Praia do São Miguel, no litoral norte de Ilhéus || Foto Márcio Filho/Ministério do Turismo
Tempo de leitura: 2minutos
Não sei se o cantor e compositor Jorge Ben Jor conhece a região norte de Ilhéus, porque o local parece ter servido de inspiração para a canção País Tropical, composta em 1969.
Cláudio Rodrigues
Os governos estadual e municipal mantêm um completo descaso com o Litoral Norte de Ilhéus. Frequento essa região desde 1989, há exatos 37 anos, e o cenário nesse período só piorou.
O descaso por parte do Governo do Estado está relacionado à segurança pública e à Embasa.
O policiamento é inexistente e as casas são frequentemente arrombadas e furtadas. A zona norte de Ilhéus não conta com saneamento básico, as pessoas utilizam água de poços e o esgoto é descartado em fossas.
Alguns hotéis e pousadas jogam dejetos nas áreas de mangue e no mar em flagrante crime ambiental, sem que os órgãos responsáveis pelas políticas relacionadas ao meio ambiente façam algo para coibir esse crime.
A Prefeitura de Ilhéus não investe um mísero centavo na faixa litorânea de dezenas de quilômetros, com extensa área de Mata Atlântica, belos coqueirais e margeada pelo Rio Almada.
Nas vilas de Barramares, Mar e Sol, Joia do Atlântico, Ponta da Tulha, Ponta do Ramo, Mamoan e Luzimares, o lixo é descartado de forma irregular, acumulando ao longo da BA-001 e também na foz de rios e outros corpos d’água.
A Prefeitura de Ilhéus não tem um esquema especial para a coleta do lixo na alta estação nessas localidades. Como pode um paraíso, com belas praias e natureza exuberante, ser o retrato do descaso dos poderes constituídos?
É uma tradição da concessionária Neoenergia Coelba brindar moradores, veranistas e turistas com constantes faltas e quedas de energia elétrica em toda a alta temporada. O que causa prejuízos, como queima de equipamentos eletroeletrônicos e prejuízos aos médios e pequenos comerciantes.
Não sei se o cantor e compositor Jorge Ben Jor conhece a região norte de Ilhéus, porque o local parece ter servido de inspiração para a canção País Tropical, composta em 1969. Um trecho da música diz: “Moro num país tropical / Abençoado por Deus / E bonito por natureza, mas que beleza”.
Caso Ben Jor não conheça, sugiro que visite esse local de extrema beleza antes que a ação do homem e o descaso das autoridades acabem com esse paraíso para sempre.
Cláudio Rodrigues é jornalista e assessor de Comunicação da Empresa Municipal de Águas e Saneamento de Itabuna.
O Natal que encanta corações || Foto Pedro Augusto/Secom-Itabuna
Tempo de leitura: 3minutos
Tenho plena consciência das transformações do mundo, que a cada dia nos apresenta mudanças, nem sempre para o bem. E teremos que ter a capacidade de nos adaptar aos chamados novos tempos, sempre preservando a nossa dignidade.
Walmir Rosário
Logo no início de dezembro nosso cérebro vai se enchendo de mensagens por conta das festas natalinas. Parte menor dessa comunicação deve ser aproveitada, pois atinge, em cheio, nossa alma, tocando a mente e o coração. A grande maioria nem tanto, pela falta de essência – tipo palavras ao vento –, que entra por um ouvido e sai pelo outro.
De qualquer maneira considero positivo, dado o tom e a essência desses informes, que nos incutem mensagens positivas de bem-estar e amor ao próximo em quantidade muito acima do que recebemos durante o ano inteiro. Acredito eu – e só serve tão somente pra mim, como diz meu amigo José Nazal – que essa fartura de informações nos obriga a pensar, fazer uma profunda reflexão.
E geralmente iniciamos pelos projetos que pensamos para o ano que se finda, veremos o que aproveitamos de verdade, se seguimos à risca, ou os que abandonamos ao longo dos meses, seja por falta de desfrute ou impossibilidade de execução. A cabeça roda (no sentido figurado) para lembrarmos se fizemos o bem como previsto no final do ano passado.
E essas reflexões atingem o ponto máximo quando buscamos saber se somos felizes. Embora confesse que até hoje não conheço a fundo os fatores necessários para efetuar tal mensuração, me ponho a pensar se não pisei na bola mais do que deveria. Tarefa difícil, mas necessária para colocar os pensamentos em dia, pois depende de uma análise isenta sobre si mesmo.
E aí é que está a importância do autoconhecimento, tão buscado por nossos filósofos, principalmente de Sócrates pra cá. Decifrar o “só sei que nada sei” requer mais do que muitos estudos e é primordial sermos honestos com nós mesmos, humildes o suficiente para realizarmos uma investigação séria, isenta, verdadeira, como merece.
Deveremos nos despir de todas as vaidades e arrogâncias que gravitam no nosso interior e exterior. Não é uma tarefa fácil, mas necessária se nosso projeto for chegar à satisfação interior, o “ser” e não apenas o “ter”, reconhecendo que este último não deve ser desprezado, mas conseguido de maneira honesta, na qual um negócio só pode ser considerado bom quando vantajoso para as duas partes.
Tenho plena consciência das transformações do mundo, que a cada dia nos apresenta mudanças, nem sempre para o bem. E teremos que ter a capacidade de nos adaptar aos chamados novos tempos, sempre preservando a nossa dignidade. O incrível é que, com todo o conhecimento à disposição, o homem se embrutece a passos largos e cria novos e mais complicados conflitos.
É preciso parar com frequência para refletir nossa vida e o que nos rodeia, para que possamos julgar nossa vida, analisando atos e fatos e promovendo as mudanças necessárias ao nosso interior. Com isso, é bem possível que possamos viver em paz com nós mesmos e com os que nos rodeiam, para tornarmos o mundo melhor.
Não espere apenas por Papai Noel, pois assim, a cada final de ano, poderemos contribuir para construir uma sociedade melhor.
Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.
Rosivaldo Pinheiro é comunicador, economista e especialista em Planejamento de Cidades (Uesc)
Tempo de leitura: 2minutos
Não busquemos saber em que pé o calo aperta mais, se o esquerdo ou o direito. Façamos o que propôs as havaianas e “entremos no próximo ano com os dois pés”: firmes, fortes e em equilíbrio, dispostos a derrubar muros divisores e portas fechadas no caminho.
Rosivaldo Pinheiro
Estamos vivendo os últimos dias de mais um ano e, igualmente aos anteriores, acompanhamos as divisões postas e expostas na sociedade brasileira no campo político desde a divisão ideológica que vimos nascer a partir da ascensão do golpe contra Dilma Rousseff, numa tese fabricada que atribuiu a ela um crime de responsabilidade, através do qual ela sofreu impeachment.
Em seu lugar assumiu o vice Michel Temer. E, de lá para cá, tivemos uma série de desdobramentos, um grande enredo com características e complexidades que só uma democracia em vertigem pode explicar: um ex-presidente sai da prisão – levado a ela por caminhos escusos, disputa e ganha as eleições, assumindo o comando do país pela terceiro vez – único na história. E um presidente que disputa e perde as eleições, único no pós-reabertura democrática que disputa uma reeleição e não vence, tenta se manter no Poder e, três anos após, acaba preso.
Por essas trajetórias já se pode avaliar o nível de embates e narrativas existentes.
O chamado que fica é a necessidade de construção de um país para todos, na certeza de que o caminho será através do voto popular. Assim exige o funcionamento do processo democrático a que vivemos no Brasil. Nele, os vencidos dão passagem aos vencedores e buscam uma nova chance na próxima eleição. Os vencedores buscam apresentar resultados através da governança para ser reeleito ou apresentar quem será o seu sucessor, submetendo-o ao escrutínio popular.
Enfim, nossas ceias natalinas ou os almoços de domingo não são os mesmos nos últimos anos. Sempre temos ausências em função dos embates ideológicos. Que tal darmos uma trégua?
Aproveitemos o espírito natalino e as vibrações positivas da virada de ano para estabelecermos essa reflexão necessária. Não busquemos saber em que pé o calo aperta mais, se o esquerdo ou o direito. Façamos o que propôs as havaianas e “entremos no próximo ano com os dois pés”: firmes, fortes e em equilíbrio, dispostos a derrubar muros divisores e portas fechadas no caminho. Vamos superar os atrasos que nos paralisam como nação.
