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Karoline VitalKaroline Vital | karolinevital@gmail.com

Ouço muito discurso demagógico de gente que diz saber do potencial artístico grapiúna, mas nunca viu coisa alguma. É o mesmo tipo de gente que assiste programa matutino e dá conselhos sobre dietas naturais, exercícios e decora meia dúzia de chavões de livros de autoajuda.

Mais um ano vai chegando ao fim e a turma não perde tempo de fazer suas promessas para os próximos 12 meses. Uma clássica é regular o peso através de hábitos mais saudáveis. Uns querem emagrecer, outros ganhar massa muscular, alguns apenas gostariam de gozar de mais saúde para ter a possibilidade de viverem muitos outros anos e fazer mais promessas. Todo mundo sabe o que precisa fazer e o quanto sua saúde agradecerá, mas são poucos os que realmente se arriscam.

Geralmente, para regular o peso se começa pela reeducação alimentar. Fugir das delícias pouco nutritivas às quais estamos acostumados para encarar pratos que nem sempre são atraentes logo de cara é duro, torturante. Por mais que a circunferência das nossas cinturas peça clemência, são raros aqueles que facilmente trocam o velho e gordo bife com batatas fritas por um peixe grelhado com ervas finas e uma salada crua. É difícil e sofrível acostumar com o cardápio mais leve e sadio.

E, assim como acontece com a necessidade de hábitos alimentares mais saudáveis, também é preciso investir na boa forma de nossas mentes, melhorando nossas dietas culturais. Estamos acostumados a consumir tanta tranqueira que estranhamos ao encararmos uma opção mais refinada. Existem uns e outros que adoram visitar restaurantes chiques de vez em quando para posarem de gourmets, assim como aqueles que viram tietes repentinas de figuras da MPB para tirarem onda de intelectuais. Mas para apreciar cultura de verdade é questão de hábito, refinamento gradativo do paladar.

Meio mundo reclama que na televisão só passa porcaria e emburrece, que na internet só tem baboseira, etc. Têm consciência que há alternativas melhores e engrandecedoras, têm livre acesso a elas, mas não largam os maus hábitos. São os mesmos que, ao chegar numa praça de alimentação, atacam logo os sanduíches com gosto de plástico.

Os meios de comunicação também não ajudam muito a incentivar melhores hábitos culturais. Adoram escândalos e fofocas políticas, ficam em êxtase com tragédias (se envolverem criancinhas melhor ainda) e vão ao delírio com a violência, estampando fotos dos defuntos ensanguentados e tudo mais. A parte destinada à cultura é ínfima. É um terço de bloco de um telejornal, uma notinha em um programa de rádio e uma postagem por semana num site (isso se o evento não estiver pagando pelo espaço, um banner bem dinâmico com a foto dos artistas globais).

Fica mais do que complicado tentar colocar na cabeça do povo de que ser culto não é ter lido apenas os clássicos da literatura universal ou conhecer a discografia de gênios da música. Ser culto é estar aberto a novas experiências culturais, é se permitir experimentar novos sons, imagens e sabores.

A região sulbaiana tem uma vida cultural riquíssima, com artistas que não devem nada aos importados das regiões sul e sudeste do país. E não adianta vir apenas compartilhar links em seus perfis nas redes sociais de eventos culturais locais e nem se dar ao trabalho de experimentar. Leia Mais

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henrique serapião 2Henrique Serapião |  henrique@serapiaoadvogados.com.br

O Governo Federal editou recentemente a Medida Provisória 589, que regulamenta as novas regras para o parcelamento das contribuições previdenciárias dos municípios, devidas até o dia 31 de outubro do ano corrente.

Os municípios que aderirem poderão parcelar os débitos atrasados pagando com 2%(dois por cento) de sua receita corrente líquida, autorizando a União a efetuar a retenção da obrigação corrente em seu Fundo de Participação dos Municípios (FPM).

Em principio, pode-se dizer que tal parcelamento vai ajudar o município na medida em que possibilita ao mesmo no momento da adesão, obter a sua Certidão Negativa. Entretanto, a bondade acaba neste exato momento.

O Governo Federal sabidamente fez incluir no texto da referida MP, a autorização dada pelo ente municipal para que a Receita Federal do Brasil possa realizar a retenção da chamada obrigação corrente. O que vem a ser a obrigação corrente? Nada mais é do que o valor devido mês a mês pelo município, a título de INSS sobre a folha de pagamento.

Nessa toada, não há que se olvidar que a apuração e retenção de tais valores é feito com base na GFIP emitida pela prefeitura, onde lá estão consignados os valores devidos. Mais que isso, no ato do protocolo do pedido de parcelamento, o município é obrigado a entregar o seu demonstrativo de receita corrente líquida, bem como os dados completos de sua folha de pagamento.

