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ESCREVER NÃO É TRABALHO, É PASSATEMPO

Ousarme Citoaian

Milton Rosário, integrante de qualquer lista, por menor que seja, dos melhores jornalistas de sua geração (além de ser gente de excepcional qualidade), me contou esta. Certa vez, o pai do poeta Telmo Padilha (foto) virou-se para o autor de Girassol do espanto e, olho no olho, o chamou à terra: “Meu filho, deixe esse negócio de escrever e arranje um trabalho decente, pois literatura não dá camisa a ninguém”. Telmo persistiu e obteve reconhecimento nacional, o que não invalida a lição de que intelectual, para ganhar uma camisa nova, precisa suar (e muito!) a antiga. Não temos tabela de preços nem sindicato como proteção – e escrever, diz o senso comum, não é trabalho, é passatempo.

JORNALISTA É QUEM VIVE DO JORNALISMO

Aqui, uma questão semântica. Para a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) –  que anda pelas redações ameaçando prender e arrebentar quem por lá se encontre que não seja diplomado – é jornalista profissional quem tem o curso superior específico (aos demais, considerados no exercício ilegal da profissão, cadeia). Já o conceito “clássico” é diferente: jornalista é quem atende aos dois requisitos de 1) trabalhar regularmente na atividade e 2) ser remunerado por esse trabalho. Com ou sem diploma, é profissional o indivíduo que exerce o jornalismo periodicamente e é pago para fazê-lo. Fora dessa fórmula simples e clara, não há salvação, pouco importa o que pense a Fenaj.

“GANHARÁS O PÃO COM O SUOR DO TEXTO”

A região tem muitos (e bons) jornalistas não diplomados, e me arrisco a citar apenas um, na tentativa de síntese do que quero dizer. Refiro-me a Eduardo Anunciação (foto), um “bicho de jornal”, com mais tempo de redação do que urubu de vôo (às vezes penso que ele, por essa escrita em linhas tortas próprias dos deuses, teria nascido num ambiente de jornal – e, para completar a quimera, bebeu tinta de impressão, em vez de leite materno). Nunca foi balconista de loja, não trabalhou em banco, não sabe botar meia-sola em sapato, não é pedreiro nem médico. É jornalista. Daqueles que lutam com as palavras todos os dias, mal rompe a manhã – e pagam o supermercado com o suor do seu texto.

JORNALISMO DO DIFUSO E DO IMPALPÁVEL

O Sul da Bahia é terreno fértil para  colunistas de todos os jaezes, com amplo espectro de textos dirigidos a leitores interessados em confetes, serpentinas, lantejoulas, plumas, paetês ou temas difusos e impalpáveis. Temo-los também de amenidades, política, economia e do que mais lhes der na telha e for suportado pela “democracia” dos donos de veículos. Esse banquete de vaidades e tolices (exemplo típíco na foto) nada de bom acrescenta ao pensamento regional, mas é incentivado pelos jornais: são colunas e artigos que nada custam para aspergir ideias de segunda mão, enquanto tomam espaço dos profissionais. Jornalistas como Eduardo correm perigo: se escaparem da Fenaj, serão desempregados pelos diletantes.

PARA O BEM OU PARA O MAL, EIS O HÍFEN

Não há dúvida: a maior armadilha de nossa ortografia é o hífen. A depender do caso, ele é bem-vindo e bem-visto. É o hífen é do bem, digamos. Mas quando surge sem ser “convidado”, causa mal-estar e mau humor, deixa o leitor mal-humorado, faz o texto mal-amado, sugere que quem o escreve é mal-educado (mal-afortunado, em termos de língua culta). Aí, é o hífen do mal. Às vezes, ele é bendito, bem-visto, benquisto, benfeitor e bem-querido; noutras, é malnascido, malcuidado, malcriado, mal-ajambrado, mal-afamado, malvisto e, portanto, contra-indicado. É o contra-exemplo da boa construção.

GOVERNO MUDA GRAMÁTICA PORTUGUESA

O governo estadual houve por bem abolir, por sua inteira conta e risco, o hífen de “Bem-Vindos”. A CLMH (Comunidade dos Linguistas Mal-Humorados) há de dizer que isto não tem importância, pois todos os leitores vão entender que a placa indica a gentileza e a cortesia com que a autoridade recebe quem visita a Direc de Ilhéus. Mas peço licença para manifestar meu estranhamento com mais este descaso oficial com a língua portuguesa. Afinal, se nem num local feito por e para professores as regras gramaticais são obedecidas, onde mais vamos obedecê-las?

O VEÍCULO DÁ SUA OPINIÃO NO EDITORIAL

Era o fim do ano, numa redação de jornal. O redator-chefe vira-se para o editorialista e lhe encomenda, para o dia seguinte, um editorial sobre Jesus Cristo. “Contra ou a favor?” – pergunta candidamente o articulista… A história é conhecida por todo jornalista, ou quem trabalhou numa redação – seja como estagiário, servindo cafezinho ou dobrando jornal. Ela pretende ilustrar que o editorial não é a opinião de quem o escreve, mas a do veículo que o publica. Teoricamente, o autor de editoriais é alguém com isenção bastante para, como na historieta acima, escrever contra ou favor de Jesus, com a mesma desenvoltura.

CAVALO COM CHIFRES E COBRA COM ASAS

Se o prezado leitor (ou a prezada leitora!) concluiu que não se assina editorial, parabéns. Não se assina porque, se assinado, vira artigo “comum”, a espelhar a opinião do signatário, não mais do veículo. Editorial “assinado” se define com uma palavra de nossa língua culta pouco utilizada por nós, mas corriqueira em Portugal: contrafação – que vem a ser fraude, disfarce, fingimento, imitação, falsificação, e por aí vai. Editorial “assinado” é tudo isso (e mais alguma coisa), mas editorial não é. Será, mudando da língua erudita lusitana para a popular brasileira, um cavalo com chifres. Ou uma cobra com asas.

ROBERTO MARINHO E O EDITORIAL ASSINADO

Há tempos, o Jornal Nacional costumava, numa noite sim e na outra idem, antecipar o que O Globo publicaria no dia seguinte, como “o editorial do jornalista Roberto Marinho” – na foto, à direita do general Figueiredo. No afã de agradar ao chefe (ou, quem sabe, por ordem do mesmo), violentavam-se as regras e se desserviam as novas gerações de redatores. Essa contrafação (!) durou até quando apareceu no JN alguém com juízo e pôs cobro  à farsa – ou Doutor Roberto se cansou da brincadeira. O fato é que este morreu e, para nosso alívio, resolveu, em definitivo, o problema. “Editorial do jornalista Roberto Marinho”: nunca mais.

A LEI DE MURPHY EM VISITA ÀS REDAÇÕES

Morre o homem, ficam-lhe os defeitos. Em pleno 2010, há veículos por aí que identificam seus editoriais com a palavra “Editorial” no alto da página (o que é uma informação supérflua, ociosa, mas aceita por alguns grandes veículos) e ainda os assinam, numa prova irretocável de que não sabem o que fazem. Mas, como diz o muito citado Murphy (creio que esta é a Lei nº 81, do seu elenco de 100), “nada está tão ruim que não possa ficar pior”: pois acaba de surgir entre nós o editorial com foto. Isso mesmo: editorial assinado e com foto de quem o assina. Aí, pego meu boné e caio fora, pois a discussão já adentrou a órbita da insensatez .
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NOEL E A FÁBRICA QUE NÃO ERA DE TECIDOS

A imortal Três Apitos foi composta em 1933 para uma das paixões de Noel Rosa, Josefina (a Fina), que ele julgava trabalhar numa fábrica de tecidos (a Confiança) mas que, na verdade, era empregada numa pequena fábrica de botões.  Esse engano o levou a criar a famosa rima de pano/piano.  Ao descobrir o equívoco, ele manteve os versos. Coisa de poeta: sacrificou a verdade, em benefício da rima: “Mas você não sabe/ Que enquanto você faz pano/ Faço junto do piano/ Esses versos pra você”. E aqui há outra pequena fraude, pois Noel nunca foi pianista. Vejam o contraste desses dois operários em construção: a moça tece pano, ele tece poesia.

A POESIA RESISTINDO À INDUSTRIALIZAÇÃO

Aliás, contraste é o que não falta nesta bela canção de Noel (foto). O mundo, com seu pragmatismo, parece conspirar contra o amor e outras cardiopatias, da mesma forma que a fábrica, símbolo do progresso, contrapõe-se ao piano – que o poeta usa para dirigir-se à amada. Três apitos mostra o mundos dividido em dois: de um lado, o artista e sua carga de sensibilidade, claramente à margem da sociedade de consumo; do outro, o capitalismo, o progresso industrial, a busca do lucro. “Quando o apito da fábrica de tecidos/ Vem ferir os meus ouvidos/ Eu me lembro de você”. O chamado ao trabalho é, para o poeta, a invocação para o amor.

APESAR DOS ERROS, UM MOMENTO MÁGICO

Noel Rosa foi listado aqui entre pessoas e efemérides que completavam, ao lado de Itabuna, um século em 2010. De repente, vejo que mais um ano se passou, sem nenhuma homenagem ao Poeta da Vila – logo eu, que tenho predileção pela sua arte, e até, se posso ser imodesto, razoável conhecimento de sua lavoura. Caso esta coluna se mantenha, vamos postar ainda uns dois vídeos sobre este grande nome da cultura brasileira. Hoje, um grande momento da MPB, reunindo Elizeth Cardoso e Jacob do Bandolim. Mesmo com a grande intérprete, ao vivo, errando a letra de forma deplorável, penso que vale a pena ouvir.

(O.C.)

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AFINAL, ELA É PRESIDENTE OU PRESIDENTA?

Ousarme Citoaian

Retomemos, conforme promessa, a discussão sobre as opções presidente/presidenta, assunto pertinente, quando o Brasil escolhe sua primeira presidenta. E pronto: já fiz, antecipadamente, minha escolha. Mas, como tudo neste espaço, trata-se de opinião, preferência, havendo argumentos igualmente ponderáveis para Dilma presidente. O professor Pasquale Cipro Neto, em moda nas diversas mídias, prefere presidente – argumentando que as palavras terminadas em “nte” não variam de gênero, sendo marcadas pelo artigo “o” ou “a” (e exemplifica: o gerente, a gerente; o pedinte, a pedinte e, claro, o presidente, a presidente).

PROFESSSORES MOSTRAM OPINIÕES DIFERENTES

Mas não há unanimidade entre os professores. Em Salvador, o Instituto Kumon, que tem mais de 2,5 mil alunos, não concorda com Cipro Neto (foto). “Presidenta é melhor porque deixa claro ser uma mulher e a questão de gênero agora vai tomar novo fôlego no Brasil,” entusiasma-se a professora baiana, filha de pais russos, Nadegda Kochergin. Em favor de presidenta, a história da língua portuguesa mostra que a forma feminina teve dificuldades para se estabelecer em professora, doutora e juíza, que também soaram estranho nos primeiros tempos, mas depois foram assimilados no falar cotidiano dos brasileiros.

EXEMPLOS BONS DO CHILE E DA ARGENTINA

Na Argentina, Cristina Kirchner jamais deixou dúvidas sobre sua preferência: “Presidenta! Comecem a se acostumar: presidentaaaa… e não presidente!”,  gritava nos palanques. Empossada, devolvia os documento que chegavam à Casa Rosada endereçados à “presidente”. No Chile, Michelle Bachelet (foto) adotou o mesmo modelo e se fez chamar presidenta. Mas é verdade que as brasileiras não têm contribuído para o avanço: a jurista Ellen Gracie se disse presidente do Supremo Tribunal Federal, a escritora Nélida Piñon era “a primeira presidente” da Academia Brasileira de Letras e a nadadora Patrícia Amorim se anuncia como presidente do Flamengo.

PRECONCEITO SERÁ SEDIMENTADO PELA MÍDIA

Data vênia, o professor Cipro Neto põe gerente, pedinte e presidente no mesmo saco, misturando, não se sabe com que intuito, alhos e bugalhos: as duas primeiras são invariáveis em gênero, identificando-o apenas pela anteposição do artigo. Já presidente tem como feminino presidenta. Na campanha, Dilma se mostrou inclinada a se fazer chamar de presidenta. Mas a mídia – em geral tão conservadora quanto a própria sociedade – tende para presidente, em nome da “facilidade” e do hábito. Vai ignorar a lógica, opor-se ao novo e sedimentar o preconceito gramatical contra as mulheres – e, por certo, com a inteira colaboração destas. Clique e veja a preferência de Dilma.

A MELHOR HERANÇA É O EXEMPLO DE VIDA

Em recente artigo na Envolverde (Aos nossos filhos, 11.11.2010), Frei Beto (foto) fala do legado a ser deixado para os filhos, e afirma que não há mal em “fazer um pé-de-meia, de olho no futuro dos seus rebentos”, mas faz uma advertência: “Não é dinheiro o que um filho mais espera dos pais, ainda que não saiba expressá-lo. É amor, amizade, apoio e, sobretudo, exemplo de vida”. E cita Thomas Mann (autor de A montanha mágica): “Um bom exemplo é o melhor legado dos pais aos filhos”. O religioso conclui que “nada mais perigoso a um jovem que centrar sua autoestima na conta bancária ou no patrimônio familiar”.

MILTON SANTOS: DA ALDEIA PARA A GLÓRIA

Embora concorde com a tese de Frei Beto, não entro em detalhes sobre ela (quem quiser fazê-lo já sabe onde encontrá-la), por fugir ao espírito da coluna. O que eu queria dizer é que, a certa altura, em favor de seu argumento, o autor anota: “O professor Milton Santos, da USP, enfatizava a importância de se perseguir os bens infinitos, e não apenas os finitos”. Confesso meu orgulho ao ver as freqüentes referências ao velho mestre do Instituto Municipal de Educação (IME), de Ilhéus, um nome que ilumina o pensamento nacional, mas é desconhecido aqui na região onde despontou para a glória do mundo.

EXISTIR É O MAIOR DIREITO DE TODOS NÓS

A escritora Aninha Franco (foto) trouxe aos jornais, com a eleição do dia 31, a divisa “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, da Revolução Francesa de 1789, como foco a ser perseguido pelo  Brasil dos próximos tempos – e me fez lembrar um texto de Robespierre (escrito uns quatro anos mais tarde): “O pensamento diretor é o de existir. A primeira lei social é, portanto, a que assegura a todos os membros da sociedade o direito de existir – todos os demais lhe são subordinados”. Vê-se como os princípios gestados no Iluminismo ainda estão pulsantes, seculares, mas jovens e “perigosos”. E todo esse francesismo me remete, de alguma forma a Gilberto Gil e seu eterno deus Mu Dança.

A MUDANÇA É FEITA COM PAZ OU COM ARMAS

“Sente-se a moçada descontente onde quer que se vá/ Sente-se que a coisa já não pode ficar como está/ Sente-se a decisão dessa gente em se manifestar/  Sente-se o que a massa sente, a massa quer gritar: ´A gente quer mudança´./ O dia da mudança, a hora da mudança, o gesto da mudança/. Sente-se tranqüilamente e ponha-se a raciocinar/ Sente-se na arquibancada ou sente-se à mesa de um bar/ Sente-se onde haja gente, logo você vai notar/ Sente-se algo diferente: a massa quer se levantar pra ver mudança, o time da mudança, o jogo da mudança, o lance da mudança”. É o novo chegando, anuncia o poeta: “Talvez em paz Mu dança/ Talvez com sua lança!”