Que 2026 represente uma nova oportunidade de crescimento pessoal para todos nós, que a democracia siga o seu curso e que a paz esteja em nossos corações e lares. Um Ano Próspero a todos!
Rosivaldo Pinheiro é comunicador, economista e especialista em Planejamento de Cidades (Uesc), além de secretário da Educação de Itabuna.
Os sábados do Beco do Fuxico sempre são agitados || Arquivo
Tempo de leitura: 3minutos
Daí pra frente como um animal gregário que sou, sentarei às mesas com dezenas de amigos e confrades que fazem dos sábados no Beco do Fuxico a mais importante trincheira da boemia itabunense.
Walmir Rosário
Posso assegurar que continuo vivo e gozando da mais perfeita saúde, avalizado por um conceituado médico após ler e reler o papelório enviado pelo laboratório de análises clínicas. Sequer um Melhoral, Cibalena ou outro qualquer medicamento me foi receitado, embora o ilustre esculápio tenha me alertado sobre os anos que pesam na minha cacunda, como se dizia antigamente.
Confesso que comemorei o feito por pelos menos três semanas, em encontros com amigos para uns dois dedos e prosa, sempre mediados por uns goles de cerveja, bons aperitivos de cana e apetitosos tira-gostos. Como Canavieiras ficou pequena para as comemorações, fui com Batista levar a boa nova a Una, desta vez sem a presença de Valdemar Broxinha e seu violão.
Após esse período de vida social agitada resolvi – solenemente – mergulhar no recôndito do lar para mais que um merecido descanso, pois afinal ninguém é de ferro. Estripulias à parte, nada melhor do que um período sabático – por menor que seja – para as devidas meditações e análises de ações pretéritas e o planejamento do breve porvir.
Nesta sexta-feira (também conhecida pelo início do fim de semana) acordei cedo, e embora não tivesse a menor necessidade de pegar o sol com a mão, a pequena claridade me anunciou um novo dia. Não posso negar que ao abrir os olhos me senti mareado, como se tivesse navegado por mares bravios, apesar da maciez do colchão que me ajudou a dormir o sono dos justos.
Deixei a cama bem devagar, abri uma fresta na cortina para me situar bem da localização e descobri que estava em local sabido e seguro. Não me contive e escancarei a cortina, permitindo o clarão solar penetrar em todo o quarto. Foi aí que me dei conta estar em frente ao famoso, histórico e não menos agradável Beco do Fuxico, em Itabuna, na Bahia.
Aos poucos fui recuperando a consciência do meu novo endereço, com nome de rua e CEP. É que deixei Canavieiras para os passeios de finais de semana, onde encontrarei os amigos bem chegados para novas comemorações. Aos poucos contive meus ímpetos, afinal tinha a obrigação familiar de ajudar na arrumação da bagagem, colocar a casa em ordem.
De pronto, digo e repito que esse não é o tipo de obrigação doméstica que tenho desvelo, embora não seja de correr do chamamento ao dever, desde que não prejudique a torta coluna e demais músculos atrofiados. Por volta do meio-dia, com o coração palpitando, desci o Beco do Fuxico em busca de alguns produtos para casa, cumprimentando alguns amigos e prometendo revê-los em muito breve.
Para não ser traído pela memória resolvi pegar um bloco de notas de uma caneta e traçar o caminho deste sábado, quando os estabelecimentos etílicos do Beco do Fuxico estarão no auge de suas atividades. Logo cedo passarei para cumprimentar o Brigadeiro Eduardo Gomes no bar Artigos Para Beber, e duas quadras após chegarei à Fuxicaria e farei o reconhecimento dos confrades.
Caboclo Alencar e o aluno repetente
Ao lado, no ABC da Noite, pedirei ao Caboclo Alencar a renovação de minha matrícula, sem muita burocracia, diante de minha condição de aluno repetente desde o século passado. Pra começo de conversa, serei servido com uma das mais famosas batidas de minha predileção por dona Neusa, quando então me sentirei no meu segundo lar.
Daí pra frente como um animal gregário que sou, sentarei às mesas com dezenas de amigos e confrades que fazem dos sábados no Beco do Fuxico a mais importante trincheira da boemia itabunense. Entre um gole de batida e um copo de cerveja não deixarei de cumprimentar outras “tribos”, inclusive as que raramente aparecem para um gole, além dos abstêmios. Sim, eles existem!
E alguns ainda não acreditam em amigos (os verdadeiros). Por ironia do destino, ao comentar o amigo e irmão José Augusto Ferreira que estaria retornando – de mala e cuia – a Itabuna, minutos depois e comenta com outro confrade, o Paulinho Neto. Por incrível que pareça, Paulinho responde: “No meu prédio tem um apartamento vagando e já é dele”.
Agora, para entrar no Beco do Fuxico nem dobro esquina, basta traçar uma perpendicular e descer a ladeira.
Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.
Celina Santos denuncia números alarmantes da violência contra as mulheres || Foto Joédson Alves/ABr.
Tempo de leitura: 2minutos
Homens de hoje, muitas vezes, querem ao lado uma mulher com comportamento semelhante à bisavó deles.
Celina Santos
Chegamos à reta final do primeiro quarto do século 21 com um cenário de conflito entre os gêneros.
Ainda vemos discussões que evocam termos dos antigos contos de fadas. Bem fofo, hein?
Chovem trocas de acusações de que candidatos, pretendentes e afins vestem a capa do “príncipe”.
Nesta era da velocidade, porém, não se tem paciência pra sustentar tal face. Então, a pele de “sapo” logo ganha forma.
A queda-de-braço vem em tentativas de dominação, ciúme/posse e só cresce o número de conflitos que terminam em feminicídios.
Até este início de dezembro de 2025, já foram registradas 1.075 mulheres assassinadas. O número de tentativas ultrapassa dois mil.
A maioria desses crimes retrata uma trágica realidade: o ex, simplesmente, não aceita ser ex-cluído.
É como se o homem da atualidade não aceitasse a mulher no cenário pós-moderno.
Como assim? Ela quer olhar o espelho e escolher com qual roupa quer sair de casa???
Quer bancar a independente e pagar as próprias contas? Escolher a balada do final de semana?
“Na-nani-na-não!”, esbravejam os parceiros. Aliás, os candidatos a maridos que matam para não reconhecer na mulher o direito de ir, vir e só permanecer enquanto estiver feliz.
Homens de hoje, muitas vezes, querem ao lado uma mulher com comportamento semelhante à bisavó deles.
É como se o macho-alfa não se sentisse tão alfa assim se a sua parceira (esposa, namorada, ficante, peguete ou qualquer outra denominação que o valha) tivesse a audácia de exigir uma tal liberdade. Que medo…
Celina Santos é redatora-chefe do jornal Diário Bahia; formada em Comunicação Social/Rádio e TV (Uesc); em Jornalismo (FTC) e pós-graduada em Jornalismo e Mídia (FacSul/Anhanguera).
Bolsonaro teve nova prisão decretada ao danificar tornozeleira eletrônica || Foto Marcelo Camargo/ABr
Tempo de leitura: 2minutos
Finalmente, o garoto/idoso das motociatas ruma para o presídio. Mas já provocou arranhões profundos na identidade do país.
Celina Santos
Neste dia 22 (sem trocadilhos?), não há como negar a divisão de sentimentos que toma conta do nosso Brasil.
De um lado, o grupo que abraçou a ideia de ter entregue o poder da Pátria a um mito.
Na verdade, um homem que havia exercido vários mandatos na Câmara Federal. Aquela que pagamos pra fiscalizar o Executivo e propor leis.
Aí, volta e meia, indagamos: ele propôs o quê? Defendeu quais bandeiras? Fiscalizou algo?
Por que arregimentou número tão expressivo de admiradores (ou seguidores, dizendo uma palavra da moda)?
Veio a magia do tempo correndo. Sempre ela. O deputado de declarações polêmicas seguiu ganhando nosso dindin – ops, dindão …
Ele disse, entre tantas famosas pérolas do tal “sincericídio”, que:
– “a única filha era uma fraquejada” (mulher após quatro machos);
– “a colega deputada federal não merecia ser estuprada, porque era feia”;
– dedicou o voto pelo Impeachment à memória do General Carlos Alberto Brilhante Ustra!