E essa é a “armadilha” do Governo Federal, por que a partir desse momento o Município perde a autonomia sobre sua principal fonte de receita o FPM. Isto porque, como a Receita Federal vai estar de posse do demonstrativo da Receita Líquida e dos dados da folha de pagamento, as retenções serão realizadas automaticamente, pouco importando as informações que venham a ser prestadas pelo município mensalmente via GFIP.

Vale observar, por mais que a Receita Federal venha negar e afirmar que as retenções serão feitas com base nas informações lançadas em GFIP, é cristalino que se trata meramente de retórica. Exemplo: se em um determinado mês um município que recolhe normalmente R$ 100.000,00 (cem mil reais) declarar o valor devido de R$ 40.000,00(quarenta mil reais), a Receita vai fazer a retenção com base na informação que ela tem no ato do pedido de parcelamento, ou seja, vai reter os R$ 100.000,00(cem mil reais). Leia Mais

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Marco Wense

 

No começo, as tetas do erário público eram açucaradas. Agora, no ocaso, no crepúsculo do governo, são azedas.

 

A boa votação de Vane do Renascer, se elegendo prefeito de Itabuna, decorreu de uma avalanche de fatores. O principal deles foi a inconteste e contagiante vontade de mudar.

Como não bastasse o chega-pra-lá no fernandismo e no geraldismo, aparece o voto útil para liquidar a fatura. Sem falar no desastroso e atabalhoado governo Azevedo.

Centenas de eleitores, com a então candidata petista Juçara Feitosa despencando nas pesquisas, optaram pela chapa dos vereadores, com Wenceslau Júnior (PCdoB) na vice.

Aliás, depois da gestão Ubaldo Dantas, considerada como uma das melhores que passou pelo Centro Administrativo Firmino Alves, Itabuna só foi governada pelo geraldismo e fernandismo.

Se Vane for bem-sucedido na sua árdua missão de colocar Itabuna no lugar que merece, resgatando a autoestima do seu povo, terá pavimentado o seu próprio e personalizado caminho.

Na sucessão de 2016 não haverá mais esse inominável sentimento de mudança. O vanismo só será sólido, se transformando em uma forte corrente política, se Vane for reeleito.

O secretariado é bom. É confiável. Não é o do desejo 100% do prefeito eleito. Mas é infinitamente melhor do que o do capitão Azevedo e do seu antecessor.
É bom lembrar que o instituto da reeleição continua com a “virgindade” intacta.

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Helenilson Chaves

 

Devemos ser extremamente gratos àqueles que conseguiram a instalação da Universidade Federal do Sul da Bahia, mas é preciso avançar no sentido de que ela venha a funcionar como um centro de disseminação de oportunidades.

 

A implantação da Universidade Federal do Sul da Bahia, que terá sede em Itabuna, é fruto de ampla mobilização de todos os segmentos da sociedade organizada. Uma grande conquista para a nossa região.

A implantação de uma universidade federal vai bem além de sua estrutura física. É preciso criar as condições necessárias para que a Ufesba proporcione o surgimento de oportunidades para os sulbaianos, através do conhecimento a ser conquistado.

Estrutura física adequada e cursos que contribuam para o desenvolvimento socioeconômico e intelectual são a combinação perfeita para que possamos ter na universidade um instrumento que atenda aos anseios da população.

Devemos ser extremamente gratos àqueles que conseguiram a instalação da Universidade Federal do Sul da Bahia, mas é preciso avançar no sentido de que ela venha a funcionar como um centro de disseminação de oportunidades, num momento em que o Sul da Bahia passará por grandes transformações com a chegada de empreendimentos como o Porto Sul, a Ferrovia Oeste-Leste, o Gasoduto da Petrobrás e a rede de distribuição de gás natural da Bahiagás.

Para que possamos ter à disposição as imensas potencialidades oferecidas pela Ufesba, é preciso que nossos governantes também invistam na base do sistema educacional, com um ensino fundamental e médio de qualidade e a valorização dos professores.
Somos mais do que uma mistura de negros, índios e brancos. Somos um povo que, tendo oportunidades de se desenvolver, fazemos do espírito empreendedor a nossa marca.

E a educação é e sempre será o caminho para a cidadania. Temos no Grupo Chaves, através da Fundação Manoel Chaves, um exemplo de que a educação transforma.

