Não bastassem os prejuízos causados pela OI em dezembro no estado, os sul-baianos enfrentam um novo “apagão” da operadora na telefonia fixa nesta quarta-feira (19). Quem liga para qualquer número da companhia não consegue falar e ainda ouve mensagem gravada informando que o número “está fora de área ou fora de serviço”.
O problema atinge ainda vários municípios do sudoeste baiano. Os cálculos são de que mais de 4 milhões de pessoas estão sem cobertura da OI, principal operadora da telefonia fixa no estado.
Os serviços de internet banda larga Velox-OI também não funcionam na maior parte das duas regiões do estado. Até mesmo o serviço 10331 não está recebendo ligações. A central de atendimento informa: “o telefone que você ligou está fora de área ou desligado”.
De volta às atividades deste blog (Política e Cidadania), não posso deixar de lamentar a situação que encontrei na bela e grandiosa cidade de Itabuna, centro econômico e comercial do Sul da Bahia. Ruas sujas e descuidadas, carências profundas em áreas fundamentais, como a saúde, educação e segurança, mostram como têm razão as diversas queixas que ouvi a respeito da administração do Capitão Azevedo e como podem ser levadas a sério críticas que li nos jornais e blogs locais.
Os problemas políticos causados pela inabilidade do prefeito, que parece perdido em um mar de confusões, apenas agravam o quadro, com desencontros permanentes entre secretários a se refletirem no funcionamento da máquina administrativa.
Para completar, em nada ajuda o fato de a Câmara Municipal estar sempre envolvida em escândalos e picuinhas, com lavagens de roupa suja a cada dia e troca de acusações envolvendo corrupção e descaso com o dinheiro público. A tal ponto chegou o absurdo que a Justiça obrigou os vereadores a realizar uma nova eleição para a Mesa Diretora, ante os descalabros de duas tentativas anteriores.
Enfim, uma situação que me fez sair das terras grapiúnas bastante preocupado com Itabuna. E isto justamente quando a região parece estar encontrando um novo rumo após o fundo do poço a que chegou com a crise da lavoura cacaueira. Lamentável, sob todos os aspectos.
Paixão Barbosa é jornalista, blogueiro e coordenador da Agência de Notícias A Tarde.
Tempo de leitura: < 1minutoDiogo, preso com 800 gramas de cocaína.
Um fugitivo do presídio de Jequié foi recapturado pela polícia rodoviária em Ponto de Astério, Itororó, neste final de semana, com 805 gramas de cocaína. Diogo Silva Dias, 24, saiu da rodoviária de Itabuna e estava em um ônibus da Viação Novo Horizonte, que fazia a linha Ilhéus-Guanambi.
Um patrulheiro rodoviário estava no ônibus e desconfiou da agitação do fugitivo durante a viagem. O policial decidiu solicitar de colegas do posto rodoviário em Firmino Alves que revistassem o homem. As suspeitas se confirmaram.
“Diogo Tatu” foi levado para a delegacia de Itapetinga e retornará para o presídio de Jequié. O traficante responderá por tráfico de drogas na Comarca de Itororó, pois a prisão ocorreu na localidade de Ponto de Astério.
A ousadia do traficante pôde ser comprovada pelos policiais quando Diogo era transferido para a delegacia de Itapetinga. No trajeto, ele enfiou a uma chave de roda da viatura policial por debaixo da roupa, segundo o repórter Costa Filho, da rádio Jornal.
Uma bomba está prestes a estourar nas mãos da CVC. Empresários ligados ao trade turístico sul-baiano juntaram as contas (e as forças) para cobrar uma fatura de estimados R$ 3 milhões da maior agência de turismo do país. A quantia milionária seria resultado dos “cavalos-de-pau” da NV Turismo em fornecedores.
O grupo das vítimas é liderado pelo empresário Rogério Montes, que alega ter levado um calote de R$ 300 mil da NV, operadora oficial da CVC na região.