– Quem? Coisa pouca, minha gente. Tinha como ídolo o torturador-mor no Regime Militar…
Entre tantos pontos que fomentam e merecem reflexões, estão os motivos para tamanha identificação.
Valores como cidadania, respeito, empatia, amor ao próximo parecem em xeque nessa dicotomia.
Após quatro anos de Presidência da República, o que se concebera como menino mau sacode discussões e colhe inimizades até entre famílias.
Finalmente, o garoto/idoso das motociatas ruma para o presídio. Mas já provocou arranhões profundos na identidade do país.
Celina Santos é graduada em Comunicação Social (Rádio e TV) pela UESC, em Jornalismo pela FTC; pós-graduada em Jornalismo e Mídia pela então FacSul e redatora do jornal Diário Bahia.
Mesmo não valorizado e devidamente protegido, o patrimônio histórico e cultural da cidade é vasto.
Efson Lima | efsonlima@gmail.com
O município de Ilhéus será reconhecido, em breve, como a Capital Nacional da Rota do Cacau e do Chocolate. No Congresso Nacional tramita o Projeto de Lei nº 4.402/2023, de autoria da deputada federal Lídice da Mata (PSB-BA). Na Câmara Federal, o projeto recebeu parecer favorável do deputado Bacelar e, no Senado Federal, o senador Ângelo Coronel, relator da matéria, destacou a experiência da economia solidária, arranjo de agricultores familiares em torno da fábrica–escola Chocosol, implantada pela Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte da Bahia na Uesc.
Na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária, no Senado Federal, houve aprovação à unanimidade do projeto, e o prazo para recurso encerrou em 19/11/25, não havendo objeção de senadores. Agora, segue para a sanção presidencial. Portanto, a cidade de Ilhéus será contemplada com o título.
Não se pode negar que a existência de uma Rota do Cacau e do Chocolate permitiu a concessão do título a Ilhéus, mas o próprio nome evidencia que é uma estratégia coletiva da região que muito poderá favorecer a consolidação do turismo, especialmente, ao longo da BA 262 – “Estrada do Chocolate”, que liga Ilhéus a Uruçuca, uma rodovia que possui diversas fazendas de cacau e ainda parte de mata atlântica exuberante. Essas fazendas têm aberto suas porteiras para receberem turistas e visitantes.
Elas evidenciam o passado, mas também sinalizam para a produção de chocolate crescente na região, inclusive, reunindo mais de cem pequenas unidades produtivas e alcançando diversos municípios. Sendo assim, o Título de Capital da Rota do Cacau e do Chocolate põe em relevo a trajetória exitosa de uma rede de pessoas, empresas e instituições que enxergaram no cacau e nos seus derivados, como o chocolate de origem, um caminho criativo, sustentável e transformador para toda a Região, que durante anos produz e cada vez com mais profissionalismo e expertise, conforme aponta Alderacy Pereira da Silva Júnior, jornalista e filho do proprietário da Fazenda Esperança.
A concessão desse título impõe à necessidade de colocar em pleno funcionamento o Museu do Cacau, no centro de Ilhéus. Nele se fazem imprescindíveis investimentos dos governos estadual e federal para que o equipamento possa servir de atração turística e ser um espaço de estudo e valorização da identidade regional.
Ainda na “Estrada do Chocolate” se encontra- a Biofábrica de Cacau, que é símbolo de revitalização da lavoura do cacau, servindo de produção de mudas resistentes ao fungo da vassoura de bruxa. Por sinal, foi a primeira experiência no mundo voltada para a produção contínua e em larga escala de clones de cacaueiros. O Festival de Chocolate promovido anualmente na Princesa do Sul, no mês de julho, também se tornou um atrativo importante. Espera-se também um museu do chocolate que muito colaborará para o ecossistema turístico da região.
A Praça do Cacau, no bairro Cidade Nova, em Ilhéus, inclusive, tem uma plantação de cacau, precisa urgentemente ser recuperada. Quiçá, reproduzir nela, em miniatura, uma fazenda de cacau, como anteriormente havia e para onde diversos turistas eram levados pelas agências de viagens. Não se pode também deixar de citar as fazendas às margens da BR–415, inclusive, com a Uesc e a Ceplac. Essa última, como luta para sobreviver, poderia ser um espaço de constante visitação. Afinal, já foi um dos espaços de referência para a lavoura do cacau.
Ilhéus, internacionalmente, é conhecida como a cidade do cacau, cuja fama foi alargada e projetada pela vasta produção literária de Jorge Amado, que colaborou para internacionalizar o modo de produção da lavoura do cacau, o cultivo, as lutas pelas ocupações das terras e o progresso do sul da Bahia, especialmente, da Princesinha do Sul. Mesmo não valorizado e devidamente protegido, o patrimônio histórico e cultural da cidade é vasto, é possível visitar estruturas coloniais, como a Igreja Matriz de São Jorge, a Capela de Santana no Rio do Engenho e a Igreja de Nossa Senhora da Escada em Olivença. A cidade foi abençoada pela natureza: rios, praias e matas.
É importante destacar a luta do povo Tupinambá pela demarcação, que fez aparecer nos livros de história essa comunidade remanescente de povos originários, cujos apagamentos foram por diversas vezes tentados contra eles. Somam-se ainda comunidades quilombolas e terreiros de candomblé, respectivamente, Morro do Miriqui e o Matamba Tombeci Neto, de 1885; ou o abandonado Terreiro de Odé, no alto do Basílio, que possui quase dois hectares de mata no meio urbano. Então, Ilhéus tem uma vasto conjunto de elementos que podem ser explorados turisticamente, sem perder de vista a sustentabilidade e o respeito aos moradores.
Tudo isso permite reconhecer a cidade de Ilhéus, que, ao longo do século XX, foi a maior produtora de cacau do Brasil. Talvez, somente agora, esteja atenta para o que defendeu Milton Santos, no seu livro “Zona do Cacau”, em 1957: “A Bahia ainda não soube compreender a riqueza que tem e como poderia multiplicá-la, se convenientemente explorada.”
A Zona do Cacau respondia por mais da metade das receitas do Estado da Bahia e foi uma região agroexportadora, entretanto, a partir de 1995, precisou importar amêndoas de cacau para subsidiar a produção industrial local, e o Porto do Malhado se tornou um canal de importação. Infelizmente, a lavoura foi atacada pelo fungo da vassoura de bruxa, impactando negativamente no cultivo de cacau.
Efson Lima é doutor em Direito pela UFBA e membro da Academia de Letras de Ilhéus e da Academia Grapiúna de Artes e Letras.
Amílton (sinalizado e em pé) no Fluminense e no destaque || Montagem Walmir Rosário
Tempo de leitura: 3minutos
O retrato diz pouco a quem não o viu; a crônica tenta devolver o que a fotografia não entrega: o barulho dos passos na lateral, a respiração antes do cruzamento, a alegria contida de quem volta para casa sabendo que cumpriu o ofício.
Silvio Porto
Havia domingos em que a linha de cal parecia uma estrada para o infinito. No gramado de Itabuna, quando os ponteiros da arquibancada se agitavam, surgia um lateral que não precisava de bravatas para ser gigante. Amilton Guimarães do Nascimento jogava como quem escreve cartas: com precisão, simplicidade e endereço certo.
Num tempo em que laterais “marcavam os pontas” e raramente atravessavam o meio-campo, ele ousava abrir a avenida. Marcava firme, apoiava o ataque sem alarde e cruzava de canhota como quem mede a trajetória do vento — bola tensa, limpa, feita para agradecer de cabeça. De camisa enxuta e braços cruzados nas fotos, parecia discreto; em campo, era decisivo.
O dia a dia de Amilton tinha dois ofícios. Na semana o balcão do banco; nos domingos as chuteiras. E entre um carimbo e outro, o salão e o “society”, onde também virou destaque, acostumado a acertar o gol com a perna esquerda que lhe deu nome. Era o futebol de quem trabalha e, ainda assim, encontra fôlego para honrar a cidade na defesa da seleção e brindar a torcida com boa técnica nos babas das quadras e nos campos abertos principalmente no majestoso Grapiúna Tênis Clube.
