Tempo de leitura: 5 minutos

70-mm

final 4

IngloriousBasterds_2_Set2009

Antes de um filme de guerra, comédia e drama – ao mesmo tempo –, Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds – EUA/ Alemanha, 2009) é, talvez muito mais do que todos os outros, um filme de Quentin Tarantino. O que não quer dizer exatamente que o resultado não passe de uma repetição de maneirismos em defesa de uma satisfatória e segura egotrip, mas sim que, embora exista em Tarantino um ego gigantesco (e já característico), este parece tão grande quanto a vontade de, enquanto se diverte, testar mais do que nunca seu próprio talento enquanto cineasta.

A primeira cena de Bastardos Inglórios é a mais longa numa abertura dele, mais lento e contido desde a linda apresentação de créditos. A não menos bela – e educadamente tensa – conversa entre o Coronel Hans Landa (Christoph Waltz – extraterrenamente sensacional) e Perrier LaPadite (Denis Menochet – muito bom) remete ao diálogo entre Christopher Walken e Dennis Hopper no ótimo Amor à Queima-Roupa (1993) – roteiro que ele (infelizmente) vendeu para Tony Scott –, com o adendo de aqui Tarantino se arriscar mais; pela duração, pela não interferência de personagens, e por dirigir, logicamente. Numa cena em que duas pessoas conversam durante 20 minutos, é bonito perceber a plateia em silêncio hipnótico por tanto tempo sem que, para isso, a câmera tenha de dar piruetas. QT, completamente hábil em prender a atenção do público na base da escrita e em cuidadosa decupagem, se mostra um puritano do tripé, da steady cam e de gruas – nada de câmera na mão chamando atenção para os seus próprios tremeliques.

Esse mesmo puritanismo – nada novo, mas aqui elevado a enésima potência – Tarantino demonstra no que diz respeito ao cinema como ele vê. E este cinema é película – com direito a uma quase ojeriza pelo digital – e, bem diferente da maioria de Hollywood, respeito à língua e admiração pelo cinema de outros países. O que, convenhamos, é assaz coerente com alguém cuja maior influência é de diretores italianos (de Sergio Leone a Mario Bava) e cuja produtora leva o nome de um filme francês – Bande à Part, de Jean-Luc Godard.

O mesmo respeito, todavia, não é visto no que diz respeito à história – o que não é necessariamente um defeito, e o que vejo como justamente um dos maiores trunfos aqui. Não existem apenas inúmeros filmes sobre a segunda guerra, mas sim incontáveis obras marcantes e estudiosas do tema. No entanto, nenhum filme (que eu me lembre) teve a audácia de se revelar tão (re)escritor da história já conhecida – e reconhecida. E, mais do que uma afronta, essa reconfiguração histórica funciona como um deleite impossível fora do cinema.

Vingança é o pano de fundo, a lembrança de Kill Bill é várias inevitável, mas a descarga é catártica, e chega a remeter, embora de maneira bem rápida e diferente, a Vá e Veja (1985), de Elem Klimov, filme diametralmente oposto sobre (o horror bielorusso n)a mesma segunda-guerra. O diálogo com a obra-prima soviética, porém, não vai além disso, já que o que Tarantino faz é entretenimento – de onde menos se espera. É curiosa sua construção caricata (em harmonia com o espírito do filme) e por vezes lindamente infantil dos próprios conterrâneos, especialmente de Aldo Raine (Brad Pitt – não apenas hilário), natural do Tennesse, como o próprio QT. Tarantino é absurdamente hollywoodiano no seu fim (entretenimento), mas seu êxito maior é conseguir chegar a esse fim com um tom cinéfilo e zombeteiro; comprometido acima de tudo com o cinema dele – aqui mais do que nos seus outros filmes.

