O fogo que destruiu o seu “ganha-pão” foi o mesmo que acabou lhe expondo a outra vida, outras pessoas e outra forma de “apresentar” a vida aos filhos!
Manuela Berbert || manuelaberbert@yahoo.com.br
Eu certamente não vou me lembrar da história exata, porque escutei há alguns anos, mas vou tentar resumir. Recém-formada, trabalhando em uma agência de marketing promocional em Salvador, viajava bastante para eventos institucionais. Sempre conversadeira, ia acumulando pessoas e causos.
Era convenção de uma grande empresa na Costa do Sauípe, e lá passei praticamente uma semana, entre montagem e desmontagem de stand do cliente, e acompanhamento do evento. Circulando, conheci um senhorzinho que me resumiu o seguinte: ele tinha uma padaria relativamente pequena e dali sustentava sua família e o status de empresário. (Vale lembrar que Empreendedor é um termo mais atual!) Um dia, ele teria sido surpreendido com a pequena padaria em chamas. O fogo teria destruído tudo! Tudo mesmo! Recomeçar seria uma opção, se ele pudesse, mas nem dinheiro para isso tinha!
Arranjar um emprego seria o mais prudente naquele momento, mas com a idade um pouco avançada, ele teria conseguido apenas uma vaga para vender um determinado produto, de porta em porta. E assim o fez. Alguns anos depois, estava ali, sentado naquele stand, tomando sorvete (todo dia eu ia lá filar um sorvetinho), enquanto me falava dos filhos, que eram, naquele momento, grandes empresários e estavam ali como tal.
A mudança e reconstrução não me impressionaram, até porque amo biografias e já li milhares assim! O que nunca esqueci foi ele me dizer que se o fogo não tivesse destruído sua pequena padaria, talvez ele não tivesse a oportunidade de se orgulhar dos seus. O fogo que destruiu o seu “ganha-pão” foi o mesmo que acabou lhe expondo a outra vida, outras pessoas e outra forma de “apresentar” a vida aos filhos!
Obs: O stand era de uma marca de móveis nacionalmente conhecida, o sorvete era apenas um receptivo e meu companheirinho estava em Sauípe praticamente a passeio! Feliz de mim que pude conhecê-lo!
Manuela Berbert é publicitária e especialista em Marketing de Conexões.
Dentre os nossos atrasos históricos, torna-se cada vez mais necessário superar os passivos social, urbanístico e ambiental. Isso exige novos olhares, união de esforços e objetivos, modernização da máquina pública, definição de prioridades e atração de novos investimentos.
Rosivaldo Pinheiro || rpmvida@yahoo.com.br
Nossa cidade completa hoje 110 anos de emancipação política, trazendo consigo a marca do empreendedorismo e da ousadia em desbravar horizontes. Sua gênese se deu pelo trabalho de sergipanos que por aqui chegaram em 1867. Dois deles: Felix Severino do Amor Divino e José Firmino Alves. Antes, em 1857, surgia o arraial de nome Tabocas, ponto de apoio aos tropeiros que se dirigiam a Vitória da Conquista.
Nesses 110 anos de emancipação política, passamos por uma verdadeira transformação no aspecto urbano, tendo sua maior expansão no período da crise da vassoura-de-bruxa, agravada na década de 1990, quando chegaram milhares de trabalhadores expulsos do campo, em busca, no solo local, de uma alternativa para sobrevivência, impactando os serviços públicos e exigindo de toda a sociedade adaptação a essa nova realidade que se estabelecia.
Se, por um lado, essa expansão representou pressão sobre a zona urbana e os serviços públicos, fazendo aparecer a escassez de recursos para salvaguardar direitos constitucionais, por outro deu à cidade um aumento populacional e a motivação para que os seus atores principais, públicos e privados, passassem a compreender a necessidade de superação da crise imposta pelo modelo agropastoril exportador para um novo, no qual comércio e serviços ganharam nova dinâmica e foi dado início a uma embrionária industrialização.
Do lado público, nossa cidade tem tido, ao longo desse mais de um século, poucas inovações. Sua principal característica, politicamente falando, foi ser gerida de forma populista, perdendo, por diversas vezes, o protagonismo regional devido a essa postura administrativa. Isso impactou negativamente, inclusive, na busca por novas receitas e no equilíbrio fiscal do município.
Dentre os nossos atrasos históricos, torna-se cada vez mais necessário superar os passivos social, urbanístico e ambiental. Isso exige novos olhares, união de esforços e objetivos, modernização da máquina pública, definição de prioridades e atração de novos investimentos. Essas conquistas só serão factíveis se adotarmos mecanismos de gestão levando em consideração a incorporação de novas tecnologias e elaboração de projetos para financiamento dessas ações.
Precisamos agir para incrementar políticas reais e alterar o nosso perfil de desenvolvimento local. Tal sinergia exigirá, em doses cada vez maiores, um entrelace do setor público com os setores privados e toda a sociedade para, por meio dessa perspectiva, dotar a nossa cidade de condições melhores para a nossa convivência. Precisamos de um novo pacto social local.
Rosivaldo Pinheiro é economista, comunicador e especialista em Planejamento de Cidades.
A cada necessidade de crescimento ou desenvolvimento, os coronéis do cacau, do comércio e dos serviços se reuniam e se cotizavam, doando terras, recursos em dinheiro e materiais para implantar uma rede de energia elétrica, a pavimentação de uma rua, e até a construção do aeroporto.
Walmir Rosário || wallaw2008@outlook.com
Não é todo o dia que se comemora 110 anos! Uma idade respeitável para uma venerável cidade, generosa, acima de tudo, e que sempre concedeu todas as oportunidades aos que a procuram. Mesmo antes de se emancipar de Ilhéus em 1910, o distrito de Tabocas era conhecido pela sua ousadia de filha precoce que sempre buscou andar com as próprias pernas, sem a dependência financeira.
De início, mal interpretada pela mãe Ilhéus, exigente e responsável pelo futuro da filha, cujos planos e costumes da época se limitavam ao agarramento das saias e submissão ao pátrio poder. Os quase 30 quilômetros da sinuosa estrada que os separavam Itabuna proporcionavam um desejo de independência, emancipação, pois a gente desbravadora das terras do sem-fim também sabia e queria dirigir seus destinos.
Em 1909 os comerciantes do distrito de Tabocas demonstravam sua pujança e fundaram sua Associação Comercial, com sede e diretoria própria, pronta para cuidar dos seus interesses econômicos. O distrito prosperava a olhos vistos com a chegada de leva de pessoas da Bahia, do Brasil e do exterior, fazendo funcionar todas as instituições da comunidade, sem a ajuda de Ilhéus.
Enquanto lutava por sua emancipação, desbravava novas áreas, plantava e colhia cacau, produzia alimentos para sobrevivência, comercializava e os melhores produtos da moda vindos da Bahia (Salvador), Rio de Janeiro e Paris. Os cacauicultores lucravam com a colheita do cacau e construíam as casas de comércio e seus sobrados, verdadeiros palacetes.
As adversidades sofridas com as cíclicas enchentes alternadas com as secas eram superadas à custa de muitas dificuldades daquela gente nortista – baianos da caatinga, sergipanos, alagoanos –, aliada aos turcos, sírios, libaneses, portugueses e espanhóis. E massa deu liga e até hoje está amalgamada na famosa Nação Grapiúna, de novos costumes e cultura do cacau.
