Tempo de leitura: 3 minutosDo PIMENTA
O escritor Pedro Dhones Rodrigues da Silva, de 24 anos, filho de Pau Brasil, no sul da Bahia, acaba de lançar Mil Vidas em Um Ano Só, romance que mistura mitologia celta, reencarnações ao longo de períodos históricos e conflitos familiares que se estendem por quase três mil anos. Neurodivergente — convive com TDAH, autismo e Síndrome de Tourette — Pedro transforma suas condições em parte do processo criativo, que descreve como intenso, fragmentado e profundamente sensorial.
Pedro divide a rotina entre Pau Brasil e o bairro do Salobrinho, em Ilhéus, onde cursa o sexto semestre de Economia na Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc). Ele conta que o livro levou cerca de cinco meses para ser escrito. “O lançamento, eu uso como referência o dia em que fiz o cadastro do ISBN. Depois disso, quando a editora finalizou os parâmetros, comecei a divulgação”, disse o escritor ao PIMENTA. O livro é publicado pela Editora Chico Xavier, de Minas Gerais.
O escritor também participou de um evento de apresentação da obra em parceria com a Escola Otávio Mangabeira, em Pau Brasil, por meio do projeto Estante Mágico. O encontro reuniu estudantes, professores e moradores. “Foi um evento para desenvolver essa profissão aqui no município, para que as crianças possam entender que existem escritores jovens. Eu fui convidado para falar sobre o meu livro e sobre minha trajetória como estudante e como pessoa neurodivergente”, relata.
UM ENREDO QUE ATRAVESSA ERAS
Mil Vidas em Um Ano Só parte de uma trama situada no ano 920 antes de Cristo, na Lapônia, no norte da Escandinávia, onde vivem duas famílias influentes. Frederick e Diana — prometidos em casamento — são os protagonistas de uma história marcada por alianças, maldições e rupturas. Durante o período de preparação para o casamento, Frederick se apaixona por Anastácia, uma jovem escravizada da aldeia. O relacionamento proibido desencadeia a tragédia central da narrativa.
“No dia do solstício de verão eles vão se encontrar fora da tribo, e outra escrava vê os dois. Quando o pai de Diana descobre, ele entrega uma taça para Frederick e o amaldiçoa a viver para sempre. Já Anastácia é morta e amaldiçoada a reencarnar a cada ciclo”, explica o autor. A partir daí, os personagens passam a surgir em diferentes momentos da história: Primeira e Segunda Guerra Mundiais, Revolução Industrial, disputas monárquicas e outros cenários.
O romance chega ao século 21 com personagens reencarnados em novas identidades: Frederick vivendo no sul da França; Anastácia renascendo como uma artista chamada Linda; e Diana surgindo como Victória Herrera, em Vitória da Conquista, no sudoeste baiano. “Eu juntei máfia russa, cultura indígena, cultura celta, períodos históricos como Egito, e até o incêndio da Casa Branca. Pego dez assuntos diferentes e faço uma junção para criar uma nova história”, afirma Pedro.
O livro Mil Vidas em Um Ano Só está disponível para compra neste link e em canais de distribuição da editora Chico Xavier.
PROCESSO CRIATIVO
Pedro fala abertamente sobre como suas condições influenciam o processo de escrita. Ele afirma que o hiperfoco pode impulsionar a produção, mas também cobra seu preço. “Eu consigo juntar muitos assuntos e criar algo novo. O lado negativo é que tenho extrema dificuldade de foco. Entro em hiperfoco e passo dois dias nisso, com dificuldade para dormir. Só consigo descansar depois que termino o projeto”, diz.
A Síndrome de Tourette também se manifesta durante o processo criativo e nas relações sociais. “A minha Tourette entra em duas categorias: falas involuntárias repetitivas e falas intrusivas. Isso atrapalha às vezes a comunicação. Palavras repetitivas, fala fora de contexto, mas estou fazendo tratamento e isso tem equilibrado bastante”, explica.
Também cita episódios de exaustão mental quando enfrenta obstáculos cotidianos. “Quando vejo que um assunto é complicado para resolver, meu corpo entra em exaustão mental”.