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Gil, em Jequié, faz crítica a preconceito religioso (Foto Divulgação).

Vera Rabêlo

Em tom professoral e apropriadamente indignado, Gilberto Gil mandou um recado para evangélicos de Jequié durante show no palco principal do São João, sábado (26), dia do seu aniversário de 68 anos.

Os religiosos haviam protestado contra o nome da festa “São João Xangô Menino”, homônimo de uma música de Caetano Veloso, pela clara alusão a um dos orixás do Candomblé. No final do show, parabenizando os organizadores do evento, Gil, adepto da religão afrodescendente, devolveu o protesto:

– Isso é uma ignorância, um preconceito inconcebível. Essa gente precisa aprender a respeitar a religião alheia. Deus já existia antes de todas as religiões. É Uno. É Todo Poderoso. E não uma parte para uma minoria preconceituosa se dizer dona dele. Vocês chegaram com Deus agora no mundo é?

Gil foi aplaudido com entusiasmo, até mesmo pela improvável presença de evangélicos no meio do “furdunço”, já na madrugada do domingo (27). E completou: “Muito antes de nós termos nascido, Xangô já era São João nesta terra”. Acompanhe em vídeo parte da cutucada do músico baiano:

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Leandro Afonso | www.ohomemsemnome.blogspot.com

Três das palavras que sempre remetem aos irmãos Coen (Fargo, Onde os Fracos não têm Vez, Queime Depois de Ler) – e que estão longe de serem as únicas – são cinismo, pessimismo (ou fatalismo, a depender do ponto de vista) e humor. De maneira bem característica e específica, os dois nos acostumaram, por exemplo, a não ver uma comédia facilmente identificável como tal, mas um filme que provoca o riso típico do que é assinado por eles.

Esse caráter bem próprio vem anabolizado em Um Homem Sério (A Serious Man – EUA, 2009), no qual eles parecem querer elevar à última potência tudo de disparatado que caracteriza o cinema de ambos – sem deixar de lado a força do acaso (cuidadosamente feito à maneira deles), o descaro, e a tentativa de fazer rir através de variações do absurdo. Com o importante adendo de que, dessa vez, nada funciona.

Os irmãos mostram todo seu sadismo na vida de Larry Gopnik (bom Michael Stuhlbarg), e todo o prazer em serem meticulosos ao enquadrar no resto da projeção. O culto ao nonsense, ao invés de interessante – entre outros motivos – pelo imprevisível, chega a um nível tão elevado que o efeito obtido passa a ser apenas o colateral.

A vontade de mostrar o não narrativo, o que está ali apenas porque eles querem (e não porque ajuda no desenrolar da história), o pouco imaginável para tantas pessoas e em tantas vezes, leva o filme a uma espécie de arbitrariedade excessiva, o que leva a uma quase apatia. Nesse sentido, Um Homem Sério se mostra como o filme do desinteresse – mas não, como talvez tenham pensado os irmãos, sobre pessoas desinteressadas com a vida fora do judaísmo, mas sim um filme desinteressado e que se torna desinteressante.

Se responder nunca foi um forte dos Coen (e muito do que de melhor existe neles vem do não responder), aqui eles não perguntam e nem provocam. Não se trata da zona de conforto do autor, mas sim do sublinhar o que os levam a ser vistos como tais, com o porém de que esse destaque torna as obsessões (do tema à abordagem) mais salientes que a força do resultado.

É verdade que abertura e fechamento, com a ideia aberta ao funesto, trazem uma muito bem vinda ironia ao ouvirmos somebody to love. Em meio à maluquice onde vivem, é válido perguntar: você não quer (ou não precisa de) alguém para amar?

No entanto, é lamentável que, no restante do filme, a impressão é de que eles não queriam alguém para amar, mas algo para filmar. Não encontraram – mas o fizeram mesmo assim.

Visto no Cine Vivo – Salvador, junho de 2010.

8mm

Enebriado

O português Manoel de Oliveira (Um Filme Falado, A Carta e mais algumas pérolas), independente de estar na ativa aos 101 anos, é e será sempre ídolo. Mas em Sempre Bela (2006) a sensação foi de alguém que, de uma vez, resolveu demonstrar seu (provavelmente eterno) estado enamorado por Paris, Luís Buñuel e a mise-en-scène. O melhor do filme está justamente nessa última, mas o potencial dele além dela (pouco maior que a homenagem e com consciência disso) parece ter se perdido em meio a tanta paixão.

Filmes da semana

1. Um Homem Sério (2009), de Joel e Ethan Coen (Cine Vivo) (**)
2. A Infância de Ivan (1962), de Andrei Tarkovsky (DVDRip) (****)
3. Sempre Bela (2006), de Manoel de Oliveira (Espaço Unibanco – Glauber Rocha) (**1/2) 4. Índia, Amor e Outras Delícias (2006), de Pratibha Parmar (Cinema do Museu) (*1/2)

    ______________

    Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”.

    <p style=”text-align: center;”><a href=”http://www.pimentanamuqueca.com.br/wp-content/uploads/70-MM2.jpg”><img title=”70 MM” src=”http://www.pimentanamuqueca.com.br/wp-content/uploads/70-MM2.jpg” alt=”” width=”559″ height=”95″ /></a></p>
    <p style=”text-align: center;”><a href=”http://www.pimentanamuqueca.com.br/wp-content/uploads/Final-3.jpg”><img class=”aligncenter size-full wp-image-30092″ title=”Final 3″ src=”http://www.pimentanamuqueca.com.br/wp-content/uploads/Final-3.jpg” alt=”” width=”42″ height=”13″ /></a></p>
    <p style=”text-align: center;”>
    <p><strong>Leandro Afonso</strong> | <a href=”http://www.ohomemsemnome.blogspot.com”>www.ohomemsemnome.blogspot.com</a></p>
    <p><em><img class=”alignright” src=”http://roteiroceara.uol.com.br/wp-content/uploads/2009/09/BLOG2_viajo_porque_preciso_volto_porque_te_amo_cultura.jpg” alt=”” width=”368″ height=”182″ />Viajo porque preciso, volto porque te amo</em> (<em>idem</em> – Brasil, 2009), de Karim Aïnouz (<em>O Céu de Suely</em>, <em>Madame Satã</em>) e Marcelo Gomes (<em>Cinema, Aspirinas e Urubus</em>), é um <em>road-movie </em>experimental (também por isso inevitavelmente irregular) que tem de melhor o que de melhor seus dois diretores podem oferecer – especialmente Aïnouz. É um filme em um meio, o semi-árido nordestino, e sobre sentimentos – carinho, amor, rejeição – já visitados por ambos, mas trata também e principalmente das divagações e aflições do personagem principal.</p>
    <p>Faz sentido dizer que a maioria dos planos de <em>Viajo porque preciso…</em> não tem significado concreto ou função narrativa. Do mesmo modo, praticamente tudo aquilo que visa o horizonte e paisagens afins dura mais que o que o plano de fato mostra – mas esses fatos são menos um demérito que uma defesa da contemplação. E ainda que muitas vezes simplesmente não haja o que ser contemplado, faz parte do personagem esse sentir-se parado – a agonia e o tédio do personagem chegam a nos atingir, às vezes, sem eufemismo algum</p>
    <p>Em filme que se assume tão ou mais experimental quanto narrativo, temos aí, no entanto, talvez – e paradoxalmente – uma tentativa de evitar uma monotonia que a ideia do filme sugere. Quase tudo não acontece em cena, mas na cabeça do personagem principal, a escrever suas cartas – trata-se de um filme epistolar de mão única. Como, então, filmar isso – algo tão ligado a um diário, algo a princípio tão anti-audiovisual?</p>
    <p>Não temos uma resposta, mas uma opção arriscada, na qual os melhores momentos vêm de depoimentos (prostituta falando em vida-lazer, por exemplo), quando percebemos que os dois souberam extrair uma sinceridade tocante que emana daqueles que dirigem. Isso sem falar do personagem como entrevistador/provocador, em situação que nos liga inevitavelmente a ele fazendo o papel de diretor.</p>
    <p>Esse caráter experimental, contudo, pode camuflar desnecessários tremeliques de câmera ao mostrar o personagem em meio à sua jornada, uma vez que não dá para chamar de experimental (ou dar qualquer mérito aqui) o que já virou um quase padrão – a câmera na mão nos dias de hoje.</p>
    <p>Ainda assim, vale dizer que os altos do filme atingem um nível de sensibilidade que vem, entre outras coisas, justamente dessa abstração da narrativa convencional: da por vezes completa imersão em um mundo acima de tudo sensorial. Torto, talvez fatalmente torto, talvez o mais fraco trabalho de ambos, mas com momentos de coragem e brilhantismo bem-vindos.</p>
    <h2><span style=”color: #800000;”>8mm</span></h2>
    <p><strong>Paixão do visível</strong></p>
    <p style=”text-align: left;”><em><img class=”aligncenter” src=”http://harpymarx.files.wordpress.com/2009/03/sylvia2.jpg” alt=”” width=”480″ height=”270″ />Na Cidade de Sylvia</em> (<em>En La Ciudad de Sylvia</em> – Espanha/ França, 2007) é meu primeiro contato com José Luis Guerín, catalão que teve três de seus longas exibidos no Panorama Internacional Coisa de Cinema. (Alguém sabe falar sobre?)</p>
    <p>Guerín se mostra preocupado com a cidade, às vezes mais que com seus dois personagens principais, ou – o que pinta com alguma prioridade – as relações entre personagens diversos e o lugar onde vivem. No entanto, a busca dele (Xavier Lafitte) por ela (Pilar López de Ayala) é interessante a ponto de causar angústia quando algo foge do esperado. Ele desenha e retrata a cidade, é ele o mais afetado e sobre quem é o filme, é ele que não sabemos de fato o que sente, viveu ou viu; mas é ela que magnetiza a tela quando aparece.</p>
    <p>Todavia, e felizmente, o filme vai além da contemplação de um sensacional rosto de uma boa atriz. Pode-se entrar em longas discussões e análises sobre memória e imagem, sobre miragem e dúvida; em uma palavra, sobre cinema. E, o que é melhor, através do cinema.</p>
    <h2><span style=”color: #800000;”>Filmes da semana<br />
    </span></h2>
    <ol>
    <li><strong>Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009), de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes (Cine Vivo) (***)</strong></li>
    <li><strong>Batalha no Céu (2008), de Carlos Reygadas (sala Walter da Silveira) (***1/2)</strong></li>
    <li><strong>O Refúgio (2009), de François Ozon (Espaço Unibanco – Glauber Rocha) (***)</strong></li>
    <li><strong>O Profeta (2009), de Jacques Audiard (Espaço Unibanco – Glauber Rocha) (***1/2)</strong></li>
    <li>O Demônio das 11 Horas (1965), de Jean-Luc Godard (DVDRip) (****)</li>
    <li>Na Cidade de Sylvia (2007), de José Luis Guerín (DVDRip) (***1/2)</li>
    </ol>
    <p>______________</p>
    <p><strong>Leandro Afonso</strong> é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”.</p>
    Tempo de leitura: 4 minutos