Por anos a fio Itabuna esteve no ranking das cidades que mais cresciam no país e passou a ser considerada uma das principais para investimentos. O comércio e serviços contribuíram decisivamente para mantê-la continuamente nessa posição de destaque. Foram construídos hospitais, escolas, melhorada a infraestrutura urbana e rural e os filhos dos coronéis do cacau voltaram das capitais diplomados, ostentando anéis nos dedos.
E Itabuna se fez cosmopolita, passou a interagir mais com Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Paris, desta vez não só com as compras de catálogos, mas através das casas residenciais adquiridas nas capitais, a exemplo dos palacetes no chiquérrimo corredor da Vitória. Tudo financiado com o lucro das fazendas de cacau, produto exportado para todo o mundo.
E Itabuna não se fez de rogada ao perder quase uma dezena de distritos – emancipados –, ao contrário planejou sua economia no que mais pendia sua vocação: o comércio e a prestação de serviços, implantada com os melhores equipamentos. Época de estradas ruins e navegação de cabotagem precária, o itabunense construiu um aeroporto para chamar de seu.
A cada necessidade de crescimento ou desenvolvimento, os coronéis do cacau, do comércio e dos serviços se reuniam e se cotizavam, doando terras, recursos em dinheiro e materiais para implantar uma rede de energia elétrica, a pavimentação de uma rua, e até a construção do aeroporto. O sobe e desce dos aviões rivalizavam com muitas capitais brasileiras, devido ao alto poder aquisitivo da população.
Se o itabunense se preocupava com a economia, desprezava a política estadual e federal, mesmo elegendo deputados locais. Se ufanava da riqueza que produzia, mesmo recebendo migalhas em contrapartida. Bastava chegar ao tesouro estadual os recursos oriundos do Imposto de Circulação de Mercadoria e Serviços (ICMS) do cacau para rodar a folha de pagamento dos servidores e honrar os compromissos com fornecedores.
Não eram recursos exclusivos produzidos por Itabuna, embora grande parte foi gerada com a comercialização nas grandes empresas compradoras e exportadoras de cacau aqui localizadas. Veio a vassoura de bruxa e as aves de mau agouro vaticinaram o fim da lavoura cacaueira, a extinção de Itabuna do mapa econômico regional. Apenas ameaças que não chegaram a atemorizar o itabunense.
Aos poucos, a cidade conseguiu se recuperar e voltou a ocupar o lugar de destaque na Nação Grapiúna. Administrações desastrosas, intemperes, políticas econômicas, preços do cacau em baixa, nada disso abalou as estruturas sociais. Prova inequívoca é a pandemia da Covid-19, cujo efeito devastador não chega a paralisar a cidade, apesar dos decretos e ordens de fique em casa.
Consequência maior e mais triste é o itabunense nativo ou de coração não poder comemorar o Dia da Cidade na verdadeira data, por ter sido antecipada. Doloroso hoje, prazeroso amanhã comemorar a volta por cima, nos moldes da cultura e tradição deste povo que não se entrega às dificuldades, pois sabe combater o bom combate, sagrando-se vencedor, como sempre.
Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.
Digo tanto para fazer refletir: quantas vezes Itabuna se reconstruiu todos os dias nesses 110 anos? E nós? Passaremos por esses nossos igualmente firmes, pois como diria Valdelice Pinheiro, “[…] de doces e tristes coisas é feita a vida…”.
Ícaro Gibran || icarogibran1@gmail.com
Quando estive em Itabuna, era ainda uma centelha de vida, dia após dia abrindo as vistas para o mundo que me parecia ser a Avenida Juracy Magalhães e seu enorme fluxo. No enquadramento da janela entelada de um apartamento onde cheguei com meus pais, caatingueiros como eu, a turva visão de criança não me deixava conhecer tantas nuances em tantas encruzilhadas. Sim, por ali passavam viajantes, grapiúnas e agrapiunados, vidas cruzadas. Passava também o cotidiano do operário, do lojista, prestadores de serviço, mascates e o ritmo das horas aceleradas pela urgência em tomar os rumos da vida pós-crise.
A memória não me acode quanto aos pormenores, mas já em outra fase e em outra cidade, os relatos eram os de “pantomias” do menino que lançava pelas frestas e sobre os transeuntes tudo quanto fosse possível. Da repreensão, há recordância. Lançada, possivelmente, foi a profecia da volta.
Novos tempos, e quando Itabuna esteve em mim, aos 18, já não se tinha conta a fazer. Eu fui apenas um dentre tantos que vieram, retornaram ou permaneceram para a lida com a semeadura e cultivo de sonhos. Por vezes escutei pelas bandas do sudoeste baiano sobre o grandioso potencial da cidade com ares de capital. Essa impressão (a de teimosa latência) em mim continua morando. Mas cacau já não havia. Neste lugar estavam as marcas da pós-grapiunidade forjada a suor e sangue pelos que adubaram a monocultura e instituíram a hierarquia de subalternidades que organiza a dinâmica geográfica e decalca os limites da periferia e da violência ainda e sobretudo hoje.
Falo de hoje, pois permaneço nessa vivência há mais de década. Ainda que por ter recebido deste lugar os insumos necessários para uma formação privilegiada (é bem verdade), permaneço pelos ganchos com a resistência de uma cultura ímpar, dissidente, inquietante como os cheiros que se misturam ao cair da noite, abrindo o olfato para as madrugadas de chocolate no ar. Aqui estou pois, como no Cachoeira, há perenidade nos Vinte poemas do rio, do Cyro de Mattos. Há multifacetadas expressões na Inúmera Daniela Galdino. Há juventude fazendo literatura não canônica, há (re)existência e rap nas praças, e há poesia mesmo no desfilar das capivaras.
Digo tanto para fazer refletir: quantas vezes Itabuna se reconstruiu todos os dias nesses 110 anos? E nós? Passaremos por esses nossos igualmente firmes, pois como diria Valdelice Pinheiro, “[…] de doces e tristes coisas é feita a vida…”. Mas, por como me sinto – filho desse espaço –, é honra minha fazer com a poeta uníssono: “Eu sou plantada neste chão. Eu sou raiz deste chão. Este chão sou eu”.
Ícaro Gibran é bacharel em Comunicação Social (Uesc), pós-graduando em Gestão Cultural e atua no marketing sul-baiano há muitas lavagens de beco.
– Quem bom, embaixador! Essa é uma ótima notícia para a população de Itabuna, que poderá ficar livre dessa terrível doença. Basta utilizar o bagunço como supositório, que estarão imunizados – brincou (mas não necessariamente com essas palavras).
Walmir Rosário || wallaw2008@outlook.com
No segundo mandato de Antônio Olímpio (AO) como prefeito de Ilhéus, o então deputado federal Haroldo Lima (PCdoB) trouxe à região uma comitiva da República Popular da China. O interesse do deputado comunista era ampliar o comércio entre os dois países, notadamente de cacau, à época atravessando uma das suas muitas crises – esta, causada pela vassoura de bruxa.
Àquela época, os técnicos em agropecuária da Ceplac, ideologicamente ligados aos partidos de esquerda – PCB, PCdoB, PT e PSB – convenceram seus dirigentes nacionais que a saída para o cacau era comercializar o cacau com a China. Após os cálculos feitos em várias reuniões, acreditavam que se cada chinês tomasse, diariamente, uma pequena xícara de chocolate, o preço do cacau subiria às nuvens.