Crianças e adolescentes que frequentam a escola e os cursos oferecidos pela Fundação demonstraram que quando a semente é plantada, a colheita é fértil. Muitos deles já chegaram à Universidade Estadual de Santa Cruz, em cursos como Medicina Veterinária, Educação Física e Administração. Outros já estão no mercado do trabalho, a exemplo de ex-alunos hoje funcionários do Banco do Brasil, ou iniciando seus próprios negócios.

A educação de qualidade, da base ao topo, é a garantia de um futuro melhor para nossa região.

Helenilson Chaves é empresário.

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Ricardo Ribeiro | ricardo.ribeiro10@gmail.com

 

Eis que surgem os bairristas, alegando que a Ceplac não pode abrigar os cursos da Ufesba, pelo singelo motivo de que a sede regional não fica em Itabuna, mas em Ilhéus.

 

Já é lugar comum falar que Ilhéus e Itabuna são cidades que se complementam, mas a ideia ainda enfrenta a resistência de uma rivalidade pouco sensata, estimulada em passado recente por uma estúpida disputa territorial, cujo estopim foi a construção de dois supermercados no limite entre os dois municípios.

As expressões de bairrismo foram tão patéticas, que não titubeamos em tratar o assunto com a importância e seriedade que ele merecia. Ou seja, nenhuma. Aqui mesmo neste blog, cunhamos o pomposo título “A Batalha de Quiricós”, uma ironia que fazia referência à ilha situada nos fundos do Atacadão, onde passa a linha divisória.

Enquanto uns se preocupavam com a linha que divide, deixavam-se de lado as tantas questões que unem e são capazes de, realmente, promover o desenvolvimento regional. Muito mais do que a arrecadação de impostos gerada pelos empreendimentos instalados nas cercanias de Quiricós.

Há anos se discute a ideia de transformar Ilhéus e Itabuna em uma região metropolitana, proposta que será fatalmente concretizada pela simples razão de que a política não pode andar de costas para a realidade. Juntas, as duas cidades terão força e poderão enfrentar problemas que não são pequenos, como a recuperação do Rio Cachoeira e a destinação do lixo, entre outros.

No mundo real, que desdenha de bairrismos, Ilhéus e Itabuna já estão juntas. Seja pela proximidade física, seja pela logística que aproveita da melhor forma o que cada uma tem a oferecer. Quantos moradores de Itabuna trabalham em Ilhéus, e vice-versa?

O complexo logístico que está para ser instalado em Ilhéus, com o Porto Sul e a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), atrairá empresas não somente para esta cidade, mas para toda a região. Como lembrou o governador Jaques Wagner, após a emissão da Licença Prévia do porto pelo Ibama, não haverá fábricas ou siderúrgicas nas imediações da retroárea do terminal marítimo de Aritaguá. Ou seja, as indústrias terão que se instalar em outras partes do próprio município de Ilhéus e em outros da região. De qualquer forma, o desenvolvimento que se vislumbra é regional, não municipal.

O tema é aqui colocado em função da ideia do deputado federal Josias Gomes, que propõe a instalação da reitoria da futura Universidade Federal do Sul da Bahia (Ufesba) em Itabuna, e a utilização da sede regional da Ceplac para a implantação de cursos da instituição de ensino. O argumento do parlamentar é o de que esse caminho adiantaria em dois anos o início do funcionamento da universidade, antecipando-o de 2017 para 2015. Considera ainda a conveniência de aproveitar estruturas que se encontram ociosas na Ceplac.

Diante da proposta, eis que surgem os bairristas, alegando que a Ceplac não pode abrigar os cursos da Ufesba, pelo singelo motivo de que a sede regional não fica em Itabuna, mas em Ilhéus. Essa é uma mentalidade que precisa ser vencida para que a região avance e a rivalidade entre Itabuna e Ilhéus fique restrita ao Clássico do Cacau, o famoso confronto entre o Azulino e o Colo Colo.

Ricardo Ribeiro é advogado, blogueiro e se sente um “italheense”.

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Juliana Soledade | jsoledade@uol.com.br

 

A falta de estrutura física, material e até mesmo humana segue retardando o progresso social e jurídico do país.

 

Os chamados direitos e garantias fundamentais como legalidade, igualdade, isonomia, liberdade, devido processo legal, contraditório e ampla defesa, estabeleceram novos parâmetros para o sistema normativo brasileiro.

Com a promulgação da Constituição Federal de 1988, em face do sistema normativo anterior, os chamados direitos e garantias fundamentais como legalidade, igualdade, isonomia, liberdade, devido processo legal, contraditório e ampla defesa, estabeleceram novos parâmetros para o sistema normativo brasileiro.

A partir daí, teve início um movimento gradual de conscientização acerca do direito de acesso ao Judiciário, antes visto como um direito restrito às elites. Porém, a facilitação do acesso não significa necessariamente dizer que haja promoção de justiça.