TODOS OS HOMENS NASCEM LIVRES E IGUAIS

Estamos vivendo uma transformação de hábitos à brasileira: lenta, silenciosa, sem sangue, mas persistente. Nossa revolução, sem a guilhotina dos homens insensatos ou a lança do irado deus Mu dança, aproxima-nos, aos poucos, da liberdade, da paz, da igualdade, da fraternidade, da igualdade entre os brasileiros, com base em mais este legado da Revolução Francesa: “Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos; as distinções sociais não podem ser fundadas senão sobre a utilidade comum”. No  Brasil já se extinguiu o voto de qualidade, deixando todos com o mesmo valor e sepultando a odiosa frase “brasileiro não sabe votar”. É um (bom) começo.

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E MILES DAVIS RECRIOU ZÉ COM FOME…

Zé com Fome, Zé da Zilda ou José Gonçalves (1908-1954) teve seu samba Aos pés da cruz (com Marino Pinto) lançado por Orlando Silva, com êxito retumbante. A canção ganhou registros surpreendentes do violonista Baden Powell (cantando!) e de Miles Davis, o divino trompetista do jazz, do rock e da fusion. Aos pés da cruz carrega um verso nada cartesiano que deu muito o que falar: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”  – uma transcrição direta de Pascal (1623-1662): Le coeur a des raisons que la raison ne connaît pas, suficiente para que um crítico indignado apontasse seu dedo acusador, aos gritos de “Plágio! Plágio!” .

PASCAL: “NOME DE CACHORRINHO DE MADAME”

Já não me lembra o nome do crítico apoplético, mas sei que em defesa de Zé da Zilda veio o jornalista Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta), e veio com tudo: disse (a rigor, escreveu) que o compositor jamais ouvira falar do filósofo francês e que para o homem simples que era o letrista de Aos pés da cruz, Pascal deveria ser “nome de cachorrinho de madame”. Excessos à parte, também acho improvável que o autor da marcha Saca-rolha, nascido e vivido na cultura das ruas, houvesse alguma vez lido um erudito francês do século XVII. Imagino que Zé com Fome ouviu a frase por aí e se apossou dela, como quem pega passarinho em visgueira.

JOÃO TIRA O CHAPÉU PARA A VELHA-GUARDA

Em 1959, no LP Chega de saudade (aquele que é tido como o abre alas da bossa-nova), João Gilberto faz novas gravações, em homenagem à turma da velha-guarda do samba. Ao lado de temas que consagrariam o novo movimento musical (como Chega de saudade e Desafinado), ele recuperou temas eternas do cancioneiro nacional, alguns então esquecidos: lá estão Rosa morena, de Caymmi, É luxo só (Ari e Luiz Peixoto) e Morena boca de ouro, de Ari Barroso (foto). Nessa leva, mostrando que a bossa-nova queria manter um pé em nossos clássicos populares, Aos pés da cruz ganhou leitura especial. Clique e veja um trecho.

(O.C.)

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ENTRE A EUFORIA E O RANGER DE DENTES

Ousarme Citoaian

Após o previsível resultado das eleições, a mídia regional solidificou-se em dois grandes grupos: o que range os dentes e espuma de ódio e impotência diante da derrota e o que se deixa tomar pelo entusiasmo paroxístico que a vitória sugere.  E os analistas – alguns com cheiros e cores claramente diletantes – se sucedem, a exarar opiniões que, muitas vezes, têm pouco a ver com a verdade e muito compromisso com a paixão. Comunicadores em geral não são isentos, mas precisam buscar a isenção. E a regra é clara: se vai escrever, deixe seu ódio no armário, atenha-se à verdade, tente (ao menos tente!) ser isento.

ESTÁ NO AR A VOZ IRACUNDA DO FASCISMO

Entre os diletantes que os jornais abrigam (e com isso fecham a porta aos profissionais, os que fazem a feira com o resultado do seu trabalho intelectual) recolho esta pérola, do mais puro fascismo demodé: “nossa presidente é ex-presidiária”, afirma, sem corar, uma dessas “analistas”, fazendo concorrer no mesmo ponto a ignorância e a má-fé. A prisão política, em todas as culturas do mundo, é honrosa, diferente dos encarcerados comuns. Não serve à sociedade a mídia que se deixa usar como escoadouro de lamentos e frustrações; melhor faria se se propusesse a ser um locus da discussão qualificada ou, pelo menos, bem intencionada.

SÉRGIO FLEURY E A TORTURA “COLETIVA”

O Brasil tem um triste exemplo de aviltamento dos presos políticos: a regra não escrita do respeito internacional foi aqui claramente rasgada durante a ditadura militar pelo delegado Sérgio Fleury, o braço policial do governo: esse Fleury não só tratava os presos políticos como bandidos comuns, como os supliciava em sessões “coletivas”: o torturado era colocado no centro da sala e, em volta, os demais presos eram forçados a assistir à sessão; se algum deles desviava os olhos ou baixava a cabeça, Fleury “gentilmente” o fazia voltar ao espetáculo. Pessoas assim não eram “presidiárias”, mas vítimas da ditadura.

BERLUSCONI FICARIA EM SEGUNDO LUGAR

A ideia deste comentário era discutir se, à luz da língua portuguesa, dona Dilma Rousseff (foto) é presidente ou presidenta – mas as questões ideológicas tomaram a si as rédeas da redação e o espaço findou-se. Mesmo assim, ainda deixou-se de dizer que nem Berlusconi em seus momentos de maior autenticidade chamaria Dilma de “ex-presidiária”, pois até o velho fascista sabe a diferença entre os dois tipos de prisão. Fazer o quê? Primeiro o mais urgente: a resposta ao neofascismo. Quanto à provocação linguística, ficamos com o débito para a próxima semana.

ABORTO, PAPA, ÓDIO E SEXO DOS ANJOS

Vimos recentemente que a descriminalização do aborto tem muito a ver com o sexo dos anjos, sem querer fazer trocadilho. Ele ocupou importantes espaços da campanha eleitoral, exacerbou ânimos, gerou declarações disparatadas, virou matéria de difamação – até ser recolhido a merecido silêncio. Eis que, nos últimos dias do pleito, o papa resolveu soprar as brasas, por pouco não reavivando as chamas do ódio aparentemente apaziguado. E os dois candidatos usaram, neste caso, a “conveniência” de sempre. Eu esperava um pouco que fosse de defesa do lacaísmo, pois aqui entre nós Igreja e Estado são entidades independentes (na saborosa expressão popular, “cada macaco no seu galho”). Faltou coragem, sobrou hipocrisia.

NA ITÁLIA, O MAL ARRANCADO PELA RAIZ

Hipocrisia é também o que anota o livro Basílicas e capelinhas – um estudo sobre a história, a arquitetura e a arte de 42 igrejas de Salvador (Biaggio Talento e Helenita Hollanda): os antigos guardiões da Igreja de São Francisco, num surto de moralismo, amputaram os órgãos sexuais de anjinhos barrocos e tentaram esconder esse fato colando saiotes de pano nas imagens. Um amigo me conta que no museu  do Palazzo Medici Riccardi (foto), em Florença, todas as estátuas masculinas tinham “o mal arrancado pela raiz”. Ao perguntar a um funcionário da casa os motivos da mutilação, ouviu que aquilo tinha sido obra de uma antiga proprietária muito religiosa. E muito hipócrita, ora pois.

AFINAL, SERIAM OS ANJOS ASSEXUADOS?

Por fim, o sexo dos anjos, questão aqui levantada (ops!). A expressão vem do século XV, quando os turcos tomaram Constantinopla (hoje Istambul). Com os invasores em enorme superioridade (cerca de 11 soldados para cada defensor da cidade), a guerra estava perdida, mas as autoridades cristãs, em vez de se preocuparem com isso, estavam reunidas num concílio que discutia, entre outros temas, o fato de os anjos terem sexo ou não. O imperador Constantino XI, que comandava a frágil resistência, foi morto, ao lado de milhares de cristãos, sendo que o Império Bizantino virou Império Otomano, comandado por Maomé II. E os doutos exegetas não concluíram se os anjos eram ou não assexuados.

TESTEMUNHA OCULAR DO COLONIALISMO

O Repórter Esso foi um noticiário que fez história no rádio e na tevê do Brasil, de sorte que até hoje rastros dele estão por aí. Foi o primeiro informativo radiofônico do País que não se limitava a notícias recortadas dos jornais (processo chamado pejorativamente de Gillette Press), utilizando matérias enviadas por duas agências de notícias sob o controle do governo americano, fundidas em 1958 na United Press International (UPI). O programa era patrocinado por uma multinacional sediada nos Estados Unidos e conhecida aqui como Esso Brasileira de Petróleo. Foi, já se vê, criado para fazer a propaganda da guerra americana direcionada ao povo brasileiro. Mais colonizador, impossível.

PETROBRAS, PRÉ-SAL E A MÍDIA “NERVOSA”

O dito “testemunha ocular da história” era um instrumento de dominação ideológica dos Estados Unidos sobre o Brasil e outros 14 países do continente, onde se fazia ouvir – tido por especialistas em mídia como das mais eficazes armas utilizadas pelo imperialismo estadunidense nas Américas. Bom exemplo dessa ação é a campanha desenvolvida pelo programa nos anos cinquenta, contra a criação da Petrobras. Os mesmos especialistas comparam aquela posição do Repórter Esso com alguns veículos atuais, que se mostram “nervosos” com a anunciada atuação soberana do Estado brasileiro na exploração das novas jazidas de petróleo na camada do pré-sal. Daí se dizer que a história se repete.

HERON DOMINGUES, UMA LENDA DO RÁDIO

O Repórter Esso criou em torno de si uma aura de sentimentalismo, chegando a transformar em lenda do rádio brasileiro o locutor Heron Domingues (foto), talvez o “noticiarista” mais imitado em toda a história do rádio e da tevê no Brasil (outros apresentadores notáveis foram Gontijo Teodoro, Kalil Filho, Luiz Jatobá e Roberto Figueiredo). O programa tinha, de fato, ares de competência jornalística: nova linguagem, textos escritos especialmente para serem lidos, poder de síntese, economia de adjetivos e pontualidade – que permitia ao ouvinte acertar o relógio ao primeiro acorde da vinheta de abertura. Lançado em agosto de 1941 (na Rádio Nacional), o noticioso teve sua última edição em 31 de dezembro de 1968, na Globo.

O DIA EM QUE A EMOÇÃO VENCEU A TÉCNICA

Para os poucos que não conhecem: após o prefixo da Globo, o locutor Guilherme de Souza dá a hora e anuncia a velha fórmula: “Alô, alô, Repórter Esso! Alô!” Ao som das trombetas famosas, entra Roberto Figueiredo com a escalada das notícias, entre elas o AI-5 da ditadura militar. Depois, ele inicia uma retrospectiva dos 27 anos do Repórter Esso, emociona-se e começa a chorar, a ponto de ser substituído pelo locutor Paulo Ribeiro, que, por acaso, estava no estúdio. Roberto, ainda aos prantos, volta e encerra o último Repórter Esso, com desejos de boa-noite e feliz ano novo. Já chorei com várias edições deste vídeo. Esta semana, chorei com a minha. Para ouvir a emoção vencendo a técnica, clique.

(O.C.)

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JORNALISMO NO TEMPO EM QUE SE SONHAVA

Ousarme Citoaian

Em outros tempos e costumes, o jornalismo era praticado como uma espécie de sacerdócio (o termo foi mais comumente usado para os professores e vai aqui empregado por falta de outro mais adequado). Habitadas por poetas e boêmios, as redações muito diferiam de hoje, pois tinham poucos “profissionais” e muitos sonhadores. Era a época do revisor (que escoimava o texto de eventuais solecismos) e do copidesque (garantia de que o texto saisse da oficina sem um defeito). Mas o meu preferido nessa fauna sempre foi o mancheteiro, o cara que fazia as manchetes.

RAPIDEZ, CRIATIVIDADE, PODER DE SÍNTESE

Fazer boas manchetes não é fácil: exige do redator poder de síntese, rapidez e criatividade, dizer o que precisa num espaço limitado (a quantidade de toques)  – e fazer isto tudo sob pressão do tempo, pois a gráfica está gritando que é hora de fechar. O jornalista Wilson Ibiapina reuniu algumas jóias de craques na complicada arte das manchetes. Uma de Felizardo Montalverne (chefe de redação do Correio do Ceará): “Todo fumante morre de câncer, se outra doença não o matar primeiro”. No Rio, O Dia teve um dos mais famosos mancheteiros de nossa imprensa: Santa Cruz. Vejamos alguns casos, a seguir.

JÂNIO EM CAMPANHA: DA FARSA À COMÉDIA

Sobre a mulher traída que castrou o marido: “Cortou o mal pela raiz”; ao padre prefeito que autorizou o aumento do preço da carne: “Padre não resiste à tentação da carne”. É comum que suicidas se joguem da ponte Rio-Niterói, mas o delegado Almir Pereira preferiu dar um tiro na cabeça, e A Notícia viu assim o tresloucado gesto: “Atirou em vez de se atirar”. Jânio (foto) volta do exterior em 1962 e desfila num bonde de Vila Maria, em São Paulo, com boné de motorneiro. A manchete da Última Hora foi “Jânio Quadros: da farsa da renúncia à comédia da volta”. É a minha preferida.

MORRO DESMORONA SOBRE CANDIDATA DO PT

Os grandes jornais, perdida a antiga verve, se nivelam em falta de graça. Os regionais tratam o leitor como se criatividade fosse artigo proibido nas redações. Duas manchetes ilustram bem os dois casos: o JB (recentemente falecido), em 10/2/2010, ao anunciar a vitória da Beija-Flor, exaltou a segunda colocada: “Tijuca, inovadora intrusa no reino da Beija-Flor”; o Agora (de Itabuna), em 27/10/2010: “Serra esmaga Dilma em debate da Record”. Da primeira, nada se entende. A segunda nos faz pensar que uma serra (ou um morro) deslizou sobre o estúdio da tevê, levando a presidenta desta para melhor.

TROCADILHO: UMA “FEBRE” RECIDIVANTE

No começo do século XX, o trocadilho (do francês jeu de mots = jogo de palavras) era quase uma febre. Depois, como toda moda, perdeu o encanto e passou até a ser considerado coisa de mau gosto, subliteratura. Pois eu o acho estimulante, desde que feito com inteligência e oportunidade. A política, bom campo para esse exercício, me traz à memória três casos: 1) Getúlio Vargas, dito “Pai dos pobres”, foi chamado por um opositor de “Mãe dos ricos”; 2) à divisa integralista “Deus, Pátria e Família”, o Barão de Itararé (foto) respondeu no seu A Manha com “Adeus, Pátria e Família”; 3) em final de campanha, Dilma surpreendeu, ao dizer: “a oposição está de serra abaixo”.

