocados com a tragédia, devemos agir, ajudar. Porque, como frutos da diáspora negra, o povo baiano tem uma co-responsabilidade social para com o povo haitiano.

Tempo de leitura: < 1 minuto

Marco Wense

.

O deputado Geraldo Simões, vice-líder do PT na Câmara Federal, compõe a ala da legenda que não concorda com a presença de dois “ex-carlistas” na chapa encabeçada pelo governador Jaques Wagner.

“Posso até concordar com um”, diz o ex-prefeito de Itabuna, se referindo ao conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM), Otto Alencar, pré-candidato ao Senado da República.

“Dois, não”. Como são duas vagas, o “não” do parlamentar tem nome: é o ex-governador da Bahia, César Borges, aquele da “água e óleo não se misturam”, numa alusão ao PT e ao então PFL.

O governador Jaques Wagner não descarta a possibilidade do PT ficar fora da disputa pelo Senado. De olho em uma vitória logo no primeiro turno, Wagner defende uma composição com os ex-governadores.

Pois é. Vem aí mais um imbróglio ou, então, se alguém assim preferir, mais um grande abacaxi para o bom governador descascar.

BEATLES

De George Harrison, o mais espiritualista dos Beatles: “Você pode ter tudo na vida. Nós somos os Beatles, não somos? Podemos ter tudo o que o dinheiro pode comprar. E toda a fama com que poderíamos sonhar. E daí? Não é amor. Não é saúde”.

Tempo de leitura: 2 minutos

Marco Wense

.

O Partido dos Trabalhadores de Ilhéus, quando comparado com o de Itabuna, presidido pela diretora da Direc-7, Miralva Moutinho, ex-filiada ao Partido Comunista do Brasil, é extremamente complicado.

A indecisão da legenda diante dos fatos políticos é uma constante. Essa instabilidade gera insegurança. Surge no imaginário do eleitor-cidadão-contribuinte uma espécie de “medo do petismo”.

Na trilha desse injustificado medo, vem a seguinte pergunta: o PT de Ilhéus, caso saia vitorioso na sucessão de 2012, está preparado para assumir o comando do Centro Administrativo?

Participando da administração Newton Lima (PSB), o PT tem a oportunidade de mostrar para o povo de Ilhéus que tem condições de governar a mais bela princesa do sul da Bahia.

O PT de Ilhéus, que vai ficar na frente de duas importantes secretarias – a da Saúde e de Planejamento –, não pode falhar, sob pena de enterrar de vez o legítimo sonho da conquista do cobiçado Palácio Paranaguá.

SUCESSÃO 2012

O PT de Ilhéus justifica a composição política com o prefeito Newton Lima com o argumento de que a neo-aliança é indispensável para o governador Jaques Wagner, que busca o segundo mandato (via reeleição).

Não é bem assim. Os petistas estão com os olhos voltados para o processo sucessório municipal. E mais: só aceitaram essa aliança porque o prefeito Newton Lima está legalmente impedido de disputar mais um mandato.

O prefeito Newton Lima, com a entrada do PT na administração, assume a condição de franco atirador. Se tudo ocorrer bem, parabéns para o chefe do Executivo. Do contrário, divide o ônus com os “companheiros”.

O PT tem que ser parceiro até o último minuto da administração. Não pode é usufruir das benesses inerentes ao poder e, depois, sair de fininho alegando que a tal da “herança maldita” foi um entrave. Uma treva.

O PT, agora, é governo, é situação. Sai da cômoda posição de oposição, da crítica pela crítica, sem apontar soluções, para a de co-responsável pelo sucesso ou não do governo Newton Lima.

O PT, agora, tem telhado de vidro.

JABES

.

O ex-prefeito Jabes Ribeiro, candidatíssimo à Assembleia Legislativa do Estado, com a aliança do PT com o governo municipal, passa a ser a maior liderança de oposição ao prefeito Newton Lima (PSB).

Os petistas torcem para que Jabes saia derrotado na eleição para o Parlamento estadual. A contrapartida do jabismo é que o PT seja um fiasco no governo Newton Lima.

Petistas e jabistas não podem ser protagonistas da nefasta política do quanto pior, melhor. Vamos torcer para que o PT tenha um bom desempenho na administração municipal e Jabes se eleja deputado estadual.

PS – Para Cosme Araújo, ex-vereador de Ilhéus, a aliança do PT com o prefeito Newton Lima é vapt-vupt. “Não dura mais do que seis meses”, diz o advogado.

Marco Wense é articulista do Diário Bahia.

Tempo de leitura: 3 minutos
.

Daniel Thame | www.danielthame.blogspot.com

O Haiti, que ocupa metade da ilha de Hispaniola, no paradisíaco mar do Caribe, nasceu como nação há cerca de 200 anos, destinada a ser um exemplo para o mundo.

Uma república forjada na luta de escravos libertos, num tempo em que a escravidão, aberta ou disfarçada, ainda era regra no continente e que outras ilhas e ilhotas ao seu redor ainda penavam como colônias dos países da Europa, antes de serem submetidas a ditaduras brutais.

Dona Zilda Arns, uma catarinense de fala suave e de gestos comedidos, criada na parte rica do Brasil desigual, nasceu para servir, para ser a estrada que pavimenta o acesso de milhares, talvez milhões, de pessoas à inclusão social.

Uma mulher assentada na fé católica, mas que entendeu que a fé necessita estar aliada à ação para quem pretende fazer valer a mensagem de Deus. E que, lançadas as bases da Pastoral da Criança, desenvolveu um trabalho que atingiu todas as partes do Brasil e foi adotado em outros países do mundo.

E é aí que ocorre o imponderável, o momento em que as histórias de dona Zilda Arns e do Haiti se encontram, para se unir em laços que o destino, numa de suas muitas trapaças, tornariam eternos.

O destino glorioso do Haiti trombou com fenômenos naturais como furações, vendavais e terremotos, que aliados a uma ditadura brutal e corrupta transformaram aquela parte da Hispaniola num dos países mais paupérrimos do mundo.

Um país em que, todos os anos, milhares de recém-nascidos e de crianças morrem de desnutrição, na fome endêmica e na ausência de serviços básicos como saúde e saneamento, que compõem um quadro de miséria apocalíptica.

.

O espírito de solidariedade de dona Zilda Arns a empurrou de encontro ao Haiti, para onde seguiu disposta a implantar ações de combate à desnutrição.

Ela foi salvar vidas, porque a essência de Deus não está necessariamente na conquista de um hipotético reino dos céus, mas na preservação dessa dádiva maravilhosa que é a vida humana.

No momento em que as mãos desse anjo-humano chamado dona Zilda tocavam as crianças haitianas com o poder de oferecer-lhes um futuro, um terremoto destruiu o presente, o futuro e tudo o que encontrou pela frente, reduzindo o Haiti a escombros.

Levou também dona Zilda Arns. Se fosse possível celebrar a morte de quem tanto zelou pela vida, diríamos que ela morreu como morrem os que passam pela vida como protagonistas e não como meros expectadores: cumprindo sua missão, buscando a transformação através do trabalho voluntário e desprendido de vaidades.

O encontro, que se revelou trágico, da história de dona Zilda com a história do Haiti, talvez não seja obra do acaso.

É muito mais provável que seja um sinal.

O sinal de que, inspirados em seu exemplo, homens e mulheres de todo o planeta se unam num imenso abraço de solidariedade.

Agora, para salvar e reconstruir o Haiti.

Depois e sempre para livrar o mundo dos diversos haitis que existem espalhados pelo planeta.

Morta no Haiti, dona Zilda vive.

___________

Daniel Thame é jornalista e blogueiro