Para além da boa vontade do legislador constituinte, não se pode olvidar que o sistema é uma “máquina lenta e pesada”, necessitando de tempo para se adaptar às mudanças. Obviamente, essa demora na resposta aos conflitos tem consequências para o próprio Judiciário, na medida em que este não fornece soluções prontamente, sujeitando o cidadão às facetas cruéis dos diversos mecanismos de manobras: insegurança jurídica, violação do próprio acesso à justiça, desrespeito à duração razoável do processo e a consequente sensação de impunidade, além de prejuízos à economia de modo geral.

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Gustavo Haun | g_a_haun@hotmail.com

 

Apesar de toda a polêmica criada pelos patrícios d’ além-mar, a regra ortográfica unificada tende a ser irreversível, pois é necessária para se tornar um dos idiomas oficiais da ONU.

 

Os oito países lusófonos ou Comunidade de Países de Língua Portuguesa – CPLP, (são eles Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Timor Leste) estão tentando implantar a regra ortográfica única desde 1990. Porém, Brasil e Portugal tentam desde 1931 uma uniformidade.

A regra ortográfica vigente até agora no Brasil foi instituída pelos militares, no ano de 1971, e ficou conhecida por eliminar o acento circunflexo (êle, sôbre, etc.). Antes dessa, já havia tido outra reforma feita em 1943.

A última reforma ortográfica de Portugal data de 1945, ou seja, em termos linguísticos, muita coisa mudou de lá para cá.
Mesmo com os portugueses criando o maior entrave – por exemplo, o prêmio Nobel José Saramago era um ardoroso inimigo – com a implantação da nova regra ortográfica, porque temiam/temem o “abrasileiramento” da língua de Camões (Portugal mudaria 1,6% e Brasil 0,57% do léxico), o Parlamento Português aceitou o pedido dos demais países, cedendo a pressões, como a do governo brasileiro, responsável por 190 milhões de falantes. No total são 240 milhões de falantes do português no mundo, o que faz a L. P. ser a quinta língua mais falada.

Então, ficou acertado que, no Brasil, haveria 04 anos de adaptação (de 2009 a 2012) e, a partir de 1º de janeiro de 2013, tornar-se-ia obrigatória para todas as instâncias do país.

Mas não foi unanimidade entre os países esse tempo de transição. Portugal, Guiné-Bissau, Timor Leste e São Tomé e Príncipe estenderam o prazo para 2015. Angola e Moçambique são os mais atrasados e ainda não estipularam o período de transição.

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Karoline Vital |karolinevital@gmail.com

 

Mais do que pedidos, as cartinhas traziam sonhos. E, quanto me custaria para realizar alguns deles?

 

Na manhã do dia 25 de dezembro, pulei da cama logo cedo. A ansiedade era tanta que segurei o xixi mais um pouquinho e corri para a janela. Lá, estava o meu sapato favorito. Sapato, não. Minha conga favorita, a mais colorida de todas, berrando toda a extravagância do início dos anos 1990. Afinal, ela seria o local onde Papai Noel colocaria o meu presente.

De longe, vi que o calçado estava vazio. Dentro tinha um papel dobrado, diferente da cartinha que eu havia deixado na noite anterior. O texto era mais ou menos assim: “Karol, infelizmente, por causa das enchentes que aconteceram no Rio de Janeiro, não pude trazer o seu presentinho para atender outras crianças. Continue se comportando. Esse será o nosso segredo. Papai Noel”. A caligrafia era idêntica à do meu pai. Só a assinatura se diferenciava, mais cursiva. Apesar da decepção, guardei a cartinha dentro do meu estojo do Menino Maluquinho, que seria o meu companheiro da terceira série.

– Por que Papai Noel tem a mesma letra do senhor, pai?

– É porque você já está acostumada a ler o que eu escrevo. Então, ele deve ter imitado a minha letra para que você entendesse melhor!

O argumento era mais frágil que celular Xing-ling e não foi tão simples enganar uma menina de oito anos. Mas eu tive que me resignar. Sabia que não tinha sido Papai Noel o autor da carta. Afinal, nunca soube que o bom velhinho trabalhava em agências humanitárias.

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Daniel Thame |danielthame@gmail.com

 

A carta que Gabriele Santos Barbosa, de 14 anos, assassinada após uma discussão banal com uma colega de classe numa escola pública em Itabuna, não escreveu, é um libelo contra a bestialidade coletiva que transforma a vida em algo absolutamente sem valor.