Os votos de paz não alcançaram muitos moradores de cidades sul-baianas nesta virada de ano. Nada menos que nove homicídios foram registrados do dia 31 de dezembro até a manhã deste domingo, 2.
Três assassinatos aconteceram em Itabuna. Rafael Silva Araújo, de 17 anos, foi encontrado morto no bairro Nova Califórnia, com perfurações de bala nas costas e na cabeça. Emerson Santos Silva, da mesma idade, chegou a ser levado para o Hospital de Base, após ter sido baleado, mas não resistiu aos ferimentos.
Já na manhã deste domingo, foi encontrado na avenida Pedro Jorge, também em Itabuna, o corpo de um homem moreno, aparentando idade de 30 a 35 anos. A vítima, que trajava camisa e bermuda azuis, foi levada para o Departamento de Polícia Técnica. Segundo o perito Carlos Libório, o homem foi alvejado por três tiros a queima-roupa.
Em Ilhéus, dois homicídios ocorreram no dia 31, nas imediações da Praça Dom Eduardo, e a polícia ainda não tem a identificação das vítimas. Na zona norte da cidade, mataram a tiros Gilson Ramos de Jesus, de 24 anos. Outro corpo sem identificação foi encontrado na região do Serrado, comunidade da zona rural ilheense.
A violência também deixou sua marca na virada do ano em Arataca, onde o trabalhador rural Waldec Silva Santos foi brutalmente assassinado. Informações que chegaram ao PIMENTA dão conta de que a vítima teve a cabeça decepada. Já em Itajuípe, foi morto a tiros o vendedor Alexandre Oliveira Araújo, de 28 anos.
Em todos esses casos, a autoria e a motivação dos crimes é desconhecida pela polícia.
Acidentes fatais crescem no sul da Bahia (Foto Pimenta).
Um levantamento exclusivo revela que subiu o número de mortes nas estradas federais e estaduais que cortam o sul da Bahia. Foram 173 mortes em 2010 contra 134 no ano passado, aumento de quase 30%.
O levantamento feito pelo repórter Costa Filho para o PIMENTA inclui as BAs e BRs de maior movimento no eixo sul-baiano.
Neste ano, 107 mortes ocorreram nas rodovias federais (BRs 101, 330 e 030) e 66 nas estaduais, principalmente, BR-415 e BAs 001 e 262 e 263. Os dados são relativos ao período de 1º de janeiro a 30 de dezembro.
O balanço revela aumento de acidentes nas rodovias federais (719 a 911) e queda nas estaduais (433 a 373). No período, também foram registradas 15 prisões pela Lei Seca em estradas administradas pelo governo baiano. O aumento está ligado a fatores como imprudência.
O balanço nas rodovias estaduais revela que os três meses nos quais ocorreram maior número de acidentes foram, na sequência, janeiro (17), agosto (16) e novembro (10). Recomenda-se atenção redobrada em trechos de maior movimentação nos acessos a Ilhéus e Itabuna e, principalmente, no acesso ao balneário de Olivença, em Ilhéus (BA-001). Todos os dados serão apresentados no Tribuna Livre, da rádio Jornal, pelo repórter de trânsito, Costa Filho, a partir das 14h15min (ouça).
O Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) cassou liminar obtida pelo Ministério Público da Bahia e liberou a exploração de petróleo na região do arquipélago de Abrolhos, no litoral baiano. A decisão preocupa ambientalistas, que temem impactos negativos na região com a maior biodiversidade do Atlântico Sul.
Segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP), as concessionárias precisam agora buscar no Ibama licenças para iniciar as operações. Cinco empresas disputam 16 concessões no arquipélago que possui uma das maiores biodiversidades do Atlântico e tornou-se famoso mundialmente como refúgio de baleias jubarte.
Kátia foi assassinada ao sair de igreja. Crime foi premeditado (Fotoreprodução Agnaldo Santos).