    Leandro Afonso | www.ohomemsemnome.blogspot.com

    Viajo porque preciso, volto porque te amo (idem – Brasil, 2009), de Karim Aïnouz (O Céu de Suely, Madame Satã) e Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus), é um road-movie experimental (também por isso inevitavelmente irregular) que tem de melhor o que de melhor seus dois diretores podem oferecer – especialmente Aïnouz. É um filme em um meio, o semi-árido nordestino, e sobre sentimentos – carinho, amor, rejeição – já visitados por ambos, mas trata também e principalmente das divagações e aflições do personagem principal.

    Faz sentido dizer que a maioria dos planos de Viajo porque preciso… não tem significado concreto ou função narrativa. Do mesmo modo, praticamente tudo aquilo que visa o horizonte e paisagens afins dura mais que o que o plano de fato mostra – mas esses fatos são menos um demérito que uma defesa da contemplação. E ainda que muitas vezes simplesmente não haja o que ser contemplado, faz parte do personagem esse sentir-se parado – a agonia e o tédio do personagem chegam a nos atingir, às vezes, sem eufemismo algum

    Em filme que se assume tão ou mais experimental quanto narrativo, temos aí, no entanto, talvez – e paradoxalmente – uma tentativa de evitar uma monotonia que a ideia do filme sugere. Quase tudo não acontece em cena, mas na cabeça do personagem principal, a escrever suas cartas – trata-se de um filme epistolar de mão única. Como, então, filmar isso – algo tão ligado a um diário, algo a princípio tão anti-audiovisual?

    Não temos uma resposta, mas uma opção arriscada, na qual os melhores momentos vêm de depoimentos (prostituta falando em vida-lazer, por exemplo), quando percebemos que os dois souberam extrair uma sinceridade tocante que emana daqueles que dirigem. Isso sem falar do personagem como entrevistador/provocador, em situação que nos liga inevitavelmente a ele fazendo o papel de diretor.

    Esse caráter experimental, contudo, pode camuflar desnecessários tremeliques de câmera ao mostrar o personagem em meio à sua jornada, uma vez que não dá para chamar de experimental (ou dar qualquer mérito aqui) o que já virou um quase padrão – a câmera na mão nos dias de hoje.

    Ainda assim, vale dizer que os altos do filme atingem um nível de sensibilidade que vem, entre outras coisas, justamente dessa abstração da narrativa convencional: da por vezes completa imersão em um mundo acima de tudo sensorial. Torto, talvez fatalmente torto, talvez o mais fraco trabalho de ambos, mas com momentos de coragem e brilhantismo bem-vindos.

    8mm

    Paixão do visível

    Na Cidade de Sylvia (En La Ciudad de Sylvia – Espanha/ França, 2007) é meu primeiro contato com José Luis Guerín, catalão que teve três de seus longas exibidos no Panorama Internacional Coisa de Cinema. (Alguém sabe falar sobre?)

    Guerín se mostra preocupado com a cidade, às vezes mais que com seus dois personagens principais, ou – o que pinta com alguma prioridade – as relações entre personagens diversos e o lugar onde vivem. No entanto, a busca dele (Xavier Lafitte) por ela (Pilar López de Ayala) é interessante a ponto de causar angústia quando algo foge do esperado. Ele desenha e retrata a cidade, é ele o mais afetado e sobre quem é o filme, é ele que não sabemos de fato o que sente, viveu ou viu; mas é ela que magnetiza a tela quando aparece.

    Todavia, e felizmente, o filme vai além da contemplação de um sensacional rosto de uma boa atriz. Pode-se entrar em longas discussões e análises sobre memória e imagem, sobre miragem e dúvida; em uma palavra, sobre cinema. E, o que é melhor, através do cinema.

    Filmes da semana

    1. Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009), de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes (Cine Vivo) (***)
    2. Batalha no Céu (2008), de Carlos Reygadas (sala Walter da Silveira) (***1/2)
    3. O Refúgio (2009), de François Ozon (Espaço Unibanco – Glauber Rocha) (***)
    4. O Profeta (2009), de Jacques Audiard (Espaço Unibanco – Glauber Rocha) (***1/2)
    5. O Demônio das 11 Horas (1965), de Jean-Luc Godard (DVDRip) (****)
    6. Na Cidade de Sylvia (2007), de José Luis Guerín (DVDRip) (***1/2)

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    Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”.

    Tempo de leitura: 6 minutos

    Leandro Afonso | www.ohomemsemnome.blogspot.com

    É comum biografados ou documentados segurarem filmes pelas suas presenças ou pelos seus passados. O melhor expoente brasileiro talvez seja Pelé Eterno (2004), de Anibal Massani Neto, e um exemplo recente é o Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague (2009), de Emmanuel Laurent. Nesses casos, e em alguns outros, o resultado pode vir de uma preguiça do realizador, mas também de uma incontrolável intensidade daquilo tratado na tela. Filhos de João – O Admirável Mundo Novo Baiano (idem – Brasil, 2009), estreia na longa-metragem de Henrique Dantas, se encaixa muito mais no segundo caso.

    O documentário, que o diretor disse ter levado 11 anos para ficar pronto, fala sobre Os Novos Baianos, grupo que, para encurtar a conversa, viu a versão brasileira da Revista Rolling Stone, em 2007, eleger seu álbum Acabou Chorare (1972) como o maior disco brasileiro da história. No entanto, o filme investe menos numa mitificação do quão bom era o grupo e mais em questões pontuais sobre ele: o porquê do nome, a relação com João Gilberto, a mudança do som, o ápice, as relações, o porquê do fim e muitos, muitos casos e causos.