Tese aprovada pelos cardeais vermelhos da esquerda brasileira, a primeira providência era convencer os herdeiros de Mao Tsé-Tung a introduzir esse novo hábito alimentar no cardápio de seus compatriotas. Para tanto, deveriam convidar uma comissão de alto nível para conhecer o Sul da Bahia e provar as qualidades alimentares e afrodisíacas do cacau, que poderia voltar a ser conhecido como frutos de ouro.
Nada mais fácil para camaradas e companheiros arrebanharem as pessoas mais importantes e decisivas numa negociação entre Brasil e China, que prometiam mostrar ao mundo capitalista os bons resultados de uma negociação com dois países com governos ideologicamente próximos, diria até, iguais. Data marcada, a cúpula das instituições políticas e da cacauicultura do Sul da Bahia se engalanaram para receber os chineses.
Entre os “camaradas” da comitiva estavam o embaixador da República Popular da China no Brasil (chefiando a delegação), o Cônsul, funcionários graduados da embaixada, empresários, técnicos e jornalistas. Aqui, cumpriram uma extensa programação, que incluiu visita a três fazendas de cacau, Ceplac, Conselho Nacional dos Produtores de Cacau (CNPC) e as prefeituras de Itabuna e Ilhéus.
Convidado pelo prefeito Antônio Olímpio para um almoço no Hotel Canabrava, a delegação compareceu em peso. Bem falante, o cicerone Haroldo Lima demonstrava todo o seu conhecimento sobre a região cacaueira – local onde permaneceu clandestino nas fazendas de cacau durante a ditadura militar –, encantava os chineses com informações sobre a Mata Atlântica (fauna e flora), além de características sobre a história e a população.
Lá pelas tantas, Haroldo Lima apresentou uma das frutas mais famosas da árvore Artocarpus heterophylla, a jaca, responsável pela alimentação da população rural e os doces que poderiam ser feitos com ela. Entusiasmado com as ricas propriedades da jaca, o embaixador chinês pediu a palavra e discorreu sobre as propriedades medicinais da fruta, conhecida dos chineses, que a plantam no sul do seu país, junto ao cacau.
Prosseguindo, o embaixador chinês revelou um estudo científico realizado pelos chineses para combater a Aids, por possuir em sua composição uma substância de propriedades medicinais, a “jacaína”. A cada frase, o embaixador fazia uma pausa, para que o tradutor fizesse a transcrição para os presentes, quando foi aparteado pelo prefeito então prefeito de Ilhéus, Antônio Olímpio.
– Quem bom, embaixador! Essa é uma ótima notícia para a população de Itabuna, que poderá ficar livre dessa terrível doença. Basta utilizar o bagunço como supositório, que estarão imunizados – brincou (mas não necessariamente com essas palavras).
Os chineses apenas sorriam – como sempre – mas não entendiam o porquê do silêncio sepulcral no ambiente. É que a intervenção de Antônio Olímpio causou um profundo mal-estar entre os presentes de língua portuguesa, inclusive no tradutor, que ficou embasbacado sem saber como verter a frase para o chinês, para desespero do embaixador, que continuava sem saber o que estava acontecendo.
Explicações de pé de ouvido entre uns, troca de olhares entre outros, fortes risadas entre os brasileiros que naturalmente conheciam Antônio Olímpio e sabiam da sua verve humorística. Na verdade, quem conhece Antônio Olímpio sabe que ele perde o amigo, mas não perde a piada, e que nem se lembrava ou importava que ele, nascido em Ferradas, à época distrito e hoje bairro de Itabuna, era um autêntico papa jaca.
Discretos, os chineses não disseram o motivo pelo qual abriram mão de importar milhões de toneladas de cacau prometidas pelos comunistas brasileiros. Se contaram ficou em segredo de Estado.
Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.
O grande desafio dessa doença reside em amar o “improdutivo”, aquele que não pode oferecer muito, é amar o velho e compreender o amor em sua plenitude, em sua forma mais gratuita e genuína, sem cobrança, sem expectativas. É cuidar de nossas lembranças, da nossa história.
Juraci Leal Filho
Somos testemunhas de uma guerra e, ao mesmo tempo, combatentes dela. Crianças estão partindo, jovens, mas principalmente idosos. Nossos velhinhos estão sendo dizimados, famílias tendo seus entes arrancados, acometidos antes pela dor da solidão, que mata devagarinho, e, por fim a partida sem o adeus.
Em algum lugar de nossas vidas, antes dessa pandemia avassaladora, o tempo para os mais velhos parecia artigo de luxo. O filho quase não tinha, o neto, também não. E assim a vida, o ninho vazio seguia para aqueles seres que não mais “produtividade” exercia para a sociedade. Afinal, o velho sempre foi a sobra de um tempo, aquele que somente figurava na vida dos outros, um apetrecho da sociedade que descarta pessoas como objetos.
Mas o tempo se encarregou de aplicar uma lição, surgindo uma doença, que isola as pessoas em suas casas, e o trabalho no escritório teria que dar um intervalo atípico, longo, bem maior que o programado. Trabalhadores incansáveis e indispensáveis a toda uma sociedade tiveram que parar.
Uma doença nova, sem precedentes científicos e literários, tudo novo, no ineditismo do novo Coronavírus, tudo fora da programação normal, pessoas, governos, empresas… Tudo fugiu do script, ninguém tem certeza de nada, a todo tempo inauguramos algum protocolo, alguma estratégia. Roteiro absolutamente longe do nosso controle. O nosso projeto cotidiano precisou ser reinventado, vidas sacudidas.
Muitas reflexões precisaram surgir, e se tudo acabasse agora, em meio a essa doença cruel, a convivência familiar e suas nuances intrageracionais, o vovô e o netinho, histórias recontadas, remoídas, o novinho muitas vezes cansado, sem paciência quase nem escutava mais, sem saber do esforço tremendo que o idoso fazia, para se apoiar na sua maior riqueza, sua memória, lugar onde suas lembranças estariam intactas, preservada nos mínimos detalhes.
Desta vez a saudade deu lugar a um enredo estranho. Não estamos tendo histórias com começo, meio e fim. É começo e fim, rápido assim, abruptamente vidas desaparecerem, famílias não se despedem dos seus entes, idosos recebem uma convocação extraordinária de partida, sem direito a despedida, muitos lutos são sufocados, e com coração mutilados, estamos assistindo a gerações desaparecerem, nossas histórias partindo junto. Quem conseguiu ouvir, guardou, quem não teve tempo, ficará a dor do remorso, e para todos nós algumas lições. E se amou de verdade, ficou o amor. Esse, verdadeiramente, nunca morre!
Aos jovens que mergulham na arrogante ilusão de vitalidade, na inebriante sensação de infinitude, ficam os ensinamentos dessas experiências de dor, saudade e sofrimento – e que tudo aqui é efêmero.
O grande desafio dessa doença reside em amar o “improdutivo”, aquele que não pode oferecer muito, é amar o velho e compreender o amor em sua plenitude, em sua forma mais gratuita e genuína, sem cobrança, sem expectativas. É cuidar de nossas lembranças, da nossa história. É reencontrar o caminho da fraternidade através de nossas tragédias, aproveitando a certeza do presente, sem perdermos o espírito de gratidão e a capacidade resiliente de amar.
Juraci Leal Filho é policial militar e assistente social.