ANTÔNIO VIEIRA (O PADRE) ERA DO RAMO

Trocadilhos, versos mordazes, críticas candentes aos costumes da época (sobretudo aos políticos) fizeram a fama do mais perverso dos trocadilhistas brasileiros, Emílio de Menezes. Tal gênero também foi cultivado, pasmem, pelo circunspecto padre Antônio Vieira. É de sua lavra a frase “Com tais premissas ele sem dúvida leva-nos às primícias”. De Emílio (que atirou seu veneno sobre Ruy Barbosa, a Academia Brasileira de Letras e quem mais estivesse próximo) todos sabem pelo menos um dito espirituoso, pois eles existem à mancheia no livro clássico Emílio de Menezes, o último boêmio (Raimundo de Menezes/1949, Coleção Saraiva, só disponível nos melhores sebos).

ALBERTO HOISEL, O SATÍRICO DA REGIÃO

Deixando de lado os nacionalmente famosos, não resisto a citar alguns calembures da lavra do satírico ilheense Alberto Hoisel, do livro Solo de Trombone (Antônio Lopes/2001, disponível na Editus/Uesc). Sobre o advogado Tandick Rezende, baixinho (pouco mais de 1,50 m), parceiro de cerveja, Hoisel deu a sentença: “Ele bebe para ficar alto”; quando o ascensorista o avisou de que o elevador do Banco Econômico estava “quebrado”, ele se deu por feliz: “Ainda bem que não foi o banco”; o atraso no noticiário do Diário da Tarde ele analisou assim: “Com vocação vitalícia/ Para a imprensa sem alarde/ Até a própria notícia/ Nosso diário dá…tarde!”.

TROCADILHISTA QUE NÃO TROCA DE LISTA

A quadrinha satírica tem no trocadilho uma ajuda decisiva para sua força, graça e maldade, como mostra o satírico ilheense. Certo Nacib definiu Alberto como “um dos maiores trocadilhistas do país” e ele fez sua profissão de fé integralista ao responder ao elogio: “Se a exceção foge à regra,/ Nacib que tenha em vista:/ Este é um que a lista integra/ E nunca troca de lista”. Ou, escrita num guardanapo na boate Night and Day (Rio de Janeiro), homenagem ao jornalista Fernando Leite Mendes (na foto, ao microfone), seu companheiro de mesa: “Lei! Tu sempre foste errada,/Por isso ninguém te entende…/E sem que faça piada/Eu te digo: ´Lei, te emendes!´”.

ELIS SE ACHAVA A PRÓPRIA LIZA MINELLI

Procuro no Google e não encontro (prova de que nada é perfeito) este causo envolvendo Elis Regina e o (dentre outras coisas) produtor musical Luiz Carlos Miéle. Então, vamos à memória: a cantora, recém-chegada de Porto Alegre, novinha em folha, discutia com o produtor o cachê para um show no Beco das Garrafas, reduto da Bossa-Nova nos anos sessenta, no Rio de Janeiro. Quando disse o preço, Miéle estrilou: “Você acha que é alguma Liza Minelli?” – e a desconhecida e ousada Elis Regina respondeu, na tampa: “Acho”.  Elis era assim: corajosa, atrevida, competitiva, sabendo onde ficava o próprio nariz (um pouco arrebitado, é verdade).

A IMPRESSIONANTE MUDANÇA DAS COISAS

Miéle (foto), hoje com mais de 70 anos, está envolvido em muitas dessas histórias engraçadas, algumas como personagem central. Como esta, que o mostra um tanto desligado do mundo. Ele conta que, há alguns anos, entrou numa loja de música e pediu para ver uns discos de Frank Sinatra. O vendedor fez cara de compaixão, como se achasse que o cliente estava esclerosado. Ofendido com o aparente desdém do cara, Miéle reclamou: “Vai me dizer que nesta loja não existe disco de Frank Sinatra?”, ao que o vendedor, como se falasse a uma criança, explicou: “Não, Miéle, é que não existe mais disco”. O produtor saiu, dizendo-se “triste, com a impressionante mudança das coisas”.

NO BRASIL SÓ DUAS CANTORAS: “GAL E EU”

Voltemos a Elis Regina. Muitos anos e declarações polêmicas mais tarde, ela – falando de cantoras brasileiras – disse: “No Brasil, só há duas que cantam, Gal e eu”. Se aceitássemos como verdadeira esta apaixonada avaliação, só nos restaria uma grande cantora (Elis morreu em 1982, aos 37 anos). Sem critérios técnicos, mas apenas por preferência, acho que as duas são nossas maiores intérpretes. Prefiro Elis, pois vejo certa frieza técnica em Gal, mesmo assim “a cantora” baiana. Minha lista tem Alcione, sem esquecer que Ângela Maria é referência nacional, até para Elis Regina. E ela estava em dia de modéstia: disse “Gal e eu”, não “Eu e Gal”.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

UMA CANÇÃO QUE “TODO MUNDO” GRAVOU

Wave, um dos temas mais famosos de Tom Jobim, teve a versão cantada lançada por João Gilberto, no disco Amoroso, de 1977. Depois, ganhou o vasto mundo nas gravações de artistas diversos, dentre os quais Gal Costa, o próprio Tom, Ella Fitzgerald, Rosa Passos, Elis Regina, Sarah Vaughan, Leny Andrade (foto), Stan Getz, Joe Henderson, Wilson Simonal, Frank Sinatra e Anita O´Day (que abria e encerrava seus shows com esta música). No vídeo, Gal, impecável como sempre.

(O.C)

(O.C.)

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VELHINHOS SERELEPES QUE FAZEM “DE TUDO”

Ousarme Citoaian

Numa dessas matérias corriqueiras em que a tevê discorre sobre as inegáveis vantagens da senilidade (quando aparecem uns velhinhos serelepes dizendo que se sentem como se tivessem dezoito anos ou menos!) recolho uma pérola, da boca de repórter experiente, famoso e festejado. Depois de ver uma idosa escapar ilesa de uma série de perigosos contorcionismos a que chamam alongamento, o profissional televisivo (com um sorriso que parecia de decepção) afirmou: “Atualmente, esses velhinhos fazem de tudo”. Esse “de tudo” é, via de regra, mais um abuso dos que tanto se perpetram em nome da linguagem moderna e bonitinha, mas ordinária.

ATAQUES FRONTAIS E REPÓRTERES IMPUNES

A expressão de feitio enviesado está disseminada pela mídia, mas com predominância na televisão, veículo que prima pelos ataques frontais à língua portuguesa. “Fez de tudo para salvar os móveis, mas não conseguiu” – diz impunemente a repórter, numa matéria sobre enchentes. Trata-se de pecado contra a simplicidade (uma das qualidades fundamentais do estilo) e indispensável à boa linguagem jornalística. É preferível “Fez tudo para salvar…”, indo direto ao ponto, sem penduricalhos que, longe de melhorar o entendimento da frase, a tornam pedante, grosseira, cansada, ao carregar a preposição “de” como peso morto.

PLEONASMO, MAS SEM PERDER A ELEGÂNCIA

À partícula que acrescenta graça, força ou realce a uma frase ou expressão os gramáticos chamam “expletiva”. Seria assim uma coisa pleonástica, mas elegante – se é que entendi a lição.  Exemplos encontráveis nos livros são “Foi-se embora sem avisar” e “Murchem-se as flores”, esta segunda de perceptível bom gosto. Observe que, retirada a tal partícula expletiva, o entendimento se mantém: tanto faz “foi-se embora” como “foi embora”. Esta seria a tese da defesa “lingüística” para “Fazer de tudo”, mas a acusação a contesta veementemente, pois o “de”, neste caso, nenhuma beleza acrescenta à expressão “Fazer tudo”.

EXPRESSÃO ENRAIZADA E COM DEFENSORES

Na edição de 28 de setembro, o Pimenta denunciou, em caixa alta e fonte graúda: “Câmara de Itabuna teve de tudo nesta terça-feira”. Além de provar que santo de casa não faz milagre, prova-se como a expressão está enraizada nos meios de comunicação e terá, consequentemente, ferrenhos defensores. Volto a insistir que esta coluna fala de preferências e curiosidades, mas nunca se atreveu a dividir a linguagem em certa e errada. Neste caso, sigo a regência verbal: assim, “A livraria dispõe de tudo que a escola exige” (o verbo dispor “pede” preposição “de”) e “A livraria tem tudo que a escola exige” (o verbo ter é, neste cenário, inimigo da preposição).

LÍNGUA RICA, RICA, RICA /DE MARRÉ DECI

“Eu sou pobre, pobre, pobre/ De marré, marré, marré/ Eu sou pobre, pobre, pobre/ de marré deci” é cantiga de roda com uma palavra que não tem registro na linguagem escrita. De tempos imemoriais, guardo uma explicação, que não tenho feito pública por falta de auditório interessado. E se não digo sua origem é por não me lembrar em que ostra colhi esta pérola: o texto viria do francês Je suis pauvre, pauvre, pauvre,/ je me vais, me vais, me vais/ je suis pauvre, pauvre, pauvre/ je me vais d´ici. Para quem nada manja da língua de Danton e Robespierre, vai minha tradução, sujeita a chuvas e trovoadas: ”Eu sou pobre, pobre, pobre/ vou-me embora, vou-me embora/ eu sou pobre, pobre, pobre/ vou-me embora daqui”.

EM PERNAMBUCO, O “FOR ALL” VIROU FORRÓ

Com o tempo, as pessoas fizeram uma “adaptação”, valendo-se do som em francês: da pronúncia (aproximada)  jê mê vé veio “de marré” e dici transformou-se em “daqui”. Para mim faz sentido, pois o processo não é desconhecido entre nós: há uma tese (Luiz Gonzaga era um de seus defensores) de que a palavra forró (gênero musical nordestino popular em todo o Brasil) descende, por semelhante processo de “adaptação”, do inglês for all. Algo a ver com os ingleses da estrada de ferro Great Western, em Pernambuco, que organizaram uma festa aberta, for all (“para todos”). Ressalte-se que o folclorista Câmara Cascudo não aceita esta versão: para ele, forró vem do africano “forrobodó”,  que é festa bagunçada, frege.

HERANÇA DAS RELAÇÕES FEUDAIS EUROPEIAS

Consta que Heitor Villa-Lobos e Cecília Meireles (foto) também pesquisaram esta cantiga infantil, mas não chegaram a conclusões definitivas. A brincadeira procede da Europa sendo um jogo de  “pobres” e “ricos”, falando em casamento, com o roteiro ritualístico de  cortejo, sedução e noivado. A versão brasileira tem uma parte que diz: “Quero uma de vossas filhas/ de marré, marré/ marré/ Quero uma de vossas filhas/ de marre deci” – certamente a fala do “rico”; a esta proposta indecorosa o lado “pobre” responde, humilhado: “Escolhei a qual quiser/ de marré, marré, marré/ Escolhei a qual quiser/ de marré deci”. Percebe-se que a canção prega um servilismo escancarado e odioso, que nos remete ao feudalismo europeu.

EMOÇÕES QUE NOS PRESSIONAM NO DIA-A-DIA

Volto a reler o velho Quatro gigantes da alma, do pioneiro em psicologia e direitos humanos Mira y Lopez (Santiago de Cuba, 1896-Rio de Janeiro, 1964). É um livro fundamental, que fala de emoções a que estamos submetidos no dia-a-dia e que são fontes de neurose, afeto, agressividade: o Medo, a Ira e o Amor. Mas como somos bichos domesticados (homo socialis), o psicólogo acrescentou um quarto “gigante”: o Dever, espécie de força reguladora, que nos impede de descambar nos precipícios da barbárie e da luxúria. Se quiser, pode chamá-lo de Razão, elemento que nos faz obedecer às regras (“qual submisso escravo”, segundo o mestre argentino).

A IRA QUE NASCE DO NEGRO VENTRE DO MEDO

Mira y Lopez (foto) trata de carências e fantasmas submersos, de fragilidades e de como precisamos uns dos outros, de como somos conduzidos pelas emoções e de como estas são tão poderosas que nos sacodem e atiram de um lado para outro, “com a mesma aparente simplicidade com que uma onda altera o rumo de um barco, o vento brinca com as folhas ou um terremoto faz desmoronar uma casa”. O texto é muito atraente, como neste exemplo: “Na noite dos tempos, do negro ventre do medo, brotaram as rubras faces da ira. Esta rapidamente cresceu e se converteu no segundo dos quatro gigantes que atenazam o homem e fazem de sua vida um perpétuo drama”.

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NÃO QUEREMOS SER UM PAÍS DE VIRA-LATAS

Procuro estar longe dos que tratam o Brasil como um sub-país, nosso povo como uma sub-raça, e paro aqui, antes que me venham as lembranças, igualmente calhordas, da sub-nação, do sub-povo – e, de braço dado com elas, uns puxões de orelhas sobre o emprego inadequado do hífen. Mas o que nos interessa é festejar o fim do espírito anti-Brasil. O povo mostra (nas ruas, nos becos, na internet e nas urnas) que somos uma Nação com identidade própria e que não mais teme o chicote com que os poderosos, vestidos de paramentos universitários e décadas de preconceito e conservadorismo, tentam submetê-lo. Livre em suas escolhas, o Brasil se recusa a ser uma nação de vira-latas.

TAMBÉM TEMOS DOSTOIÉVSKIS E BETHOVENS

Autoridades do Nordeste deveriam tomar uma atitude de considerável impacto: algo assim como um decreto que levasse a turma da calcinha escura, o pessoal que combina rapadura com caviar e camarão com garapa de cana, além de uma chusma de outros equivocados do forró a ouvir os clássicos. Não me refiro aos bambambãs da música europeia, mas aos clássicos da grande canção de sotaque regional: Luiz Gonzaga, Sivuca, João do Vale, Zé Dantas, Humberto Teixeira, Dominguinhos, Hermeto Paschoal, Cego Aderaldo, Jackson do Pandeiro, Patativa do Assaré, Genival Lacerda.  Eles são, a bem dizer, nossos bethovens, brahms, tostoes, dostoiévskis,  mozarts, haydns.. .
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

GLORINHA GADELHA, SIVUCA E CLARA NUNES

A feira de mangaio é o local onde os brejeiros vendem… mangaio, é lógico! Com o resultado desse negócio, compram/compravam o que não nasce do barro do chão, como o gás que acende a candeia e (“ninguém é de ferro”) a cachaça que aquece a alma. A leitores do asfalto, explico: brejeiro é quem vive na região do Brejo; legume é qualquer cereal; mangaio é todo artigo feito em casa ou tirado da pequena agricultura; gás e candeia,  leia-se querosene e candeeiro (e se você não sabe o que é candeeiro, aceite meus pêsames). Os dicionários grafam, se muito, mangalho – mas o que sabem do povo os dicionários? No vídeo, Clara Nunes e Sivuca: Feira de mangaio, dele e Glorinha Gadelha. Clique aqui e veja/ouça.
(O.C)

(O.C.)

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NUM SÓ DIA, DUAS PEDRADAS NOS JORNAIS

Ousarme Citoaian

No mesmo fim de semana, recebo duas pedradas, vindas de veículos diferentes, mas igualados no mesmo desleixo com a linguagem. Um dos principais diários de Itabuna estampa no alto da página: “Gisnática Laboral em alta no setor empresarial”; e o dito mais importante jornal do Nordeste, de Salvador, saiu-se com esta pérola, também num título: “O medo não é só da mulher. Não tem haver com gênero”. Um caso, além dessa incômoda gisnática, tem o agravante da rima (“laboral-empresarial”), o que já condenaria o título. O outro (pela relevância do jornal) é ainda mais grave.