 

“Meu nome é Gabriele Santos Barbosa, eu tenho 14 anos, morei na Espanha, falo dois idiomas e poderia estar vivendo na Europa, com a minha mãe.

Lá é muito bonito, as pessoas se tratam com respeito, mas eu preferi morar em Itabuna, pra ficar perto da minha avó e dos meus parentes.

Meu bairro é muito carente, mas é nele que vivem meus amigos. Minha escola é pública e nem se compara com a que eu estudava na Espanha.

As salas de aula são apertadas, tem alunos demais, o material didático é precário e sinto que os professores estão desmotivados. Não tenho condições de estudar em escola particular. Meu avô foi vereador em Itabuna, secretário de Esportes, mas ao contrário de um monte de políticos que a gente vê por ai, continua pobre.

Eu tenho orgulho dele. É honesto, isso eu sei que ele é.

Tenho um tio-avô que trabalha na televisão. Ele faz um programa policial, o Alerta Total, que todo mundo assiste. Meu tio é muito engraçado, magro, narigudo, desengonçado, mas as pessoas gostam dele. Eu também gosto, mas vejo pouco o programa.

Tenho pavor de violência. Na minha escola, que fica num bairro carente, a gente sente essa violência de perto. No meio de tanta gente boa, que quer estudar e crescer na vida, tem gente que já se envolve com drogas, com assaltos. Que fala cada palavrão que a gente morre de vergonha.

Tem uma menina, era até minha amiga, novinha como eu, que namora um cara envolvido com o crime, um tal de Rodrigo. Imagina que outro dia ela veio me dizer que eu estava dando em cima do namorado dela, que eu mal conheço.

A única coisa que eu consegui responder foi algo do tipo ´fique com esse traste para você´, essas coisas que a gente diz meio sem pensar. Não quis ofender a minha amiga, ela que viva a vida dela. Mas eu acho que ela se chateou, ficou de cara amarrada e deixou de falar comigo.

Isso passa, também sou adolescente e sei como é. Amanhã ela esquece essa briga boba.

Todas as pessoas gostam de mim aqui na escola e no bairro. Os professores me adoram e dizem que sou uma garota de muito futuro. Sabe que eu ainda não parei pra pensar no futuro? Só sei que terei que lutar muito pra vencer na vida, não sou de família rica, mas deixa eu viver minha adolescência, minha juventude.

Gosto de música, de ir ao shopping e à praia com meus amigos. Adoro ficar no Facebook, onde tenho um monte de gente pra trocar ideias. Tem umas fotos minhas lá. Falam que sou linda. Quem não gosta que achem você bonita? Mas não me acho tão bonita assim.

Gosto de Itabuna, gosto das pessoas daqui, amo minha família e meus amigos. Gosto de viver.

Nem sei por que estou escrevendo tudo isso. Parece até que minha professora de português pediu uma redação e eu danei a escrever.

Agora a pouco eu saí da escola e estava indo pra assa, mas uma amiga da menina que eu discuti por causa do namorado disse que ela estava me chamando. Era pra acabar com essa briga e fazer as pazes.

Ainda bem. Acho que a amizade está acima de tudo. Estou indo lá agora, dar um abraço nela…

Rodrigo?

(um tiro)

Não Rodrigo, não,

(mais um tiro)

Não, Rodrigo, nããão…

(cinco tiros)”

——–

Uma menina de 14 anos está morta. E essa é a carta que ela poderia ter escrito e não escreveu, porque as páginas do livro de sua vida foram manchadas de sangue. O sangue de uma violência brutal, irracional e sem limites.

A carta que Gabriele Santos Barbosa, de 14 anos, assassinada após uma discussão banal com uma colega de classe numa escola pública em Itabuna, não escreveu, é um libelo contra a bestialidade coletiva que transforma a vida em algo absolutamente sem valor.

Um hino à vida, num cenário de morte.

Daniel Thame é jornalista e escritor.

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Luiz Carlos Jr. | lcjr65@hotmail.com

Acho lamentável e estéril essa discussão sobre o termo Vadia. Compreendo o conceito do movimento e fecho com ele, porque não aceito a culpabilização da mulher que é vítima de violência seja ela puta, vadia, piriguete ou carola (aqui sim uma inversão de valores). Parabéns, Glória, pelo desabafo.

Acho estranho as pessoas se preocuparem tanto com o nome desse movimento. É apenas um grupo de mulheres e homens (um Salve para Aquilino Paiva, Marcelo Lins, Ilton Cândido, Victor Aziz, Valmir do Carmo, Marcelo Sena e muitos outros que não lembro os nomes) bradando contra a violência de gênero. A Marcha das Vadias não se arvora a ser a única e exclusiva representante da mulherada.

