Leandro Afonso | www.ohomemsemnome.blogspot.com

Desde créditos iniciais, somos apresentados a parte do mapa da França, que o personagem principal percorre de sul a norte; região mais fria, chuvosa e com sotaque e dialeto diferenciados para onde Phillipe (Kad Merad) se muda. Boon trabalha com muito do que é clichê em qualquer adaptação e mudança de ambiente, só que com caráter regionalizado. O que se nos leva a pensar que somente os franceses podem captar tudo que existe ali, de bom e de ruim, de caricatural e de verossimilhante.
Para um não francês – especificamente, alguém que entende apenas um pouco da língua e tudo que sabe de lá é sem nunca ter ido –, tudo isso se torna secundário, e o que fica é a comédia. O texto e as gags visuais, mesmo gritantes em alguns raros momentos, são maravilhosos. O momento em que lhe é dito que algo de ruim acontecerá (comparação com Paris), o espasmo de deficiente, as paradas da Polícia, a mudança da mulher, a recepção dos nortistas em solidariedade a ele – não são poucos os momentos dignos de nota.
Ponderado o desafio, o sucesso também vale para a tradução usada no Brasil – ou pelo menos à cópia que, essa semana, esteve no Cinema do Museu em Salvador. Ainda que a tradução tenha passado a ideia de que o sotaque do norte da França, no geral, seja equivalente ao carioca (o que me parece não ter sentido), foi uma saída, e difícil cravar em outra como indiscutivelmente melhor.
Em meio a essa incapacidade geográfica de total absorção da obra, fica a comédia. E A Riviera não é Aqui, como tal, é bem boa.
Visto no Cinema do Museu – Salvador, julho de 2010.
8mm
* A Riviera não é Aqui, enquanto esteve em exibição na França, conseguiu um público de 20 milhões – o país tem 65. Com 190, nosso filme de maior alcance interno recente (Se Eu Fosse Você 2) levou 6 milhões às salas; e o maior da história nacional (quando o brasileiro ia ao cinema), é Dona Flor e seus Dois Maridos (1976), que sequer chegou a 11.
* Será que só eu não gostei de Brilho de uma Paixão (2009), de Jane Campion?
Filmes da semana
1. Cabaret (1972), de Bob Fosse (DVDRip) (***)
2. A Riviera não é Aqui (2008), de Dany Boon (Cinema do Museu) (***1/2)
3. A Todo Volume (2008), de David Guggenheim (DVDRip) (**1/2)
4. O Show deve continuar (1979), de Bob Fosse (DVDRip) (***)
5. À Prova de Morte (2007), de Quentin Tarantino (UCI Multiplex Iguatemi) (****1/2)
Curta:
6. La Jetée (1962), de Chris Marker (DVDRip) (*****)
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Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”.
<p style=”text-align: center;”><a href=”http://www.pimentanamuqueca.com.br/wp-content/uploads/Final-3.jpg”><img class=”aligncenter size-full wp-image-30092″ title=”Final 3″ src=”http://www.pimentanamuqueca.com.br/wp-content/uploads/Final-3.jpg” alt=”” width=”42″ height=”13″ /></a></p>
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<p><strong>Leandro Afonso</strong> | <a href=”http://www.ohomemsemnome.blogspot.com”>www.ohomemsemnome.blogspot.com</a></p>
<p><em><img class=”alignright” src=”http://roteiroceara.uol.com.br/wp-content/uploads/2009/09/BLOG2_viajo_porque_preciso_volto_porque_te_amo_cultura.jpg” alt=”” width=”368″ height=”182″ />Viajo porque preciso, volto porque te amo</em> (<em>idem</em> – Brasil, 2009), de Karim Aïnouz (<em>O Céu de Suely</em>, <em>Madame Satã</em>) e Marcelo Gomes (<em>Cinema, Aspirinas e Urubus</em>), é um <em>road-movie </em>experimental (também por isso inevitavelmente irregular) que tem de melhor o que de melhor seus dois diretores podem oferecer – especialmente Aïnouz. É um filme em um meio, o semi-árido nordestino, e sobre sentimentos – carinho, amor, rejeição – já visitados por ambos, mas trata também e principalmente das divagações e aflições do personagem principal.</p>