    Se nos primeiros questionamentos, e em todo o filme, ficamos com a ideia de alguém que sabia exatamente o que mostrar, felizmente isso não resulta em uma já pré-concebida e obsessiva mensagem a ser passada. Dantas passa a sensação de que sabia o que perguntar e soube exatamente como editar. Ele se mostra humilde ao reconhecer a importância dos entrevistados e deixá-los levar o filme, e demonstra controle do meio para dar ritmo – mesmo que ele próprio faça ressalvas o filme.

    “Nós sabíamos que a maior presença do filme seria a ausência de João Gilberto”, disse após a sessão. Ele tentou contactar o compositor, mas os oito dias de insucesso se aliaram ao baixo orçamento do filme e o fizeram desistir da ideia. Baby Consuelo, outra ausência no corte final, decidiu não liberar mais suas imagens. O que se por um lado é um contra do filme, por outro não é por demérito dele, e Dantas se vira bem com o que sobra. Desde depoimentos dos outros membros até imagens de arquivo, passando por momentos brilhantes – seja para ajudar na construção do grupo com a visão de alguém de fora, seja por divagações homéricas – de Tom Zé (foto acima).

    Os muitos aplausos do final, em sala super-lotada (do meu lado vi quatro pessoas sentadas no chão, em espaço que comportava três em pé), soaram como uma espécie de suspiro de um cinema que se basta por ser bem executado e ter algo a dizer. Isso porque, semana passada, o crítico André Setaro causou polêmica ao dizer (não vi o programa, apenas ouvi os comentários) que o cinema na Bahia se resumia basicamente a Edgard Navarro – que, inclusive, tem imagens de seu Superoutro (1989) aqui.

    Sem entrar na controvérsia (aqui não é o espaço), enquanto não estreia O Homem que não Dormia, novo filme de Navarro, e O Jardim das Folhas Sagradas, de Pola Ribeiro, Henrique Dantas (homem das artes plásticas e que já trabalhou até com Manoel de Oliveira) chega com força. Sem a aparente pretensão de salvar ou revolucionar nada, mas com honestidade e qualidade sempre bem-vindas – e poucas vezes encontradas nas bandas de cá num tempo recente. Triste vê-lo sair sem nenhum prêmio do evento.

    Visto no Espaço Unibanco (Panorama Internacional Coisa de Cinema) – junho de 2010.

    8mm

    Recife Frio

    O ponto mais alto do Panorama Internacional Coisa de Cinema, e que para mim levaria todos os prêmios possíveis, foi Recife Frio (idem – Brasil, 2009), de Kleber Mendonça Filho. Após o documentário Crítico (2008), seu primeiro longa, KMF volta ao curta-metragem com aquele que talvez seja seu melhor filme. Falso documentário, ficção-científica, crítica social, histórica, política e religiosa. Quando descrito, Recife Frio tem inimaginável megalomania; quando visto, a sutileza de um poema para um diário.

    Uma emissora argentina faz um documentário sobre Recife, que misteriosamente vê suas temperaturas caírem depois de atingida por um objeto, aparente motivo da mudança climática. Entre outras coisas, o documentário fala sobre a cidade e seus defeitos, e fala sobre as diferentes reações e diferentes justificativas que cada um busca para encarar o fenômeno.

    Recife Frio flui com a naturalidade de um filme de gênero bem comportado e calculado, só que com a inventividade de um híbrido poucas vezes visto – e com o parêntese de que, diferente de alguns casos do filme de gênero bem comportado e calculado, aqui temos alma. Alma de alguém que, como em alguns de seus outros curtas (Menina do Algodão, Eletrodoméstica), se mostra afetado – às vezes mais, às vezes menos – por sua cidade, conhecedor de suas imperfeições, e próximo da perfeição ao se expressar sobre ela e (por que não?) o cinema, através do cinema. KMF disse que pensou em fazer arquitetura (desistiu ao pensar em matemática), mas que hoje em dia ela o interessa mais quando dá errado. Seria lindo se todo erro, uma vez irreversível, resultasse em tamanho acerto.

    Pouco antes do festival de Cannes, após 12 anos, KMF abandonou a crítica. Disse que a deixava, também, para se dedicar ao seu primeiro longa. Recife Frio, mais que isso, dá a impressão de que KMF deixa parte da vida (do cinema) para fazer histórias.

    Panorama

    Com o VI Panorama Internacional Coisa de Cinema, que aconteceu em Salvador, decidi mudar o esquema de filmes da semana. Já que vi, no mesmo período, fora do evento, apenas Tudo Pode Dar Certo (2009), de Woody Allen, e O Escritor Fantasma (2010), de Roman Polanski, eles entram na lista dos filmes do mês. O resto entra em lista específica do Panorama.

    A maior falha, além de não ter visto a todos os filmes e ter ocupações que me impedem de ser onipresente e exclusivo, foi não assistir aos da Sala Walter da Silveira – não vi, entre outras coisas, nada de Kurosawa. Por questões de diversidade, terminei acampando no Espaço Unibanco.

    Ps: Recife Frio ganhou o prêmio do júri jovem. Fantasmas e Pacific simplesmente não bateram. Não assisti aos outros premiados.

    Ps2: Ponto alto também, e presenciado depois de texto escrito, foi Redenção (1959), primeiro longa baiano, dirigido por Roberto Pires, restaurado (com o que restou) e com a presença de dois dos protagonistas na sala. Bom citar também Terra Estrangeira (1996) em 35mm. Por mais que a cópia tivesse lá suas falhas, filme cresceu ao ser revisto – muito bom.

    Filmes do mês

    10. Vidas que se Cruzam (2008), de Guillermo Arriaga (Cinema do Museu) (**1/2)

    9. O Leopardo (1963), de Luchino Visconti (DVD) (**1/2)

    8. De Punhos Cerrados (1965), de Marco Bellocchio (DVDRip) (***)

    7. O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (1962), de Robert Aldrich (DVDRip) (***)

    6. O Primeiro a Chegar (2008), de Jacques Dillon (sala Walter da Silveira) (***)

    5. O Espírito da Colméia (1973), de Victor Erice (DVDRip) (***)

    4. Traição em Hong Kong (2007), de Olivier Assayas (DVD) (***1/2)

    3. Tudo Pode Dar Certo (2009), de Woody Allen (Cinema do Museu) (***1/2)

    2. A Bela Junie (2008), de Christophe Honoré (DVDRip) (***1/2)

    1. O Escritor Fantasma (2009), de Roman Polanski (UCI Multiplex Iguatemi) (****)

    VI Panorama Internacional Coisa de Cinema:

    1. Um Lugar ao Sol (2009-PE), de Gabriel Mascaro (***)
    2. O Joelho de Claire (1970), de Eric Rohmer (***)
    3. A Fuga da Mulher Gorila (2009-RJ), de Felipe Bragança e Marina Meliande (***)
    4. Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague (2009), de Emmanuel Laurent (***)
    5. Pacific (2009-PE), de Marcelo Pedroso (***)
    6. Redenção (1959-BA), de Roberto Pires (***)
    7. Filhos de João (2009-BA), de Henrique Dantas (***1/2)
    8. Terra Estrangeira (1995), de Walter Salles (***1/2)

    Curtas:

    9. Zigurate (2009-SP), de Carlos Eduardo Nogueira (***)

    10. Recife Frio (2009-PE), de Kleber Mendonça Filho (****1/2)

    11. Silent Star (2009-BA), de Alexandre Guena (**)

    12. Fantasmas (2009-MG), de André Novais (**1/2)

    13. Supermemórias (2010-CE), de Danilo Carvalho (**)

    14. Avós (2009-SP), de Michael Warmann (***1/2)

    15. Querida Mãe (2009-SP), de Patrícia Cornils (**)

    16. Faço de mim o que quero (2010-PE), de Sérgio Oliveira e Petrônio Lorena (***)

    17. Bailão (2009-SP), de Marcelo Caetano (**1/2)

    18. Bike Ride (2009), de Bernard Attal (***)

    ______________

    Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”.

    Tempo de leitura: < 1 minuto

    O Sindicato dos Comerciários de Itabuna promove neste sábado, 5, o seu já tradicional forró. O arrasta-pé acontece no calçadão da Rua Rui Barbosa, a partir das 14 horas, com animação do sanfoneiro Pescoço de Mola e da banda Madame Buchada, que têm à frente os músicos Jaffet Ornelas e Léo Jorge.

    Ao longo dos anos, o Forró dos Comerciários vem se consolidando como uma das grandes festas populares de Itabuna, atraindo não apenas os trabalhadores da categoria, mas todos aqueles que apreciam o autêntico forró pé-de-serra.