E aí uma pergunta urge: por que as pessoas que não concordam com o recorte do movimento não saem da frente da tela do computador e organizam um movimento mais amplo, que dignifique a família brasileira? Por que não tiram seus traseiros gordos e/ou magros da poltrona e vão para as ruas protestar?

Cadê a União Brasileira de Mulheres? O que faz o Conselho Municipal de Mulheres? Por que a Soledade e o Felipe Camarão Escaldado (na História, Felipe Camarão foi um índio que se converteu ao cristianismo e virou monarquista. Acho oportuno…) não organizam a tal Marcha das Marias?

Deixem quem quer ser vadia ou quer vadiar em paz e toma alguma providência na vida! Vamos mudar essa realidade perversa que vitima milhares de mulheres todos os anos, cada um a sua maneira.

Luiz Carlos Jr. é jornalista.

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A Marcha das Vadias em Itabuna abriu espaço para outra discussão. Não a da violência praticada contra a mulher, mas quanto à escolha do nome para o movimento pela igualdade de direitos entre os gêneros e contra a violência sofrida pelas mulheres. Numa resposta a quem defende o termo da manifestação surgida no Canadá, Juliana Soledade se insurge e apresenta suas razões para se contrapor não ao movimento em si. Leia também artigo da organizadora da Marcha em Itabuna, professora Indaiara Célia (clique aqui).

Juliana Soledade | jsoledade@uol.com.br

Busco o meu cantinho a ferro e fogo nesta sociedade corrupta e nojenta em que vivemos. Vadia tem um significado feio, pesado, negativo e, aos meus olhos, este nome tem uma outra dimensão.

No ano passado, deu-se início à marcha no Canadá pela maneira como a polícia tratava os casos de abuso sexual, na Universidade de Toronto. Um determinado policial indicou uma maneira de combater o abuso e diminuir os números, orientando para que “as mulheres evitassem se vestir como vadias para não serem vítimas”.  Como réplica, muitas mulheres foram à rua, para que então pudesse defender o seu “direito de ser vadia”.

Este evento é abraçado por quase toda a esquerda, logo quem não é a favor da marcha é tido como de direita. Fico neste meio, se é que assim podemos chamar ’de direita’. Não consigo somar ao coro e ser mais uma a ir às ruas defender algo que o próprio nome é esdrúxulo, medíocre e infeliz.

Eu sou mulher e sei o poder de uma saia curta, de um vestidinho megacolado com decote ou aquela calça que mais parece ter entrado a vácuo. Os homens se sentem despertados e alvoroçados, por causa, justamente, da maneira como nos permitimos ser adornadas.

Logo, para quem quer respeito, o modo de se vestir deve ser pensado também, bem como as suas atitudes e o seu modo de permitir ser tratada. Claro que isto não deve ser lido e nem interpretado que quem tem essa postura deve ser abusada sexualmente ou violentada.

Uma coisa é ser contra ao machismo, reprovar o seu conceito, o seu argumento; outra coisa é assinar publicamente o gosto ou orgulho de ser vadia e até concordar no ato de repúdio das canadenses. Leia Mais

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Ricardo Ribeiro | ricardo.ribeiro10@gmail.com

 

É ilusão acreditar que sozinhos os professores conseguirão promover a transformação que se faz necessária.

 

Os problemas que afetam a rede pública de ensino em Itabuna não são diferentes dos que se verificam no resto do País. Entre os mais corriqueiros, estão os baixos salários, o modelo arcaico e desestimulante, a dificuldade em estabelecer um relacionamento efetivo entre escola e comunidade. Neste último ponto talvez se encontre o grande desafio dos educadores, principalmente em se tratando de escolas situadas em bairros muito pobres, com famílias desestruturadas e onde a droga se estabelece, cria estados paralelos e convida até mesmo as crianças a entrar por um caminho que não leva a lugar algum.

Sempre menciono dois casos que me chamaram bastante atenção. O primeiro é o de uma amiga que pertence à Pastoral da Criança e certa vez foi a um bairro da periferia de Itabuna, num domingo, Dia das Mães. A intenção era fazer com que as famílias daquela comunidade vivessem momentos de harmonia, expressando o amor entre mães e filhos. Para surpresa dessa amiga, a maioria das mulheres não conseguiu a menor espontaneidade quando o grupo da Pastoral pediu que as crianças as abraçassem. A impressão clara foi a de que o carinho e o afeto eram elementos ausentes daquelas vidas.

Em outro bairro, uma professora conta que os alunos de determinada escola choram quando toca a sirene que marca o encerramento do dia de aula. Muitas têm medo dos pais, da violência e da droga. Vivem numa situação que lhes rouba a infância, ao deparar cotidianamente com a pior e mais cruel face da miséria.