Quatro irmãos, quatro craques! Fernando, Carlos, Leto, Lua. Uma família boa de bola. Boa de bola é pouco, isso era para quem não gostava de futebol. Uma família de craques testada e aprovada por onde passaram. Em campo chegavam a ser adversários: Dois no Fluminense – Fernando e Carlos, no Flamengo – Carlos, e Lua, o mais novo, no Janízaros, cada qual com seu estilo e posição.
Walmir Rosário || wallaw2008@outlook.com
Nesta quarta-feira (22) o esporte fica de luto e os desportistas perdem um ídolo: Fernando Riela, o maior ponta-esquerda do futebol de Itabuna, que há muito vinha driblando as complicações cardíacas. De repente, por uma leve distração ou pelos efeitos sobrenaturais do futebol, Fernando Riela não conseguiu chegar ao fim da linha esquerda com a bola nos pés e cruzar para o gol, como fazia no velho campo da Desportiva.
Perdeu a bola para o adversário – seu próprio coração – e tomou um gol de contra-ataque nesta madrugada. Infelizmente, perdeu o jogo, não o do seu Fluminense ou da gloriosa Seleção Amadora de Itabuna e no Itabuna Esporte Clube, mas da vida, para a tristeza de familiares, amigos, admiradores. É sempre assim, nem sempre conseguimos ganhar todas as partidas, às vezes empatamos, outras perdemos.
E Fernando Riela estava acostumado com os altos e baixos do futebol, onde muitas vezes dominava o jogo inteiro, estraçalhava o adversário, aplicava-lhe dribles infernais e não conseguia a chegar ao gol. Na vida também é assim. Passamos boa parte de nossa existência numa boa, ganhando todas, e lá pela frente nos alcança o cansaço, próprio dos anos vividos. Bem ou mal vividos, tanto faz.
O que importa é completar o ciclo por cima, amparado pelo que fizemos de bom, o que deixaremos como exemplo para a sociedade que nos cerca. É o chamado legado, no caso de Fernando Riela, bem positivo. É certo que ninguém está livre de tomar uma bola “pelas costas” num cochilo qualquer, mas logo retomada com maestria e finalizada com um gol magistral.
Mas o tempo não perdoa. A cada minuto o árbitro da partida está de olho no relógio, preocupado com os 45 minutos do segundo tempo, impedindo qualquer avanço para a linha de fundo. Às vezes, até dá pra cruzar a bola, que nem sempre chega à cabeça do centroavante e ir ao fundo da rede e partirmos para comemorar mais um tento na nossa vida, o que equivale ao “por pouco não chegamos lá”.
Você deve lembrar com saudade, Fernando, de quando recebia a bola e partia para a linha lateral cercado de zagueiros, controlando a bola coladinha no pé esquerdo e passando – de passagem – por todos eles? Claro, como poderia esquecer essa jogada, que terminava com um lançamento para a pequena área e gol. Como esquecer a galera inteira do campo da Desportiva aclamando mais um gol! Impossível esquecer!
Quatro irmãos, quatro craques! Fernando, Carlos, Leto, Lua. Uma família boa de bola. Boa de bola é pouco, isso era para quem não gostava de futebol. Uma família de craques testada e aprovada por onde passaram. Em campo chegavam a ser adversários: Dois no Fluminense – Fernando e Carlos, no Flamengo – Carlos, e Lua, o mais novo, no Janízaros, cada qual com seu estilo e posição.
Se separados eram bons, imaginem juntos na invencível Seleção Amadora de Itabuna, que chegou ao octacampeonato. Uma emoção e tanto para os torcedores, imaginem para os outros tantos craques que atuavam juntos. Como ouvi algumas vezes de outro craque dessa época, o meu amigo Bel (Abelardo Moreira), era fácil jogar com tanta inteligência e ginga junto, tudo ficava mais fácil.
Mas Fernando Riela não foi somente um jogador de futebol, melhor, o jogador de futebol, ou como o definiu o também jogador Maurício Duarte, com passagens por grandes clubes brasileiros: Fernando Riela foi o Garrincha pela ponta-esquerda. Fora dos gramados, era um amigo leal, um pai de família exemplar, um empresário, um cidadão sempre disposto a participar dos eventos do bem.
Dos quatro, dois estão entre nós, Carlos e Lua. Leto, e agora Fernando já nos deixaram por terem sido escalados por Deus para a seleção do Céu, onde jogam ao lado de tantos colegas. Lembram de Tombinho, Santinho, Léo Briglia, Jonga Preto, Luiz Carlos, Humberto, Danielzão, Valdemir Chicão, Neném, Santinho, Humberto Cézar, Zequinha Carmo, Amilton e tantos outros, animados pela charanga de Moncorvo.
Fernando Riela jogou em Itabuna, mas pelo futebol que jogava poderia ter atuado no time que quisesse e somente não estreou no Vasco da Gama para atender a um pedido do seu pai, seu Astor, que não abria mão de não ver seu filho jogando naquele Fla-Flu grapiúna. Atendendo ao pedido paterno, deixou o Rio de Janeiro, viajou para Itabuna e jogou no clássico. Estraçalhou o Flamengo, embora tenha perdido o jogo no segundo tempo.
O tempo que não para, não perdoa quando é chegada a hora, como não parou agora.
Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.
Tal e qual o pombo liberado por Noé para ver se ainda existia vida na terra, devidamente mascarado e com um vidrinho de álcool em gel nas mãos, me aventurei por outros dois quarteirões.
Walmir Rosário || wallaw2008@outlook
Aos poucos, as livrarias começaram a nos oferecer livros sobre as causas e efeitos da pandemia, primeiramente com livros reportagens, contando, passo a passo, o início, o meio e as previsões para o fim. O que mais me chamou a atenção – mesmo não tendo adquirido nenhum deles, e sim ao ler resenhas – é que não existirá um fim para a Covid-19, no máximo uma trégua.
Trégua essa que depende dos avanços da ciência na apresentação de medicamentos e, sobretudo, vacinas, já em experimentos em diversos países e com a participação do Brasil nas pesquisas. Essa seria uma boa notícia se eu não tivesse lido por aí que o Coronavírus é chegado a mutações e poderemos ter pela frente o Covid-20, 22, 38, 45, de acordo com a vontade dos chineses.
Se nos bastasse o grande incômodo da doença, agravada pelas notícias da grande mídia terrorista, também seremos assediados pelas publicações de livros de luxuosas capas e conteúdo aterrorizador. Monografias de especializações, dissertações de mestrado e teses de doutorados invadirão nossos cérebros, sugando nossa massa cinzenta, tal e qual o tamanduá do cartunista Henfil.
Quem também está de volta, reestilizado, é o Cabôco Mamadô, cujas vítimas não mais serão enterrados no cemitério dos mortos-vivos e sim pomposamente cancelados com ampla repercussão nas redes sociais. É os tempos mudaram. Por mais que alguns se esforcem, a tese marxista continua sendo levada ao pé da letra: A história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa.
Mas voltando às edições sobre a pandemia, termos livros sobre todas as óticas e ideologias, sempre aos olhares atentos dos antropólogos, sociólogos, filósofos, juristas, historiadores, ideólogos e, quem sabe, sem especialidade alguma, como eu. Uma barafunda de ideias que – por certo – fará corar o mais sabidos dos sofistas que pululam os programas de televisão de norte a sul do país.