Esse seu tom autoral é visto inclusive no momento em que ele parece pecar por ir onde nunca foi anteriormente, ao tornar a trilha, antes (ou além) de um reforço de estilo, um potencializador de sentimento; trazendo uma aparência surpreendentemente genérica. Abruptos cortes secos (e de atmosfera) dão a certeza de que ele não quer ser piegas, mas não a de que consegue o equilíbrio entre moderação e sensibilidade sem que, para isso, se desvirtue de um filme tão absolutamente estilizado (e num mundo diferente) até ali. Talvez, e aí vai um talvez em caixa alta, seja o próprio Tarantino (re)conhecendo um (enfim) auto-limite: “ei, isso não encaixou tão bem quanto poderia, não sou tão bom aqui quanto no resto”.

A prova de que esse talvez merece ser relativizado vem no final. Quem já leu algo do que Tarantino falou sobre Bastardos Inglórios sabe o que ele acha do filme, e – depois das mais de duas horas completamente apaixonadas – assistir a Brad Pitt dizer o que diz é imaginar as palavras saindo das mãos hiper-ativas de QT, falando em primeira e última instância de si (um tipo de personificação de um cinema) para o mundo – lembranças de Truffaut e Os Incompreendidos e Almodóvar e Má Educação foram imediatas. Com essa última frase, tudo que disse (sobre) e tudo que manifesta em Bastardos Inglórios, Tarantino nos dá a impressão de que, se não atingiu seu limite de talento – se é que isso é possível –, ele realmente fez aqui o filme que resume sua obra. Filme esse que, não por acaso, é uma ode não ao passado histórico, mas à infinita potencialidade cinematográfica de se fazer a própria história.

Numa situação hipotética, se fosse fazer um filme sobre a alarmante diminuição de água potável no mundo, Tarantino, muito provavelmente, enfocaria mesmo (o fim d)a película cinematográfica. Do que ele entende, pelo que ele se interessa, e o que ele ama o suficiente para escolher como protagonista de seus filmes mais ambiciosos – de Bastardos Inglórios à sua vida. É difícil que exista hoje, vivo, algum cineasta com tamanha combinação de audácia, talento e uma espécie de divertimento com o estado eternamente enamorado pelo próprio cinema.

P.s. 1: Ainda não sei precisar o quanto minha precária situação física influenciou no absorver do filme, mas – obviamente – irrelevante ela não foi. Muito dos Bastardos, de bom ou não, pode ter evaporado antes de ser digerido. Ou foi mal digerido…

P. s. 2: Texto escrito sem assistir ao À Prova de Morte (2007), o filme anterior de Tarantino lançado há mais de dois anos em Cannes e ainda inacreditavelmente inédito (comercialmente falando) no Brasil. A última previsão da Europa Filmes – a que tive acesso – falava em dezembro. Espero, mas não garanto.

Filme:            Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds – EUA/Alemanha, 2009)

Direção:         Quentin Tarantino

Elenco:          Brad Pitt, Mélanie Laurent, Christoph Waltz, Eli Roth

Duração:       153 minutos

8mm

Mais Itália

E Tarantino, deixando claro que os Western Spaghetti (para ele) não se resumem a Leone-Morricone, ainda nos dá o prazer de assistir a Shosanna (Mélanie Laurent – excelente) ao som da trilha de O Dólar Furado (1965), de Giorgio Ferroni. Ah, Itália..

Sem amantes

Um filme como Amantes (2008), de James Gray e com elenco de gente da popularidade do naipe de Gwyneth Paltrow e Joaquim Phoenix, numa quinta-feira às 16h20min, em Salvador. Ou seja, uma sessão deveras acessível. Pois bem, decorridos cinco minutos de projeção, eu era o único na sala – que viu os créditos finais subirem com o dobro do público.