Agnaldo Santos
O assassinato da empresária Kátia Lima dos Santos, 30, foi premeditado e o assassino ficou por quase duas horas à espera da vítima morta ontem à noite, ao sair de um culto na igreja evangélica Assembleia de Deus, em Camacan, no sul da Bahia. O homem alto e magro deflagrou um tiro no ouvido e outro na testa da empresária e dona de rede de supermercados no município.
A vítima estava com dois filhos menores e sua mãe, Arlete de Almeida Lima. Ela contou que a filha havia acabado de entrar no seu Toyota Corolla quando ocorreu o crime.
Arlete conta que viu um homem à sua frente desferindo disparos para cima na presença de vários fiéis da igreja. “Quando olhei para minha filha, ela estava caída sobre o volante do carro”, disse.
Algumas testemunhas que presenciaram o homicídio disseram que o autor dos disparos estava há algum tempo nas imediações da porta da igreja e no término do culto ficou observando algumas mulheres que saiam do templo. Quando Kátia Lima saiu e entrou no seu veículo , o criminoso se aproximou e fez os disparos.
Kátia Lima era casada com o empresário Edvan Ribeiro há mais de 15 anos, com quem tinha três filhos menores, de cinco, dez e treze anos de idade. Leia mais
A Azul anunciou hoje que inaugura em 1º de fevereiro voos em dias alternados entre Belo Horizonte e Ilhéus. A companhia já iniciou a venda de passagem, que custará R$ 109,00 o bilhete comprado com 21 dias de antecedência.
Haverá voos entre o aeroporto de Confins e o de Ilhéus em dias alternados (domingos, terças e quintas). Minas Gerais é o segundo maior polo emissor de turistas para o município baiano. A empresa também ampliará o número de voos de BH para Porto Seguro, de um para quatro voos semanais a partir da capital mineira.
Quase metade dos vestibulandos da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc) em 2011 residem em Ilhéus ou Itabuna e a maioria dos concorrentes é mulher. A universidade traçou o perfil dos candidatos com base nas respostas ao questionário socioeconômico.
Dos 14.598 candidatos, 3.616 residem em Itabuna e 3.349 moram em Ilhéus. Estudantes de 246 dos 417 municípios baianos participam das provas do vestibular, nos dias 16, 17 e 18 de janeiro. A terceira cidade em número de inscritos é Salvador (937), seguida de Vitória da Conquista (449), Coaraci (284), Jequié (275) e Feira de Santana (259).
Ainda segundo o perfil divulgado pela Uesc, 8.150 dos vestibulandos são do sexo feminino e a idade média dos candidatos é 22 anos. Como já antecipou o PIMENTA, o exame de 2011 terá concorrência de 9,12 candidatos/vagas. o curso de Medicina é o mais concorrido, com 73,10 candidatos por vaga, vindo em segundo lugar o curso de Engenharia Civil, 28,43, e em terceiro, o Direito (matutino), 21,12. CONFIRA A CONCORRÊNCIA POR CURSO
Geraldo comemora aprovação de MP.
O Senado Federal aprovou, sem alterações, a Medida Provisória que valida a negociação do Tesouro Nacional na capitalização da Petrobras e incluirá entre 3 mil e 10 mil produtores no PAC do Cacau. A votação ocorreu nesta quarta, 15. A MP 500 já havia passado pelo crivo dos deputados federais e teve Geraldo Simões (PT) como relator na Câmara.
Geraldo é o autor da emenda que incluiu mais cacauicultores no PAC. A MP agora vai à sanção presidencial e poderá contemplar produtores que contrataram empréstimos do Pronaf, do Fundo de Financiamento do Nordeste (FNE) e da quarta etapa do Programa de Recuperação da Lavoura Cacaueira.
Estes produtores terão até 30 de junho de 2011 para renegociar a dívida e ter acesso a crédito novo com prazo de carência de oito anos e 20 anos para pagar o financiamento. A medida amplia as faixas de desconto e inclui três mil produtores que, na forma como foi aprovada no Senado anteriormente, não teriam direito a crédito do PAC do Cacau, programa que destina R$ 2,52 bilhões para a diversificação e reestruturação da lavoura cacaueira.