    Cruzamento entre a Rua Adolfo Leite (Beco do Fuxico) e o calçadão é o "miolo" do forró (foto Pedro Augusto)

     

    Tempo de leitura: 6 minutos

    Leandro Afonso | www.ohomemsemnome.blogspot.com

    Há quem diga que ele não passa de um pastiche deslumbrado com a Nouvelle Vague, que viu apenas os filmes “certos” dos diretores “certos”, que não passa de um cinéfilo de butique. Mas tudo de “ruim” que dizem de Christophe Honoré (Em Paris, Canções de Amor) não faz sentido se seus filmes me comunicam algo à maneira dele: um emaranhado de referências e misturas inevitáveis que não o impedem de, na medida do possível e do impossível, soar único. Como em A Bela Junie (La belle personne – França, 2008), provavelmente seu melhor filme.

    Adaptação livre do romance A Princesa de Cléves, de Madame de La Fayette, passado no século XVI, é transposto para a contemporaneidade com Junie recém-chegada em colégio após a morte de sua mãe. Gestos, olhares, sinais, mal entendidos, tudo remete a um caráter perigosamente dúbio do amor. Mais que investir na sensualidade (bem), Honoré mostra o agridoce das relações. E entre o ônus e o bônus, ele consegue momentos brilhantes, como a leitura de poema na aula de italiano, a revelação do “segredo” de Junie, e a corrida musicada em Paris.

    Pode-se dizer, com boa dose de razão, que o filme pouco traz de novo do bom cinema francês, ou pelo menos do que de melhor foi feito por Truffaut (provável maior influência), Godard, Rohmer, Chabrol e tantos outros – com o adendo de que, diferente daqueles, Honoré não revoluciona nada. Faz todo sentido. E como se não bastasse Honoré lembrar tanto a Nouvelle Vague, Louis Garrel parece nova versão de Jean-Pierre Léaud (principal parceiro de Truffaut) e Léa Seydoux lembra demais Anna Karina (musa de Godard e símbolo da Nouvelle Vague).

    Mas não dá pra dizer que A Bela Junie não tem nada de genuíno. A escolha de parte de suas trilhas sonoras contribuem para encontrar uma certa americanização em Honoré (sem julgamento de qualidade), mas também talvez ajude seus filmes a funcionarem de maneira independente em um conjunto tão forte, diante do qual ele demonstra não só admiração como uma quase reverência: um tipo de cinema francês [por mais que ele tenha se desligado um pouco dele no seu filme seguinte, o Não Minha Filha, Você Não Irá Dançar (2009)].

    Para completar, é impossível não notar o talento de Garrel e Seydoux – que em mais de uma vez lembra Anna Karina especificamente em Viver a Vida (1963), de Godard. O que é um duplo elogio, pela atriz e pela atuação ali, que se transforma em triplo, pela própria Seydoux independente da lembrança.

    Ou seja, se eles não fazem nada, como às vezes aparentemente acontece, já são interessantes e expressivos o suficiente. E se o prazer de Honoré ao filmar Paris não nos atinge mais com tanta força, é provável que isso seja menos culpa dele que da época em que ele nasceu – cerca de 40 anos depois da maioria da Nouvelle Vague. Ele se dedica com imenso e perceptível carinho aos seus personagens e a um híbrido (de gêneros e de referências) que (embora momento musical não tenha fluência ideal) fascina mais que incomoda.

    Revisto em DVDRip – Salvador, maio de 2010.

    A Bela Junie (La belle personne – França, 2008)
    Direção: Christophe Honoré
    Elenco: Louis Garrel, Léa Seydoux, Grégoire Leprince-Rinquet, Esteban Carvajal-Alegria, Simon Truxillo
    Duração: 93 minutos

    8mm

    O Maldito Ladrão de Memórias

    [Aviso importante: quando não amigo, pelo menos conheço a maioria esmagadora dos participantes de O Maldito Ladrão de Memórias (2009), de Roberto Cotta, feito para conclusão do curso de Rádio e TV na Uesc e presente no Festival de Cannes desse ano – mostra Short Film Corner, não competitiva dedicada a curtas de jovens diretores. Uma coisa é criticar quem nunca me disse um oi, outra coisa é bater em quem você conhece, com quem existe uma relação a ser potencialmente abalada.

    Como existia aqui, perguntei a Roberto se ele teria alguma objeção em ver seu filme criticado. A resposta, mesmo já esperada, me agradou. Com relação aos atores (maioria também de amigos e conhecidos), entendam, a crítica a vocês é pelo que vocês não são. Também já atuei sem ser ator, ou pelo menos antes de fazer teatro, e os vídeos até hoje estão na Uesc para quem quiser ver – e rir. Faz parte. Seja como for, o fato de o filme me levar a escrever sobre ele já diz alguma coisa. O Maldito… ainda percorre circuito de festivais, antes de ser (no segundo semestre) disponibilizado na internet.]

    O Maldito Ladrão de Memórias (2009), de Roberto Cotta, é um belo exercício de direção. Do início ao fim, ele é o filme de um diretor – e não há dúvidas de que é o que temos um aqui. Alguém que faz o filme que quer, um filme de gênero sem aparência alguma de concessão acadêmica (e por vezes necessária), e do jeito que quer: em preto e branco, com câmera no tripé, poucos cortes e muitos xingamentos. Porque assim é Gomide (Roberto Pazos), personagem-narrador que busca o Dr. K (Antônio Xavier), o ladrão de memórias.

    É notável a elegância com que Cotta trabalha o visual. Elegância essa que vem não dos personagens, mas do esmero ao enquadrar e editar, a trabalhar apenas com cortes secos e fades, a trabalhar com plano e contra-plano, além de cuidadosa decupagem. A fotografia é um deleite, e a mise-en-scène tem momentos tão brilhantes que contrastam com outros que, devido ao seu inevitável baixo orçamento, nos dão a certeza de um vídeo pouco abastado. No entanto, em meio às mudanças de plano, talvez para evitar um piloto automático ou pela questão de falta de câmeras, Cotta escolhe enquadramentos tão heterodoxos que chamam mais atenção para o lugar inesperado onde a câmera está do que ajudem a dar o ritmo esperado por ela (o que nos remete aos malabarismos de David Fincher em início de carreira).

    No que tange as atuações, se por um lado chega a ser covarde atacar performances de não atores tão declarados, por outro é inevitável perceber uma certa falta de sintonia dentro de uma coerência. Se Gomide e Parombau (cujo sotaque parece tirado de Ó Paí Ó) estão completamente acima do tom, na mesma frequência, e o detetive tenta não comprometer, o Dr. K é o extremo oposto do que somos levados a imaginar – e dos pontos baixos do filme. É criada toda uma expectativa diante de personagem pintado como genial e repulsivo, absurdamente interessante, mas quando ele entra em cena, é medroso e pálido: não dá pra ver nele alguém sequer capaz de roubar galinhas, quanto mais memórias.

    Com relação à estrutura, o domínio dela está ali. Por mais que partes de alguns diálogos se juntem às atuações em combinações pouco felizes, o roteiro enquanto forma narrativa mostra que alguém com tino para aquilo rabiscou o papel. Mesmo que os últimos cinco minutos, em tradicional reviravolta do gênero onde “nem todos são o que parece” e pessoas sem escrúpulos se dão bem, passem de um magnífico embaralhamento a um final que talvez se explique demais.

    Quando assisti à última cena (e ao belo chamamento dos presentes no leilão, que pode abrir portas para trocentas metáforas referentes ao cinema e ao ato de fazê-lo), pensei “o que aconteceu”? Sem a narração que vem a seguir, talvez houvesse mais sutileza e menos didatismo, o que seria mais coerente com o caráter tão altivo quanto o que de melhor existe no resto do filme. Que mostra o talento e o interesse do autor pelo cinema e pelo gênero, ambos tratados, sempre que possível, com o carinho que merecem. E quando Cotta peca também pelo carinho, é com excesso: nesse ponto, não dá para achar ruim.

    Ps: A trilha sonora de Thiago Ferreira sabe ser útil, ao complementar e potencializar a atmosfera, e brilhante, no final. E o elogio não é porque ele fez a trilha de meu documentário, mas sim porque as pessoas que ouvem o que ele faz, e do que é capaz, percebem isso. (Com mérito também para Cotta que soube domar e guiar o menino.)

    Ps2: Ao invés de ver o making-of, preferi rever o filme. Por mais que ainda esteja ansioso para assisti-lo, como análise, acho mais justo dar outra oportunidade à execução.