Filmes da semana:

  1. 1. Bastardos Inglórios (2009), de Quentin Tarantino (cinema) (****)
  2. 2. Besouro (2009), de João Daniel Tikhomiroff (cinema – pré-estreia) (**)
  3. 3. Amantes (2008), de James Gray (cinema) (***1/2)

Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”

www.ohomemsemnome.blogspot.com

Tempo de leitura: < 1 minuto

Agulhão F. não gostou do comentário do prefeito Azevedo em relação à vereadora Rose Castro (“O que ela fez, não se faz” – veja aqui). Segundo o trovador, basta olhar os jornais para saber que a traição faz parte da lógica partidária. “Só quem não sabe disso é Azevedo, porque se faz de tolinho”, brinca:

Trair tem o mesmo jeito
que tem o verbo coçar,
e sabe bem o prefeito
que é bastante começar…
Começa e não para mais,
é só coçar uma vez,
por isso, se Rose fez
o que Rose fez… se faz!…
Traição, se bem conheço,
é o caminho da desgraça:
como se fosse cachaça,
só precisa de começo
pra atingir a embriaguez,
por isso, se Rose fez,
eu cá não a desmereço,
pois todo político faz…
Ainda inexperiente,
Rose tá “virando gente”
e vai fazer muito mais.!…
Tempo de leitura: < 1 minuto
.
Renan Silvio Santos será hoemanageado pelos confrades do Alto Beco do Fuxico

A Confraria do Alto Beco do Fuxico lembra, nesta sexta-feira (23 de outubro de 2009), os 10 anos de saudade do confrade Renan Sílvio Santos, falecido em virtude de infarto.

Para lembrar a data, a Confraria do Alto Beco do Fuxico reúne, à noite, no seu quartel-general etílico, os bares Whiskytório e Artigos para Beber, confrades e convidados para realizar uma homenagem póstuma.

Professor e advogado conceituado, Renan Sílvio Santos era uma das figuras mais carismáticas de Itabuna, que soube construir milhares de amigos em toda a sua vida.

Os trabalhos em homenagem à memória de Renan serão abertos pela Confraria do Alto Beco do Fuxico às 18h30min, e no cerimonial estão previstas atividades como uma saudação, lembranças e reminiscências ao amigo, brindadas com muita cachaça, cerveja e sarapatel.

Bem do jeito que ele gostava.

As informações são do blog Confraria do Alto Beco

Atualizado às 22h41min

Tempo de leitura: < 1 minuto

Ainda surfando no anúncio dos Jogos Olímpicos Rio 2016 e nos sinais de retomada do crescimento econômico, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prepara-se para colecionar mais dividendos políticos, dessa vez nas telas do cinema e em pleno ano eleitoral, quando todos os esforços estarão voltados para eleger a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, sua sucessora.

Lula, o Filho do Brasil, cinebiografia sobre o petista, será lançado em 1º de janeiro de 2010 com uma estratégia de distribuição que tem como objetivo torná-lo um dos maiores lançamentos do cinema nacional, desde a retomada da produção cinematográfica do País, em 1995.

Para isso, a produção recorrerá a tradicionais bases de sustentação política de Lula, como sindicatos, e a regiões onde ele tem alta popularidade, como no Nordeste. Um universo de 10 milhões de pessoas sindicalizadas poderá comprar ingressos a preços populares para assistir ao filme, que pretende chegar aos rincões do País em 2010.

A estreia será feita em mais de 400 salas, sendo que 88 delas não fazem parte do circuito convencional. O objetivo é levar o filme para públicos populares, fora do mercado consumidor tradicional.

Reveja o trailer do filme:

Tempo de leitura: < 1 minuto

Após uma temporada de 25 dias em Salvador, a Exposição Fotográfica Rio do Engenho: Festas, Saberes e Sabores chega a Ilhéus. Até este sábado (17) pode ser visitada no foyer do Auditório Paulo Souto, na Uesc. A partir do próximo dia 5, a exposição estará no Teatro Municipal de Ilhéus.

Anabel Mascarenhas e Joliane Olschowsky assinam os trabalhos – a curadoria é de Juliana Menezes, Gisane Santana e Mércia Cruz. A mostra retrata a cultura e vivência da comunidade do Rio do Engenho, distrito rural de Ilhéus, e explora o ambiente cultural, a gastronomia, a produção agrícola e a comercialização dos produtos cultivados.

Em Salvador, a exposição – na galeria Nelson Daiha, no Museu da Gastronomia Baiana, no Senac Pelourinho -, teve centenas de visitantes de São Paulo, Minas, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Paraná, além de turistas de alguns países, como Reino Unido, Argentina, França, Alemanha, Austrália, Chile e Dinamarca.