Em sessão ocorrida nesta tarde, o Tribunal de Contas dos Municípios rejeitou as contas de 2009 tanto do prefeito Deraldino Araújo (PMDB) como as do presidente da Câmara de Vereadores, o ex-prefeito José Mendonça (PP).
O relator Fernando Vita apontou irregularidades nos gastos com a publicidade da prefeitura de Ipiaú. Deraldino Araújo está sendo obrigado a devolver R$ 47.526,00 aos cofres do município por fazer autopromoção com dinheiro público.
O prefeito também é acusado de não licitar R$ 747.050,00, por meio de dispensa de processo licitatório sem fundamentação. O governo municipal também teria executado gastos “exagerados” com locação de veículos, aquisição de combustíveis e manutenção de veículos.
Já o presidente da Câmara, o ex-prefeito José Mendonça (PP), teve a prestação de contas rejeitada porque deixou restos a pagar sem apontar de onde sairia o dinheiro para a cobertura da dívida, além de gastos “irrazoáveis” na contratação de prestação de serviços de Assessoria Contábil e Jurídica.
O TCM também apurou gastos considerados elevados com contas telefônicas e publicidade, “o que demonstra a não-observância dos princípios da razoabilidade e economicidade”.
É de contar nos dedos o número de prefeitos sul-baianos que conseguiram ter suas contas de 2009 aprovadas pelo Tribunal de Contas dos Municípios. Por aqui, só Josefina Castro (PT-Coaraci) e Moacyr Leite (PP-Uruçuca). Já a lista dos que tiveram prestação de contas rejeitadas… É imensa.
Pois junte a este rol mais um: o TCM reprovou as contas de Jeová Nunes (PT), prefeito de São José da Vitória. O relator Paolo Marconi encontrou execução de mais de 300 mil de forma ilegal, a exemplo de R$ 144.668,00 sem licitação e despesas de R$ 177.977,00 fragmentadas para fugir de licitação. Jeová – que não é deus nem santo – levou multa de R$ 5 mil e terá de devolver R$ 21.385,00 ao Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb).
Milton Rosário, integrante de qualquer lista, por menor que seja, dos melhores jornalistas de sua geração (além de ser gente de excepcional qualidade), me contou esta. Certa vez, o pai do poeta Telmo Padilha (foto) virou-se para o autor de Girassol do espanto e, olho no olho, o chamou à terra: “Meu filho, deixe esse negócio de escrever e arranje um trabalho decente, pois literatura não dá camisa a ninguém”. Telmo persistiu e obteve reconhecimento nacional, o que não invalida a lição de que intelectual, para ganhar uma camisa nova, precisa suar (e muito!) a antiga. Não temos tabela de preços nem sindicato como proteção – e escrever, diz o senso comum, não é trabalho, é passatempo.
JORNALISTA É QUEM VIVE DO JORNALISMO
Aqui, uma questão semântica. Para a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) – que anda pelas redações ameaçando prender e arrebentar quem por lá se encontre que não seja diplomado – é jornalista profissional quem tem o curso superior específico (aos demais, considerados no exercício ilegal da profissão, cadeia). Já o conceito “clássico” é diferente: jornalista é quem atende aos dois requisitos de 1) trabalhar regularmente na atividade e 2) ser remunerado por esse trabalho. Com ou sem diploma, é profissional o indivíduo que exerce o jornalismo periodicamente e é pago para fazê-lo. Fora dessa fórmula simples e clara, não há salvação, pouco importa o que pense a Fenaj.