<p>Faz sentido dizer que a maioria dos planos de <em>Viajo porque preciso…</em> não tem significado concreto ou função narrativa. Do mesmo modo, praticamente tudo aquilo que visa o horizonte e paisagens afins dura mais que o que o plano de fato mostra – mas esses fatos são menos um demérito que uma defesa da contemplação. E ainda que muitas vezes simplesmente não haja o que ser contemplado, faz parte do personagem esse sentir-se parado – a agonia e o tédio do personagem chegam a nos atingir, às vezes, sem eufemismo algum</p>
<p>Em filme que se assume tão ou mais experimental quanto narrativo, temos aí, no entanto, talvez – e paradoxalmente – uma tentativa de evitar uma monotonia que a ideia do filme sugere. Quase tudo não acontece em cena, mas na cabeça do personagem principal, a escrever suas cartas – trata-se de um filme epistolar de mão única. Como, então, filmar isso – algo tão ligado a um diário, algo a princípio tão anti-audiovisual?</p>
<p>Não temos uma resposta, mas uma opção arriscada, na qual os melhores momentos vêm de depoimentos (prostituta falando em vida-lazer, por exemplo), quando percebemos que os dois souberam extrair uma sinceridade tocante que emana daqueles que dirigem. Isso sem falar do personagem como entrevistador/provocador, em situação que nos liga inevitavelmente a ele fazendo o papel de diretor.</p>
<p>Esse caráter experimental, contudo, pode camuflar desnecessários tremeliques de câmera ao mostrar o personagem em meio à sua jornada, uma vez que não dá para chamar de experimental (ou dar qualquer mérito aqui) o que já virou um quase padrão – a câmera na mão nos dias de hoje.</p>
<p>Ainda assim, vale dizer que os altos do filme atingem um nível de sensibilidade que vem, entre outras coisas, justamente dessa abstração da narrativa convencional: da por vezes completa imersão em um mundo acima de tudo sensorial. Torto, talvez fatalmente torto, talvez o mais fraco trabalho de ambos, mas com momentos de coragem e brilhantismo bem-vindos.</p>
<h2><span style=”color: #800000;”>8mm</span></h2>
<p><strong>Paixão do visível</strong></p>
<p style=”text-align: left;”><em><img class=”aligncenter” src=”http://harpymarx.files.wordpress.com/2009/03/sylvia2.jpg” alt=”” width=”480″ height=”270″ />Na Cidade de Sylvia</em> (<em>En La Ciudad de Sylvia</em> – Espanha/ França, 2007) é meu primeiro contato com José Luis Guerín, catalão que teve três de seus longas exibidos no Panorama Internacional Coisa de Cinema. (Alguém sabe falar sobre?)</p>
<p>Guerín se mostra preocupado com a cidade, às vezes mais que com seus dois personagens principais, ou – o que pinta com alguma prioridade – as relações entre personagens diversos e o lugar onde vivem. No entanto, a busca dele (Xavier Lafitte) por ela (Pilar López de Ayala) é interessante a ponto de causar angústia quando algo foge do esperado. Ele desenha e retrata a cidade, é ele o mais afetado e sobre quem é o filme, é ele que não sabemos de fato o que sente, viveu ou viu; mas é ela que magnetiza a tela quando aparece.</p>
<p>Todavia, e felizmente, o filme vai além da contemplação de um sensacional rosto de uma boa atriz. Pode-se entrar em longas discussões e análises sobre memória e imagem, sobre miragem e dúvida; em uma palavra, sobre cinema. E, o que é melhor, através do cinema.</p>
<h2><span style=”color: #800000;”>Filmes da semana<br />
</span></h2>
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<li><strong>Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009), de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes (Cine Vivo) (***)</strong></li>
<li><strong>Batalha no Céu (2008), de Carlos Reygadas (sala Walter da Silveira) (***1/2)</strong></li>
<li><strong>O Refúgio (2009), de François Ozon (Espaço Unibanco – Glauber Rocha) (***)</strong></li>
<li><strong>O Profeta (2009), de Jacques Audiard (Espaço Unibanco – Glauber Rocha) (***1/2)</strong></li>
<li>O Demônio das 11 Horas (1965), de Jean-Luc Godard (DVDRip) (****)</li>
<li>Na Cidade de Sylvia (2007), de José Luis Guerín (DVDRip) (***1/2)</li>
</ol>
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<p><strong>Leandro Afonso</strong> é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”.</p>