    Filmes da semana

    1.    O Espírito da Colméia (1973), de Victor Erice (DVDRip) (***)
    2.    Ferrão da Morte (1990), de Kôhei Oguri (sala Walter da Silveira) (**)
    3.    A Bela Junie (2008), de Christophe Honoré (DVDRip) (***1/2)
    4.    Pecados do Meu Pai (2009), de Nicolas Entel (Cinema da Ufba) (**1/2)
    Curta:
    5.    O Maldito Ladrão de Memórias (2009), de Roberto Cotta (DVD) (***)

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    Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”.

    Tempo de leitura: 3 minutos

    Leandro Afonso | www.ohomemsemnome.blogspot.com

    Já se falou basicamente tudo sobre Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, EUA/Reino Unido, 2010), de Tim Burton (Edward Mãos de Tesoura, Ed Wood, Sweeney Todd). O problema é que tudo falado sobre parece vir muito mais da expectativa criada (3-D pós Avatar + clássico da literatura + Johnny Depp + Tim Burton) que pela execução – e muito do falado a favor do filme parece mais boa vontade de tietes de Burton-maníacos que real crença no que está projetado.

    Lógico que é possível gostar de Alice sem condescendência do autor, até porque o que o filme tem de bom não é o que ligamos necessária e imediatamente a Tim Burton. Pode-se falar do investimento no visual fantástico (no sentido literal), mas ele é menos Tim Burton e mais extravagância auto-importante.

    Fascina assistir a tudo aquilo, mas o deslumbre é puramente visual; você fica de boca aberta, sorriso nos dentes, mas com mente vazia e distraída. O que não quer dizer que um filme obrigatoriamente bom é o que obrigatoriamente faz pensar (não temos mais 10 anos), mas sim que a junção entre imagens marcantes e maneira insossa de contar a história aumenta o contraste e potencializa o que há de ruim no filme. Helena Bonham-Carter está sensacional em cada momento, mas temos um restante – inevitavelmente relevante – genérico.

    Pode-se falar em feminismo (Alice quer independência, escolher o que faz e com quem casa), em mescla de obras de Lewis Carroll (entre No País das Maravilhas – 1865 e Do Outro Lado do Espelho – 1871), mas sensação é de forte maquiagem que tenta se bastar e não consegue. Em uma história tão narrativa (independente do cânone original, temos aqui o roteiro de um filme narrativo), o deleite com ela não é suficiente.

    Visto, em 3D, no Cinemark – Salvador, maio de 2010

    Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, EUA/Reino Unido, 2010)

    Direção: Tim Burton

    Elenco: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway

    Duração: 108 minutos

    Projeção: 1.85:1

    8mm

    Léa

    O Robin Hood de Ridley Scott é (extra)ordinário a ponto não só de me deixar sem palavras, como de me fazer esquecer uma das poucas coisas boas dele. Subexplorada, é verdade, mas está lá. Excelente em A Bela Junie (2008) e com ponta (uma das filhas assassinadas no início) em Bastardos Inglórios (2009), todo o desconforto passado por Léa Seydoux ao interpretar uma francesa em meio inglês – sem saber se por limitação dela ou de Ridley Scott – deixa a impressão de que ela é fraquinha que só. Que ela não é nada além de um belo rosto francês, que remete a ninguém menos que Anna Karina. Por favor, ela não é só isso.

    Filmes da semana

    1. O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (1962), de Robert Aldrich (DVDRip) (***)
    2. Jards Macalé – Um Morcego na Porta Principal (2008), de Marco Abujamra e João Pimental (Cine XIV) (**)
    3. Traição em Hong Kong (2007), de Olivier Assayas (DVD) (***1/2)
    4. O Leopardo (1963), de Luchino Visconti (DVD) (**1/2)
    5. Minha Bela Dama (1964), de George Cukor (DVD) (**1/2)
    6. Um Longo Caminho (2005), de Zhang Yimou (DVD) (*1/2)

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    Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”.

    Tempo de leitura: < 1 minuto

    Daqui a pouco, às 22h, no Cogumelo´s Bar, na Sapetinga (Ilhéus), a banda OQuadro lançará o projeto Coletivo Macaco Santo. A proposta é apresentar ao público “o melhor da black music nacional e internacional. A galera promete uma mescla de sons que vai de James Brown aos ritmos jamaicanos, sem esquecer do hip-hop. A promessa é não deixar ninguém parado.

    A festa terá entre as atrações a banda de indie rock Meu Amor e Uns Centavos, de Itabuna, e grafitagem com o artista plástico Quinho. O ingresso custa apenas R$ 5,00 e a informações podem ser obtidas pelo telefone (73) 9191-2221.

    Tempo de leitura: 3 minutos

    Leandro Afonso | www.ohomemsemnome.blogspot.com

    Robin Hood (idem – EUA/ Inglaterra, 2010), de Ridley Scott (Gladiador, Thelma e Louise), é ruim de doer, e se torna pior ainda quando aliado à expectativa criada pelo fato de ele abrir Cannes este ano – ainda que não seja ruim apenas pela relativização. Diretor de filme bom atrás de filme bom no começo da carreira, de Os Duelistas (1977) a Blade Runner (1982) passando por Alien (1979), Ridley Scott é, provavelmente com sobras, o melhor exemplo do extremo oposto de um bom vinho. Com a diferença de que um vinho cada vez pior, por mais que dê ressaca, pelo menos pode te deixar alto e divertido.

    Na sua primeira hora, Robin Hood não é um filme de ação nem de aventura; é uma mistura de drama familiar com pinceladas épicas. Funciona em parte pelo caráter um pouco (com ênfase no pouco) diferenciado dentro da família blockbuster que pela construção em si, embora exista ali um certo mérito. Mas se a primeira parte é mediana, ou até comparativamente boa, a segunda é um desastre.

    O uso de clichês – que a princípio pode nem ser um problema – é o que o filme tem de menos pior. São inúmeras e pouco inspiradas cenas de ação que, como se a dormência causada por elas não fosse suficiente, nos remetem a outros blockbusters melhores, de Piratas do Caribe (2003) e Tróia (2004) a Batman Begins (2005), com o qual se assemelha, inclusive, por tratar de uma faceta pouco explorada e anterior à “lenda”. Mas o que talvez melhor represente o filme seja um grito de Russell Crowe, tão constrangedor que não pode ser visto sem elevada dose de vergonha: como, salvo um ou outra exceção com boa vontade, o Ridley Scott dos últimos 20 anos.

    Visto, em cabine de imprensa, no Multiplex Iguatemi – maio de 2010.

    Robin Hood (idem – EUA/ Inglaterra, 2010)
    Direção: Ridley Scott
    Elenco: Russell Crowe, Cate Blanchett, Max Von Sydow, William Hurt
    Duração: 140 minutos
    Projeção: 2.35:1

    8mm

    Tradução não ajuda

    Vidas que se Cruzam, cretina tradução para The Burning Plain (EUA/ Argentina, 2008), estreia na direção de Guillermo Arriaga (roteirista de 21 Gramas, Babel, Amores Brutos), leva à inevitável crítica pronta. “Lá vem o mágico de um truque só” ou “ele viu e reviu muito Robert Altman” são algumas das declarações feitas baseadas no título e no passado de Arriaga. Só que, até o final, as sensações são outras.

    Diferente do que acontece com os filmes que roteirizou, Arriaga parece tentar investir antes na construção dos personagens que no malabarismo narrativo (ainda que algo seja “revelado” no decorrer) – e isso é ótimo. O porém é que o filme soa melhor justamente como folhetim, no momento da escolha de cortes e pausas entre flashbacks e flashfowards, que como filme de ou para os atores.

    Salvo raras exceções, as cenas que demonstram as personalidades e partes dos porquês das duas serem o que são hoje parecem ter mais duração que complexidade. A construção do relacionamento entre Mariana e Santiago, por exemplo, só não é pior porque Jennifer Laurence carrega uma expressão absurda.

    Mas se o acaso, em toda a projeção, não é mais obsessivo, Arriaga se perde no final, em uma sequência de cortes que o que tem de presunçosa e potencialmente bela, tem também de inócua.

    Arriaga dá, à sua protagonista (sem detalhes maiores), a visão onisciente de tudo que passou e com quem passou por ela, mesmo que de leve, para chegar à sua conclusão. Soa como alguém que, por mais que tenha dado sinais de que poderia ir além de sua obsessão, ela aparece mais forte que seu talento. Uma pena.