Enquanto gastaremos nosso precioso tempo em ler, ouvir e ver tais “verdades absolutas”, quem sabe esqueceremos os absurdos que vimos e presenciamos durante o tempo em que ouvimos insistentemente: “Não saiam, fiquem em casa”. Presos – ou melhor, “debaixo de ordens” –, não tivemos nem mesmo que pensar sobre o livre arbítrio ou o princípio constitucional do direito de ir e vir.
Como se não bastasse a queda, ainda levamos o coice. Não temos nem o sagrado direito de informação sobre o trâmite dos recursos destinados a dar um freio na pandemia, gastos como se investidos fossem nas mais variadas formas de tratamento. Salvo por uma ou outra operação da Polícia Federal, não temos como traçar um simples roteiro do dinheiro desde que saiu de Brasília.
Nos tempos modernos de hoje, esse dinheiro nem precisa viajar pelas estradas, como nas diligências nos velhos filmes de faroeste, ou mais recentemente pelos carros-fortes, sempre alvo dos assaltantes. Agora viajam por meio eletrônico e não levam dois segundos sequer para chegar aos destinos. Pelos meus imprecisos cálculos, essa viagem é tão acelerada que não dá parar no destino. Faltam os freios, acho eu.
Enquanto fico em casa sem ter o que fazer, a não ser ajudar a mulher em pequenas tarefas domésticas, me atenho aos meios de comunicação disponíveis para continuar informado se o mundo ainda consegue se equilibrar no firmamento. Numa de minhas saídas consegui ver um carro-pipa jogando água nas paredes, passeios e ruas e fui informado pelo motorista que era água sanitária para matar o vírus. Tiro e queda!
Nem eu mesmo sabia dessas ricas propriedades da água sanitária e enquanto me debruço ao computador para aprender o que poderia fazer com a que tenho em casa, eis que ouço de novo num carro de som a mensagem para não sair de casa. Até que me alegrei pois me era concedido o direito de ir à padaria, supermercado e farmácia. Viajar! Jamais! Me aquietei por uns dias.
Tal e qual o pombo liberado por Noé para ver se ainda existia vida na terra, devidamente mascarado e com um vidrinho de álcool em gel nas mãos, me aventurei por outros dois quarteirões. Conversei com uns dois amigos no jardim de suas casas, perguntei pelas novidades e se já tinham descoberto algum medicamento para nos livrar dessa maldita doença. Qual nada, tudo na mesma.
Depois de uma meia hora encontro um cidadão bem informado sabedor dos fatos, cabo eleitoral dos bons, gente importante na política municipal e estadual, e que me confidencia e recomenda: “É melhor ficar quieto em casa, pois não tem remédio que bata a testa com a doença, que teima em aumentar a cada dia, desembestada igual mula antes de amansar”.
Não me contento e pergunto:
– E a água sanitária não resolveu a parada?
– Que nada, parece que não surtiu efeito, respondeu e continuou sua viagem.
Da maneira que ele falou, achei que já estavam falsificando a água sanitária. Vou até mandar a que comprei em casa para fazer um teste no laboratório.
Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado. Confira crônicas e histórias no Blog Walmir Rosário.
A live foi uma palestra, com doses de entusiasmo, chamada de responsabilidade, inovação, tradição, simpatia e respeito. A fala de Luiza nos faz sair do lugar comum e avançar. Luiza é sinônimo de trabalho, adjetivo e também filosofia de vida, como disse a ela na oportunidade.
Rosivaldo Pinheiro || rpmvida@yahoo.com.br
Como já disse anteriormente, estamos observando no Brasil as vísceras e veias expostas desta nação, uma verdadeira explosão de falta de estrutura e ação vieram à tona, impulsionadas pelo novo coronavírus. O vírus fez aumentar a lente de observação dos nossos problemas seculares que havíamos conseguido reduzir a partir da eleição de Fernando Henrique Cardoso, ganhando maior celeridade com o conjunto de políticas públicas implementado nos governos Lula e Dilma. Após o impeachment, tivemos um achatamento de curva, a da atenção social. E, agora, com a expansão da curva pandêmica, essas vulnerabilidades se mostraram ainda mais explícitas.
Tive a honra de entrevistar, na última terça-feira (13), a empresária Luiza Helena Trajano, responsável pelo comando da Magazine Luiza. Uma história de sucesso. É a maior empresa do segmento varejista nacional, que se iniciou com uma lojinha em Franca, interior de São Paulo, aberta por Luiza Helena Donato, tia da atual comandante.
Luiza nos contou que a empresa nasceu do espírito empreendedor da tia e que, inicialmente, ela só queria gerar emprego para a família. Hoje, a Magalu emprega mais de 40 mil funcionários, diretamente, e outros milhares de forma indireta, sendo a empresa de maior valor do setor no Brasil. O valor de mercado da Magalu é de R$ 110,7 bilhões (Ibovespa, maio de 2020).
O que mais me impressionou nesse papo empreendedor foi observar aquela mulher humana, sensível, compromissada com o país, com o trabalho e sabedora das suas qualidades e limitações. Mas, acima e apesar de tudo, com a alma e o coração imersos na humildade. Foi uma verdadeira aula de sabedoria e valor de cidadania. Apesar de ocupar um espaço de poder, algo que pode envaidecer muitos que não são pé no chão, não deixou aflorar o ego.
Concluo dizendo que a live – confira no vídeo abaixo – foi uma palestra, com doses de entusiasmo, chamada de responsabilidade, inovação, tradição, simpatia e respeito. A fala de Luiza nos faz sair do lugar comum e avançar. Luiza é sinônimo de trabalho, adjetivo e também filosofia de vida, como disse a ela na oportunidade. E serve de inspiração para mulheres e homens que querem revolucionar os seus olhares e ações na construção de uma sociedade menos desigual, onde os nossos papéis sociais possam ser exercidos buscando construir pontes em prol de uma sociedade mais harmônica e feliz.
No meio de sua palestra, todas as questões que sempre defendeu foram postas, para delírio dos presentes. Num desses temas, como era de se esperar, a crescente utilização da maconha, não se restringindo ao “cigarrinho maldito”, como se referiam alguns, mas em diversas atividades econômicas.
Walmir Rosário || wallaw2008@outlook.com
Um dos melhores momentos vividos nesse Brasil foi a chamada luta pela redemocratização, com movimentos estourando por todo o país, com palestras, seminários, workshop ou os simples comícios. Desde a luta pelas eleições diretas, a Constituinte e a eleição de Tancredo Neves o Brasil só respirava política. Não se falava em outra coisa.
Políticos com mandato cruzavam os céus em aviões de carreira ou particulares em busca de apoio para suas propostas no Congresso Nacional ou para a formação de novos partidos políticos. Os sem mandatos também se viravam como podiam para “vender seu peixe”, inclusive “as novidades”, a exemplo dos cassados e exilados políticos que retornaram ao Brasil e buscavam mandatos, ou os já eleitos.
Convidado do Município de Ilhéus para vir à cidade participar de um fórum de debates, o deputado federal Fernando Gabeira se transformou, como sempre, numa atração à parte. Não tão somente pela sua história, mas, sobretudo pelas propostas inovadoras para a política brasileira, a exemplo do que sobe fazer, haja vista sua constante capacidade de transformação em relação ao presente e ao futuro.
Em Ilhéus, durante toda sua estada, sempre esteve cercado pela imprensa, inclusive a nacional, e não se fazia de rogado ao tratar dos mais diversos assuntos ligados à política e economia nacional internacional, analisando estruturas e conjunturas, construindo cenários futuros. E assim passou a ser o maior e mais importante personagem do evento, inibindo figuras importantes da vida política e econômica brasileira.