.
A exposição retrata o dia a dia da comunidade rural de Rio do Engenho, de Ilhéus
Tempo de leitura: < 1 minuto
Gustavo Felicíssimo
Gustavo Felicíssimo

O escritor e pesquisador Gustavo Felicíssimo lança, nos próximos dias 22 (Ilhéus) e 23 (Itabuna), seu mais recente trabalho – Diálogos – Panorama da nova poesia grapiúna.

Antes, nessa sexta-feira, ocorre o pré-lançamento durante o 1º Congresso Nacional Linguagens e Representações, que se realiza na Uesc até amanhã.

Em Ilhéus, o lançamento será na Academia de Letras, e em Itabuna, na Biblioteca Plínio de Almeida. Quem for aos eventos poderá ouvir também um texto baseado em nos estudos – Poesia Grapiúna: Da sua fundação aos dias de hoje.

Tempo de leitura: 3 minutos

70-mm

Final 2,5

.

Se a média geral de qualidade dos blockbusters é baixa, menor ainda é a média dos filmes de horror que chega à maioria de multiplexes e derivados. Assim, quando qualquer coisa tem, além de um mínimo de respeito ao espectador, relances de domínio sobre as especificidades de gênero (para dribá-las ou para usá-las), ela pode dar a impressão de ser mais do que é. E um exemplo de filme que me passou exatamente essa sensação foi A Órfã (Orphan – EUA/ Canadá/ Alemanha/ França, 2009), de Jaume Collet-Serra (do A Casa de Cera de 2005).

A apresentação à história é eficiente ao mostrar, além de um sangue que marca, o suposto parto de um bebê “nati-morto” que parece filho do demônio, tornando inevitável a lembrança de O Bebê de Rosemary (1968); onde, é bom diferenciar, o investimento maior era na sugestão, menos no horror do no terror. Aqui, no entanto, quase tudo parece sugado, como referência ou cópia disfarçada, de A Profecia (1976), de Richard Donner. O porém é que, se no caso anterior a questão era uma coisa ligada a uma certa para-normalidade não didaticamente convencível, o mistério aqui persiste até ser revelado palavra por palavra antes do final. Não há espaço para o (que pode ser charmoso e funcional) incompreensível.

Embora não tenha a mesma proposta de Pânico (1996), por exemplo, A Órfã trabalha com várias referências (apesar de em menor quantidade e tom diferente do filme de Wes Craven), mas não consegue fazer com que o filme funcione como uma coisa só. Se por um lado detalhes – ou bem mais – remetem imediatamente a clássicos, e se a princípio assistimos a uma versão interessante do já (bem) feito e filmado, por outro presenciamos o finalizar do filme com uma citação a O Chamado 2 (2005).

Esse percurso, que alguns podem (não sem razão) dizer que se foi do luxo ao lixo, não significa tornar necessariamente o resultado ruim. Mas passa a sensação de que A Órfã usa a voz de outros de maneira decepcionante. Ao invés de estudá-las para se tentar emitir um som treinado e bem referenciado (uma primeira impressão otimista), ela dialoga com elas para alcançar um timbre final apenas afinado – parece faltar talento natural para se ir além.

A personagem “diabólica”, os sustos, um possível humor, a construção do ambiente, da atmosfera, do medo, de possíveis cenas indeléveis, tudo isso não chega a ser mau feito ou constrangedor, mas não vai além do bem executado. Se for para avaliá-lo fora do gênero, ele tende a pecar já que as concessões tendem a se tornar menos indulgentes no que diz respeito à complexidade de personagens; o drama parece pré-programado a ponto de termos de voltar a vê-lo como um filme de terror para buscar alguma relevância nele. Que tem momentos inspirados, é verdade, mas que se tornam pequenos quando pensamos, também, em equivalentes (de ideia ou imagem-som) nas fontes das quais ele bebe.