    Filmes da semana

    1. Vidas que se Cruzam (2008), de Guillermo Arriaga (Cinema do Museu) (**1/2)
    2. Pura Adrenalina (1996), de Wes Anderson (DVDRip) (**1/2)
    3. A Hora do Pesadelo (2010), de Samuel Bayer (Multiplex Iguatemi) (**)
    4. De Punhos Cerrados (1965), de Marco Bellocchio (DVDRip) (***)
    5. O Primeiro a Chegar (2008), de Jacques Dillon (sala Walter da Silveira) (***)
    6. Robin Hood (2010), de Ridley Scott (Multiplex Iguatemi – Cabine de imprensa) (*1/2)
    7. Alice no País das Maravilhas (2010), de Tim Burton (Cinemark – 3D) (**1/2)

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    Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”.

    Tempo de leitura: 3 minutos

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    Mickey Rourke em Homem de Ferro 2.

    Sem tempo para digerir, é difícil dizer muita coisa de Homem de Ferro 2 (Iron Man 2 – EUA, 2010), de Jon Favreau. O filme começa bem, com todo o carisma de Robert Downey Jr., cada vez melhor dentro de um personagem cada vez mais ególatra – o que leva a uma quase irritação. No que existe de pior, temos os ápices quando Favreau se afasta dos personagens para investir no quebra-quebra megalômano (mais até que na ação): a lembrança de Michael Bay e seus Transformers é inevitável – e isso não pode ser um elogio.

    Por outro lado, ainda que com Scarlett Johansson interpretando o papel da voluptuosa agente dupla (?!) seja natural lembrarmos também de Megan Fox fazendo nada (sem ser exatamente demérito dela), o filme lembra várias vezes um charme de 007, com a ligação do mal com a Rússia e um vilão divertido como Mickey Rourke. Mas se Rourke e Downey seguram bem o filme, o mesmo não dá pra dizer do (aqui nem tão) competente Favreau.

    Por mais que ele tenha algum timing para gags e competência para cenas de ação, quando postas ao lado de um ritmo já veloz, a rapidez do filme cansa. Não é fácil sustentar duas horas à base de câmera e montagem que nunca param sem que o espectador atinja um estado de dormência – ainda que existam casos bem piores que este aqui. Isso para não falar nos efeitos especiais, que funcionam mais até para evitar questionamentos e tapar (mini) buracos no roteiro que para nos levar a um outro nível de “credibilidade” do que está na tela.

    Curioso é que a interessante resolução para Mickey Rourke (com lembrança a Jake La Motta de De Niro em Touro Indomável a dizer “você nunca me derrubou, Ray, você nunca me derrubou”), é o protagonista (clímax) com tempo bem menor que os coadjuvantes (demais cenas de ação). Não menos curioso também é que, em boa parte da projeção, achei que seria mais fácil fazer analogia política do que falar sobre o filme; poucas horas depois, nada de possíveis analogias políticas ficaram.

    Homem de Ferro 2 (Iron Man 2 – EUA, 2010)
    Direção: Jon Favreau
    Elenco: Robert Downey Jr., Mickey Rourke, Don Cheadle, Scarlett Johansson, Gwyneth Paltrow
    Duração: 124 minutos
    Projeção: 2.35:1

    8mm

    Viagens e compromissos diversos resumiram a 8mm a O Homem de Ferro 2 – e visto em cima da hora. Não recomendo a ninguém sete dias sem filmes e cinema – especialmente se você tiver uma coluna pra fazer.

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    Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”.

    Tempo de leitura: < 1 minuto

    Daqui a pouco, às 20h, tem programa dos bons na Casa dos Artistas, em Ilhéus. Integrando o projeto Cordel & Cantoria, Paulo Morão e Carlos Silva se apresentam por lá. A entrada custa R$ 10,00 a inteira e R$ 5,00 a meia.

    O projeto levará ao palco da Casa, todas quartas-feiras de maio, duas atrações. Para a próxima semana, as atrações são Carlos Silva e Gustavo Felicíssimo. Cordel & Cantoria é uma realização da Casa dos Artistas e tem o apoio da Fundação Cultural de Ilhéus e Muito Mais Comunicação.

    Não deixe de ir.

    Tempo de leitura: 6 minutos



    Leandro Afonso | www.ohomemsemnome.blogspot.com

    Marcada para as 20h, a pré-estreia de Quincas Berro D’Água (idem – Brasil, 2010), de Sérgio Machado (Onde a Terra Acaba, Cidade Baixa), começou com pontuais 20 minutos de atraso, quando Hélio de La Peña, Vladimir Brichta e Frank Menezes subiram ao palco*. Trouxeram um clima amigável, de humor e aproximação com o público. Depois, Sérgio Machado e o elenco da equipe, embora só Paulo José (Quincas) e ele tenham usado o microfone.

    No que talvez tenha sido o mais belo momento da noite, Machado disse que Jorge Amado foi a primeira pessoa a ter acreditado no potencial dele como cineasta, e contou, com emoção transparente, o caso dos parabéns de Zélia Gattai. Em 2005, à época viúva de Jorge Amado, ela disse ter visto florescer a árvore onde estavam cinzas do escritor. Imaginou que ele deveria estar feliz, que algo de bom deveria ter acontecido. Entrou na Internet, buscou notícias e viu a premiação de Machado no Festival de Cannes. Foi de Gattai, a quem o filme é dedicado, o primeiro e-mail recebido por ele após o prêmio.

    A sessão

    Em momento alto da projeção, a abertura conseguiu mesclar Saul Bass (lembrança imediata de Anatomia de um Crime) e 007, com um, mesmo que bem discreto, tempero baiano. O porém é que, dali até o final do filme, o áudio parecia alto demais. E embora não dê pra dizer se o problema maior era da cópia, do meu lugar (muito ao lado, na frente e próximo à saída de som) ou da regulagem no teatro, sensação foi compartilhada com as duas pessoas com quem falei sobre o problema – mais centrais e acima, no teatro.

    Finda a apresentação, começa a história de Quincas, que decidiu morreu (ou “se deixou” morrer) no seu canto, perto daqueles com quem convive. Mas estes, além de desconhecidos, são discriminados pela filha Vanda (Mariana Ximenes), mãe (Walderez de Barros) e genro de Quincas (Vladimir Brichta), exemplares da burguesia caricata. Não ajuda ainda a lembrança de Mariana Ximenes em O Invasor (2002), de Beto Brant, que compreende uma crítica bem mais contundente.

    Por outro lado, mais que alfinetar um comportamento, aqui se exalta outro – o que não é necessariamente ruim. O filme é menos uma crítica a uma burguesia reacionária e de aparências que um entusiasta de um tipo de comportamento mais “alegre” dos menos abastados de Salvador. Aqui novamente filmada para exportação, com Pelourinho, Baía de Todos os Santos e Elevador Lacerda normalmente mais figurativos que qualquer outra coisa.

    Outra impressão que fica é que em mais um ponto alto do filme, o texto, narrado por Quincas (como não li a obra, adaptação não é análise pra mim), é mais visual que sonoro. Em que pese aí o incômodo no áudio, esse encaixe de texto com imagem parece funcionar mais pelo que está escrito que pela forma como a combinação audiovisual é feita.

    Antes do filme, Machado falou em ciclo fechado, iniciado por Jorge Amado, que acreditou nele, e também finalizado no escritor, uma de suas influências e quem ele agora adapta em distribuição grandiosa. De fato, comparado com Onde a Terra Acaba (2001) e Cidade Baixa (2005), embora estes sejam diametralmente opostos, Quincas Berro D’Água deve ter mais pontos em comum com o primeiro.

    Aqui, mais que o caráter cru de Cidade Baixa, temos uma espécie de defesa de um ídolo, de uma referência. Só que se em Onde Terra Acaba ele assumia um caráter de mediador com um bom material (entre arquivos e entrevistas), aqui ele, ao pegar a ficção, não consegue chegar a tanto. Não há mais contemplação alguma, atores geralmente não têm tanto tempo de tela, e tudo parece corrido; sendo a epiléptica câmera na mão em corrida o melhor exemplo do que existe de pior na falta de esmero que se transforma em hipotética defesa de um tipo de cinema contemporâneo.

    Talvez o material seja mais Globo Filmes que Jorge Amado, ainda que o final nos leve a crer que não, mas até o caráter supostamente desbocado do filme parece domesticado. Lógico que muito dessa análise, óbvia e infelizmente, é afetada pela não certeza do quão ruim é ou apenas estava o som. No fim, pensei: se eu, que sou baiano, tive tanto problema, imagine o resto?! Filme precisa de revisão.