E não era para menos. Jornalista experiente, político defensor de questões consideradas controversas, polêmicas, verdadeiros tabus, o casamento homossexual, a descriminalização da maconha e profissionalização da prostituição, Gabeira tinha muito a falar por onde andava. Ainda mais quando a questão é sua história, a exemplo da militância política clandestina e as ações na luta armada durante o período da ditadura militar, quando participava do Movimento Revolucionário Oito de Outubro.
Membro fundador do Partido Verde (PV), Gabeira é um esquerdista histórico, tanto que alternou sua militância também no Partido dos Trabalhadores (PT) em diversas eleições. Por essas e outras, Gabeira tinha muito que contar e os jornalistas a perguntar. E esse assédio ficou mais evidenciado durante sua palestra no auditório do hotel em que também se hospedava, o Opaba.
No meio de sua palestra, todas as questões que sempre defendeu foram postas, para delírio dos presentes. Num desses temas, como era de se esperar, a crescente utilização da maconha, não se restringindo ao “cigarrinho maldito”, como se referiam alguns, mas em diversas atividades econômicas. O cânhamo passava a ser visto como commodity e não mais como um problema de polícia ou política social.
Tanto era assim, que uma das demonstrações feitas pelo deputado federal Fernando Gabeira era o seu próprio tênis, fabricado com cânhamo, nome vulgar da Cannabis sativa, arbusto que fornece as folhas para a produção do velho cigarrinho de maconha. E a plateia ficou ouriçada com o exemplo dado pelo deputado. A notícia, por certo, ganharia as manchetes dos rádios, jornais e televisões do mundo inteiro, como efetivamente ganhou.
Mas essa não era a preocupação de um expectador em especial, que não perdia um lance do deputado Gabeira, era o repórter fotográfico Mário de Queiroz, o conhecido Mário Bandeira, identificado como um dos usuários da maconha na sua versão enroladinha. Após os cliques de praxe, sempre buscando o melhor ângulo, Mário finalmente se aproxima de Gabeira e diz baixinho:
– Deputado, deputado, vamos subir ao seu apartamento para darmos uma fumada no seu tênis? – incentivou Mário de Queiroz.
Como era de se esperar, Gabeira respondeu com toda a tranquilidade:
– Olha, Mário, atualmente só uso maconha no tênis. Cânhamo, melhor dizendo – e seguiu respondendo as perguntas dos jornalistas.
Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.
Nesta quarta-feira, 15 de julho, os tradicionalistas tiveram que se conformar, haja vista que a pirotecnia poderia ser realizada, menos as atividades das barracas, que tinham de ser presenciais.
Walmir Rosário || wallaw2008@outlook.com
Passei toda esta terça-feira (14) em casa, acabrunhado por não ter como participar dos festejos em homenagem a São Boaventura, rever os amigos que vêm homenagear o santo em seu dia. Tudo cancelado por causa da pandemia. Minha única esperança era nesta quarta-feira (15) ir à praça da Matriz rever os católicos tradicionais que comemoram a data no seu verdadeiro dia, 15 de julho.
Dia 14 de julho é data para se comemorar a tomada da Bastilha, marco central da Revolução Francesa, que nada tem a ver com Canavieiras, também conhecida como Canes, com um “n” só para não rivalizar com a cidade da Riviera francesa. São Boaventura era italiano e sua segunda pátria, pelo que consta nos estudos do memorialista Raimundo Tesdesco, é Canavieiras.
Para evitar as inevitáveis (pode?) polêmicas eu fico com as duas datas: dou uma no cravo e outra na ferradura, festejando nos dias 14 e 15, além do tradicional cortejo e lavagem da escadaria da igreja. Este ano, se não fosse pelas estrepolias de Tolé, nem as escadas seriam lavadas, o que por certo seria um desgosto a mais para São Boaventura, já chateado com a mudança de datas.
Pelo que consta, na farta documentação da Igreja Católica Apostólica Romana está registrado o dia 15 de julho de 1274 como a data de seu falecimento e não 14 como hoje festeja a igreja em Canavieiras. Como não gosto de desagradar os amigos, me reúno com todos eles nas barracas montadas na praça da igreja para homenagear o santo. Comemos e bebemos de acordo com a tradição, sem qualquer atrito.
Pelo que Tedesco me contou, essa história da data é uma questiúncula que já deu muito o que falar. Ele jura que no livro de Tombo da paróquia consta que a trezena era iniciada no dia 2 de julho – dia do Caboclo – e se estendia ao dia 15, com festas noturnas bancadas a cada dia por um grupo de devotos, que se esmeravam em promover uma mais rica que a outra, numa demonstração de poder e fazer média com o padroeiro.
Mas num determinado ano, o padre de Belmonte reclamou com seu colega canavieirense que eles não prestigiavam a padroeira da cidade vizinha, Nossa Senhora do Carmo, Mãe de Jesus Cristo, também comemorada na mesma data. Por uma questão de hierarquia, Belmonte merecia a visita dos canavieirenses. O padre canavieirense não contou conversa e antecipou o festejo em um dia.
No dia 15 mais de 10 canoas aportaram em Belmonte com os fiéis canavieirenses, tendo à frente o padre, pensativo com o argumento que utilizaria para acomodar os católicos tradicionais emburrados com a mudança. Rezaram, cantaram e louvor a Nossa Senhora do Carmo, e aqui chegando foi proposta uma eleição para a escolha da nova data. Os cabos eleitorais do padre foram mais convincentes e 14 de julho transformada em data oficial.
Embora perdessem a eleição, os católicos tradicionais não se conformaram e continuaram por muitos anos comemorando São Boaventura no dia 15, até chegar ao esquecimento. Anos depois, resgatada a história, um grupo de rapazes bem-intencionados resolveram ampliar os festejos ao padroeiro por mais um dia, sob protesto dos dirigentes da igreja – padre e assessores.
Da suntuosidade da festa do dia anterior foram abolidas as cerimônias religiosas, por motivos óbvios, o que em nada abalou a boa vontade do grupo, que se limitou ao uso de algumas ferramentas de marketing. Desprovidos de um sino, compraram 15 dúzias de foguetes e pistolões, que soltavam aos poucos para chamar a atenção da comunidade, espantada com a pirotecnia.
Tudo foi estudado milimetricamente pelos rapazes, que no dia anterior propuseram uma parceria aos donos de duas barracas para que ficassem abertos no dia seguinte, com a promessa de alto faturamento. Além alvorada pirotécnica, que se estende por todo o dia, comem e bebem nas barracas e ainda promovem debates sobre a influência de São Boaventura na sociedade canavieirense e contabilizam a quantidade de Boinhas.
Com essa pandemia, acabou a tradição dos católicos tradicionalistas e até algumas dos contemporâneos. E explico: Ao final da procissão, o pároco – da escadaria da Igreja – asperge água benta em carros, motos e bicicletas. Para completar o ato de fé e de confiança no poder de São Boaventura, a população se dirige ao andor do Santo para retirar e guardar as folhas e flores que enfeitavam o andor.
Conforme reza a tradição, quem guardar uma folha ou um pedaço de flor na carteira, não terá dificuldades financeiras, males e doenças. Essa parte ainda foi possível ser feita, pois a procissão foi transformada em carreata. Já nesta quarta-feira, 15 de julho, os tradicionalistas tiveram que se conformar, haja vista que a pirotecnia poderia ser realizada, menos as atividades das barracas, que tinham de ser presenciais.