OS ERROS NOS ESPREITAM TODO O TEMPO

Quem conhece, mesmo sem aprofundar-se, a rotina de uma redação sabe que os erros nos espreitam todo o tempo. Mas há erros e erros (até já abordamos aqui os famosos erros de digitação, outrora chamados erros de imprensa). Escrever gisnática (em vez de ginástica) é erro de digitação, ao levar o “s” para um lugar estranho. É acidente de trabalho que precisa ser atendido pelo próprio redator, o editor ou por um profissional em extinção, chamado revisor). Nada justifica (principalmente em letras grandes) que chutes na canela cheguem às bancas e atinjam leitores incautos.

DIFERENÇA ENTRE ACIDENTE E IGNORÂNCIA

Mais difícil ainda é aceitar como “normal” que um redator (muito provavelmente com formação universitária) grafe tem haver em lugar de tem a ver, pois aqui não se trata de simples derrapagem a que todos temos direito, mas de ignorância crassa de princípios elementares de língua portuguesa. Como disse um cínico, “herrar é umano”, mas se a gente usa mais a borracha do que o lápis, é preciso desconfiar. Não entendo que um grande jornal tenha o direito de cometer erros desse nível. Em qualquer boa escola de segundo grau essa construção receberia um zero bem grande e redondo.

A LEI DE LAVOISIER NO TEXTO LITERÁRIO

O crítico Hélio Pólvora compara a literatura a uma olimpíada, afirmando que “na boa literatura a lanterna de Diógenes passa de mão em mão, como tocha olímpica”. O autor de Itinerários do conto acrescenta que as consequências desse caminhar da tocha “são as aparentes imitações, que, na verdade, aproximam temperamentos, sensibilidades, experiências comuns”. Passando de uns para outros, a arte recebe acréscimos que a engrandecem, de sorte que nada é propriamente novo, mas transformado, uma espécie de Lei de Lavoisier. Por mais criativo que pareça o autor (foi assim que entendi), sempre há alguém que o inspirou e motivou.

O TEXTO RESULTA DE TRABALHO COLETIVO

Para Hélio, nada acontece por acaso em literatura, sendo esta uma obra de arte coletiva. “Para cada grande escritor que surge (…) em língua portuguesa, haverá sempre uma geração ou mais de escritores diversos que prepararam alicerces às suas descobertas”, afirmou o crítico em 1985, em palestra na Universidade Federal da Bahia. Por ser a literatura um trabalho “de equipe”, matéria que se transforma ao longo da existência, ao agregar autores diversos, ela cria dificuldades extras para os não iniciados, como eu. É muitas vezes torna-se difícil separar a homenagem e a deslealdade: citação e pastiche, referência e plágio .

A OLAVO BILAC O QUE É DE OLAVO BILAC

Tenho consciência de que a citação possa, diante de leitores menos atentos, soar como apropriação indébita, mesmo assim a uso. Há pouco, empreguei aqui, sem aspas nem nada, a expressão “nasceu pequeninho, como todo mundo nasceu”, uma referência (tomara que) óbvia a Caymmi; também reproduzi, aspeado, o verso “[Em que Camões] chorou no exílio amargo, o gênio sem ventura e o amor sem brilho”, citação intencional clara do soneto “Língua portuguesa”, de Olavo Bilac. Não me apropriei de produção alheia, apenas considerei que os leitores não exigem bula, e precisam ter sua inteligência respeitada. Mas vou tomar mais cuidado.

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE ANTÔNIO OLINTO

O jornalista João Lins de Albuquerque (foto), ex-chefe da Divisão de Língua Portuguesa da Rádio das Nações Unidas (ONU) em Nova York, tem na praça o livro Antônio Olinto – memórias póstumas de um imortal. É uma entrevista com o mineiro Antônio Olyntho Marques da Rocha (Ubá/MG 1919-Rio/RJ 2009), de quem extraiu histórias magníficas. Intelectual dos mais aparelhados que o Brasil produziu, Olinto (vejam que ele “consertou” o pernóstico Olyntho) brilhou em várias atividades, sobretudo a de professor: latim, português, história da literatura, francês, inglês e história da civilização. Seu livro Jornalismo e Literatura foi adotado em diversos cursos de jornalismo..

NOME QUE DISPENSA APRESENTAÇÕES

Antônio Olinto (foto) é uma das melhores justificativas para o lugar-comum “dispensa apresentações”. Como “apresentar” alguém que foi, com invulgar entusiasmo, professor, jornalista, crítico literário, autor de dicionários e de gramática, ensaísta, autor de literatura infantil, acadêmico (ocupou a Cadeira nº 8 da Academia Brasileira de Letras), contista, romancista, poeta – e ainda encontrou horas vagas para se dedicar às artes plásticas? É melhor não identificá-lo por nenhuma dessas habilidades, pois qualquer delas nos levaria ao pecado da omissão. Chamemo-lo, simplesmente, de Antônio Olinto. Para quem o conhece deve ser suficiente.

MURUCUTUTU, SAFADO, LUPANAR E SAUDADE

Em matéria para O Globo, Olinto perguntou a dez escritores, por telefone, qual era a palavra mais bela da língua portuguesa. Guimarães Rosa escolheu murucututu, segundo ele, uma corujinha amazônica, afirmando que “nenhum país tem uma palavra tão bonita quanto esta, cinco ´us´ numa palavra só”. Jorge Amado (foto), provocador, preferiu safado (de Safo, a poeta grega), mas Roberto Marinho vetou a publicação, o que levou o escritor a escolher outra: lupanar. “Pior ainda!”, lamentou Olinto, pois esta é que não seria publicada mesmo. Ele disse que lupanar é uma palavra bonita, mas que safado era de “um mau gosto atroz”. A vitoriosa no concurso de Globo foi… saudade.

PALAVRAS COM SEDUÇÃO E ENCANTO

Para Antônio Olinto, alegria era a palavra mais bonita da língua portuguesa. Ele conta que, em Londres, viu uma casa em cuja fachada estava escrito: “Alegria”. Sem pensar duas vezes, tocou a campainha, ouvindo de um inglês meio atônito a explicação: “Eu morei no Brasil um bom tempo e achava a palavra alegria tão bonita que, quando voltei, resolvi decorar a entrada da minha casa com ela!”. Eu tenho cá comigo algumas palavras que acho muito bonitas: encanto e sedução, por exemplo. E você, quer entrar no jogo e dizer quais as duas palavras que mais o seduzem ou encantam na língua portuguesa? Parece que cometi um trocadilho…

“FASCINANTE” CANÇÃO QUE VIROU MANIA

Fascinação enraizou-se na MPB a ponto de a gente nem lembrar que ela é francesa. De 1905, a canção só chegou à língua portuguesa em 1943, na versão de Armando Louzada, gravada por Carlos Galhardo. Foi mania nacional, aliás, mundial: teve registros de Dinah Shore, Nat King Cole, Jane Morgan (para o filme Amor na tarde, de 1957), Connie Francis, Dean Martin, Edith Piaf, Pat Boone, Demis Roussous. Entre nós, foi entoada, além de Galhardo, por Nana Caymmi, Agnaldo Rayol, Francisco Petrônio, José Augusto, Agnaldo Timóteo, Jorge Vercillo e até por uma dupla chamada Sandy e Júnior .
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

A GRANDE VOZ DA NOVELA “O CASARÃO”

Em 1976, quando ninguém mais queria saber de Fascinação, a música foi incluída no álbum Falso Brilhante, de Elis Regina, e daquele momento em diante tornou-se um dos temas românticos mais presentes no repertório da cantora – com a luxuosa ajuda das novelas O Casarão/1976 e O profeta/2006, ambas da Globo, de que fazia parte da trilha sonora. Mais tarde, com sua reconhecida criatividade, o SBT também teve Fascinação como tema (e título) de novela, só que na voz de Nana Caymmi. Tem mais: em 2007, com a letra em francês, o tema foi usado em Piaf – um hino ao amor, filme baseado na vida de Edith Piaf.

VERSÃO CORRIGIU FRAQUEZAS LITERÁRIAS

Canção de amor desesperado, bem ao feitio das escolhas de Piaf, a versão brasileira é “leve”, e poeticamente mais consistente, no estilo dos nossos letristas românticos. (curiosidade: nos mais de 30 versos de  Fascination não há esta palavra nem uma vez). As fraquezas literárias saltam logo nos primeiros versos: Je t’ai rencontrée simplement/ Et tu n’as rien fait pour chercher à me plaire (algo como “Eu lhe encontrei simplesmente/ E você nada fez para tentar me agradar”). Louzada corrigiu isto, com o lirismo de “Os sonhos mais lindos sonhei/ De quimeras mil um castelo ergui”. Com (letrista) brasileiro não há quem possa. Clique e veja/ouça.

(O.C.)
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SAUDOSISMO E MÁ-FÉ: A MISTURA PERIGOSA

Ousarme Citoaian

Recebo frequentemente (quem não as recebe, atire a primeira pedra) gracinhas recolhidas em exames públicos, nunca sei se reais ou inventadas. É que o Brasil costuma acalentar o pensamento saudosista (às vezes em mistura perigosa com a má-fé) de que “antigamente tudo era melhor, sobretudo a escola”. Besteira. Energúmenos jovens e adultos sempre os tivemos à mancheia, e até guardo o sentimento de que essa raça – se acaso não estiver em extinção – estranhamente viceja muito mais entre adultos do que entre adolescentes. Os meninos e meninas de hoje, penso, são bem mais preparados do que seus ancestrais. E menos conservadores.

FANTÁSTICOS BEÓCIOS DO TERCEIRO GRAU

A escola, antiga ou contemporânea, sempre abrigou extraordinários mentecaptos, formidáveis beócios e fantásticos basbaques, sem prejuízo de uma chusma de grandes atoleimados, labruscos, paspalhões, estultos e estúpidos em geral. Não se trata de ofensa, mas de realidade constatada. Lamentável é que o preconceito em voga reserve essas gentis qualificações para os alunos, quando elas abundam entre professores – sobretudo no terceiro grau – e quem disso discordar é porque não tem lido algumas opiniões exaradas em artigos de jornais da região: essas sumidades tratam os leitores como se fôssemos tutelados ou rematados imbecis.

QUALQUER ESTULTICE PODE SER SUPERADA

Um desses profetas do caos defende a estranha tese de que quem vota em certo grupo político é cego, surdo e analfabeto – a mostrar que o respeito pelo leitor/eleitor é artigo em falta nas colunas, enquanto outro se refere aos programas federais como “medidas de caridade”. Também “denunciam” ameaças nazistas, conspirações contra a democracia e que o stalinismo será implantado no País, se certa candidata for eleita. É a recorrência ao pensamento carcomido de uma malta de fascistas, tendo à frente Olavo de Carvalho, Demétrio Magnoli et caterva do Instituto Millenium. A turma do Enem, pelo menos, é original, com erros de lavra própria.

PÉRICLES FOI O DITADOR DA DEMOCRACIA

Diferente do ranço reacionário que emana de tais escritos, as “pérolas” do Enem remetem a alguma poesia. Vejamos as nove melhores: 1) O nervo ótico transmite idéias luminosas para o cérebro; 2) O vento é uma imensa quantidade de ar; 3) As múmias tinham um profundo conhecimento de anatomia; 4) Péricles foi o principal ditador da democracia grega; 5) O problema fundamental do terceiro mundo é a superabundância de necessidades; 6) O Chile é um país muito alto e magro; 7) As aves têm na boca um dente só, chamado bico; 8)  Antes de ser criada a Justiça, todo mundo era injusto; 9) A insônia consiste em dormir ao contrário.

O BARZINHO E A SUBVERSÃO DA LINGUAGEM

A mídia regional tratou um concurso musical realizado em Itabuna recentemente como “Fase dos Barzinhos”. E tinha que ser assim, pois a escolha do nome foi dos promotores, não dos divulgadores: “Barzinhos” é uma estranha forma de fazer o plural de substantivos terminados em “zinho”, não reconhecida pela gramática portuguesa, que manda seguir outro processo em tais casos: 1) ignora-se o “zinho”, 2) coloca-se o substantivo no plural, 3) retira-se o “s”, 4) recoloca-se  o “zinho” em seu lugar original e 5) acrescenta-se o “s”. Pãozinho, por exemplo: 1) pão; 2) pães; 3) pãe, 4) pãezinho, 5) Pãezinhos.

A REGRA QUE OS BRASILEIROS REFORMARAM

Vamos multiplicar Mulherzinha? 1) mulher; 2) mulheres; 3) mulhere; 4) mulherezinha, 5) Mulherezinhas. Que tal este, em moda? Eleitorzinho: 1) eleitor; 2) eleitores; 3) eleitore; 4) eleitorezinho, 5) Eleitorezinhos. Como compor o plural de Barzinho? Fácil: 1) bar; 2) bares; 3) bare; 4) barezinho, 5) Barezinhos. É claro que todo falante da língua desta terra achada por Cabral consideraria “Fase dos Barezinhos” (em lugar da eleita “Fase dos Barzinhos”) uma verdadeira afronta: se cantor, recusar-se-ia (ops!) a cantar; se público, negar-se-ia a pagar o ingresso. “Barzinhos”, por assim dizer,  fechou os “Barezinhos”.

“É BRASILEIRO, JÁ PASSOU DE PORTUGUÊS”

Tenho, sem consulta ao professor Odilon Pinto (provavelmente pouco interessado neste tema menor), uma teoria sobre esta formação esdrúxula. Barzinho, na acepção referida, não é apenas o diminutivo de bar, mas um bar “especial”, onde músicos se apresentam, geralmente à noite. Naquilo que chamaríamos (arbitrariamente, é claro) língua brasileira, a palavra perdeu seu sentido de “bar pequeno” e passou a ter outra identidade. Visto assim, o barzinho pode até ser um grande espaço, desde que mantenha a característica de bar com música. Barzinhos, como diria o insuperável Noel Rosa, “é brasileiro, já passou de português”.

INVEJA TIROU NOBEL DE CARLOS CHAGAS

O Brasil já esteve na bica para ganhar o Nobel de Medicina, com Carlos Chagas (foto), e o de Física (César Lattes). Chagas (indicado pelas suas pesquisas em tripanossomíase) foi derrotado em seu próprio quintal: colegas brasileiros consultados sobre a descoberta da doença de Chagas, num misto de ignorância e inveja, desaconselharam a premiação em 1921 (ninguém foi escolhido naquele ano). Já Lattes pediu ajuda a um certo Ceci Powell, da Universidade de Bristol, para redigir o artigo científico em que  anunciava sua descoberta, o méson Pi. Powell assinou com ele e terminou recebendo o Nobel. A equipe de Lattes sequer foi mencionada.

DITADURA TIROU NOBEL DE DOM HÉLDER

O terceiro brasileiro seriamente cotado para o Nobel foi o cardeal-arcebispo Dom Hélder Câmara (foto). Apelidado “Bispo Vermelho”, pela ditadura militar que assaltou o poder em1964, foi autor de um dos maiores programas sociais do Nordeste, o Operação Esperança. Em 1970, reuniu mais de 20 mil pessoas em Paris para denunciar torturas no Brasil. Por suas obras, foi indicado ao Nobel da Paz de 1970 a 1973, tido como favorito absoluto nas quatro vezes. Mas nunca foi escolhido, devido a pressões do governo brasileiro. Na época, por ordem dos militares, nossa mídia sequer “conhecia” D. Hélder: não falava dele bem nem mal.