    Visto, em pré-estreia, no Teatro Castro Alves – Salvador, abril de 2010.

    Quincas Berro D’Água (idem – Brasil, 2010)

    Direção: Sérgio Machado

    Elenco: Paulo José, Mariana Ximenes, Vladmir Brichta, Marieta Severo, Walderez de Barros

    Duração: 102 minutos

    Projeção: 2.35:1

    *”Tão bom quanto o áudio, acredite, estava a sintonia entre cérebro e olhos. Confundi Luís Miranda, que de afto apresentou o filme, com Hélio de la Peña, que não faço ideia de onde estava no dia. Já falei mais de uma vez, não acreditem no que escrevo. (Valeu, Helena!)”

    8mm

    Brincadeira de birutas

    É uma pena Lissi no Reino dos Birutas (Lissi und der wilde Kaiser – Alemanha, 2007), animação do comediante-escritor-produtor-diretor-prodígio alemão Michael Herbig (responsável pela maior bilheteria da história da Alemanha), ter lançamento nacional na mesma semana de Alice: tive de repetir três vezes à vendedora que o meu ingresso, na verdade, era para o filme sem A. Não que haja deméritos demais no filme Tim Burton, que nem vi ainda, mas porque, entre os de aparência “infantil”, a tendência monopolizadora é ir para o lado hollywoodiano – e muitos deixarem de ver essa ótima opção para o gênero da animação via comédia.

    Apesar da acessibilidade incompleta para a maioria [trata-se de paródia a Sissi (1955), filme austríaco de Ernst Marichka com Romy Schneider e também com o trinômio império-Baviera-arrogância], ele não é exatamente anti-Hollywood. Afinal de contas, não dá para taxar assim um filme com referências que vão da própria Alice a Kink Kong, passando por Titanic e O Pecado Mora ao Lado.

    Por outro lado, Lissi é um belo exemplo de narrativa com humor sutil e crítico; só que com toques do politicamente incorreto, o que é cada vez mais difícil de ver em produções com amplo alcance em Hollywood. Ainda que seu melhor talvez esteja, de fato, no que pode ser tirado de situações estapafúrdias.

    Herbig consegue, por exemplo, fazer um diálogo entre o abominável homem das neves e o diabo; desenha um rei decadente com aparência roquenrol, em crise existencialista, para conversar (sem resposta) com Deus; sacaneia, várias vezes, a parte doentia de tudo estar à venda; e ainda consegue, no século XIX, enxertar a importância toque do celular (!). Mentes ordinárias não chegam a tanto.

    Por mais que a maioria das críticas carregue uma dose até maior de ingenuidade (e pouco de forte como crítica de fato) e por mais que ele não tenha vergonha de abrir concessões (que vão do pastelão destoante – mas que prende as crianças – ao final hiper-adocicado), Lissi… não deixa de ser um exemplo de uma animação (e um tipo de comédia) com algo de genuíno. Pouco lembra o oásis de criatividade que é a Pixar, flerta com o que existe de não exatamente louvável na comédia-romântica genérica americana, mas consegue trazer um resultado que tem algo ligado ao local e a quem o fez.

    Filmes da semana

    1. Estranhos no Paraíso (1984), de Jim Jarmusch (DVDRip) (***)

    2. Jovens, Loucos e Rebeldes (1993), de Richard Linklater (DVDRip) (***)

    3. O Encouraçado Potemkin (1925), de Sergei Eisenstein (DVDRip) (hc)

    4. Onde a Terra Acaba (2001), de Sérgio Machado (DVDRip) (***1/2)

    5. Ela Matou em Êxtase (1971), de Jess Franco (sala Alexandre Robatto – DVD) (**)

    6. Lissi no Reino dos Birutas (2007), de Michael Herbig (Multiplex Iguatemi) (***)

    7. À Meia-Luz (1944), de George Cukor (DVDRip) (***)

    8. Quincas Berro D’Água (2010), de Sérgio Machado (Teatro Castro Alves – Pré-estreia) (**)

    Top-10 abril:

    10. A Caixa (2009), de Richard Kelly (Multiplex Iguatemi) (***)

    9. Lissi no Reino dos Birutas (2007), de Michael Herbig (Multiplex Iguatemi) (***)

    8. Le Dernier Jour (2004), de Rodolphe Marconi (DVDRip) (***)

    7. Onde a Terra Acaba (2001), de Sérgio Machado (DVDRip) (***1/2)

    6. Crimes e Pecados (1989), de Woody Allen (DVDRip) (***1/2)

    5. Macbeth (1948 – 114minutos), de Orson Welles (DVDRip) (***1/2)

    4. O Filho da Noiva (2001), de Juan José Campanella (DVD) (***1/2)

    3. Comédias e Provérbios: Pauline na Praia (1983), de Eric Rohmer (DVDRip) (****)

    2. Antes do Pôr-do-Sol (2004), de Richard Linklater (DVDRip) (****1/2)

    1. Noite Americana (1973), de François Truffaut (DVD) (****1/2)

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    Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”.

    Tempo de leitura: 3 minutos




    Leandro Afonso | www.ohomemsemnome.blogspot.com

    Que eu tenha visto, o melhor resumo do maior porém de O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de sus Ojos – 2009, Argentina/ Espanha), de Juan José Campanella, foi feito por Filipe Furtado. Na comunidade do Cinemascópio no Orkut, ele disse que “a história policial ocupa 70% do filme, a história de amor horrivel ocupa 70% das preocupações do Campanella”. Mas, verdade seja dita, não acho nem a história de amor nem o filme (tão) ruins quanto ele.

    Por mais que o diretor (do ótimo O Filho da Noiva e do meio fraco Clube da Lua) invista tanto no que há de menos convincente (o romance), temos um ótimo roteiro, ótimas atuações (exceção feita à não exatamente expressiva Soledad Villamil) e uma direção relativamente firme. Enquanto filme policial, ele segue um inevitável esquema, mas traz ainda algo de genuíno, com um gênero essencialmente americano com pitadas de um certo jeito de ser platino. Já o plano-sequência no estádio de fato é vaidoso, e parece filmado para chamar mais atenção para si do que para ajudar no ritmo do filme, mas é incrível não só sua engenhosidade, como tudo que Campanella reúne em uma única cena.

    Nela, ele junta a paixão pelo futebol (daquele povo no estádio), pelo filmar (por mais narcisista que seja, só um apaixonado pelo ato pensa em plano tão megalômano) e por uma causa, a busca pelo assassino Nesse momento, ele é feliz nos três pontos. E embora apenas aí ele comulgue, numa mesma cena, o sucesso da trinca, em outras ele faz com que pelo menos um elemento delas funcione.

    Como exemplos mais claros temos a discussão no bar que os leva ao estádio, a cena em que a advogada Irene (Villamil) percebe que o assassino é de fato o culpado (e o que ela faz), o momento em que ela pensa erroneamente que Benjamín (Darín excelente, como sempre) flerta com ela, e a descoberta do paradeiro do assassino.

    Por mais que o filme tenha os seus poréns escancarados, ele também consegue reunir elementos a princípio – e que de fato se mostram algo – incompatíveis (o romance com pretensões eternas e melodramáticas dentro de um filme policial) para chegar a um todo cuja eficácia é mais estranha que infeliz. E se o resultado está longe de ser brilhante, por outro lado é tão oscilatório dentro de um caráter pré-determinado (claramente comercial) que não dá pra chamar de medíocre.

    Visto no Cine Vivo – Salvador, abril de 2010.

    O Segredo dos seus Olhos (El Secreto de sus Ojos – 2009, Argentina/ Espanha)

    Direção: Juan José Campanella

    Elenco: Ricardo Darín, Soledad Villamil, Pablo Rago, Javier Godino

    Duração: 127 minutos

    Projeção: 2:1

    8mm

    Tempo

    Vi As Melhores Coisas do Mundo na antevéspera de O Segredo de Seus Olhos. Um teve cinco, o outro teve sete dias para digestão. E embora a cotação de ambos tenha sido a mesma a princípio, filme de Campanella parece agradar (bem) mais ao se pensar nele.

    Griffith

    Em alguns filmes não vou usar o sistema de estrelinhas. Isso porque, como no caso de um D.W. Griffith [e praticamente tudo dele, embora aqui fale especificamente de seu Lírio Partido (1919)], existe tanta coisa por trás dele e do filme que soaria injusto colocá-lo no mesmo nível dos outros – é hors concours.