A sua rota passa pelos Janízaros de 1963, segue ao Grêmio de 1964 e 1965 e chega ao Fluminense campeão de 1966. No meio do caminho, a Seleção amadora de Itabuna — de 1963 a 1966 —, palco dos domingos que fez a história de uma seleção que alegrava a cidade. Com ela, Amilton esteve nos títulos que levaram a seleção ao tetra, ao penta e ao hexa do Intermunicipal na sequência de 1963, 1964 e 1965. No clube tricolor, coroou o ciclo com o campeonato de 1966. Nada mal para quem preferia a manchete da bola bem batida ao barulho dos holofotes.
Não faltou concorrência. Albérico, Leto, Zé David, Régis — uma geração de grandes laterais esquerdos. E, ainda assim, na maioria das vezes, lá estava ele entre os onze, pela confiança que os técnicos entregam a quem erra pouco e acerta nos momentos que contam. Tinha a virtude dos jogadores úteis: estava sempre onde o jogo precisava, nem um passo a mais, nem um toque a menos.
Talvez por isso Amilton seja lembrado como “um lateral diferente”. Diferente porque somava sem pedir licença. Porque compreendeu cedo que o futebol é uma língua de gestos simples — antecipar, apoiar, cruzar — e que o extraordinário mora no exato. Diferente porque abriu caminho quando quase todos fechavam; porque a sua canhota servia os atacantes com um respeito de artesão.
Hoje, quando a memória da cidade folheia as próprias páginas, duas imagens nos encaram: o campeão de braços cruzados, o hexa da seleção no mesmo gesto sereno. O retrato diz pouco a quem não o viu; a crônica tenta devolver o que a fotografia não entrega: o barulho dos passos na lateral, a respiração antes do cruzamento, a alegria contida de quem volta para casa sabendo que cumpriu o ofício.
Amilton Guimarães do Nascimento é dessas presenças que sustentam a história pelo avesso — não pelo grito, mas pelo fundamento. Na curva mansa da sua canhota, Itabuna aprendeu que o jogo também é feito de travessias: da defesa ao ataque, do banco ao campo, da rotina ao feito. E que a grandeza pode, sim, ocupar a lateral. Basta ser precisa, simples e generosa como um bom cruzamento ao segundo pau.
Amilton fez história no futebol, no dominó, na mesa de bar, no salão de dança, na amizade leal e companheira, na conversa boa e descontraída de quem soube viver a vida bem vivida. Foi craque de chuteiras e de coração: cruzou bolas com a mesma precisão com que distribuía atenção e gentilezas, deixando no campo os títulos e, na cidade, a saudade doce de um homem íntegro, elegante e generoso.
Sob a seta, Waldir de Roxinho, que fincou raízes no Rio de Janeiro
Tempo de leitura: 4minutos
Com o dinheiro curto, os pupilos de Robert Baden-Power embarcaram num avião da Cruzeiro do Sul na pequena viagem entre Canavieiras e Belmonte. Daí pra frente seria o que Deus quiser, sempre focados nos ensinamentos do Escotismo.
Walmir Rosário
Em 1958 Canavieiras pouco tinha a oferecer aos seus moradores, do ponto de vista exterior. Embora o cinema mostrasse o desenvolvimento ao redor do mundo, suas novidades, por aqui a vida girava em torno da economia cacaueira, das chegadas e partidas dos aviões de carreira, do movimento de navios nos portos, o futebol, a vida nas boates e bares.
De Canavieiras era possível, sim, “enxergar” o mundo através das emissoras de rádio do Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador, jornais, revistas, e pelo testemunho dos canavieirenses mais abastados que estudavam fora. Em 1958 a grande atração era a participação da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, a ser disputada na Suécia, e a remota chance de ser campeã.
Mas o sonho de conhecer outras terras, a exemplo do Rio de Janeiro, não saía da cabeça dos mais jovens, a maioria sem condições financeiras para realizar um passeio dessa magnitude. Flanar por Copacabana, assistir aos jogos dos seus times no Maracanã, frequentar a capital federal do Brasil representava a glória para qualquer ser vivente.
Em abril de 1958 um grupo de 10 escoteiros resolveu transformar esse sonho em realidade. Nenhum deles possuía experiência em uma viagem dessa magnitude, mas não faltavam a coragem e a convicção do aprendizado de anos no Escotismo. E assim os garotos de 16 a 18 anos iniciaram o planejamento da viagem, com a aquiescência dos pais. Entretanto, um deles não voltaria.
Com o dinheiro curto, os pupilos de Robert Baden-Power embarcaram num avião da Cruzeiro do Sul na pequena viagem entre Canavieiras e Belmonte. Daí pra frente seria o que Deus quiser, sempre focados nos ensinamentos do Escotismo. E enfrentar a segunda parte da viagem não seria moleza para eles, pois o percurso de Belmonte a Vitória, no Espírito Santo, custou 21 dias de viagem, cumpridos em jornadas a pé.
E o grupo formado por Walter e Trajano Barbosa, Coló Melo, Raimundo Oliveira (depois tenente Raimundo), Orleans da Hora, Dinael Santos, Edson Dedo, Waldyr de Roxinho, Everaldino Piloto e José Araújo empreenderam o trajeto, sob o comando de Henrique Ciência. Nesse segundo trecho eles conheceram, de verdade, o valor do slogan do escotismo: “Sempre alerta”.
No percurso, privilegiaram a caminhada nos trechos de praias, superando as dificuldades que surgiam com frequência, atravessando a pé ou a nado os ribeirões e bocas de barras. Também tiveram que usar de artifícios para caminhar no meio de florestas, evitando as armadilhas naturais e os animais, principalmente as cobras.
Quando encontravam um sítio conversavam com os moradores sobre o melhor caminho que deveriam tomar e eram avisados sobre em que trechos poderiam parar para descansar e dormir. Num desses locais em que passaram a noite, como sempre, armaram e tocaram fogo numa grande fogueira para espantar as onças, cujas pegadas e os esturros foram vistas e escutados bem próximas.
Em um costado do mar foram obrigados a acelerar o passo para conseguir vencer o percurso enquanto a maré estava em baixa, do contrário poderiam ser tragados pelas grandes ondas. Cansados, já sem quase nenhum recurso financeiro e víveres, finalmente chegaram a Vitória, no Espírito Santo, e tiveram a ideia de se apresentarem ao prefeito.
A aventura dos escoteiros canavieirenses emocionou o prefeito, que os ajudou com alimentação e passagens de trem para o Rio de Janeiro. Na Guanabara se apresentaram na sede dos Escoteiros do Mar, foram recepcionados pelo General canavieirense Asclepíades Santos, participaram de uma feijoada, e no Maracanã assistiram ao jogo Brasil e Portugal, com a presença de Pelé e Garrincha, dois novatos na Seleção Brasileira.
Missão cumprida, 21 dias após embarcam no navio Comandante Capela com destino a Ilhéus, numa viagem de seis dias. Em seguida, viajaram na carroceria de um caminhão até Camacan, e a partir daí uma picape os levou a Canavieiras. Entretanto, dos 10 que empreenderam a viagem de ao Rio de Janeiro, um deles não voltou, continuou na Guanabara. Na bagagem, nem uma foto, selfie, ou vídeo, só as lembranças contadas.
É que Waldir Souza, o Waldir de Roxinho, resolveu se engajar na Marinha do Brasil, com a permissão de seu pai. Músico, saxofonista, foi incorporado à Banda dos Fuzileiros Navais, agora como clarinetista, conforme as recomendações do maestro regente. E Waldir faz carreira como militar e músico, viajando, conhecendo o mundo, até sua baixa como oficial.
No Rio de Janeiro constitui família, criou os filhos, depois formados e com carreiras pós-tituladas, prontos para enfrentarem a vida. Reformado na vida militar, eis que Waldir retorna a Canavieiras, onde retoma a vida civil, suas obrigações familiares. Nas horas de folga, se encontra com os amigos no Bar Laranjeiras, no qual possui cadeira cativa, e em sábados pretéritos, quando ainda existia a Confraria d’O Berimbau, como confrade batia o ponto.
Esse é o feito de quem determinou e direcionou sua vida no propósito de seguir carreira, transitar na sociedade com distinção, fazer amigos por onde passou e cuidar bem de suas obrigações. E na última quarta-feira – 15 de outubro de 2025 – Waldir de Roxinho alcança os 89 anos de vida, sempre rodeado pelos amigos: os que aqui deixou em 1958, e os que construiu ao longos desses anos.