Estamos chocados com a falta dessa tecnologia para proporcionar uma homenagem tão especial.
Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.
Atuando hoje nas mais diversas áreas do conhecimento, a Uesc volta seu foco de ação para os municípios regionais, notadamente para o enfrentamento à pandemia da Covid-19, incluindo aí os planos de abertura econômica, que pode ser – ou não – referendado pelos prefeitos.
Walmir Rosário || wallaw2008@outlook.com
Na noite desta quarta-feira (9) tive a grata satisfação de assistir a uma live organizada pelo Laboratório de Ensino de História e Geografia (Lahige) da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc). Em pauta, os Impactos nas Cidades e na Economia no Contexto da Pandemia da Covid-19, debatidos pelo Magnífico Reitor Alessandro Fernandes e o vice-prefeito de Ilhéus, José Nazal.
Finalmente, tivemos a felicidade de constatar que há inteligência no planeta cacau, embora a prática e a execução nem sempre chegue ao destinatário, o cidadão, que paga a conta e não recebe os benefícios. Desta vez, espero que mudem-se os comportamentos e a Uesc possa interagir com a sociedade, como reclamava o ex-professor de Economia José Adervan de Oliveira, desde os tempos de cuspe e giz.
Em duas horas e meia, o reitor Alessandro Fernandes discorreu sobre como fazer ciência na academia e repassar esses conhecimentos às instituições políticas para a aplicação nas diversas cidades da região. Sei que não é fácil esse intercâmbio, haja vista os interesses díspares entre a academia e a política. Se hoje a Uesc faz tudo para sair do Salobrinho, a realidade entre os políticos se volta para o carcomido modelo do clientelismo.
Dentre os políticos do planeta cacau destaco – sem medo de cometer qualquer pecado ou injustiça – o vice-prefeito de Ilhéus, José Nazal, como o único que caminha com desenvoltura por entre as instituições, sempre em busca do conhecimento para aplicar em sua cidade. Não existe em qualquer cidade do sul e extremo-sul da Bahia alguém que estude Ilhéus e região e tenha os conhecimentos acumulados como ele.
Se sobram conhecimentos a Nazal, falta-lhe a caneta, como frisou durante a live, fornecendo dados contundentes, a exemplo dos arquivos digitais de aerofotogrametria do município de Ilhéus, guardados sem que prefeitos demonstrem o menor interesse sobre eles, essenciais para organizar a cidade, prospectar investimentos. É o mesmo que comprar livros de capas duras e coloridas, guardá-los numa vistosa biblioteca, não lê-los, como se ganhasse conhecimento pelos simples olhar e, quem sabe, a osmose.
A Uesc – mais uma grande criação de José Haroldo Castro Vieira – toma seu lugar no mundo da ciência e passa a administrar parte do acervo e serviços prestados pela Ceplac, igualmente criada por José Haroldo. Esse legado também será dividido com a Embrapa e a UFSB, após a decisão da morte por inanição da maior instituição de pesquisa, ensino e extensão da cacauicultura.
Atuando hoje nas mais diversas áreas do conhecimento, a Uesc volta seu foco de ação para os municípios regionais, notadamente para o enfrentamento à pandemia da Covid-19, incluindo aí os planos de abertura econômica, que pode ser – ou não – referendado pelos prefeitos. Embora as prefeituras sejam as maiores empregadoras em seus municípios, nem sempre contam com pessoal qualificado.
E nesta realidade, a Uesc é um campo fértil para as prefeituras, que por falta de bons projetos, nem sempre conseguem prospectar recursos disponíveis em bancos de desenvolvimento e no governo federal. Outro “calcanhar de Aquiles” das prefeituras é a áreas de compras – licitações –, na qual os servidores municipais poderiam “beber em fonte limpa”, e acabar com dissabores da rejeição de contas – junto com a área contábil –, caso queiram trabalhar com técnica e lisura.
Durante a live, muitas questões sobre a região cacaueira foram levantadas, sendo uma delas a realização de um amplo diagnóstico socioeconômico – nos moldes do realizado no início da década de 1970 –, em parceria com os municípios. Como suscitou Nazal, um trabalho dessa envergadura colocaria a região numa situação privilegiada para colocar o trabalho de baixo de braço – ou mandá-la por meio digital para investidores, se transformando em recursos garantidos para investimentos variados.
A esmagadora maioria dos sul-baianos não tem a menor noção do que representa o Complexo Intermodal do Porto Sul em termos de investimentos, crescimento e, possivelmente, desenvolvimento regional. Bilhões de reais serão investidos neste projeto, e o melhor: em diversas cidades, produzindo riquezas de forma solidária à população por meio da geração de emprego e renda.
Como bem disse Nazal, a qualquer dúvida sobre Ilhéus e região ele sai em busca soluções para os problemas apresentados junto aos produtores de conhecimento, notadamente determinadas áreas dos governos federal, estadual e as universidades (Uesc e UFSB). Esse seria um bom caminho a ser trilhado pelos políticos – parlamentares e gestores municipais –, que preferem o discurso vazio eleitoreiro, daí nosso estado de pobreza.
Por tudo isso e muito mais, rogo ao Magnifico Reitor Alessandro Fernandes e aos professores Humberto Cordeiro e Gilsélia Lemos que colaborem – ainda mais – com a região, disponibilizando no site da Uesc ou outro meio de comunicação as lives produzidas. Por certo, contribuirá para melhorar o nível de informação e de interesse sobre o desenvolvimento regional.
Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.
Aproveitando o contato com o secretário, questionei sobre a conclusão do Complexo Integrado de Educação de Itabuna (CIE), localizado no bairro São Caetano, e ele sinalizou que pretende concluí-lo ainda esse ano, justificando que a pandemia atrasou a finalização da obra.
Rosivaldo Pinheiro || rpmvida@yahoo.com.br
A pandemia tem mostrado as veias abertas do Brasil, fazendo emergirem as nossas deficiências e os vários brasis existentes. A carência de leitos clínicos e de UTI e a falta de diálogo entre os entes públicos são partes desse retrato e geraram consequências, sentidas em todas as esferas socioeconômicas do país.
Entrevistei no último sábado, no Ponto de Vista, pela Rádio Nacional, o secretário de Educação da Bahia, professor Jerônimo Rodrigues. Na ocasião, questionado sobre a possibilidade de liberação de tablets para os estudantes, ele, apesar de achar a iniciativa positiva, destacou que não adotaria essa política porque, antes, os alunos precisariam ter internet, ambiente de estudo e possibilidade de interação em tempo real com os professores, porque não há como fazer educação sem a presença do professor. Estes também têm carências que precisam ser superadas para atender essa demanda que surge a partir da pandemia.
É importante destacar que existe uma distância abissal entre os estudantes brasileiros: aqueles que detêm condição de renda e frequentam escola privada e a imensa maioria que está em desvantagem econômica e que frequenta a escola pública. Essa realidade está exposta na pesquisa TIC Educação 2019, divulgada em junho deste ano. Ela aponta que 39% dos estudantes de escolas públicas não têm computador ou tablet em casa. Já nas escolas particulares, o índice é de 9%.
A pesquisa também mostra que, na escola pública, 21% dos alunos acessam a internet pelo celular. Na rede privada, esse índice cai para 3%. A pesquisa também mostrou que 53% dos professores não têm capacitação para o uso do computador e da internet nas aulas, e outros 26% têm pouca capacitação, totalizando 79%, isso acaba por dificultar o ensino à distância.