Filme: A Órfã (Orphan – EUA/ Canadá/ Alemanha/ França, 2009)

Direção: Jaume Collet-Serra

Elenco: Vera Farmiga, Peter Sarsgaard, Isabelle Fuhrman

Duração: 123 minutos

8mm

Inglório

Outra vez de mudança e com tempo naturalmente escasso, o texto dessa semana chega com antecedência. O que vem na contra-mão da ideia inicial, que seria atrasá-lo para poder rabiscar as primeiras sensações após a sessão de Bastardos Inglórios (2009) – de Quentin Tarantino. A sessão não muda – se tudo der certo, verei sim no sábado (17) aqui em Salvador –, mas o texto sobre ele fica pra semana que vem.

Filmes da semana:

1. Antoine e Colette (1962), de François Truffaut (curta) (***1/2)

2. Na Natureza Selvagem (2007), de Sean Penn (**1/2)

3. A Órfã (2009), de Jaume Collet-Serra (**1/2) (cinema)

4. Por um Punhado de Dólares (1964), de Sergio Leone (***1/2)

5. Por uns Dólares a Mais (1965), de Sergio Leone (***1/2)

Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”

www.ohomemsemnome.blogspot.com

Tempo de leitura: < 1 minuto

De olho no transporte urbano de Itabuna e Ilhéus, Agulhão F. chama a atenção para o sofrimento que muitos ônibus, com seus assentos de metal e plástico, impõem a certa parte do corpo humano, um dissílabo ainda grafado com reservas em blogs de família. E o trovador, desiludido com os governos municipais (que deveriam impor regras às empresas do setor), apela para o imponderável.

Falaí, porta-voz dos passageiros!

A reclamação abunda
E esta vive em tormento,
pois ao sentar não afunda,
por ser bem duro o assento!…
Nossa parte mais carnuda,
dissílabo proeminente,
espera de Deus ajuda,
para não ficar dormente!…
Tempo de leitura: 3 minutos

70-mm

Final 3,5

.

Ter argumentos para criticar o estado atual das coisas só não é mais fácil do que cair em uma irritante vala de lugares-comuns na tentativa de fazê-lo. Geralmente, trata-se de repetir discursos e choros, de ser duplamente preguiçoso: primeiro ao abusar de clichês, depois ao nada fazer para ir além deles. Dito isto, é bom assistir a um (ganhador do prêmio ACID – Agência para Difusão do Cinema Independente – em Cannes) O Homem que Incomoda (Den Brysomme Mannen – Noruega/ Islândia, 2006), de Jens Lien, curioso caso de alguém com um jeito realmente especial de falar do viver contemporâneo; ainda que (ou também por isso) a realidade seja muito específica – a norueguesa.

O filme de Lien traz pouca empatia, tem relações (imagino que propositadamente) superficiais e mais um bocado de coisas que imediatamente ligamos à contemporaneidade, capitalismo, egoísmo e todo essa questão que, de um lado ou de outro, tende ao panfletário. Mas um dos grandes trunfos aqui, talvez o maior deles, está nos momentos de um ritmo mais lento, o que nos leva a uma contemplação que nos faz captar uma cena incômoda sem que ela se torne “inassistível”; a beleza é convocada em inusitadas cenas agonizantes – como a dos trilhos.

Não menos interessante é a ironia que o título carrega ao avaliarmos o personagem principal, alguém à margem da sua sociedade basicamente por ter sentimentos e problemas. Naquele mundo, a imperfeição é uma anomalia, e ele é informado de que, ali, todos são felizes – sendo assim, ele não é bem vindo. E embora esse momento assuma um didatismo que o filme conseguia brilhantemente evitar até ali, ele ajuda a representar bem o desespero que imaginamos – ou nem tanto, dado o que vemos depois – ser sentido por ele.

Quando alcança seu final, O Homem que Incomoda volta a mostrar força ao sugerir frieza e crueldade de maneira sutil, dando a cada um a possibilidade de visualizar (já que ouvimos e sentimos) a aflição alheia – que poderia ser a de muitos de nós. Em meio a uma possibilidade grande de cair em emulações fáceis, é difícil mesclar secura e delicadeza em doses razoáveis e de maneira tão equilibrada.