Parabéns, Waldir!
Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.
Wilson Midlej lança "A Saga dos Sírios e Libaneses no Sudeste da Bahia" || Montagem Walmir Rosário
Tempo de leitura: 4minutos
Wilson Midlej nos serve de cicerone nas viagens empreendidas pelos parentes e “brimos” para encontrar as terras do cacau, numa viagem nos navios até Ilhéus, onde muitos moravam.
Walmir Rosário
Os árabes – sírios e libaneses –, incluindo aí os povos egípcios e turcos, quando se encontram à mesa é uma festa gostosa sem data para acabar. Em meio às delícias de comer e beber, muitas histórias. E não falam somente das saudades sentidas da terrinha do outro lado do Oceano Atlântico, mas da felicidade que sentem em viverem no Brasil, sobretudo, de serem brasileiros.
Imaginem o sentimento do jornalista, escritor e advogado Wilson Midlej em contar as muitas histórias de sua família, que por motivos diversos, fincaram moradia permanente no Brasil, mais especificamente no Sudeste da Bahia. Mas como eles não vivem sozinhos, os “brimos” ganharam generosos espaços no livro A Saga dos Sírios e Libaneses no Sudeste da Bahia.
Se mais o irrequieto Wilson Midlej não contou foi motivado pela falta de informações verídicas, confirmadas por meio de documentos, ou viva voz dos que aqui aportaram e adotados num país distante, diferente em costumes e clima. Enfrentaram um mundo novo sem, sequer, falar uma palavra do nosso português, embora conhecessem o francês, inglês, árabe e outros idiomas.
E o nosso Autor não fez por menos e convidou o ilustre e festejado intelectual Sérgio Mattos, jornalista, escritor, poeta, mestre e doutor em comunicação, com assento em academias tantas. Do ofício conhece sobejamente, já que autor de 54 livros entre técnicos e ficção. E o livro sobre nossos amigos do Oriente Médio ganhou um luxuoso prefácio.
Sobre Wilson Midlej, Sérgio Mattos discorreu: “O jornalista, contista, romancista, historiador e empreendedor é um cidadão que não desiste de seus projetos e quando começa um novo desafio só quando termina a obra é que se dá por satisfeito. Dono de uma grande simpatia pessoal, com a qual soube construir um grupo de amigos diletos, além de determinação na realização de sonhos, neste livro, o quarto de sua autoria, ele assumiu o compromisso pessoal de resgatar a memória de algumas famílias de origem sírio-libaneses que se radicaram na Bahia, mais precisamente na região cacaueira”.
E no livro, tecnicamente elaborado e editado, o leitor viajará por terras inóspitas, mas vividas com intensidade dos que vieram para construir uma vida diferente, diria até que jamais imaginada. E souberam encarar com muita sabedoria, perseverança e fé em Deus, já que de maioria cristã Maronita.
E eram duas jornadas: a primeira com início no Oriente Médio, passando pela Europa e cruzando o Atlântico. A segunda, bem real, começava ao desembarcar do navio, em Santos, Rio de Janeiro ou Salvador. Passavam por exames de saúde, eram inquiridos sobre o que fariam, muitos trocavam seus nomes e eram orientados sobre como encontrarem seus familiares. Outros, nem tanto.
E Wilson Midlej nos serve de cicerone nas viagens empreendidas pelos parentes e “brimos” para encontrar as terras do cacau, numa viagem nos navios até Ilhéus, onde muitos moravam. Muitos deles mascateando embreados na Mata Atlântica que protegia as plantações de cacau; outros vivendo do comércio e serviços na cidade grande.
Os recém-chegados encontravam todo o apoio dos parentes ambientados e trabalhavam com afinco para fazer fortuna. Ilhéus e seus distritos prósperos, como Pirangy (hoje Itajuípe), Tabocas (atual Itabuna), Rapatição e Alfredo Martins (ainda Camamu), posterior distrito de Rio Novo (quando passou para Jequié), e em 1933 passou a ser chamado de Ipiaú, já elevado a município.
De mascates passaram a empregados e donos de lojas, e a cada dinheiro economizado passavam a investir em fazendas de cacau e pecuária. Influenciaram na cultura dessas cidades, na culinária, e mesmo quando faltavam ingredientes a sabedoria das senhoras era pródiga em substituí-los por produtos da agricultura brasileira.
Dentre os Midlej merecem destaque Elias Abraham e Vitória Koury, ele nascido em Kaituly, no Líbano, e ela egípcia. Conheceram-se em Alexandria (Egito). Já casados e com uma filha, Reymonde, e mais uma gravidez, resolveram se mudar para o Brasil, onde já moravam três irmãs, um irmão e uns primos de Elias. Em Salvador, desembarcaram na Ponta de Humaitá, em Montserrat.
E os então futuros avós do Autor, Wilson Midlej, rumaram para Ilhéus, se estabelecendo no distrito do Rio do Braço, empreendendo numa casa comercial, levada pela enchente de 1914. Com o dinheiro que restava se mudam para Ilhéus, e em seguida para Rio Novo. À época, a família contava com cinco filhos: Raymonde, Angel, Frederico, Jancy e Beatriz. Em seguida vieram Ibrahim, Vivaldo, Floripes e Fauze.
Além dos Midlej, o Autor também esmiúça as famílias Maron, Thiara, Hagge, Salomão, sendo que algumas delas se entrelaçam pelos municípios do Sul e Sudeste da Bahia, com destaque para Ilhéus, Itabuna, Ipiaú, Jequié, Itajuípe, Ibirataia, dentre outros. O livro é um romance histórico que nos prende na leitura, com surpresas e emoções.
E para quem pensa que os nossos desbravadores sírios e libaneses só se preocupavam em trabalhar, amealhar dinheiro e enriquecerem, estão enganados. Aqui eles estabeleceram um modo de vida típico brasileiro, sem esquecer a cultura de origem, seus costumes, sua rica culinária, com pratos deliciosos e receitas disponíveis neste livro.
E Wilson Midlej não deixou por menos e usou toda sua verve de exímio contador de histórias, a exemplo de livros anteriores: Crônicas da Bahia Sob o Sol de Jequié (2014), Gatilhos de Lembranças: a Eternidade do Tempo (2015), e Anésia Cauaçu – Lendas e Histórias do Sertão de Jequié (2017).
Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.
A Constituição Federal brasileira, no artigo 145, sistema tributário nacional, estabelece diversos princípios, entre eles: os da justiça tributária, cooperação, defesa do meio ambiente, transparência, simplicidade e mitigação dos efeitos regressivos – inseridos após a reforma tributária de 2023.
Além das mudanças estruturais do sistema tributário nacional em curso, outra mudança esperada pela população é a isenção tributária para as pessoas que ganham até R$ 5.000 e redução gradual de contribuição para quem recebe até R$ 7.350. Por outro lado, propõe a cobrança de quem possui rendimentos a partir de R$ 600 mil ao ano, com vistas a compensar o valor total daqueles que ficarão isentos.
_____
Espera-se que, com esse ganho arrecadatório, o governo federal invista em políticas públicas que favoreçam ainda mais a coletividade, especialmente, serviços básicos e essenciais ao funcionamento do Estado.
_____
A aprovação do Projeto de Lei n.º 1087/2025, à unanimidade, pelos deputados federais, ontem, (1º), confirma que a proposta do Executivo recebeu a concertação plena no âmbito político. O resultado da aprovação, após sete meses de debates e aparente desinteresse da Câmara, decorre também do recado enviado pelas ruas à Casa Legislativa contra a desrespeitosa PEC da Blindagem.
A proposta de isenção do Imposto de Renda (IR) visa corrigir assimetrias que persistem no Brasil. A classe média brasileira paga alíquota superior a quem financeiramente ganha mais e possui renda superior e está no pequeno estrato de pessoas de alta renda. Por sinal, essas pessoas pagam em média 2,5% de IR, enquanto os trabalhadores, em geral, pagam alíquota entre 9% a 11%.