NO NOBEL, ARGENTINA NOS DÁ GOLEADA

O Prêmio Nobel de Literatura teve alguns países supercampeões: França (ganhou 14 vezes), Reino Unido (10), Estados Unidos (9), Itália e Suécia (6), Espanha (5), Irlanda e Polônia (4). Noruega e União Soviética (3 vezes). Em outras categorias, com um prêmio só, ainda estão Timor Leste, Gana, Paquistão, Tibet e a pequena ilha caribenha de Santa Lúcia (Literatura, 1992). Aliás, até a Autoridade Palestina, que nem país é, já ganhou o Nobel.  A poesia do pequeno Chile levou o prêmio duas vezes, com Gabriela Mistral (foto) e Pablo Neruda. A Argentina ganhou cinco vezes, mas não o de Literatura – por isso reclama da “injustiça” com o escritor Jorge Luis Borges. E nosso Brasil brasileiro, necas.
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CANTO MASCULINO EM VOZ DE MULHER

Ne me quitte pas teve gravações em várias partes do mundo, com artistas das mais diversas tendências. Curiosidade: embora a canção seja essencialmente masculina (trata–se de um homem se dirigindo a uma mulher) foram as cantoras e não os cantores que fizeram todos os registros de que tenho notícia: as francesas Simone Langlois e Sylvie Vartan, a americana Nina Simone e, pasmem, nada menos do que meia dúzia de vocalistas brasileiras: Maysa (foto), Maria Gadu, Roberta Miranda, Ângela Rô-Rô, Sônia Andrade e Alcione. No filme A lei do desejo (1987), Pedro Almodóvar usa a canção na trilha sonora, em gravação de Maysa. Logo, devido à exposição do filme, este seria o registro mais divulgado de Ne me quitte pas.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

CORAÇÃO EM CHAMAS, ALMA DILACERADA

O francês Jacques Brel (foto), em 1959, durante sua dolorosa separação da ex-mulher Suzanne Gabrielle, fez Ne me quitte pas, um tijolaço com cerca de 60 versos, fora o refrão, todos rigorosamente com cinco sílabas. Única gravação masculina que conheço, a do autor, é definitiva, mostrando a diferença entre cantar e interpretar: ele é um homem abandonado, com o coração em chamas, à beira do desespero. Certa feita, Monsieur Brel, vestido de filósofo, disse que Ne me quitte pas não é um poema sobre o amor, mas sobre a covardia do homem. Dono da letra, ele tem o direito de dizer o que bem quiser. Mas para mim esta é uma canção de amor, sem dúvida, e das mais extraordinárias já vistas na música popular em qualquer tempo.

“EU TE OFERECEREI PÉROLAS DE CHUVA”

Se alguma leitora não concordar comigo, diga se já ouviu um homem lhe sussurar “Eu te darei pérolas de chuva/ Vindas de países onde jamais chove” (Moi je t’offrirai des perles de pluie/ Venues de pays où il ne pleut pas). Apenas estes versos já seriam bastantes para identificar Ne me quitte pas como um soberbo canto de paixão.  Clique aqui e veja/ouça a dilacerante interpretação de Jacques Brel.
(O.C.)
Tempo de leitura: 7 minutos

MÁRTIR CRUCIFICADO NOS POSTES DA META

Ousarme Citoaian

“O único número um que não é o primeiro da turma é o goleiro. Para gente do jogo melhor seria se fosse o número zero. Tem quem ache o goleiro um zero à esquerda, que fica no meio do gol só porque não sabe chutar a bola com a direita. É um mártir crucificado nos postes da meta por um só lance. Como Barbosa, que pagou pela vida por uma culpa que não teve no gol da vitória do Uruguai, no Maracanazo de 1950. Tantas defesas não o salvaram dos ataques injustos. Ficou o gol. Não sobrou o goleiro”. Esta parte da orelha, assinada por Mauro Beting (foto), antecipa a qualidade da linguagem de Goleiros: heróis e anti-heróis da camisa 1, livro de Paulo Guilherme.

SUBIDA METEÓRICA E QUEDA RETUMBANTE

Goleiros… não é só boa linguagem (expressa com simplicidade, clareza e correção – mantida à distância de esnobismos vocabulares), mas muito divertido e informativo, como resultado de uma pesquisa que cobre todos os ângulos possíveis dessa tantas vezes desdenhada posição no jogo de futebol: estrelas de alta grandeza, fracassados retumbantes, jornadas gloriosas, subidas meteóricas, quedas penosas – está tudo lá, retratado em 280 páginas recheadas de surpresas a cada capítulo. Mas o livro omite uma informação evidente, que está à vista de qualquer torcedor mais informado, e que é uma espécie de conquista extra da torcida do Flamengo.

FENÔMENO QUE COMEÇOU EM MOSSORÓ

Era a tarde de 17 de fevereiro de 1963, quando jogavam Potiguá e Baraúnas, em Mossoró/RN. O goleiro Xavier Oliveira, do Baraúnas, deu um chutão pra frente, a bola atravessou o campo (por certo não era muito grande) e chegou à grande área do adversário. Indeciso entre segurar logo a bola ou deixar que ela batesse no chão, o goleiro Dedeca, do Potiguá, escolheu a segunda alternativa: a pelota quicou e o encobriu. Foi, segundo Paulo Guilherme, o primeiro gol de goleiro registrado pela história. O grande Manga (ex-Botafogo e Internacional/RS, na capa do livro) fez um belo gol contra o Racing, quando jogava no Nacional de Montevidéu. E o rubro-negro com isso? Veja a seguir.

UM ERRO QUE JAMAIS SERÁ ESQUECIDO

O Flamengo de 1970 tinha Onça, Zanata, Ney e o lendário Fio Maravilha. Sem o brilhantismo da década seguinte, com Zico, Júnior, Leandro e Andrade – mas um time esforçado. Em 19 de setembro, no estádio Luso-Brasileiro/RJ, veio o inusitado. O goleiro Ubirajara cobrou um tiro de meta, lançando a bola em procura do atacante Ney, o vento estava a favor, a bola foi indo, foi indo, foi indo… e só parou no fundo das redes do Madureira. Ubirajara (da Silva Alcântara) entrou para a história como o primeiro goleiro a marcar um gol para o clube. Esta é a passagem que o livro omite. O ótimo Paulo Guilherme, mesmo que viva cem vidas, jamais será perdoado pela isenta torcida rubro-negra. Tomou um frango.

CORTAR GASTOS, POR CONTA DO DUODÉCIMO

Em nota enviada à mídia (em 28 de setembro) a Câmara de Vereadores de Itabuna informa que “passou por muitas adequações a partir da redução do duodécimo” e, “por conta disso”, teve de tomar algumas decisões etc.etc. Bem que eu, sonhador incorrigível, me sentiria feliz com atitudes que reduzissem as despesas públicas em todos os níveis, inclusa a Câmara. Mas não é este, infelizmente, o motivo de nossa atenção ao texto. A preocupação é o “por conta de” – praga das mais recentes que grassam no (pseudo) jornalismo. A expressão pertence ao grupo das novidades inúteis e incomodativas.

INVESTIGAÇÃO POR CONTA DAS SUSPEITAS

Empregam “por conta de”, onde se deveria usar “por causa de”, uma impropriedade, já se vê. “Por conta de” se refere a dinheiro; “por causa de” trata do motivo para se tomar (ou não) alguma atitude: o vereador pode até viajar por conta da Câmara (gramaticalmente certo, e, muitas vezes, moralmente errado); mas “adequações” precisam ser por causa de alguma coisa (no caso, a redução do duodécimo). Dia desses, num noticiário de tevê, ouviu-se que “a investigação foi iniciada por conta das suspeitas”. Besteira. Foi por causa das suspeitas e, certamente, por conta do contribuinte.

É PRECISO HAVER RELAÇÃO DE CAUSALIDADE

A expressão, dizem os (bons) linguistas, nasceu nos anos noventa, pequenininha (como todo mundo nasceu), encorpou-se e invadiu as redações, a fala e a escrita. “A testemunha está com medo do bandido e, por conta disso, se recusa a depor” é construção comum nas mídias, mesmo que não se perceba relação de causalidade entre o medo e  a recusa. “Está tão certo de ganhar o aumento de salário que já está gastando por conta”, ao contrário, é bom português, falado ou grafado. Quem fala ou escreve “por conta de”, como nos exemplos referidos (se alfabetizado), não tem direito a defesa.

O INTENDENTE E O CALÇADÃO DE ILHÉUS

“Prefeitura atende antiga reivindicação e implanta calçadão na rua Sá de Oliveira”, diz a notícia do governo de Ilhéus, reproduzida em vários veículos regionais, na segunda quinzena de setembro. Logo na abertura do texto, afirma-se que técnicos do município “visitaram na manhã desta segunda-feira (20) a rua Sá Oliveira, centro”, o que nos leva inevitavelmente à pergunta: o nome é Sá de Oliveira (conforme o título) ou Sá Oliveira (como no texto)? Nenhuma das duas formas, isto é, mesmo com um palpite duplo, os redatores da notícia não acertaram o nome da rua. Mas é verdade que a placa ali afixada não os ajudou.

CULTO, DIGNO, INTELIGÊNCIA BRILHANTE

Fiquei tão indignado com a informação que decidi não ligar para a regência (a meu juízo) equivocada do verbo atender, economizando implicância para coisa mais grave: o nome do logradouro. Supõe-se que a placa ali fixada se refira a João Batista de Sá e Oliveira, primeiro intendente de Ilhéus, médico, jornalista, professor, etnólogo e pesquisador em antropologia. Fernando Sales o vê como “figura das mais fascinantes de sua geração, quer pelo brilho da inteligência e da cultura, quer pela clareza das palavras na cátedra [de medicina] que tanto honrou, ou nas concentrações políticas que tão bem soube dignificar”.

DESCASO DO LEGISLATIVO E DO EXECUTIVO

A forma Sá e Oliveira é referida, além de Fernando Sales, por Silva Campos, Sá Barreto e outros pesquisadores. “Sá de Oliveira” e “Sá Oliveira” são descuidos de alguns historiadores e que a mídia, em sua preguiça crônica, repete sem analisar. O maior desleixo, no entanto, nem há de ser debitado aos veículos de comunicação: é de pasmar que um projeto aprovado pela Câmara e sancionado pelo prefeito de Ilhéus (por certo, há muito tempo) não tenha esse erro palmar corrigido até hoje e não gere protestos de historiadores, familiares do homenageado ou da Academia de Letras de Ilhéus, que o tem como patrono de uma cadeira.

OPORTUNIDADE PARA CORRIGIR A OFENSA

A matéria divulgada pela Prefeitura de Ilhéus nos adianta que “na rua Sá Oliveira será colocado piso de alta resistência, além de rampas com a finalidade de permitir a acessibilidade de pessoas com deficiência” e que “a obra visa melhorar o fluxo de consumidores naquela rua”. A ideia de uma área livre da poluição dos automóveis e de seus condutores (alguns potencialmente assassinos) me encanta. Mas bem que o secretário Marconi Queiroz, dado como responsável pela obra, poderia corrigir na nova placa a ofensa que Ilhéus tem feito a um de seus filhos mais ilustres, nosso coleguinha jornalista Sá e Oliveira. E, assim, “melhorar o fluxo da verdade histórica”.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

BOB MARLEY A SERVIÇO DA ANISTIA

Dia desses afirmei que considero Gilberto Gil (desde a morte de Luiz Gonzaga) o maior artista do pop brasileiro. Além dos recursos vocais, ele é letrista de primeira linha (forma ao lado de Caetano, Chico Buarque, Paulo César Pinheiro, Noel e outros notáveis de hoje e de ontem), grande músico e extraordinário “versionista” (o termo, parece-me, já entrou para o grupo dos arcaísmos). Foi ele quem ambientou “Não chore mais” (No woman no cry, de Bob Marley) na ditadura, aquela dos slogans excludentes (foto): “Bem que eu me lembro/ Da gente sentado ali/ Na grama do aterro, sob o sol/ Ob-observando hipócritas/ Disfarçados, rondando ao redor/ Amigos presos/ Amigos sumindo assim/ Prá nunca mais”.

TALENTO “VISTO” POR STEVE WONDER

Versão de Gil não é tradução literal, mas novo produto, conservada a melodia. Foi assim com No woman no cry e (mais ainda) com I just called to say I love you (Steve Wonder), esta uma letra de força romântica incomum, que me emociona até hoje, tendo sido lançada há um quarto de século (valha-me Deus!). Minha empolgação, descobri tempos depois, não era exagero de tiete: Wonder (foto) disse que a letra de Eu só chamei porque te amo era melhor do que a dele. Elogio bem merecido, por aquele tocante “Nada de mais, nada de mau/ Ninguém comigo, além da solidão/ Nem mesmo um verso original/ Pra te dizer e começar uma canção”. Grande, imenso Gilberto Passos Gil Moreira.

MESTRE EM PAPEL DE “COADJUVANTE”

No vídeo, uma interpretação magnífica, que marca também um lado pouco valorizado do ex-ministro, a humildade: na gravação, o mestre desce à simples condição de coadjuvante da cantora Carla Visi – que, com sua voz cristalina, se mostra à altura do momento. Clique, mesmo que isto faça aflorar antigos ferimentos do coração. Chorar faz bem aos olhos e à alma.

(O.C.)

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A PAIXÃO, SEGUNDO MARIA LUIZA NORA

Ousarme Citoaian

Muitos se acham tocados pela força da poesia e, em função de tal canto de sereia, afoitamente se atiram nas águas revoltas desse gênero, às vezes com resultados funestos. Maria Luiza (Baísa) Nora, que acaba de lançar A ética da paixão, recusou-se à aventura a que tantos imprudentes se lançam e escolheu o caminho “clássico”: antes de escrever, leu. Talvez seja importante dizer isto, como forma de entendermos o porquê de A ética… não parecer artigo de principiante. É que Baísa (foto) se mantém distante da sintaxe tatibitate de uns que impunemente (quem sabe, impudentemente) se dizem poetas; ela sequer tangencia o ridículo em que mergulham os incautos “bafejados” pelas musas.

POÉTICA QUE ABRE AS PORTAS DA ALMA

“Vítima” de uma autora com refinadas leituras de prosa e verso, seria impossível a A ética da paixão não refletir Fernando Pessoa, Neruda e (destacados por Patrícia Pina, em parecer acostado ao livro) Camões, Vinícius, Chico Buarque, Cartola, Álvares de Azevedo. Pessoalmente, imagino Baísa Nora assemelhando-se a Florbela Espanca: poética confessional, corajosa, ousada, de uma ousadia tal que abre as portas da alma e escancara um misto de desenfreado sofrimento e intenso gozo. Um espectro que abrange a angústia e a paz, o “ridículo” das revelações íntimas (à Álvaro de Campos) e a tragédia inevitável das rupturas afetivas, sempre portadoras dores lancinantes.