Filme: O Homem que Incomoda (Den Brysomme Mannen – Noruega/ Islândia, 2006)

Direção: Jens Lien

Elenco: Trond Fausa Aurvaag, Petronella Barker, Per Schaaning, Birgitte Larsen

Duração: 95 minutos

Filmes da semana:

  1. Vicky Cristina Barcelona (2008), de Woody Allen (***1/2)
  2. Roleta Chinesa (1976), de Rainer Werner Fassbinder (***)
  3. A Primeira Noite de Tranqüilidade (1971), de Valerio Zurlini (***1/2)
  4. Nós Que Nos Amávamos Tanto (1974), de Ettore Scola (***)
  5. Dançando no Escuro (2000), de Lars Von Trier (***)
  6. O Homem que Incomoda (2006), de Jens Lien (***1/2)
  7. Um Filme Falado (2003), de Manoel de Oliveira (***1/2)
  8. Faça a Coisa Certa (1989), de Spike Lee (**1/2)
  9. Benjamim (2003), de Monique Gardenberg (**1/2)
  10. Femme Fatale (2002), de Brian de Palma (***)
  11. Sorrisos de uma Noite de Amor (1955), de Ingmar Bergman (***)

Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”

www.ohomemsemnome.blogspot.com

Tempo de leitura: < 1 minuto

Agulhão Filho (lembra dele?) acha  um absurdo trocar voto por dinheiro, como fazem alguns incautos. “É preciso não perder de vista o mercado imobiliário, ainda muito rentável”, diz o esculhambador regional. E manda a quem possa estar interessado no seu voto o que ele cinicamente chama “profissão de fé democrática e pragmática”:

Sou pobre, não sou banqueiro,
porém não durmo de touca,
quero meu pirão primeiro,
se acaso a farinha é pouca…
Recebo feijão, andu
(cuidado com o obsceno!),
toucinho, arroz e angu,
mas meu sonho é um terreno
na Ilha do Urubu!…
Tempo de leitura: 3 minutos

70-mm

Leandro Afonso | leandroaguimaraes@hotmail.com

final 4,5

.

Afinidade e, especialmente, intensidade são sensações óbvias que aparecem ao (re)assistir a Antes do Pôr-do-Sol (Before Sunset – EUA, 2004), de Richard Linklater. A força de um momento único – e que, se por um lado foi apenas um momento, por outro foi único; sem precedentes. O que se esvaiu com facilidade pode também retornar com facilidade, mesmo nove anos depois, dada a vivacidade da situação. Dessa maneira, Antes do Pôr-do-Sol pode também ser visto como um excepcional exemplo da potência das circunstâncias (que começaram no primeiro filme) e dos impulsos – estes potencializados por elas. É um filme “pequeno” – no seu minimalismo, não na qualidade – sobre sentimentos e temas “grandes” (amor, amizade, afinidade), levados com uma fluidez e uma espontaneidade que, se resumida a uma palavra, só pode ser talento – de Julie Delpy e Ethan Hawke (que também co-assinam o roteiro) à direção de Richard Linklater.

Lançada nove anos depois de Antes do Amanhecer (1995), a continuação pode ser acusada de, nos primeiros 20 minutos, ser pouco delicada (ao usar o recurso fácil de colar imagens do filme anterior) e ainda quebrar parte de um encanto existente no poder delegado a cada um imaginar o destino (e parte do passado não dito) que agora nos é contado. Mas, desde ali, o trio mostra uma sintonia que faz tudo isso parecer justificável, palpável, compreensível – com a beleza e o sentimento do jeito como eles são, sem excesso de sentimentalismos ou frieza.

Os dois (Celine – Delpy, Jesse – Hawke), aqui mais do que nunca apenas com o outro, são seres humanos, que conversam, sentem e, ocasionalmente, têm a coragem de conversar sobre o que sentem – ou sentiam. São seres humanos de carne e osso, cujo grau poeticamente fraco é aqui exposto com uma sutileza difícil de atingir, e até de admitir.

Poucas vezes foi tão – mais até do que natural – bonito discutir relações. Aqui, como filmado, tão interessante quanto se relacionar.