Itabuna também tem suas limitações. Aproveitando o contato com o secretário, questionei sobre a conclusão do Complexo Integrado de Educação de Itabuna (CIE), localizado no bairro São Caetano, e ele sinalizou que pretende concluí-lo ainda esse ano, justificando que a pandemia atrasou a finalização da obra.
Apontei também a necessidade da construção de um colégio de nível médio em Ferradas, para atender aos moradores do bairro e do seu entorno, além dos condomínios São José, Gabriela e Jubiabá, todos do projeto Minha Casa, Minha Vida. Uma escola naquela região evitaria que os estudantes moradores se amontoassem em ônibus e se deslocassem para longe das suas residências. Nesse ponto, o secretário se comprometeu em analisar a proposta e me dar o retorno.
Ainda na oportunidade, oficializei a ideia de instalação do Núcleo de Educação Territorial Litoral Sul (NTE-05) no prédio onde anteriormente funcionavam os juizados especiais, ao lado do Fórum Rui Barbosa, onde funcionará a Reitoria da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).
A participação do secretário foi de fato entusiasmante. Mostrou-se sensível e disposto a somar forças com a comunidade escolar, famílias e outros setores importantes da sociedade, para juntos fazerem a Bahia superar sua colocação no último ranking (2018) do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), no qual, por diversos fatores históricos, surge com um dos piores indicadores de educação do Brasil.
Rosivaldo Pinheiro é economista e especialista em Planejamento de Cidades (Uesc).
Agora é observar os erros e inovarmos para outra concepção estratégica em que haja a equação do bom senso entre a preservação das vidas e a solução para salvar o nosso comércio, e consequentemente a nossa economia.
Mark Wilson Teixeirinha || markwilsonadm@gmail.com
É incrível como muitas ações governamentais são desconexas, ineficientes e ineficazes em nosso país, ignorando a administração científica, que nos fornece soluções práticas com foco no objetivo.
Logo que se iniciou a pandemia, três coisas me causaram estranheza: o governo central menosprezar a gravidade da situação; não fecharem de imediato os limites municipais; e não obrigar o uso de máscaras caseiras.
O novo coronavírus se propaga com a mobilidade entre os seres humanos e leva até 14 dias para se constatar a infecção. Porém, quando oficializada a pandemia, se fossem adotadas estas medidas que – julgo – seriam lógicas, teríamos evitados milhares de mortes e, certamente, minorados os prejuízos à economia. O comércio não estaria hoje em situação de tanta penúria e o governo iria ter menos custos.
Vou dar um exemplo prático que poderia ser estendido país afora. Itacaré, Uruçuca, Itabuna, Ilhéus e seus respectivos distritos seriam um conjunto de CIDADES ILHADAS, com barreiras sanitárias entre elas, mas com bloqueio total para outras cidades durante um mês nas entradas pela BR-101 onde ninguém entrasse e ninguém saísse além de seus limites.
Assim, não haveria precipitações do “faz que abre, faz que fecha o comércio” e as atividades comerciais e cotidianas estariam sendo exercidas normalmente até que fosse constatado algum caso de infecção, quando, aí sim, poderiam se aplicar o isolamento social e demais ações de forma mais planejada na respectiva cidade, de acordo com a disponibilidade dos equipamentos de saúde. Além do que, seria um curto período para o desabastecimento em geral, destes municípios.
Numa primeira frente, se faria o ISOLAMENTO DAS CIDADES COMO ILHAS, E NÃO DAS PESSOAS, com o comércio funcionando normalmente e cada cidade sendo monitorada para verificação de algum caso com infecção durante um mês. Apenas obrigando as pessoas a usarem máscaras caseiras e a fazerem distanciamento social, sem fechamento de comércio ou isolamento social. Consequentemente muitas cidades de pequeno e de médio portes em nosso Brasil ainda estariam com o comércio funcionando, algumas até normalmente.
Porque as pessoas não aguentam ficar tanto tempo dentro de casa, principalmente pelas suas condições sociais de moradia, e também porque os comerciantes não conseguem honrar compromissos e garantir empregos sem ter lucratividade em seus negócios.
Em Itabuna ainda não sabemos qual será o índice de mortalidade ao final da pandemia, mas com certeza será quase uma centena de comerciantes formais que fechará definitivamente seus negócios, fora os informais e os autônomos, com mais de dois mil desempregados já previstos extra oficialmente. Mas sabemos também que as aglomerações favorecem a disseminação da covid-19 e as mortes.
Em uma outra frente, em relação à economia, penso que seria salutar um congelamento geral dos juros e de preços por três ou quatro meses; e de acordo a geodinâmica da situação o adiantamento de férias coletivas e de 13º salário; liberação do FGTS e do PIS/PASEP; linhas de créditos aos pequenos e médios comerciantes a juros mais baixos que os de mercado; e o auxílio emergencial. Com menor burocracia.
O governo federal deveria ser proativo e realizar estas ações logo assim que declarada a pandemia, dialogando com congresso e com o judiciário, se tornando o grande articulador entre os estados e municípios, indistintamente.
Mas agora é tarde. Agora é observar os erros e inovarmos para outra concepção estratégica onde haja a equação do bom senso entre a preservação das vidas e a solução para salvar o nosso comércio, e consequentemente a nossa economia.
Mark Wilson é formado em Administração (Uesc) e tem especialização em Gestão Pública Municipal e em Administração Pública e Gerência de Cidades.
Não sobreviveremos sem a devida atenção ao universo rural. Se queremos (e precisamos) consumir, é preciso estar atento a quem planta. Ou colheremos, todos, dias ainda mais difíceis.
Lanns Almeida
Fui Secretário de Agricultura em Itabuna, de 2013 a 2016. Diziam-me, na época, que não existia ruralidade na cidade. Ruralidade, como se sabe, é “qualidade do que é campestre, agrícola. O conjunto de características e valores do mundo rural”. Fui e vou de encontro a essa opinião, afinal apenas em cacau Itabuna produz R$ 7,4 milhões anuais na comercialização de amêndoas, dinheiro que aquece vendas, mercados, lojas, bares e o comércio em geral.
Nossa Itabuna, cidade onde nasci, moro, construí amigos e a minha família, tem uma área de 401 km quadrados. Muito ignoram uma ruralidade diversa e rica em produtos e em pessoas trabalhadoras, que geram riquezas com o dia a dia no trato da roça, plantando e colhendo desde a produção de coentro e cebolinha até a produção de borracha e as famosas amêndoas de cacau. E eu sou um apaixonado por este universo.
Um dos nossos maiores feitos, quando secretário de agricultura, foi executar o maior Programa de Aquisição de Alimentos – PAA do Brasil (recorde até hoje), atendendo, diretamente, 300 agricultoras e agricultores, investindo R$ 1,4 milhão por ano na nossa ruralidade. Mas, o que me indigna e causa até constrangimento é saber que ainda temos distritos entregues ao acaso, com estradas e acessos a eles ainda praticamente inexistentes. A saúde daquelas pessoas (e isso inclui saúde bucal) tem um quadro caótico.
Somos o todo, Senhores! Não sobreviveremos sem a devida atenção ao universo rural. Se queremos (e precisamos) consumir, é preciso estar atento a quem planta. Ou colheremos, todos, dias ainda mais difíceis.