O CORPO PARA DIVIDIR, NÃO PARA DOAR

Baísa Nora revela a plena mulher ocidental do seu tempo, em oposição àquele antigo objeto de prazer do outro, mas nula em si mesma. Seu cantar é erótico, afetivo, protetor, possessivo, provocador, provocante, às vezes de mãe, muitas de amante, atrevido sempre. É a voz da mulher-cidadã, que se reconhece dona do seu corpo e pronta a dividi-lo, nunca a doá-lo. A ética… não é  o cometimento de versos piegas que o tema motiva, mas grito universal e maduro sobre a paixonite aguda e outras moléstias do ser humano, “versos tintos do rubro da paixão, do roxo das saudades e nostalgias, do rosa de ardentes crepúsculos, do amarelo de outonos desfolhados”, na leitura permanentemente lúcida da ensaísta Margarida Fahel.

ALGUÉM DIZ “MINISTÉRIO DE SAÚDE”?

“O secretário de Saúde está em dificuldades”, diz o jornal.  Ou seria “O secretário da Saúde está em dificuldades”? O correto é “de” ou “da”? Ambas as formas, afirmam os filólogos, são bem-vindas. O “da” tem sabor mais clássico, mais purista, enquanto o “de” é consagrado pelo uso. Minha preferência, nem precisava dizer, é pela primeira alternativa – coerente com expressões análogas. Ninguém em juízo perfeito diz “ministro de Saúde” ou “Ministério de Saúde”, e sim “da Saúde”, “da Agricultura”, “da Fazenda”. Logo, a primeira das duas escolhas está mais para a teoria do “se você entendeu, está bom”, defendida por certos (ou errados?) linguistas.

BELOS EFEITOS DA PREPOSIÇÃO “DE”

É mesmo curiosa essa preposição “de”. Surge em expressões que geram som e sabor agradáveis ao combinar palavras aparentemente inconciliáveis. Vejam esse efeito em alguns títulos de livros, lembrados ao acaso: Chão de meninos (Zélia Gattai), Girassol do espanto (Telmo Padilha), Sangue de coca-cola (Roberto Drummond), Flores do caos (Ulisses Goes), Amor de perdição (Camilo Castelo Branco). Fico surpreso ao saber que está no ar, ou esteve (não afirmo, pois não vejo novela nem sob tortura!) uma coisa chamada Canavial de paixões. Aí, tenham dó deste pobre e hebdomático escriba e o esclareçam: que diabos vem a ser um… canavial de paixões?
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O AUTOR E SEU NAMORO COM O TEXTO

Creio que a maioria dos autores seja enamorada do próprio trabalho, num estanho narcisismo, tendo o texto como o espelho em que o autor se reflete e se admira. Aventuro-me a afirmar: ainda que o leitor não se sensibilize com esse esforço, o autor se sente recompensado, quando é atingido pelo próprio produto. “Sou meu melhor leitor”, diz, com variações, esse narcisista. Escreve para ele, em primeiro lugar; se for possível, também para o leitor. Profissional a soldo, que escreve para sobreviver, não sou exceção a esta regra: estou pronto a defender o que escrevo, pois só vai a público o que é aprovado pela minha rígida autocensura.

PROVOCAR LEITOR É FUNÇÃO DO AUTOR

O que me emociona talvez não emocione o leitor; o que não me emociona, certamente não o emocionará. Logo, não será publicado. Outra questão fundamental da escrita: não há de faltar quem a deseje pura de ideologias – um produto sem fecundidade, sem calor, sem alento, banal, estéril, um fruto peco. Penso que o texto precisa ter claros e escuros, luzes e sombras, caminhos e sugestões. Se a gente entra e sai dele sem que algo se mexa dentro de nós, tal leitura não terá passado de inútil gasto de tempo. A função do autor é comunicar (talvez “provocar” seja o termo justo), daí ser indispensável que ele tenha algo a dizer – e diga.

ENTRE A NOITE ESCURA E O DIA LUMINOSO

Imagino que o texto há de ser a cara do autor, ter suas digitais, marca e estilo, no sentido dado pelo Conde de Buffon (foto), de que “o estilo é o homem” (Le style cest lhomme même). Vai-lhe bem uma pitada de ideologia, representação, teatralidade, coração, fantasmas, experiências, ritmos e cores – que passeiam entre a noite escura e o dia luminoso, entre o alfa e o ômega – digamos. O texto é tudo isso, disso tudo se alimenta, mas a tudo isso se sobrepõe. O leitor não precisa concordar com o autor, e muitas vezes é preferível que não o faça. A discordância, se praticada com honestidade de princípios, é ótimo caldo de cultura para o crescimento das ideias.

QUEM ESCREVE HÁ DE SER CRÍTICO E LEITOR

Na juventude (que longe vai), fruí de autores cuja ideologia abominava, mas que escreviam com alta qualidade – e todos contribuíram para formar este resultado que diante de vós se apresenta: o panfleto de David Nasser (foto), a eloqüência de Carlos Lacerda, a crônica de Nelson Rodrigues. Os três aspergiram em seu discurso as sombras da ideologia, do compromisso pessoal, às vezes até do interesse inconfesso – mas sempre com o condão de proporcionar um prazer intenso ao leitor e, aposto, a eles mesmos. Se, de faca na garganta, eu fosse forçado a ditar uma regra de escrita, diria: seja seu leitor e seu crítico; agrade a você mesmo – e o depois virá.

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ENTRE BALANÇAR O CORPO E O GOVERNO

I will survive (literalmente, “Eu sobreviverei”) andava no topo da lista naqueles anos setenta, a era disco (ou dance), com  os adultos jovens divididos em dois grandes grupos: um tentava balançar os milicos no poder usurpado, enquanto o outro queria apenas balançar o corpo, de preferência aquela parte que o bom Deus houve por bem fazer a mais carnuda do corpo humano. Talvez seja o caso de se dizer que entre mortos e feridos salvaram-se (quase) todos. A exceção é para os esqueletos danificados pelo pau-de-arara, os choques elétricos, o telefone e outros malefícios da ditadura.

DE GRANDE HIT DAS MULHERES A HINO GAY

É relevante dizer que I will survive, sabe-se lá por que cargas dágua, transformou-se no hino gay, e assim é conhecida hoje.  Dizem os entendidos (ops!) que o fenômeno se deu devido à fantástica quantidade de execuções que a música teve nos ambientes homossexuais. Eu nada vi, de nada sei, não afirmo nem nego, pois não estava lá. Estava, modestamente, procurando derrubar o governo, o que (me dói afirmar) não conseguimos. Ele só caiu de podre. Mas preciso ser justo: minha escoliose não foi provocada pelos militares, e sim pela má postura. Voltemos à canção, que é menos penosa.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

CARAS E BOCAS DE VIRA-LATA ABANDONADO

Em I will survive (Dino Fekaris e Freddie Perren), uma mulher bem resolvida é procurada pelo sujeito que a deixara de maneira vil e que, de repente, está ali na sala de visitas, dando uma de vira-lata abandonado. Diante do cara “Com aquele ar tristonho no rosto” (With that sad look upon your face), ela relembra as injúrias do passado e joga duro, bem ao estilo do lateral Felipe Melo: “Vá embora agora! Saia por aquela porta!” (Well, now go! Walk out the door!). Embora não seja suficiente para ganhar o Nobel de Literatura, é uma letra forte, apropriada para mandar homem pastar.

O PRECONCEITO E A MORTE AOS 36 ANOS

Ao descobrir que Vanusa (foto) teria a audácia de gravar I will survive, o reduto entrou em parafuso: depois do hino nacional, o que ela faria com o hino gay? Ouvi relato de que numa dessas paradas GLBT ela entoou Eu sobrevivo (versão de Paulo Coelho, ex-parceiro de Raul Seixas e maior vendedor de livros do mundo) e não reeditou o desempenho obtido com a canção de Osório Duque Estrada e Francisco Manuel da Silva, quer dizer, sob o ataque vanusiano, a música fez o que faz nos últimos trinta anos: sobreviveu. Afaste os móveis, aperte o play e solte a fran…, isto é, mande ver (escolhemos Gloria Gaynor, para prevenir acidentes com o “hino”).

(O.C.)

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HAVERIA SOLIDARIEDADE NO PALEOLÍTICO

Ousarme Citoaian

A literatura, em seus diferentes formatos, é uma das mais antigas manifestações do homem. Gosto de pensar que, mesmo em tempos imemoriais, quando começa a se comunicar, ao perceber-se apreendendo o ambiente, aquele ser ainda meio curvado registrou sentimentos de crítica aos costumes, contou bravatas sobre suas caçadas (os caçadores já eram exagerados no paleolítico?) e, principalmente (esta é minha grande esperança nunca perdida), deu sinais de solidariedade com seus semelhantes. Talvez, num dia ruim do seu vizinho, esse meu irmão antigo tenha lhe oferecido um pedaço de caça para o jantar. E que os historiadores, antropólogos, sociólogos e pessimistas em geral não desfaçam minha ilusão.

A POESIA SE FAZ PRESENTE NO INFORTÚNIO

Na tevê, numa matéria sobre enchente em Santana do Mundaú/AL, uma menina de sete anos, olhos tristes mas sem lágrimas, registra, com tocante poesia, a desgraça que a acometeu: “A casa caiu. A alegria toda foi embora”. Nenhuma queixa, só a mera constatação de que a cheia lhe tirou, com o abrigo, a alegria, que por certo não era muita. Essa menina que perdeu tudo e ainda resiste em chorar me desperta para a inutilidade do que faço, um trabalho que se mostra incapaz de atenuar tristezas. Um pedreiro sabe, no fim da jornada, quantos metros de parede ergueu; quem escreve, nunca sabe se produziu uma frase sequer que valha alguma coisa – creio que Graham Greene disse isto, com outras palavras.

FAMOSA FRASE RUIM DE UM BOM AUTOR

A solidariedade no sofrimento talvez seja a mais importante característica do ser humano. Pedras e árvores não se comovem, nenhuma notícia ruim as faz chorar, pois entre as criaturas do planeta só o homem é capaz de sofrer com a desdita do outro. A má frase do bom autor (mineiro, por sinal) Otto Lara Resende (“O mineiro só é solidário no câncer”) reflete apenas um instante de humor azedo: ao que me consta, a maioria dos brasileiros é capaz de gestos da mais cabal, definitiva e piegas emoção. Essa menina de olhar triste, por exemplo, tem, com minhas lágrimas, minha solidariedade. Isto não vai aliviar sua dor, mas me deixa a quase certeza de que sou algo mais do que uma árvore ou uma pedra.

A PARTE DO HINO QUE NOS TIRARAM

Recebi (e li) interessante informação sobre o Hino Nacional Brasileiro, demonstrando quão pouco ainda conheço da minha pátria. Fico sabendo que o hino, cuja letra é considerada difícil, a ponto de muita gente errar ao cantá-lo (incluindo a cantora Vanusa e o ex-presidente FHC), já foi pior – isto é, maior: lá pelo ano de 1831, a introdução (hoje apenas instrumental) também tinha versos – e versos que, certamente, deixariam em má situação os nossos descuidados cantores, sejam oficiais, oficiosos, amadores ou profissionais: “Espera o Brasil que todos cumprais com o vosso dever”, o verso inicial, nos dá uma ideia do que vem a seguir.

GRAVADO A BURIL NOS PÁTRIOS ANAIS

Essa parte da letra foi retirada, ao que tudo indica, devido à dificuldade que se tinha para cantá-la. Em nossos dias, quando a linguagem tende a sepultar rapidamente qualquer termo menos corriqueiro, seria temeroso manter na letra da introdução do hino coisas como “Gravai com buril nos pátrios anais do vosso poder” – isto no caso de que essa intervenção a buril nos nossos pátrios anais não viesse a despertar risinhos à socapa, suficientes para tirar a austeridade de qualquer cerimônia. Mesmo que não saibamos os motivos reais da supressão, ela parece justificada para nossos tempos, costumes e  ouvidos.

“AVANTE, BRASILEIROS, SEMPRE AVANTE”

Para atender aos mais curiosos, aqui está a parte da letra que foi retirada: “Espera o Brasil que todos cumprais com o vosso dever/ Eia! Avante, brasileiros, sempre avante!/ Gravai com buril nos pátrios anais o vosso poder/ Eia! Avante, brasileiros, sempre avante!/ Servi o Brasil sem esmorecer, com ânimo audaz/ Cumpri o dever na guerra e na paz/ À sombra da lei, à brisa gentil/ O lábaro erguei do belo Brasil/ Eia, sus, oh sus!”. Claro que o autor desta parte (certo Américo de Moura, de Pindamonhangaba/SP) não quis antecipar nenhum elogio ou censura ao nosso sistema de saúde pública: sus é uma interjeição, significando “avante”, “para cima” – qualquer coisa assim. No vídeo, o introdução cantada.

NO BRASIL, UMA COLEÇÃO DE EXÓTICOS

A questão dos nomes estranhos registrados no Brasil entrou na coluna e parece não querer mais sair. Esse tema que muito me encanta foi tratado há tempos pelo autor de um de meus livros de cabeceira, O coronel e o lobisomem/1964. Refiro-me a José Cândido de Carvalho (foto), criador de nomes exóticos (no que se aproxima de Guimarães Rosa), e que se valeu da lista de segurados do INPS (espécie de SUS daquela época) para demonstrar que a realidade surpreende mais do que a ficção. Nomes que constam de listas públicas farão o leitor menos informado pensar que são invenções para divertir as pessoas com o ridículo alheio. Veja abaixo algumas curiosidades.

QUANDO O RIDÍCULO É LEVADO AO EXTREMO

Jotacá Dois Mil e Um, Juana Mula, Jovelina Ó Rosa Cheirosa, Lança Perfume Rodometálico de Andrade, Leda Prazeres Amante, Magnésia Bisurada do Patrocínio, Manganês Manganésfero Nacional, Manuel Sola de Sá Pato, Maria da Segunda Distração, Maria Passa Cantando, Maria Privada de Jesus, Naída Navinda Navolta Pereira, Napoleão Sem Medo e Sem Mácula, Necrotério Pereira da Silva, Oceano Atlântico Linhares, Otávio Bundasseca, Pacífico Armando Guerra, Padre Filho do Espírito Santo Amém, Pália Pélia Pólia Púlia dos Guimarães Peixoto, Pedrinha Bonitinha da Silva, Percilina Pretextata Predileta Protestante,Voltaire Rebelado de França.

OS NOMES QUE SÃO NÚMEROS EM FRANCÊS

Por falar em França, em Mossoró/RN, o farmacêutico Jerônimo Rosado se cansou de procurar nomes para seus muitos filhos e, a partir do sexto, passou a numerá-los, primeiro em português, depois em francês. A prole ficou famosa: existe uma cidade chamada Dix-Sept Rosado (homenagem ao décimo sétimo filho de seu Jerônimo), que foi prefeito de Mossoró e governador do estado. Outros irmãos muito conhecidos foram Dix-Huit Rosado (ex-prefeito), Vingt Rosado (ex-deputado federal) e Ving-Un Rosado (foto) que escreveu vários livros e editou outros 3 mil títulos históricos, a “Coleção Mossoroense”. A lista de seu Jerônimo já chegou a Dix-Sept Rosado Sobrinho e Vingt-Un Rosado Neto.