Essas mudanças deixarão, aproximadamente, 15,5 milhões de pessoas sem sofrer a mordida do leão. Esses valores vão provocar a renúncia de R$ 25,84 bilhões por parte da União em 2026. O governo federal tinha previsão de arrecadar R$ 227 bilhões com o tributo. Como sabido, esse valor é também distribuído para estados e munícipios. Portanto, fez-se necessário ajustar o projeto para evitar perdas para subunidades da federação.
As projeções de arrecadação e renúncia são as seguintes: 2027 (renúncia de R$ 27,72 bilhões contra arrecadação de R$ 39,18 bilhões) e 2028 (renúncia de R$ 29,68 bilhões contra arrecadação de R$ 39,64 bilhões). No geral, o governo não está perdendo nada e, sim, ganhando politicamente e aumentando o valor da arrecadação com o imposto de renda.
Apesar desse ganho do governo federal, a reforma tributária em curso, seja por meio dos dispositivos constitucionais ou infralegais, evidencia a necessidade de se alcançar um regime mais justo e palatável aos brasileiros, inclusive, aproximando-nos de uma justiça tributária nas relações de consumo, visto a alta carga de tributos incidente nos produtos e serviços.
A ideia de justiça tributária é dialógica com o previsto nos objetivos da República Federativa ao preconizar a imperatividade de uma sociedade justa e solidária. Espera-se que, com esse ganho arrecadatório, o governo federal invista em políticas públicas que favoreçam ainda mais a coletividade, especialmente, serviços básicos e essenciais ao funcionamento do Estado. Segurança é um deles.
Não há que se falar em confisco do recurso financeiro da parte mais rica da população, pois a alíquota prevista não ultrapassará de 10% e contribuirá, proporcionalmente, como a classe média brasileira ao longo do tempo.
Logo, espera-se que, com a implementação gradativa da reforma tributária, o Brasil possa superar a pluralidade de legislações, de regimes especiais e diversos que aumentam os custos do planejamento tributário, a insegurança jurídica e torna-nos um país complexo tributariamente e com disputas judiciais intermináveis.
Não obstante, reforça a necessidade de uma justiça tributária a todas as pessoas e, consequentemente, políticas públicas financiadas de forma sustentável. Estamos à espera da aprovação do PL da Isenção no Senado e da sanção presidencial, para que deixe de ser um projeto e se torne lei.
Efson Lima é advogado, doutor em Direito pela UFBA e membro das academias Grapiúna de Artes e Letras e de Letras de Ilhéus.
Na Confraria d'O Berimbau Tyrone Perrucho observava
a satisfação de todos e me abastecia de cerveja na cozinha. Na foto, com Walmir Rosário
Tempo de leitura: 4minutos
Construí, mantive e mantenho um monte amigos de verdade, por todo o tempo. Alguns somem no caminho, por falta de alguma liga que cimentaria a verdadeira amizade. Coisa do passado. Mas não esqueçam que amigo é um bem muito caro.
Walmir Rosário
De há muito tempo a palavra amigo vem sendo descaracterizada e usada para nomear pessoas que nos batemos no dia a dia, embora não possuímos qualquer requisito de simpatia, confiança, ou quem sequer conhecemos. Às vezes nos referimos a alguém como amigo apenas para fazer uma pergunta e queremos mostrar educação ou alguma intimidade.
Na Canção da América, composta por Fernando Brant e Milton Nascimento, a coisa é mais séria e solenemente expõe: “Amigo é coisa pra se guardar/Debaixo de sete chaves/Dentro do coração…”. No Brasil o vocábulo amigo tem o mesmo poder de um canivete suíço nas mãos de quem se encontra no meio do mato sem cachorro e a usa como em mil e uma utilidades, como se fosse Bombril.
Em nenhum outro país deste mundão de Deus a palavra “amigo” é tão mal utilizada quanto no Brasil, quem sabe para mostrar aos cinco continentes que somos o povo mais bonachão na face da terra. Fora daqui, o brasileiro quebra a cara ao tentar dar um abraço em quem acabou de conhecer e apenas pediu uma simples informação.
Pelos manuais de convivência dos gringos deve ser observado um espaço regulamentar entre as pessoas desconhecidas, embora eu não possa precisar em centímetros. Em Amigo, Alexandre O’Neill destaca: “Mal nos conhecemos/ Inauguramos a palavra amigo!/ Amigo é um sorriso/De boca em boca,/Um olhar bem limpo”.
Existem os que afirmam que alguns amigos são mais que irmãos, pois não nasceram e nem conviveram no mesmo lar, filhos dos mesmos pais, mas que devem não apenas sorrir com a boca quando nos veem, e sim demonstrar com os olhos, quem sabe abrir os braços. Para um conhecido meu, a responsabilidade é tanta, que o amigo tem a mesma obrigação de um padrinho com o afilhado.
Outros, nos quais me incluo, são de opinião que amigos de verdade podem ser adquiridos num bar, desde que tenha a mesma qualidade de sua segunda casa, ou melhor, segundo lar. Os mais exaltados chegam a afirmar, categoricamente, que não se fazem amigos bebendo leite, líquido que não possui nenhuma substância capaz de atrair dois viventes entre a troca de palavras enquanto degustam uma cerveja.
No livro Crônicas de Boteco – um guia sem ordem, de nossa humilde autoria está estampado: “Um bom botequim tem que possuir requisitos essenciais para a volta do boêmio, seja no dia seguinte, no próximo fim de semana, ou quem sabe, muito em breve”.
Como diz a canção de Adelino Moreira tão bem interpretada por Nelson Gonçalves: “Boemia, aqui me tens de regresso/ e suplicando lhe peço a minha nova inscrição/ Voltei, pra rever os amigos que um dia/ Deixei a chorar de alegria/ Me acompanha o meu violão”.
E para reforçar, na mesma canção, até mesmo a mulher amada dispensa com o coração transbordando de amor as aventuras de encontrar os velhos amigos: “Acontece que a mulher que floriu meu caminho/ De ternura, meiguice e carinho/ Sendo a vida do meu coração/ Compreendeu e abraçou-me dizendo a sorrir/ Meu amor você pode partir/ Não esqueça do teu violão/ Vá rever os teus rios, teus montes, cascatas/ Vá cantar em novas serenatas/ E abraçar teus amigos leais”.
Como na música, mesmo sabendo que o boêmio andou distante, os colegas de botequim o acolhem com todo o carinho para matar a saudade do tempo de sumiço. Nada de gente falante a ironizar o afastamento, pois o que interessa mesmo é o retorno do companheiro de mesa, de pé de balcão, para, juntos, beberem novas e infinitas saideiras. Amigos de verdade, amigos do peito, como cantava a Turma do Balão Mágico.
Os amigos não esquecem um do outro. Mesmo que distantes não sossegam enquanto não se encontram. Não falo aqui do amigo de grupos de whatsapp, de conversa decorada, curta. Mas daqueles que Paulo Leminski cita no seu poema Amizade: “Meus amigos/ quando me dão a mão/ sempre deixam/ outra coisa/ presença/ olhar/ lembrança, calor/ meus amigos/ quando me dão deixam/ na minha/ a sua mão”.
De antemão aviso que olhares, sorrisos e gestos são os bens mais preciosos do que presentes materiais, estes esquecidos facilmente. Construí, mantive e mantenho um monte amigos de verdade, por todo o tempo. Alguns somem no caminho, por falta de alguma liga que cimentaria a verdadeira amizade. Coisa do passado. Mas não esqueçam que amigo é um bem muito caro.
Não poderia encerrar sem os gestos simples, consolidadores da amizade e que muitos nem chegam a notar. Um deles, que nos deixou com antecedência, Tyrone Perrucho, chegava ao extremo de observar as feições de todos os amigos da Confraria d’O Berimbau, para, com um simples olhar, descobrir quem por ventura não se sentia bem, satisfeito no momento.
E disso sou testemunha de quando me encontrava na prática do fogão ou churrasqueira, o amigo Tyrone Perrucho chegava sorrateiramente com um copo cheio de cerveja bem gelada e recomendava:
– Aproveite e beba, pois você está se prejudicado, sem beber nesse calorão. Aproveite a farra, pois Deus deixou as boas coisas para todos seus filhos –.
Gesto igual só partindo de um verdadeiro amigo!
Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.
O movimentado escritório em Canavieiras já não funciona || Foto Walmir Rosário
Tempo de leitura: 4minutos
De quando em vez recebo telefonemas e mensagens de ceplaqueanos e pessoas de várias cidades reclamando do abandono do patrimônio da Ceplac.