Filme: Antes do Pôr-do-Sol (Before Sunset – EUA, 2004)

Direção: Richard Linklater

Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy

Duração: 80 minutos

8mm

B.O.

O filme se passa em Paris, ok, mas o espírito dele é tão independente de baixo orçamento que dá vontade de pregá-lo em praças públicas apenas para gente do cinema brasileiro: vocês também podem fazer filmes assim, sobre pessoas – do mundo da maioria de vocês (e isso é menos uma crítica do que uma torcida). É possível e, logicamente, pode ser bem bonito. O que já será o caso se tiver metade da beleza da cena final daqui…

Filmes da semana:

  1. Antes do Pôr-do-Sol (2004), de Richard Linklater (****1/2)
  2. Factótum (2005), de Bent Hamer (**1/2)
  3. La Luna (1979), de Bernardo Bertolucci (***)
  4. Sonhos de Mulheres (1955), de Ingmar Bergman (***1/2)
  5. Descontruindo Harry (1997), de Woody Allen (***1/2)
  6. Borat (2006), de Larry Charles (**1/2)
  7. Os Donos da Noite (2007), de James Gray (***1/2)

Top-10 setembro:

10. Up – Altas Aventuras (2009), de Pete Docter (co-direção de Bob Peterson (***1/2)

9. Tudo Sobre Minha Mãe (1999), de Pedro Almodóvar (***1/2)

8. Os Donos da Noite (2007), de James Gray (***1/2)

7. Antes do Amanhecer (1995), de Richard Linklater (****)

6. Cidade dos Sonhos (2001), de David Lynch (****)

5. A Última Noite de Boris Gruschenko (****)

4. O Show Não Pode Parar (2002), de Nannete Burstein e Bret Morgen (****)

3. Deixa Ela Entrar (2008), de Tomas Alfredson (****)

2. Antes do Pôr-do-Sol (2004), de Richard Linklater (****1/2)

1. Sobre Meninos e Lobos (2003), de Clint Eastwood (****1/2)

Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”

www.ohomemsemnome.blogspot.com

Tempo de leitura: < 1 minuto
Antônio Cruz (foto: Clodoaldo Ribeiro)
Antônio Cruz (foto: Clodoaldo Ribeiro)

O advogado e ex-deputado estadual Antônio de Almeida Cruz lança o livro Sonhos – Consciência, história e valores na sexta-feira (9). A solenidade será na Academia de Letras de Ilhéus (rua Antônio Lavigne de Lemos, no centro da cidade), às 18 horas. O livro é editado pela Assembléia Legislativa do Estado.

A obra registra uma emocionante trajetória de vida, do fim dos anos 1920, quando nasceu, passando por Ilhéus, onde fez os estudos médios, a Universidade Federal da Bahia, onde se formou em Direito e, outra vez, Ilhéus, cidade que escolheu para viver, lecionar, constituir família e montar sua banca de advogado.

O prefácio é do jornalista e escritor Antônio Lopes, ex-aluno do autor no Ginásio de Ilhéus – hoje Instituto Municipal de Educação –, que abrigou na mesma época educadores da importância de Washington Landulfo, Leopoldo Campos Monteiro, Oswaldo Ramos, Pedro Lima, Horizontina Conceição, Wilson Rosa, João Arbage, Antenor Brown, Simone Cerqueira e Wilson Trindade.

Nesse livro, Antônio Cruz “soube unir a vivência das emoções à análise racional dos fatos”, na síntese do professor Jayme Barros, que assina a orelha. Ainda segundo Barros, o autor “circula bem entre o literário e o histórico” e possui a clareza de que “o indivíduo não vive sem seu entorno sócio-histórico-político”.

Tempo de leitura: < 1 minuto
Marcelo prometeu retribuir a presença do Caboclo: "vou no ABC da Noite tomar uma batida"
Marcelo prometeu retribuir a presença do Caboclo: "vou no ABC da Noite tomar uma batida"

O público de Ilhéus prestigiou ontem o show Encantado, do disco do mesmo nome do cantor e compositor Marcelo Ganem, no Teatro Municipal. A plateia aplaudiu todas as canções e foi homenageada pelo artista, que em alguns momentos ficou visivelmente emocionado.

