Randolpho Gomes | oquadro2@bol.com.br
No centro de Ilhéus, existe um índio. Os seus traços faciais não escondem a sua evidente descendência. Não, ele não anda com arco e flecha na mão, e sim com um saco, carregando seus fétidos pertences. Ele também não traja as vestes características da sua etnia, e sim trapos sujos e rasgados. Esse indígena já não domina o dialeto dos seus ascendentes, na verdade ele nem fala direitamente o português. Apenas emite uns tímidos grunhidos, que podem ser traduzidos como: “me dê uma esmola pelo amor de Deus!”.
Será ele um Tupinambá, um Tupiniquim ou um Pataxó? Pouco importa, sob a ótica dos valores em voga ele não é ninguém. Talvez um pária, um Dalit, que vive a inundar de repulsa os sentimentos alheios.
Esse indígena não vive mais em tribo, é um andarilho solitário. Os seus pares são outros moradores de rua, caboclos, mestiços, afrodescendentes e talvez até outros índios, cujas circunstâncias os fizeram também seres sem identidade. Esse citado cidadão vive a perambular pelo centro histórico de Ilhéus, já não se utiliza das técnicas dos seus ancestrais para caçar e se alimentar.
Ele gasta seu tempo a vasculhar os nossos lixos, à procura de restos de comida, latinhas de alumínio ou qualquer outro atrativo. Vive a importunar os turistas e as pessoas de “casta”, que buscam um pouco de entretenimento nos pontos turísticos da cidade. Principalmente os que apreciam um aprazível fim de tarde em uma famosa praça local, que leva o nome de um ilustre poeta baiano. Muitos o consideram como um marginal, pois trata-se de um pobre viciado nos entorpecentes que a mesma sociedade que lhe vira as costas, lhe disponibilizou em doses cavalares.
Tal andarilho errante é possivelmente um descendente dos Tupinambás. Talvez seus longínquos ascendentes foram aqueles dizimados na chamada batalha do Cururupe, que é considerado o maior genocídio da nossa história. Os que sobreviveram a esse massacre fugiram para longe, e se agruparam em bolsões de miséria que hoje em dia são conhecidos por favelas. Logo eles que tinham nas exuberantes matas locais os seus habitats naturais. Lá eles caçavam, se banhavam nas límpidas águas dos rios e marés e viviam em plena harmonia com a natureza.
As circunstâncias os fizeram intrusos, pois as suas sagradas terras, que sempre abrigaram o seu povo, agora eram de interesse de terceiros, que cruzaram os mares motivados pela cobiça. “Índio bom é índio morto!”, não se cansavam de afirmar os novos proprietários dessas terras. Pois, segundo suas crenças, tratava-se de seres inferiores, desprovidos de almas. Muitos desses indígenas se conformaram e passaram a crer que, de fato, eram seres “menores”. Sem direitos, sem honra, sem dignidade.
Mas com o passar dos anos as coisas começaram a mudar. “Caras pálidas” de bons corações passaram a reconhecer a importância de tal etnia e suscitaram políticas públicas no intuito de devolverem a esses indígenas, parte daquilo que lhes fora usurpado criminosamente. Andam falando até de alguns hectares, lá pelas bandas de Olivença, onde os espíritos dos seus ancestrais ainda perambulam em busca de justiça.
Mas parece que nada mudará, pois esse mesmo local é do interesse de muitos. Inclusive de alguns poderosos, descendentes diretos dos donatários da Capitania Hereditária do São Jorge dos Ilhéus. Os mesmos que entoavam que índio bom é morto. Eles agora insistem em propagandear que por essas bandas nunca houve índios. E que os que afirmam que são, tratam-se de “meros oportunistas”, “aproveitadores da pior estirpe existente”, que querem “roubar” as terras e com isso abalar profundamente a economia do município.
Mas para aquele índio que, com certeza nesse momento deve estar vasculhando alguma lata de lixo ou se entorpecendo às escuras, nada importa. Nem demarcação de terras, nem fraudes por parte da Funai nem discursos nazi-fascistas de representantes do povo. Nada importa. E ninguém se importa com ele. E você, se importa?
Randolpho Gomes é jornalista e editor do Diário de Ilhéus.





