Walmir Rosário
A tradição brasileira não recomenda a longevidade das instituições nacionais, mesmo que tenham uma gama de serviços prestados, devidamente comprovados, a exemplo da vetusta Ceplac. Convenhamos que comemorar 68 anos de existência é um feito um tanto, se ainda dispusesse do vigor de tempos pretéritos, quando exibia suas qualidades na área científica – pesquisa, extensão e ensino –, notadamente da cultura cacaueira.
O peso de anos é visto a olhos nus. Sua sede regional no sul da Bahia ainda ostenta as enormes construções de concreto aparente, um pouco carcomidas, é claro, mas com muitas histórias para contar. Ali está sediado o outrora maior centro de pesquisas de cacau do mundo, repleto de cientistas, pesquisadores de especialidades variadas, extensionistas, educadores, administradores, biólogos, engenheiros florestais, economistas, sociólogos, a elite regional.
A cada ano, em 20 de fevereiro, o aniversário era comemorado com festejos mil para exaltar o cumprimento das metas e o planejamento das próximas. A velha e decadente lavoura se tornou sadia, produtiva e batia seguidamente recordes de produção e produtividade. Neste período, a cacauicultura ganhou novas tecnologias e a região cacaueira da Bahia viveu a transição para o desenvolvimento.
Em cada cidade um escritório local, com engenheiros agrônomos e técnicos agrícolas estimulando e transferindo tecnologia, uma revenda de insumos agrícolas, enfim, toda uma estrutura administrativa. Em determinados pontos estratégicos foram implantadas as Emarcs (Escola Média de Agricultura da Região Cacaueira), além de estações experimentais, que cuidavam do acompanhamento das pesquisas.
Em seguida, o pujante órgão do cacau (como era chamado), assumiu parte do desenvolvimento regional, construindo o porto de Ilhéus, melhorando estradas vicinais, ampliando e implantação energia elétrica, telefonia, construindo escolas. Tornou-se um Estado dentro do Estado, este, o ente federativo, proporcionando uma visível melhoria na qualidade de vida da população como um todo e não apenas dos proprietários e trabalhadores da atividade cacaueira.
Até então a Ceplac – por incrível que pareça – era um órgão do Ministério da Fazenda. Com o passar dos anos e dos governos, a instituição cacaueira foi atrelada ao Ministério da Agricultura e teve que se adequar à nova realidade. Já deixara a condição de um órgão criado para a recomposição de dívidas dos cacauicultores e recuperação da lavoura para gerir apenas a pesquisa, extensão rural e ensino técnico.
Semanas atrás, numa crônica, publiquei a ação de grupos sem-terra que invadiram a Estação Experimental Lemos Maia, em Una, e outras duas (Joaquim Baiana, em Itajuípe, e a do Extremo Sul, em Itabela) já tinham sofrido esse dano. De quando em vez recebo telefonemas e mensagens de ceplaqueanos e pessoas de várias cidades reclamando do abandono do patrimônio da Ceplac.
As mais recentes foram do Escritório Local de Santa Luzia (Bahia) e de Jaru (Rondônia). Num vídeo à disposição na internet, o vereador de Jaru, Chiquinho do Cacau, mostra o prédio abandonado, cheio de lixo e mato, totalmente abandonado. E ele conclama a sociedade para que defenda a instituição, que foi e ainda pode ser muito importante para a economia de Rondônia.
Na publicação o vereador Chiquinho do Cacau, pergunta: “O que queremos para a Ceplac?”. E Ele mesmo cita a grande riqueza gerada pela Ceplac na área de pesquisa e extensão, ressaltando o seu patrimônio humano. “A Ceplac precisa de ajuda para continuar trabalhando, apresentando resultados, mas o que vemos é uma falta de respeito ao produtor rural”, reclama.
Um dos exemplos do abandono dos escritórios locais – fechados por falta de pessoal – podia ser visto em Itabuna. O prédio que abrigava a divisão regional e a extensão local, uma verdadeira obra de arte da arquitetura, ficou abandonado por muitos anos. Agora passa por obras, e pelo que soube, será cedido à Prefeitura de Itabuna. Antes estava sendo ocupado por viciados.
O de Canavieiras, há mais de 10 anos teria o mesmo destino, repassado à Prefeitura. Não sei o motivo dos empecilhos, o certo é que a cessão deu errado. Atendendo ao pedido do prefeito Almir Melo, elaborei um memorial sobre a péssima situação do prédio, relatando a situação com testemunho fotográfico, mas a Superintendência de Patrimônio da União não chegou a concretizar a transferência.
Agora, em setembro deste ano da graça de 2025, o prédio tem outro pretendente. Desta vez o candidato é o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), mas que até agora não recebeu as chaves, apesar de ser, também, uma instituição do governo federal. Quais os empecilhos apresentados não se tem o menor conhecimento. E a situação do prédio se agrava ainda mais.
A realidade é que não existem mais no antigo prédio da Divisão Regional e Escritório Local da Ceplac, em Canavieiras, sequer um engenheiro agrônomo, um técnico em agropecuária, um escriturário para atender aos agricultores. O prédio só não se encontra com as portas fechadas, pois um único remanescente da área operacional aguarda apenas o dia da tão sonhada aposentadoria para entregar as chaves.
Esses prédios se apresentam como fortes candidatos à destruição física pelo envelhecimento e à invasão, devido à atávica imobilidade dos órgãos do governo federal. Como diz o velho e corriqueiro ditado: “Faça por ti que eu te ajudarei”. Antes de pedir Deus na causa é preciso uma forcinha por parte dos órgãos e administradores da União.
Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado e autor de autor de livros como O Berimbau – Valhacouto de boêmios, disponível na Amazon.
Ivan Maia é o presidente da Emasa || Foto Divulgação
Tempo de leitura: 3minutos
O futuro do saneamento em Itabuna depende de nossa capacidade de unir planejamento técnico, compromisso político e engajamento social.
Ivan Maia
O saneamento básico é um pilar essencial para a saúde pública, o desenvolvimento sustentável e a qualidade de vida, especialmente em contextos de desigualdades regionais. Em Itabuna, a gestão local dos serviços de saneamento básico enfrenta desafios históricos, mas também oportunidades únicas, reforçadas pela autonomia conferida pela Lei nº 14.026/2020, o Novo Marco Legal do Saneamento Básico.
Nesse contexto, defende-se veementemente o papel central do município de Itabuna na escolha e implementação de sua política de saneamento básico. Essa autonomia não apenas fortalece a governança local, mas também permite a Itabuna desenvolver soluções mais eficazes e adaptadas à sua realidade, promovendo equidade e sustentabilidade. O Novo Marco Legal do Saneamento Básico é um instrumento chave que consolida essa titularidade municipal, promovendo uma gestão mais democrática e eficiente.
A Lei nº 14.026/2020 reafirma a titularidade dos municípios sobre os serviços de saneamento de interesse local, como abastecimento de água, esgotamento sanitário, manejo de resíduos sólidos e drenagem urbana (art. 8º, inciso I). Em Itabuna, essa autonomia é crucial, dado o contexto de desafios como a contribuição no processo de despoluição da orla urbana do Rio Cachoeira e o baixo índice de tratamento de esgoto atualmente verificado no município.
A lei permite ao município elaborar planos municipais de saneamento, definir metas de universalização e escolher modelos de gestão, como a manutenção da Empresa Municipal de Águas e Saneamento S/A (Emasa), concessões plenas ou parcerias público-privadas (art. 8º, § 1º, inciso I). Essa flexibilidade é essencial para enfrentar as especificidades locais que demandam soluções técnicas adaptadas.
Itabuna exemplifica a importância da gestão municipal próxima ao cidadão. Com um IDH-M de 0,71, considerado alto, o município ainda enfrenta problemas como 6,5% da população sem água tratada e 16,5% sem acesso à rede de esgoto. A Emasa desempenhou papel central na expansão do abastecimento de água, porém a universalização do esgotamento sanitário continua sendo um desafio que só poderá ser superado com planejamento técnico e gestão responsável, sem contaminações ideológicas. A poluição do Rio Cachoeira é um problema que clama por soluções estruturantes.