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A PORTUGUESA QUE ENTROU PARA A MPB

São tantos os grandes compositores românticos do Brasil que citá-los seria tarefa impossível. E a arte que, como a vida, nos espreita em cada esquina, traria ainda uma surpresa à lista, com a inclusão de uma autora portuguesa, quem diria. Pois lhes digo e provo que a rapariga, levada pelo braço por um tal Raimundo Fagner Cândido Lopes (foto), empurrou a porta, arrastou a cadeira e aboletou-se ao lado de Vinícius, Noel, Orestes Barbosa, Chico Buarque, Antônio Maria, Dolores Duran e outros bambambãs, sem pedir licença. Nem precisava, pois seu soneto “Fanatismo” tem lugar reservado em qualquer roda de bambas. Ah, sim, o nome da cachopa: Florbela Espanca.

UM SONETO QUE EMOCIONOU GERAÇÕES

No primeiro quarteto, “Minh´alma, de sonhar-te, anda perdida/ Meus olhos andam cegos de te ver”, uma declaração de arrepiar qualquer ser humano. Depois, um fecho de ouro: “Ah! Podem voar mundos, morrer astros,/ Que tu és como Deus: princípio e fim”. Publicado em 1923, “Fanatismo” ganhou a eternidade das grandes obras: emocionou muitas gerações e vai emocionar outras tantas, pois nos seus 87 anos está ainda quente, como se fora feito na tarde de ontem. No Brasil, foi popularizado por Fagner, que tomou Florbela (foto) como parceira e a levou aos mais diversos palcos. Um trabalho meritório, mesmo que muitos ouvintes não façam diferença entre cantores e autores.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

POETA “ALMA IRMÃ GÊMEA DA MINHA”

A escritora portuguesa Natália Correia, ao comentar Diário do último ano, só publicado em 1981, bate sem dó nem piedade, quase colocando Florbela Espanca na lista de poetas menores: fala em “coquetismo patético” e em “poesia maquilhada com langores de estrela de cinema mudo, carregada de pó de arroz”. Também se disse que ela era “uma escrava de harém”, uma poeta “de lábios literariamente manchados” e outras expressões igualmente denunciadoras de como a crítica parecia mais interessada na autora do que na sua produção literária. Mas Fernando Pessoa (na caricatura) a chamou de “alma irmã gêmea da minha” – e isto parece compensatório de todos os preconceitos.

O PRECONCEITO E A MORTE AOS 36 ANOS

Se a sociedade brasileira no século XXI ainda é preconceituosa, conservadora e moralista, imagine-se como Portugal dos anos vinte do século passado olharia para uma rapariga ousada como Florbela Espanca. Certamente como um ser fora do lugar, dizendo coisas que não deviam ser ditas, escancarando desejos e vontades que a moral vigente mandava calar. Mulher de vida conturbada e curta (suicidou-se no dia do 36º aniversário, em 8 de dezembro de 1930), Florbela teve pequena parte do público a cobri-la de elogios, enquanto a outra a envolvia em opróbrios. Mas assegurou seu lugar na história da poesia. No vídeo, a versão cantada de “Fanatismo”, com Fagner.

(O.C.)
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INTELECTUAIS SÃO SENSÍVEIS A ELOGIOS

Ousarme Citoaian

Algum escritor (ou, para ser justo na provocação, algum profissional) é insensível ao elogio? Provavelmente não, mas alguns disfarçam bem essa humana fraqueza. Parece que tudo se resolve se tratarmos o assunto com certa dignidade, sem entregar o jogo, desfazendo-se em felicidade a propósito de qualquer referência encomiástica, feito donzela pudica que se ruboriza diante de um galanteio oblíquo. Quando Machado de Assis disse, a propósito da Academia, “Esta é a glória que fica, eleva, honra e consola”, denotou certo pendor para a vaidade. Mas, anos antes, ele foi mais específico: “Amo elogios. Eles fazem bem à alma e ao corpo”.

“UM ELOGIOZINHO, PELO AMOR DE DEUS”

Na crônica “Tudo são vaidades” Fernando Sabino fala de um intelectual que vivia de chapéu na mão, dizendo: “Um elogiozinho, pelo amor de Deus…”. Seria Jorge de Lima (foto) e a história foi uma maldade criada pelo genial Nelson Rodrigues: numa cafeteria, o poeta viu Clarice Lispector, aproximou-se dela e se apresentou: “Sou o poeta Jorge de Lima”, ficando à espera de algum elogio, que não veio. Clarice não tugiu nem mugiu e o escritor alagoano afastou-se tristonho, cabisbaixo, à beira da depressão. Dê-se à estória o desconto de ser da lavra de Nelson Rodrigues, um autor que se valia, como poucos, do exagero.

MÁRIO E AS SUAS “VAIDADES JUSTIFICÁVEIS”

Se o taciturno e contido Machado amava o elogio, Mário de Andrade (foto) não lhe ficou atrás, ao dizer que “são justificáveis certas vaidades, quando nascidas de um sadio desejo de ver o valor de sua obra reconhecido e aclamado”. No popular, circunlóquios à parte, vaidoso. Conta-se que Cyro dos Anjos, a exemplo do autor de Dom Casmurro, preferiu ser direto. Quando lhe perguntaram por que entrou para a ABL, respondeu: “Vaidade”. Se não estou enganado, é Marques Rebelo (citado por Hélio Pólvora) quem tem a receita para suprir a necessidade de elogios: “A única crítica que realmente interessa é a dos amigos”.

PONTO COMUM ENTRE FUTEBOL E NOVELA

Um jogo de futebol tem sua duração dividida em duas frações de 45 minutos, chamadas de primeiro e segundo tempos. Qualquer brasileiro sabe disso, pois futebol é o esporte nacional, de sorte que todos nós conhecemos um pouco dele, nem que seja por osmose. É como novela da Globo: somos tão bombardeados pela mídia que não há como não ter informações sobre o gênero, por mais que se o deteste. Voltando ao esporte bretão: na tevê, fico sabendo que o árbitro deu, na partida a que assisto, “três minutos de acréscimo”, e que “o jogo vai até os 48 minutos”. É mais uma bobagem dita por um comunicador e repetida por outros: a lei do futebol estabelece duas etapas de 45 minutos, num total de 90. Nada mais.

DESCONTO E ACRÉSCIMO SÃO INIMIGOS

O árbitro não acrescenta nada aos tempos definidos pela Fifa. Ele desconta o tempo em que o jogo, por qualquer motivo, esteve interrompido (substituições, atendimento médico, fenômenos meteorológicos, troca de sopapos, falta de bola, algum engraçadinho que invadiu o campo, e por aí vai). O árbitro (preferível a juiz!) controla com um cronômetro o tempo jogado, com outro as interrupções – que são os descontos do período de 45 minutos. Se o jogo foi parado durante cinco minutos, por hipótese, ele precisa dar esses cinco minutos de desconto, para atender à exigência legal. Se ele não der esse desconto das paralisações o tempo de 45 terá sido reduzido a 40, com flagrante trauma às normas da Fifa.

RIQUEZA QUE VEM DAS ARQUIBANCADAS

Nossa tese é de que as redações precisam ler mais e repetir menos, tendo zelo com a linguagem, não só no esporte. A renovação da língua não deve ser feita com invenções elitistas e agressivas, mas de forma natural, aquela que nasce nas ruas e, para o caso, nas arquibancadas. O português absorveu expressões que enriqueceram a linguagem do futebol: chapéu, meia-lua, comer a bola, freguês, chega-pra-lá, passeio, chocolate, cama-de-gato, ladrão (aquele que “rouba” a bola), bola quadrada, bola comprida e outras de agradável sabor brasileiro. Mas desconto e acréscimo são termos antagônicos – e se o árbitro acrescentar será demitido por justa causa: o jogo só tem 90 minutos – é a Fifa quem o diz.

NOME PRÓPRIO IMPOSTO PELO CARTÓRIO

Dia desses falávamos aqui de nomes próprios e as barbaridades que com eles são feitas nos cartórios brasileiros (brasileiros, sim, pois em Portugal não tem disso não – lá, ao que me consta, se observa a norma da língua!). Pois lembrei-me de uma prova de que, além de anotar nomes de grafias esdrúxulas (muitas vezes por sugestão dos pais), o cartório também impõe nomes, de acordo com o gosto do escrivão. Esta aconteceu em São Paulo, nos anos cinqüenta e está narrada em livro de grande êxito de vendas.

SEBASTIANA NÃO É NOME DE GENTE FINA

Ao procurar registrar a filha, a mãe disse o nome: Sebastiana (um bom nome português, com origem em São Sebastião). A escrivã foi direta: “Com este nome eu não registro, pois todo nortista que chega aqui quer botar o nome de Sebastião ou Sebastiana. Povo sem criatividade!” O argumento da mãe (“é um nome bonito”) não convenceu a escrivã: “Pode ser bonito, lá pras suas bandas” (…), mas que em SP ela teria que botar um nome de gente fina, “gente classificada”. E decidiu que a menina se chamaria Ruth.

E ASSIM TIANA FOI “PROMOVIDA” A RUTH

O episódio está bem contado no livro A história de Lula, o filho do Brasil (da jornalista Denise Paraná), mostrando como a irmã mais nova do futuro presidente da República (de nome Sebastiana e apelido Tiana), passou a se chamar Ruth (assim com TH, coisa fina, de gente classificada). O melhor dessa página de autoritarismo e desrespeito aos pobres Denise Paraná deixa por último: quando dona Lindu, a mãe de Lula e Tiana, perguntou o  nome da escrivã, esta respondeu: Ruth. Mulher classificada, já se vê.

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HAVIA UMA LUA BRANCA NAS PEDRAS NEGRAS

Havia céu e sol na correnteza,
Brilhinhos chuviscando a natureza.
Nos peraus e pedras negras havia
Uma lua, branca ave sem ser fria.

Não havia dúvida nem certeza
Apenas rioflor, risos de pureza.
Certamente, canção de noite e dia,
Certamente uma fábula que havia.
E olhos de outras águas, de lei renhida,
Rosto de sofrido sol, de sombria
Lua, decididamente haveria

Vendo vidrinho sem antiga dança,
Prata da noite em superfície mansa
Reinventando o mistério da vida.

SE “ELA” FALA, EU ME CALO E BATO PALMAS

“Soneto do rio Cachoeira” é de Cyro de Mattos, tirado de Vinte poemas do rio (na foto, a capa do livro em alemão). O tema é recorrente (basta ver o título do livro). “Cyro de Mattos é um dos grandes escritores da minha terra, da minha cidade, Itabuna. Portanto, um irmão das mesmas águas, das mesmas sombras dos cacauais”, assinala Margarida Fahel, dizendo da prosa de Cyro que “muitas de suas palavras falam por mim, falam de mim, também grapiúna”. E acrescenta que ler Cyro de Mattos é “participar da missão de eternizar em cada um a alma de um rio, de uma terra, de uma civilização”, além de “reconhecer um pouco que seja da verdade humana, pungente de dor e de mistérios”.  E quando Margarida Fahel se pronuncia, eu me calo e aplaudo.

ENCANTO ADORMECIDO HÁ MEIO SÉCULO

A marcha-rancho (que já foi conhecida como marcha de rancho) está tão demodé quanto o sapato de duas cores, o vestido tubinho, a calça boca de sino e a coqueluche. Tão surpreendente quanto o espartilho, a bengala, o chapéu palheta, o cabriolé e o fusca de quatro portas. Mas o gênero já teve seus dias de glória – e coleciona clássicos da MPB que embalaram gerações e, supõe-se, embora adormecido, ainda conserva seu encanto. Em épocas diferentes (talvez até os anos sessenta), uma marcha-rancho sempre esteve nas boas bocas do Brasil. Sem ameaçar os grandes hits da hora, mas sempre presente, graças a seu público fiel.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

PEQUENA RELAÇÃO DE OBRAS-PRIMAS

As pastorinhas/1934 (Noel Rosa-Braguinha); Estrela do mar/1952 (Marino Pinto-Paulo Soledade); Rancho das flores/1961 (Vinícius, sobre tema de J. S. Bach); Estão voltando as flores/1962 (Paulo Soledade); Rancho das namoradas/1962 (Vinícius-Ari Barroso);  Marcha da Quarta-Feira de Cinzas/1963 (Vinícius-Carlos Lyra); Porta-estandarte /1965 (Fernando Lona-Geraldo Vandré) – e  certamente outras grandes que me escapam da memória – são exemplos da importância da marcha-rancho. Vinícius de Morais (foto), mestre no gênero (há três dele na minha relação de sete!), mantinha, como todo intelectual que se preza, permanente diálogo com o passado, e a marcha-rancho era uma de suas pontes.

MUITA POESIA, POUCO RECONHECIMENTO

Biógrafos atribuem ao poeta carioca a afirmação de que a marcha-rancho fazia parte de um tempo em que música de carnaval era poesia.  Alguns deles citam também como do Poetinha uma frase que resume, numa expressão de gíria, o que ele pensava sobre o conteúdo poético desse gênero: “Marcha-Rancho é covardia!” Aqui, para retomar a intimidade com um estilo quase extinto (e aproveitando o gancho da primavera recém-chegada), Estão voltando as flores, de Paulo Soledade – gravada inicialmente por Helena de Lima e Dalva de Oliveira (foto) – em registro moderno da melhor voz masculina surgida na MPB dos últimos 37 anos: Emílio Santiago.

(O.C.)
Tempo de leitura: 7 minutos

GLOBO MUDA NOME DA “BÍBLIA” MUÇULMANA

Ousarme Citoaian

Em matéria sobre o dia do Ramadã, o repórter da Globo menciona duas vezes algo que pensei nunca mais ouvir: o Corão, referindo-se ao livro sagrado dos muçulmanos. A forma correta é o Alcorão – e o emprego de o Corão não é preferência, mas ignorância.  Há quem queira justificar a heresia argumentando que o al árabe é o nosso artigo o – daí dizer o Alcorão seria uma espécie de pleonasmo (haveria desnecessária  repetição do artigo o). O professor Mansour Challita, conhecedor das duas línguas, explica que as palavras árabes começadas com al tiveram esta parte incorporada ao português. Até eu sei de uma legião de exemplos.

EM CAMÕES, UM ABONO LUXUOSO E INSUSPEITO

Salvo melhor juízo, são de origem árabe as palavras alface, álgebra, algodão, almanaque, alforje, algoz e muitas outras. Para manter a coerência, os que traduzem Alcorão como o Corão deveriam falar (na ordem da lista acima) çúcar, gebra, godão, manaque, forje e goz. Onde está a incoerência, mora o erro, se não às claras, na sombra. Certo Luís Vaz de Camões (que todos conhecemos ao menos de nome) anotou em Os Lusíadas (estrofe 50 do canto 3º), publicado há mais de quatro séculos: “O português o encontra, denodado,/  Pelos peitos as lanças lhe atravessa:/ “Uns caem meio mortos, e outros vão/ A ajuda convocando do Alcorão”.

A LÍNGUA E O CHORO NO “EXÍLIO AMARGO”

“E que motivos haveria para meter-se o venerando vate lusitano em tal discussão?” – perguntaria algum distraído. Imagino que Camões, se vivo fosse, estaria lavando as mãos para essa pendenga, pois ela não lhe valeria a opinião, de tão óbvia. Mas paga a esta coluna o preço de ser um dos construtores da língua portuguesa, aquela em que ele “chorou, no exílio amargo, o gênio sem ventura e o amor sem brilho”. E seu abono (de exactos 4, 38 séculos) mostra que o Corão nunca existiu – salvo para os amigos das novidades inúteis. A propósito, a estrofe mencionada está na página 87, na minha edição de Os Lusíadas (Nova Cultural/2003).