    A propósito, o que são as imagens do sorriso?!

    Filmes da semana

    1. Rashômon (1950), de Akira Kurosawa (DVDRip) (***)
    2. 2. O Segredo de seus Olhos (2009), de Juan José Campanella (Cine Vivo) (***)
    3. Macbeth (1948 – 114minutos), de Orson Welles (DVDRip) (***1/2)
    4. Lírio Partido (1919), de D.W. Griffith (DVDRip) (hc)
    5. Antes do Pôr-do-Sol (2004), de Richard Linklater (DVDRip) (****1/2)
    6. 6. O Cavalheiro do Telhado e a Dama das Sombras (1995), de Jean-Paul Rappeneau (Walter da Silveira) (**)
    7. 7. A Moça com a Pistola (1968), de Mario Monicelli (Walter da Silveira – DVD) (**1/2)
    8. Identificação de Uma Mulher (1982), de Michelangelo Antonioni (DVDRip) (**1/2)

    Curta:

    1. Noite de Sexta Manhã de Sábado (2006), de Kleber Mendonça Filho (Vimeo) (****)

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    Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”.

    Tempo de leitura: < 1 minuto
    Os Javalis tem entrada franca e começa às 20h, no Centro de Cultura.

    É daqui a pouco, às 20h, no Centro de Cultura Adonias Filho, a apresentação da peça teatral Os Javalis, de Gil Vicente, encenado por Marcelo Praddo e o itabunense Carlos Betão, do Teatro Nu.

    Além da qualidade da peça, outro atrativo: o espetáculo é gratuito, faz parte de uma estratégia de formação de plateia no interior. A próxima apresentação de Os Javalis será em Camacan, no domingo, às 18h, no Centro Sócio-Cultural Stélio Pereira Andrade.

    Tempo de leitura: 5 minutos





    Leandro Afonso | www.ohomemsemnome.blogspot.com

    As Melhores Coisas do Mundo (idem – Brasil, 2010), de Laís Bondanzky (Bicho de Sete Cabeças, Chega de Saudade), tem a ideia de “falar do adolescente e para eles”, em palavras da própria diretora acessíveis no kit entregue à imprensa antes da cabine realizada na terça-feira (13). O que, se por um lado ajuda a deixar clara a intenção do filme, por outro deixa ainda mais límpida a briga entre o que o filme tenta ser e o que, na maior parte do tempo, parece ser – e talvez de fato seja.

    Ele tem momentos de fluência notável, que beiram ou alcançam o brilhantismo. Mas em meio a momentos altos e de certa aparência genuína (como a conversa entre os irmãos sobre virgindade, e o momento em que Mano, para querer transar com “a gostosa” da turma, se perde ao querer tocar Something – isso para não falar na cena dos ovos), As Melhores Coisas do Mundo assume um caráter excessivamente genérico.

    É evidente que Mano pode ter uma adolescência “normal”, mas o problema é quando o caráter ordinário da descoberta chama mais atenção por do que ela em si; quando o ato de conhecer e se conhecer parece pré-programado e independente de como acontece.

    Por outro lado, é verdade que o filme cresce ao abrir várias janelas para os conflitos de outros personagens. Temos homossexualismo, bissexualidade (no início, é natural pensamos que Mano tem dúvida – mesmo velada – quanto ao seu caráter hétero), e traição, sem soluções fáceis para nada disso a princípio.

    Em meio a um natural tom pouco maduro levado no filme (não dá pra cobrar de jovens de 15 anos – que ali predominam – inteligência, sensatez e vivência), vemos, através de pequenos detalhes, como é difícil não só o ser adolescente, como também a convivência com os adultos, e a relação dos adultos com eles. Existe beleza e crueldade no crescer e errar, e Bondanzky é feliz ao nos mostrar ambos – ainda que peque na parte final, e ainda que use seu público alvo como álibi para isso.

    Em cena que se passa no hospital, carregada de sincera rebeldia, o filme atinge seu ápice: diferentes e diferenças expostos e analisados, mas sem pretensão salvadora ou forçadamente otimista. Embora me pareça que o resultado seria muito mais contundente se os créditos subissem ali, o filme prefere abdicar do interessante naturalismo usado anteriormente para substituí-lo por uma incompatível abstração; vemos uma pretensa poesia em um texto que é todo prosa. E, em um alongamento cada vez mais nocivo, toda a complexidade abordada se converte no simplório “final feliz”. É como se tudo que aconteceu até ali, com os outros, fosse jogado para debaixo do tapete, apenas porque seu personagem principal “venceu” ao passar por aquela etapa.

    O adolescente retratado por Bondanzky, o “falar deles”, (por mais que os “micros” sejam mais eficientes que os “macros”) é complexo e fascinante – como a época. Já o adolescente público, o “para eles”, (especialmente se nos atermos aos últimos cinco minutos) é tratado como alguém que precisa de uma pré-formatada dose de otimismo – para não dizer alienação. As duas partes são tão fortes quanto conflitantes.

    As Melhores Coisas do Mundo (idem – Brasil, 2010)

    Direção: Laís Bondanzky

    Elenco: Francisco Miguez, Gabriela Rocha, Fiuk, Denise Fraga, Caio Blat, Paulo Vilhena, Julia Barros.

    Duração (não divulgada): aproximadamente 115 minutos

    8mm

    Shosanna

    Um homem e uma mulher a princípio estranhos se encontram e vão para a casa dele, rapaz misterioso que passa a se envolver com ela e um amigo. A partir daí, Le Dernier Jour (O Último Dia, em tradução literal), de Rodolphe Marconi (prodígio que ganhou melhor curta em Cannes aos 22 anos), passa a funcionar entre os três e com outra relação paralela.

    A construção do envolvimento entre todos eles, especialmente no diferenciado triângulo amoroso, oscila entre a apatia e o minimalismo. O que talvez represente o que eles sentem, também talvez nos leve a procurar ali mais do que talvez de fato exista. Porque se a apatia é tão relevante àquela relação, esta (e outra, com frieza semelhante) não pode se mostrar tão convincente quanto Marconi quer nos mostrar mais adiante. Até porque o lado humano é potencializado pela maneira quase claustrofóbica de se filmar, com absurda ênfase nas expressões. Ainda que tudo isso seja relativizado com a reviravolta final.

    O choque é maior devido ao aparente marasmo (sem necessária conotação negativa) de todo o filme, é verdade, mas também forte o suficiente para – aí sim em sintonia com a crise do personagem – nos levar de volta à cena de abertura. Após ela, chegamos de fato a um final que, acompanhado de curiosa narração, deixou um sentimento confuso – não sei se funciona ou não.

    Le Dernier Jour é muito irregular, mas seus altos e baixos talvez ajudem a melhor compreender a espécie de depressão sentida por Simon (Gaspard Ulliel, entre o tédio e o enigma). E, independente da hipotética intencionalidade dessa variação, em um dos altos do filme, vale destacar a sequência da boite, ao som de Mammy Blue com toque francês. Digna de alguma antologia, ela – e quase todo o filme – tem a presença da já ali promissora Shosanna de Bastardos Inglórios: Mélanie Laurent.

    Setaro

    Na quarta-feira (14) participei do Clube da Crítica, em hora e meia de debate que valeram (mais que muito livro ou texto sobre crítica e cinema) muito graças principalmente ao convidado paulistano Sergio Alpendre e a André Setaro. Que, na terça (13), teve enfim lançada uma coletânea com escritos seus sobre cinema. Muito se falou sobre Setaro antes, durante e depois da cerimônia, lá e em vários sites e jornais. Pra não me alongar, o que posso dizer dele é que, mesmo sem escrever com a frequência de outros tempos, pra mim é o maior crítico baiano vivo – de longe, provavelmente. Obrigado, Setaro.

    Filmes da semana

    1. Bonnie e Clyde (1967), de Arthur Penn (DVDRip) (***)

    2. Le Dernier Jour (2004), de Rodolphe Marconi (DVDRip) (***)

    3. Zabriskie Point (1970), de Michelangelo Antonioni (DVDRip) (**1/2)

    4. Os Desafinados (2008), de Walter Lima Jr. (DVDRip) (**1/2)

    5. As Melhores Coisas do Mundo (2010), de Laís Bondanzky (Multiplex Iguatemi – cabine de imprensa) (***)

    6. A Caixa (2009), de Richard Kelly (Multiplex Iguatemi) (***)

    7. A Cor do Romã (1968), de Sergei Parajanov (DVDRip) (***)

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    Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”.