“GANHARÁS O PÃO COM O SUOR DO TEXTO”
A região tem muitos (e bons) jornalistas não diplomados, e me arrisco a citar apenas um, na tentativa de síntese do que quero dizer. Refiro-me a Eduardo Anunciação (foto), um “bicho de jornal”, com mais tempo de redação do que urubu de vôo (às vezes penso que ele, por essa escrita em linhas tortas próprias dos deuses, teria nascido num ambiente de jornal – e, para completar a quimera, bebeu tinta de impressão, em vez de leite materno). Nunca foi balconista de loja, não trabalhou em banco, não sabe botar meia-sola em sapato, não é pedreiro nem médico. É jornalista. Daqueles que lutam com as palavras todos os dias, mal rompe a manhã – e pagam o supermercado com o suor do seu texto.
JORNALISMO DO DIFUSO E DO IMPALPÁVEL
O Sul da Bahia é terreno fértil para colunistas de todos os jaezes, com amplo espectro de textos dirigidos a leitores interessados em confetes, serpentinas, lantejoulas, plumas, paetês ou temas difusos e impalpáveis. Temo-los também de amenidades, política, economia e do que mais lhes der na telha e for suportado pela “democracia” dos donos de veículos. Esse banquete de vaidades e tolices (exemplo típíco na foto) nada de bom acrescenta ao pensamento regional, mas é incentivado pelos jornais: são colunas e artigos que nada custam para aspergir ideias de segunda mão, enquanto tomam espaço dos profissionais. Jornalistas como Eduardo correm perigo: se escaparem da Fenaj, serão desempregados pelos diletantes.
Não há dúvida: a maior armadilha de nossa ortografia é o hífen. A depender do caso, ele é bem-vindo e bem-visto. É o hífen é do bem, digamos. Mas quando surge sem ser “convidado”, causa mal-estar e mau humor, deixa o leitor mal-humorado, faz o texto mal-amado, sugere que quem o escreve é mal-educado (mal-afortunado, em termos de língua culta). Aí, é o hífen do mal. Às vezes, ele é bendito, bem-visto, benquisto, benfeitor e bem-querido; noutras, é malnascido, malcuidado, malcriado, mal-ajambrado, mal-afamado, malvisto e, portanto, contra-indicado. É o contra-exemplo da boa construção.
GOVERNO MUDA GRAMÁTICA PORTUGUESA
O governo estadual houve por bem abolir, por sua inteira conta e risco, o hífen de “Bem-Vindos”. A CLMH (Comunidade dos Linguistas Mal-Humorados) há de dizer que isto não tem importância, pois todos os leitores vão entender que a placa indica a gentileza e a cortesia com que a autoridade recebe quem visita a Direc de Ilhéus. Mas peço licença para manifestar meu estranhamento com mais este descaso oficial com a língua portuguesa. Afinal, se nem num local feito por e para professores as regras gramaticais são obedecidas, onde mais vamos obedecê-las?
Era o fim do ano, numa redação de jornal. O redator-chefe vira-se para o editorialista e lhe encomenda, para o dia seguinte, um editorial sobre Jesus Cristo. “Contra ou a favor?” – pergunta candidamente o articulista… A história é conhecida por todo jornalista, ou quem trabalhou numa redação – seja como estagiário, servindo cafezinho ou dobrando jornal. Ela pretende ilustrar que o editorial não é a opinião de quem o escreve, mas a do veículo que o publica. Teoricamente, o autor de editoriais é alguém com isenção bastante para, como na historieta acima, escrever contra ou favor de Jesus, com a mesma desenvoltura.
CAVALO COM CHIFRES E COBRA COM ASAS
Se o prezado leitor (ou a prezada leitora!) concluiu que não se assina editorial, parabéns. Não se assina porque, se assinado, vira artigo “comum”, a espelhar a opinião do signatário, não mais do veículo. Editorial “assinado” se define com uma palavra de nossa língua culta pouco utilizada por nós, mas corriqueira em Portugal: contrafação – que vem a ser fraude, disfarce, fingimento, imitação, falsificação, e por aí vai. Editorial “assinado” é tudo isso (e mais alguma coisa), mas editorial não é. Será, mudando da língua erudita lusitana para a popular brasileira, um cavalo com chifres. Ou uma cobra com asas.