A autonomia municipal permite a Itabuna optar por estratégias que considerem sua realidade socioeconômica e ambiental. A lei estabelece metas de 99% de cobertura de água potável e 90% de coleta e tratamento de esgoto até 2033 (art. 11-B), e o município está revisando seu Plano Municipal de Saneamento Básico para atingir esses objetivos, com foco na despoluição do Rio Cachoeira.
Além disso, a autonomia municipal fomenta inovação. Experiências de outros municípios mostram que soluções locais, como o uso de tecnologias sustentáveis adaptadas ao clima e ao ambiente, são mais eficazes do que modelos padronizados impostos por esferas estaduais ou federais.
O fortalecimento da titularidade municipal não é apenas uma questão legal; é uma estratégia para tornar Itabuna mais justa, saudável e sustentável. A escolha entre manter a Emasa como protagonista ou buscar novas parcerias deve ser feita com base em nossa realidade, respeitando peculiaridades e preservando a capacidade de decisão local.
A gestão do prefeito Augusto Castro tem fortalecido a titularidade municipal com iniciativas como o Projeto Mais Água para a Cidade, que amplia o abastecimento de água, e grandes obras de mobilidade — novo aeroporto, duplicação da BR-415 e da BR-101, além da BA-649 ligando Itabuna à Ilhéus — sob coordenação da secretária de Infraestrutura e Urbanismo, Sônia Fontes. Esses empreendimentos impulsionam turismo, comércio e investimentos, mas também exigem um saneamento básico robusto, no qual a Emasa atua como parceira estratégica.
Críticas à centralização, como as vistas em modelos estatais passados, destacam ineficiências. A escolha por manter a Emasa ou buscar parcerias reflete a capacidade de decisão local, evitando soluções genéricas impostas por esferas estaduais ou federais. Além disso, a adesão voluntária a consórcios intermunicipais (art. 8º-A) permite colaborar com cidades vizinhas para compartilhar custos e expertise, mantendo a soberania municipal.
Em conclusão, a Lei nº 14.026/2020 reafirma e fortalece a titularidade de Itabuna na gestão do saneamento básico, assegurando que as decisões levem em conta suas especificidades, como a urgência de despoluir o Rio Cachoeira e ampliar a cobertura de esgotamento sanitário. Essa defesa não se trata de mero regionalismo, mas de uma estratégia consciente para construir um município mais digno, com saúde e equilibrado. A autonomia conferida pela lei é um passo decisivo rumo à universalização dos serviços, promovendo saúde pública, desenvolvimento estável e justiça social para toda a população.
Cabe unicamente à administração municipal e a participação cidadã, por meio dos representantes eleitos, com apoio da Emasa e da sociedade civil, transformar esses desafios em oportunidades, consolidando Itabuna como referência em gestão local de saneamento. O futuro do saneamento em Itabuna depende de nossa capacidade de unir planejamento técnico, compromisso político e engajamento social.
É assim que construiremos uma cidade mais sustentável, saneada, e com melhor qualidade de vida para todos.
Ivan Maia é presidente da Empresa Municipal de Águas e Saneamento de Itabuna (Emasa); bacharel em Administração e Direito; e pós-Graduado em Direito Público e Direito Administrativo.
O Brasil é uma nação fundada sobre princípios democráticos e sobre a soberania popular. A Constituição Federal de 1988 estabeleceu como pilares inegociáveis a dignidade da pessoa humana, a liberdade de crença e a laicidade do Estado. O Estado Democrático de Direito, portanto, deve ser defendido de quaisquer ameaças, sejam elas políticas, econômicas ou mesmo religiosas, quando estas se travestem de poder político-partidário.
Nesse contexto, é preciso reconhecer que o pastor Silas Malafaia, recentemente alvo de investigações, não representa todos os cristãos brasileiros — que, segundo o IBGE, compõem cerca de 90% da população — nem mesmo a totalidade dos evangélicos, que correspondem a aproximadamente 30% do povo brasileiro. Entre os cristãos do Brasil, a maioria é católica (romanos, ortodoxos, anglicanos e católicos das igrejas nacionais), e dentro do campo evangélico há grande diversidade denominacional: batistas, presbiterianos, wesleyanos, adventistas, assembleianos e tantas outras tradições. O próprio Silas Malafaia é presidente de um ramo da Assembleia de Deus, denominação que se subdivide em diferentes ministérios, não possuindo a exclusividade da representação evangélica no país.
_____
As lideranças religiosas merecem respeito, mas não estão acima da lei. Como qualquer cidadão, pastores, padres, rabinos, monges ou quaisquer ministros de fé devem responder por seus atos quando praticarem condutas ilícitas.
_____
É fundamental salientar que Malafaia faz uso político-partidário da posição religiosa que ocupa, instrumentalizando o nome de Deus para fins eleitorais e para atacar as instituições democráticas, especialmente após a derrota eleitoral de seu candidato à Presidência em 2022. Tal postura, ao invés de refletir o espírito do Evangelho, revela-se como manipulação da fé alheia. O apóstolo Paulo advertiu: “Porque, se alguém prega outro Jesus que não temos pregado, ou se recebeis outro espírito que não recebestes, ou outro evangelho que não abraçastes, de boa mente o tolerais” (2Co 11,4). Infelizmente, muitos têm sido induzidos por uma narrativa falaciosa, segundo a qual o Brasil viveria uma suposta “ditadura da toga”, uma “ditadura judicial”.
Ora, tal discurso constitui uma mentira perigosa, uma fake news, destinada a desacreditar o Poder Judiciário e a corroer as bases da República. Como dizia Hannah Arendt, “a mentira organizada tende a destruir aquilo que ela visa proteger: a confiança pública”. Nesse sentido, quando líderes religiosos usam sua influência para difundir inverdades, não apenas ferem a ética cristã, mas atentam contra a paz social.
A história ensina que a religião, quando instrumentalizada pelo poder político, pode ser usada como mecanismo de opressão e manipulação. É por isso que a laicidade do Estado brasileiro deve ser preservada com rigor. Laicidade não significa perseguição à fé, mas justamente a garantia da liberdade religiosa de todos. Nesse espírito, recorda-se a palavra de Jesus: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21). A distinção entre os campos político e religioso é, portanto, um princípio evangélico.
É preciso afirmar com veemência: Silas Malafaia age com extrema desonestidade ao difundir fake news, ao apoiar políticos hipócritas que se dizem cristãos apenas por conveniência eleitoral, mas que, na prática, defendem valores opostos ao Evangelho — como a tortura e a ditadura militar, ideias historicamente defendidas por setores bolsonaristas. Tais posicionamentos estão em frontal oposição ao mandamento maior de Cristo: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13,34).
As lideranças religiosas merecem respeito, mas não estão acima da lei. Como qualquer cidadão, pastores, padres, rabinos, monges ou quaisquer ministros de fé devem responder por seus atos quando praticarem condutas ilícitas. Santo Agostinho já advertia: “Sem justiça, o que são os reinos senão grandes bandos de ladrões?”.
A soberania do Estado brasileiro exige que os três poderes da República — Executivo, Legislativo e Judiciário — atuem em harmonia, mas também com independência e firmeza. Ter um Judiciário forte, autônomo, independente e célere é indispensável para garantir que a democracia não seja subvertida por interesses particulares ou por manipulações religiosas de caráter político-eleitoral.
Como ensinava Rui Barbosa: “A pior ditadura é a do Poder Judiciário. Contra ela, não há a quem recorrer”. Mas esta frase, frequentemente distorcida, não significa que devamos enfraquecer o Judiciário; ao contrário, significa que sua atuação deve ser firme, equilibrada, transparente e respeitada, pois sem um Judiciário forte, não há Estado de Direito.
O povo brasileiro, em sua maioria cristão, é muito maior do que qualquer liderança isolada. A fé em Cristo não se confunde com projetos de poder. A democracia brasileira é um patrimônio comum que deve ser protegido por todos, independentemente de crença ou religião.
Que Deus, na sua infinita misericórdia, abençoe o povo brasileiro e ilumine as nossas autoridades, para que atuem com sabedoria, justiça e firmeza, preservando a liberdade, a paz e a democracia em nosso país.
Reverendo Luciano Campelo é padre da Igreja Católica Apostólica Anglicana e frade da Ordem Franciscana Anglicana.