A bela e inconfundível arte de Waldyrene Borges encontra-se na exposição “Memórias Herdadas”. Até o dia 30 de julho, os quadros da artista podem ser apreciados no Jequitibá Plaza Shopping, onde o público tem a oportunidade de conferir as novas técnicas introduzidas por ela em seu trabalho já reconhecido.

Várias auto-citações e divagações fílmicas que remetem à falação desenfreada de 
15 anos após a estreia no longa-metragem com o primeiro
Em 
Três das palavras que sempre remetem aos irmãos Coen (
Viajo porque preciso, volto porque te amo (idem – Brasil, 2009), de Karim Aïnouz (O Céu de Suely, Madame Satã) e Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus), é um road-movie experimental (também por isso inevitavelmente irregular) que tem de melhor o que de melhor seus dois diretores podem oferecer – especialmente Aïnouz. É um filme em um meio, o semi-árido nordestino, e sobre sentimentos – carinho, amor, rejeição – já visitados por ambos, mas trata também e principalmente das divagações e aflições do personagem principal.
Na Cidade de Sylvia (En La Ciudad de Sylvia – Espanha/ França, 2007) é meu primeiro contato com José Luis Guerín, catalão que teve três de seus longas exibidos no Panorama Internacional Coisa de Cinema. (Alguém sabe falar sobre?)
É comum biografados ou documentados segurarem filmes pelas suas presenças ou pelos seus passados. O melhor expoente brasileiro talvez seja Pelé Eterno (2004), de Anibal Massani Neto, e um exemplo recente é o Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague (2009), de Emmanuel Laurent. Nesses casos, e em alguns outros, o resultado pode vir de uma preguiça do realizador, mas também de uma incontrolável intensidade daquilo tratado na tela. Filhos de João – O Admirável Mundo Novo Baiano (idem – Brasil, 2009), estreia na longa-metragem de Henrique Dantas, se encaixa muito mais no segundo caso.
Uma emissora argentina faz um documentário sobre Recife, que misteriosamente vê suas temperaturas caírem depois de atingida por um objeto, aparente motivo da mudança climática. Entre outras coisas, o documentário fala sobre a cidade e seus defeitos, e fala sobre as diferentes reações e diferentes justificativas que cada um busca para encarar o fenômeno.

Há quem diga que ele não passa de um pastiche deslumbrado com a Nouvelle Vague, que viu apenas os filmes “certos” dos diretores “certos”, que não passa de um cinéfilo de butique. Mas tudo de “ruim” que dizem de Christophe Honoré (Em Paris, Canções de Amor) não faz sentido se seus filmes me comunicam algo à maneira dele: um emaranhado de referências e misturas inevitáveis que não o impedem de, na medida do possível e do impossível, soar único. Como em A Bela Junie (La belle personne – França, 2008), provavelmente seu melhor filme.

O Robin Hood de Ridley Scott é (extra)ordinário a ponto não só de me deixar sem palavras, como de me fazer esquecer uma das poucas coisas boas dele. Subexplorada, é verdade, mas está lá. Excelente em A Bela Junie (2008) e com ponta (uma das filhas assassinadas no início) em Bastardos Inglórios (2009), todo o desconforto passado por Léa Seydoux ao interpretar uma francesa em meio inglês – sem saber se por limitação dela ou de Ridley Scott – deixa a impressão de que ela é fraquinha que só. Que ela não é nada além de um belo rosto francês, que remete a ninguém menos que Anna Karina. Por favor, ela não é só isso.