Diante de quadros como esses, qual é o papel da escola? O que ela pode fazer para ir além do programa curricular e promover mudança efetiva?

O primeiro passo certamente é assumir a incapacidade de encarar tal empreitada sem um concerto social amplo. É preciso chamar a sociedade, toda ela, apresentar-lhe o problema e dividir responsabilidades. É ilusão acreditar que sozinhos os professores conseguirão promover a transformação que se faz necessária. Nem mesmo com valorização salarial, formação continuada e escolas bem equipadas esse milagre será possível.

Há problemas intra e extramuros e o que se vê até o momento é uma escola incapaz de enfrentá-los. Percebe-se um conformismo que resulta da impotência para combater o inimigo, como quem joga a toalha.

A escola precisa sair das cordas, juntar forças com a sociedade e iniciar a revolução. Mas não só ela, pois essa é uma luta de todos nós.

Ricardo Ribeiro é advogado e blogueiro.

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Marco Wense

Para os geraldistas, o antigeraldismo está ansioso para participar do governo Vane. Conta com o aval de Miralva Moitinho, presidenta do diretório, e com o endosso do deputado federal Josias Gomes.

O prefeito eleito Claudevane Leite (PRB) nem tomou posse e já vem esse Marco Wense com seus devaneios sobre a sucessão municipal de 2016.

O caro leitor, independente de sua condição intelectual, de gostar ou não de política, tem todo o direito de achar que o comentário de hoje é ridículo, inoportuno e intempestivo.

Mas não é. Política é um processo de vários e interligados atos. E o primeiro ato importante do PT, visando o pleito de 2016, é a eleição para a presidência do partido.

Não é à toa que o deputado Geraldo Simões quer o comando da legenda para uma pessoa de sua inteira confiança, como a militante, companheira e esposa Juçara Feitosa.

Correligionários bem próximos do parlamentar são da opinião de que o PT só terá candidatura própria se o partido continuar sob o controle de Geraldo Simões.

Para os geraldistas, o antigeraldismo está ansioso para participar do governo Vane. Conta com o aval de Miralva Moitinho, presidenta do diretório, e com o endosso do deputado federal Josias Gomes.

Participar do governo do prefeito eleito é assumir o compromisso de apoiá-lo na sua natural pretensão de buscar o segundo mandato via instituto da reeleição.

O governador Jaques Wagner, cansado e ressabiado com três derrotas consecutivas, não criaria nenhum obstáculo para uma possível aproximação entre o PT e o governo Vane.

Portanto, caro leitor, não há devaneios e, muito menos, elucubrações no comentário de hoje. O processo sucessório de 2016 já começou, pelo menos no petismo de Itabuna.

COBRANÇA JUSTA

A executiva estadual do PDT, sob a batuta do gaúcho Alexandre Brust, cobra de Jaques Wagner mais espaços no governo. Espaço é sinônimo de cargos.

O PDT apoiou a reeleição do petista em 2010. A contrapartida foi proporcional ao fraco desempenho da legenda na eleição de 2008: oito prefeitos, alguns vice-prefeitos e poucos vereadores.

Agora, na sucessão de 2012, a legenda brizolista elegeu 43 chefes de Executivo, 31 vice-prefeitos e 373 vereadores. A cobrança faz sentido. É mais do que justa.

Marco Wense é articulista do Diário Bahia.

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Ricardo Ribeiro | ricardo.ribeiro10@gmail.com

 

Nenhum país cresce verdadeiramente onde vigoram os atalhos abertos para atender indivíduos isoladamente.

 

O nível de inversão de valores em nossa sociedade é provavelmente uma das principais barreiras para que a mesma avance para patamares mais elevados. Onde vigora o jeitinho, a exceção amiga, o favor e o quebra-galho em nome da amizade ou da conveniência, é impossível construir-se um grupo social que se respeite e seja capaz de enfrentar seus principais problemas.

O Brasil é o 73º país mais corrupto do mundo de acordo com a ONG Transparência Internacional, que avalia 183 nações nesse quesito. E onde está a corrupção, senão incrustada, enraizada em cada setor da sociedade? Do governo às empresas, das igrejas às feiras livres. A malandragem é tão presente, que chega a ser vista como traço cultural e atávico, herdado do DNA dos primeiros invasores a desembarcar em Pindorama.

Carma ou safadeza pura e simples, o fato é que a corrupção é praticada inclusive por gente que se acha convictamente honesta. É de praxe, é o modus operandi inescapável, que torna mais fácil o acesso a benefícios pelo cidadão e “azeita” as relações no campo da política. Quem age diferente é ingênuo e incapaz de compreender que a vida é desse jeito mesmo.