Ganem retribuiu com uma performance impecável, e homenageou o público ao agradecer a presença de Alencar Pereira, o Caboclo Alencar, que saiu de Itabuna para ver o espetáculo. Fãs do artista de Buerarema, o Caboclo e a esposa, Neusa Perlira, ainda foram premiados com um autógrafo no disco.

“Nossa, conseguir tirar Caboclo Alencar do Beco do Fuxico em Itabuna… É uma honra muito grande para mim. Essa plateia está cheia de gente maravilhosa”, agradeceu Marcelo Ganem, na penúltima música do espetáculo, que foi encerrado com uma versão instrumental do clássico Serra do Jequitibá.

Tempo de leitura: 3 minutos

70-mm

Leandro Afonso | leandroaguimaraes@hotmail.com

final 4

.

O que se esperar de um documentário? Para ser mais específico, o que imaginar de um documentário cuja base não é o jornalismo, não é política, mas sim o próprio mundo do cinema – e tudo obviamente ligado a ele? Informação, ritmo e ponto de vista são bons para começar. E O Show Não Pode Parar (The Kid Stays in the Picture – EUA, 2002), de Nanette Burstein e Brett Morgen (baseado na auto-biografia de Robert Evans) é um dos exemplares que melhor arranja tudo isso – e muito mais.

Robert Evans, hoje com 79 anos, é uma das figuras mais emblemáticas de Hollywood. Ator aparentemente prodígio, descoberto por acaso (justamente por não ser ator, lembra ele), percebeu mais tarde que, na verdade, queria ser não o cara que atua, mas o que manda. E mandou durante muito tempo – especialmente do final dos anos 60 até meados dos anos 70.

O curioso é que O Show Não Pode Parar não se limita a repetir o clichê de uma Hollywood padaria, onde não existe sentimento nem escrúpulos, mas também mostra quem são os padeiros (e especialmente uma padaria específica – a Paramount) e os momentos nos quais as palavras consideração e respeito evaporam sem cerimônia alguma. Não menos fascinante é o quanto Evans se expõe – e expõe os outros – em um retrato que, desde o começo, deixa claro ser uma versão ultra pessoal dos fatos.

Ele narra, interpreta, vê suas imagens de arquivo, comenta-as… é um personagem cuja vivacidade é conduzida – por Nanette Burstein e Brett Morgen – com influência que mescla presença e discrição em doses ideais para fazer o filme andar num ritmo próprio. Não menos interessante é que o final, quando há um descarado flerte com uma óbvia pieguice, trata-se de uma coerência com o retrato apaixonado e – ali – otimista de Evans, que traz certa espontaneidade ao que tenderia ao artificialismo. Forte e honesto, inclusive ao admitir um possível desvio dessa honestidade. Difícil de encontrar parecido – como O Bebê de Rosemary, Chinatown, Love Story e Poderoso Chefão, todos chefiados por Evans.

Filme: O Show Não Pode Parar (The Kid Stays in the Picture – EUA, 2002)

Direção: Nanette Burstein e Brett Morgen

Elenco: Robert Evans, Roman Polanski, Jack Nicholson, Catherine Deneuve.

Duração: 93 minutos

8mm

Segunda-feira

É segunda-feira (28). No Centro de Cultura Adonias Filho, em Itabuna, às 19 horas: a primeira exibição pública da versão definitiva de Do Goleiro ao Ponta-esquerda, meu documentário sobre a seleção de futebol amador de Itabuna. A entrada é franca.

Filmes da semana:

1. O Show Não Pode Parar (2002), de Nannete Burstein (****)

2. Se Beber, Não Case (2009), de (cinema) (***)

3. A Última Sessão de Cinema (1971), de Peter Bogdanovich (***)

4. Antes do Amanhecer (1995), de Richard Linklater (****)

Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”

www.ohomemsemnome.blogspot.com