ROBERTO MARINHO E O EDITORIAL ASSINADO
Há tempos, o Jornal Nacional costumava, numa noite sim e na outra idem, antecipar o que O Globo publicaria no dia seguinte, como “o editorial do jornalista Roberto Marinho” – na foto, à direita do general Figueiredo. No afã de agradar ao chefe (ou, quem sabe, por ordem do mesmo), violentavam-se as regras e se desserviam as novas gerações de redatores. Essa contrafação (!) durou até quando apareceu no JN alguém com juízo e pôs cobro à farsa – ou Doutor Roberto se cansou da brincadeira. O fato é que este morreu e, para nosso alívio, resolveu, em definitivo, o problema. “Editorial do jornalista Roberto Marinho”: nunca mais.
A LEI DE MURPHY EM VISITA ÀS REDAÇÕES
Morre o homem, ficam-lhe os defeitos. Em pleno 2010, há veículos por aí que identificam seus editoriais com a palavra “Editorial” no alto da página (o que é uma informação supérflua, ociosa, mas aceita por alguns grandes veículos) e ainda os assinam, numa prova irretocável de que não sabem o que fazem. Mas, como diz o muito citado Murphy (creio que esta é a Lei nº 81, do seu elenco de 100), “nada está tão ruim que não possa ficar pior”: pois acaba de surgir entre nós o editorial com foto. Isso mesmo: editorial assinado e com foto de quem o assina. Aí, pego meu boné e caio fora, pois a discussão já adentrou a órbita da insensatez. COMENTE! »
NOEL E A FÁBRICA QUE NÃO ERA DE TECIDOS
A imortal Três Apitos foi composta em 1933 para uma das paixões de Noel Rosa, Josefina (a Fina), que ele julgava trabalhar numa fábrica de tecidos (a Confiança) mas que, na verdade, era empregada numa pequena fábrica de botões. Esse engano o levou a criar a famosa rima de pano/piano. Ao descobrir o equívoco, ele manteve os versos. Coisa de poeta: sacrificou a verdade, em benefício da rima: “Mas você não sabe/ Que enquanto você faz pano/ Faço junto do piano/ Esses versos pra você”. E aqui há outra pequena fraude, pois Noel nunca foi pianista. Vejam o contraste desses dois operários em construção: a moça tece pano, ele tece poesia.
A POESIA RESISTINDO À INDUSTRIALIZAÇÃO
Aliás, contraste é o que não falta nesta bela canção de Noel (foto). O mundo, com seu pragmatismo, parece conspirar contra o amor e outras cardiopatias, da mesma forma que a fábrica, símbolo do progresso, contrapõe-se ao piano – que o poeta usa para dirigir-se à amada. Três apitos mostra o mundos dividido em dois: de um lado, o artista e sua carga de sensibilidade, claramente à margem da sociedade de consumo; do outro, o capitalismo, o progresso industrial, a busca do lucro. “Quando o apito da fábrica de tecidos/ Vem ferir os meus ouvidos/ Eu me lembro de você”. O chamado ao trabalho é, para o poeta, a invocação para o amor.
APESAR DOS ERROS, UM MOMENTO MÁGICO
Noel Rosa foi listado aqui entre pessoas e efemérides que completavam, ao lado de Itabuna, um século em 2010. De repente, vejo que mais um ano se passou, sem nenhuma homenagem ao Poeta da Vila – logo eu, que tenho predileção pela sua arte, e até, se posso ser imodesto, razoável conhecimento de sua lavoura. Caso esta coluna se mantenha, vamos postar ainda uns dois vídeos sobre este grande nome da cultura brasileira. Hoje, um grande momento da MPB, reunindo Elizeth Cardoso e Jacob do Bandolim. Mesmo com a grande intérprete, ao vivo, errando a letra de forma deplorável, penso que vale a pena ouvir.