E o que esse modo peculiar de agir tem dado de retorno ao país? Assim como jamais se viu alguém que vende o voto melhorar de vida, o mesmo se observa num espectro mais amplo quando se analisa a corrupção na sociedade. Os jeitinhos da vida resolvem o problema de muita gente no imediato. Já no longo prazo só servem para perpetuar o atraso.

Nações democráticas que evoluíram tiveram que consolidar seus ordenamentos jurídicos, que materializa a vontade geral, as opções coletivas voltadas ao bem comum. Nenhum país cresce verdadeiramente onde vigoram os atalhos abertos para atender indivíduos isoladamente. Ou se pensa e age coletivamente, ou o que se tem é um país fragmentado e desmoralizado.

A mensagem serve para a política e para o dia-a-dia de cada cidadão. No judiciário, ela foi bem expressa no discurso de posse do ministro Joaquim Barbosa, novo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ao desaconselhar juízes de prestar favores para ascender na carreira.

Trazendo para o local, uma das críticas mais recorrentes ao futuro secretariado da Prefeitura de Itabuna é de que alguns nomes são “corretos demais”. Dizem isso, por exemplo, do futuro secretário de Transportes e Trânsito, Clodovil Soares, frisando que ele será incapaz de flexibilizar ou, para ficar mais claro no exemplo, mandar, a pedido de algum político aliado do governo, “soltar um veículo apreendido”.

Percebam como a inversão de valores se manifesta nessa avaliação. Se o “defeito” do futuro secretário é ser correto, quem tem que mudar é a sociedade. Sob pena de perecer.

Ricardo Ribeiro é advogado e blogueiro.

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Valéria Ettinger | lelaettinger@hotmail.com

É por você, Ingrid, e por tantas outras mulheres agredidas e mortas que, no dia 24 de novembro de 2012, às 9h, Itabuna irá às ruas na marcha pela igualdade, pela dignidade e pelo respeito ao “ser mulher”.

Há quem afirme que a culpa do pecado original partiu da mulher, pois foi ela quem se deixou seduzir pela serpente e induziu o homem a comer do fruto do pecado e, ao fazer isso, ambos foram expulsos do paraíso.

Nesse processo de expulsão o homem, para fugir de sua responsabilidade do ato proibido e pecaminoso, diz, categoricamente, que a mulher é a culpada e com isso tenta se isentar da pena decorrente do seu ato. No Direito, o agente de um ato ilícito não será punido se provar a culpa de terceiro ou a culpa exclusiva da vítima.

Essa passagem bíblica nos remete a uma realidade dura e cruel que sofrem as mulheres vítimas de violência, pois em muitos casos elas são colocadas como promotoras e indutoras da agressão, a partir de estigmas decorrentes da sua identidade, da forma como se vestem e da forma como se posicionam na vida pública e privada.

As mulheres que se vestem de maneira sensual ou se comportam de um modo mais expansivo, caso venham a ser agredidas, saem da condição de vítima e passam para a condição de provocadoras e incentivadoras do ato, diminuindo ou até mesmo isentando o agressor da sua culpa.

A difusão dessa interpretação machista do pecado original fomentou estigmas sociais que levaram a mulher a uma condição de submissão e fragilidade, transformando-a em um objeto a ser usado pelos seus homens (pais, irmãos, maridos), nos fazendo crer, que essa foi à pena imputada a mulher por ser culpada pela sedução no paraíso.

Nisso foram se desenvolvendo muitas formas de violência contra mulher, pois os homens tinham a convicção de terem o poder de vida ou morte sobre as mulheres e essas, pela força da dominação, entendiam-se como seres dominados e submissos, como bem retratou Jorge Amado no seu romance “Gabriela”, situação que se perdura nos dias atuais.

A violência contra a mulher é exposta de diversas maneiras, das mais sutis às mais agressivas e, muitas delas, pelo processo da massificação cultural, tornam-se referenciais de vida e comportamento do “ser mulher”. É o que se chama de violência simbólica, as quais são retratadas nas músicas, nas festas populares, nos programas de televisão, induzindo as mulheres a adotarem um padrão de beleza e de comportamento, como se elas fossem apenas “perna, peito e bunda”.

Observa-se, ainda, a violência moral e a violência física que matou, no Brasil, nos últimos 30 anos cerca de 91.932 mulheres, colocando o Brasil no 7º lugar em “feminicídio” no ranking de 84 países, a Bahia em 6º lugar nacional, Salvador em 94º e Itabuna em 33º lugar estadual.

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