DITADURA E DESORGANIZAÇÃO DA LINGUAGEM

A propósito de Daianas e Daiannes aqui referidas recentemente aproveitamos o gancho (no jargão do jornalismo, aquilo que nos dá motivo para produzir matéria) para falar um pouco mais sobre grafia de nomes próprios, o que constitui em nosso meio verdadeira salada. Perguntas freqüentes de jovens e (e alguns velhos) redatores: “Manuel é com U ou com O?”; “Antônio tem acento circunflexo?”; “Como escrevo esse Luís, com S ou com Z?”. A impressão que se tem é de estar num hospício, não num ambiente de profissionais com obrigação de ter boas noções da língua em que se comunicam com o público. A origem dessa babel está, imaginem, na ditadura militar – conforme o filólogo Marcos de Castro.

ONDE PASSA UM BOI, PASSA TODA A BOIADA

Antes, os jornais escreviam segundo o Vocabulário Ortográfico de 1943 (revisto em 1955), com os nomes próprios e comuns submetidos às mesmas regras. Às perguntas anteriores as respostas são: Manuel, Antônio e Luís (não Antonio, Manoel e Luiz). A coisa ia assim até certo momento dos anos setenta, quando o poderoso general Golbery do Couto e Silva se sentiu incomodado por ser chamado de Golberi pelo Jornal do Brasil e recorreu ao amigo Elio Gaspari (foto), então subeditor de Política do JB, para corrigir a “ofensa”.  O chefe da redação (não me lembra quem) aceitou o argumento de  Gaspari e deu no que deu: passou um boi, passou a boiada e os jornais sentiram o peso de outra ditadura, a dos cartórios.

OS CARTÓRIOS E O MODISMO VERDE-OLIVA

Quando Golberi virou Golbery entrou em vigor a lei do cartório, e a quase totalidade dos jornais (gosto de pensar que algum deles ainda resista ao odioso cartoricismo) adotou o modismo verde-oliva: Ulisses Guimarães (foto) passou a Ulysses, Miguel Arrais virou Arraes, Gilberto Freire ficou sendo Freyre, Ademar de Barros foi promovido a Adhemar, o poetinha, que era de Morais, hoje é Vinícius de Moraes, Ari e Rui agora são Ary e Ruy. E o pior aconteceu com nomes simples e singelos, a exemplo de Luís, Manuel, Sousa, Osvaldo, Tiago, Maria, Tomás (que passaram a aceitar dupla grafia, como se a língua no Brasil não tivesse normas a obedecer, como tem em Portugal, por exemplo. Dirão que minto, mas conheci, há poucos dias, uma Marya, assim com picilone.

NEM TERESA LISIEUX, SANTA, FOI POUPADA

Uma vítima da agressão ao Vocabulário Ortográfico foi Teresa, que se transformou (combinando a intervenção do general com a subserviência dos jornais da época e a ignorância de pais e escrivães de cartórios) em Tereza, Theresa e Thereza. Formas absurdas, pois a original (os católicos bem sabem) remete a Santa Teresa d´Ávila e Santa Teresa de Lisieux (foto). As outras grafias foram inventadas em cartório. Mas a vingança vem a cavalo. Pesquisa de Marcos de Castro em apenas três jornais do Brasil mostra que em 1985, quando morreu Médici (o mais sanguinário dos ditadores), sua viúva teve o nome grafado de oito formas: Scylla, Scyla, Scilla, Scila, Silla, Cylla, Cyla e o correto Cila. Bem feito.

POR QUE OS ESCRITORES ESCREVEM?

 O paulista José Domingos de Brito é um rato de biblioteca. Além de propriamente bibliotecário, é especialista em organização e administração de livros, com experiência em centros de documentação de várias grandes empresas. Tenho dele, lançado em 1999, o livro por que escrevo? – assim, com P minúsculo – pesquisa em que 96 escritores respondem a essa incômoda pergunta. Entre os mais conhecidos, e de respostas mais interessantes, está Érico Veríssimo (1905-1975): “Um verdadeiro escritor escreve por uma espécie de fatalidade, como a que leva o pinto a quebrar a bicadas a casca do ovo na hora certa, isto é, no momento determinado pela mãe-natureza, como diria Lucas Lesma” (Lesma é o jornalista de estilo pomposo de Incidente em Antares).

REMÉDIO CONTRA O VAZIO EXISTENCIAL

 

João Cabral de Melo Neto (1920-1999): “Sou como aquele sujeito que não tem perna e usa uma perna de pau, uma muleta. Escrever é uma maneira de me completar. A poesia preenche um vazio existencial”; William Faulkner (1897-1962), direto ao ponto: “Para ganhar a vida”; Millôr Fernandes (1924) deu resposta parecida: ”Sempre escrevi por necessidade, minha vida inteira”. Autran Dourado (1926): “Porque se não escrevesse já teria me matado”; Gabriel Garcia Márquez (1928) é o lírico que se esperava: “Para que meus amigos me amem mais”; Ignácio de Loyola Brandão (1936): “Para me divertir e divertir os outros”; Umberto Eco (1932), pra variar, complicou: “Eu escrevi porque meus filhos cresceram e eu não sabia mais para quem contar histórias”.

A ESCRITA COMO MEIO DE SOBREVIVER

“Se eu soubesse responder a essa pergunta deixaria de ser escritor. Não sei por que escrevo”, diz Fernando Sabino (1923-2004); Mário Vargas Lhosa (1936): “Escrevo porque é uma maneira de lutar contra a infelicidade”; “Eu escrevo para não morrer de tristeza nesse país desgraçado” – disparou o longevo anarquista Ernesto Sábato (1911); Jorge Amado (1912-2001): “Eu escrevo por não poder deixar de escrever, de escrever romances, de recriar a vida”; “Escrevo por que minha sobrevivência depende disso”, responde Márcio de Souza (1946); Clarice Lispector (1920-1977): “Escrevo como que para salvar a vida de alguém, provavelmente a minha”; e do mau humor de Graciliano Ramos (1882-1953) a resposta esperada: “Sei lá!”
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PRIMAVERA, FLORES, BACH E VINÍCIUS

Como a primavera (dita estação das flores) está à porta, achei oportuno postar aqui um vídeo apropriado para a estação. É música não muito nova (a letra, mais jovem, tem só 49 anos!), mas que merece ser dividida com eventuais leitores esquecidos. Trata-se de Rancho das flores, surpreendente parceria de Vinícius de Morais com Johann Sebastian Bach, separados por 228 anos – Bach nasceu em 1685; Vinícius em 1913. A letra do poetinha foi posta sobre a Cantada 141 (mais conhecida como Jesus, alegria dos homens), e teve a primeira gravação com a Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro (e coral), em 1961.

ROSA É MULHER RECENDENDO DE AMOR

Esse longo poema tem a marca do lirismo de Vinícius, que a tantos encantou: versos simples, singelos, comunicativos, que nos tocam profundamente: ele diz que “a natureza alegrou este mundo onde há tanta tristeza” – e que nesse programa de alegrar o mundo, as flores se destacam.  Elas são “um milagre do aroma florido mais lindo que todas as graças do céu”. A rosa (“que em perfume e em nobreza vem antes do cravo, e do lírio, e da hortência e da dália, e do bom crisântemo e até mesmo do puro e gentil mal-me-quer”) é personificada: – de “flor mais vaidosa e mais prosa”, atinge a condição de “mulher recendendo de amor”.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

CANÇÃO QUE NÃO ACORDOU O MERCADO

Conheço poucas gravações de Rancho das flores. Imagino que ao escolher o ritmo de marcha-rancho (um andamento fora de moda, mesmo nos anos sessenta), Vinícius condenou ao esquecimento seu belo tratado sobre rosas, dálias, hortênsias e mal-me-queres, pois a marcha-rancho, coisa de nostálgicos como eu, pouco interesse despertou no mercado fonográfico. Em 2008, o músico cearense Raimundo Fagner, de reconhecido bom gosto, reviveu a parceria J. S. Bach e Vinícius de Morais no disco Fortaleza (seu arranjo, ao se aproximar de Bach, distancia-se da marcha-rancho).

(O.C.)
Tempo de leitura: 7 minutos

HÉLIO PÓLVORA E A ESCOLHA DO SIMPLES

Ousarme Citoaian

O título do primeiro romance de Hélio Pólvora (foto), Inúteis luas obscenas, é um achado, mas não surpreende: jornalista de batente (além de contista, ensaísta, cronista, tradutor e crítico de cinema) ele sabe a importância de bem titular (até procurou, em vão, convencer disso seu compadre Euclides Neto, que criou títulos não muito inteligíveis, como Machombongo). Mas o melhor de Inúteis luas obscenas não é o título, é o próprio livro, um retorno ao bom e velho estilo de contar histórias com começo, meio e fim. Senhor de erudição suficiente para atingir o esnobismo (poucos brasileiros leram tanto quanto ele), Hélio fugiu dos experimentos estéreis, em privilégio do simples.

O LEITOR ESCOLHE O FINAL “MELHOR”

Surdo é personagem recorrente em contos do autor. De tanto perturbar o sono do contista foi parar no romance – um romance que se lê de uma sentada, tal a qualidade da narrativa, que pega o leitor pelo colarinho e o leva, subjugado, à última página – quando, surpreso, será chamado a decidir entre dois epílogos. Inúteis luas obscenas é um tratado sobre a solidão humana, estampada em anti-heróis condenados à vida miserável, sem perspectiva de romper seu círculo de pequenez, empurrados para um final em que nenhum tipo de libertação é possível. Nesse ambiente, duas mulheres fortes (“Somos duas cobras venenosas”, diz uma delas) se destacam: Celina e Regina.

AROMAS, CORES E SABORES DE CACAU

Surdo (que talvez nem seja surdo) é dado a leituras e filosofias, pensa, medita e dá mostras de ter visitado os bons autores. “Os maus têm uma felicidade negra”, cita Victor Hugo (foto). Envolvido com luas azuis, vermelhas e obscenas, e um amor não convencional, Surdo é um homem incompreendido e portador de certa carga de amargura – na grande sabedoria há grande pesar, ensina o Eclesiastes. Resta dizer que Hélio Pólvora é um escritor da zona cacaueira (“Sou um pobre homem de Itabuna”, diz ele, parodiando Eça), e seu romance tem cheiros, cores e sabores de teobroma, ainda que seja universal, na medida em que trata do sofrimento do ser humano, presente em todas as latitudes.

TEXTO PRAZEROSO, INOVADOR E ECONÔMICO

O clima de tragédia é acentuado por um prólogo em cada capítulo, à moda do coro do teatro grego, e referências a entes mitológicos (na gravura, Édipo). O romancista esparge constantes pitadas de lirismo sobre seus embrutecidos personagens, o que enriquece e “humaniza” a história. No entanto, esse olhar, que às vezes parece cúmplice e protetor, não subtrai a Inúteis luas obscenas seu conteúdo de tragicidade. Há de ressaltar-se (afora essa leitura pessoal), o texto prazeroso, econômico (sem chegar à mesquinharia de Dalton Trevisan), conciso, sem sobras nem faltas. A sensação é de que valeu (muito) a pena esperar pelo primeiro romance de Hélio Pólvora.

O QUE NOS IRRITA TAMBÉM NOS MELHORA

Teria sido o velho e suíço Gustav Jung (foto) quem disse: “Tudo o que nos irrita nos outros pode nos levar a um conhecimento de nós mesmos”. Assim, coisas que a gente combate, como ingratidão, injustiça, traição, inveja, ciúme, medo ou impaciência e, no meu caso, a má concordância, a regência pífia e os lugares-comuns, pode significar que nós próprios somos portadores desses defeitos. Entendo ser imperativo que eu, crítico iconoclasta da obra alheia, exerça essa mesma exigência em relação a meus textos. E eu a exerço, embora considere normal não ter a isenção suficiente e ainda deixar contaminar minhas opiniões pela excessiva carga de autocompaixão.

NO INESPERADO, O EROTISMO VOCABULAR

Em maré de citações (hei de ter cuidado, pois Newton disse que quem cita muito não tem idéias próprias) ponho em campo o pensador francês Roland Barthes (foto), para quem as palavras se tornam eróticas pela excessiva repetição. Confesso que sinto esse erotismo vocabular (parece que inventei isto agora!) no inverso da repetição, que é o inesperado. O texto novo e simples tem uma força estranha que me agride (no melhor sentido), me pega pelo colarinho e me transporta a mundos distantes. Arrisco-me a perder os leitores exigentes, pois acabo (ai de mim!) de me pôr em posição contrária a Barthes (se vivo, não creio que ele ficasse muito preocupado com minha opinião…).

TEXTO QUE NOS EMBALA E TRANSPORTA

A verdade é que experimento um prazer muito grande com frases corretas, desde que despidas de pedantismo. Elas mexem em minha alma, me embalam e me transportam, como esta, um verso de sete sílabas: “Onde eu nasci passa um rio…”. A partir desta frase de Caetano Veloso é possível escrever romance, novela, crônica, conto… ou não escrever coisa nenhuma, mas será impossível não pensar e não sentir. “Onde eu nasci passa um rio” é texto a um só tempo refinado e simples. Uma das melhores frases da MPB, provocativa, por isso nova e boa, digna de ser tema de redação de vestibular para qualquer curso. Em prosa ou verso.

LIVRARIA ENTRE NÓS, NEM PRA REMÉDIO

Há variadas formas de medir o desenvolvimento cultural de uma comunidade: universidades, livrarias, editoras, cinemas, teatros e outras. Itabuna e Ilhéus (principais cidades da região) não têm, a rigor, nem uma livraria para remédio (temos casas que vendem, dentre outros itens, livros). Quanto aos outros padrões citados, estamos também em grande déficit – e é deplorável dizer que já estivemos em melhores condições do que hoje. Quer dizer: no que respeita a esses valores, andamos para trás. Ou, no máximo, de banda, no melhor estilo Ucides cordatus, também chamado caranguejo-uçá.

XADREZ POR AQUI SÓ A CADEIA PÚBLICA

Um leitor indignado nos ofereceu outro metro comparativo (igualmente empírico, é verdade) do nosso nível cultural: quase a ponto de nos confundir com o Procon, ele reclama que vasculhou Ilhéus e Itabuna para, surpreso, descobrir que é impossível, em cidades tão culturalmente ”avançadas”, comprar um jogo de peças de xadrez, com o mínimo de qualidade. Ora, vejam só. O chamado nobre jogo é mesmo um padrão interessante para o caso. O leitor diz que Vitória da Conquista, por exemplo, tem o xadrez na escola fundamental, como prática educativa. Aqui, xadrez é apenas a super-povoada cadeia pública.

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LUIZ GONZAGA E O INCÔMODO “VOZES DA SECA”

Dia desses, falamos aqui no médico Zé Dantas, um dos dois maiores parceiros de Luiz Gonzaga – o outro foi o advogado Humberto Teixeira (foto) – quando listamos “Vozes da seca” entre os clássicos do médico pernambucano. Luiz Gonzaga, na minha modesta opinião, foi o maior músico pop do Brasil (com a morte dele, creio que o lugar é de Gilberto Gil), mas é preciso lembrar, nem que seja apenas em favor da fria verdade histórica, que o Rei do Baião foi um conservador exacerbado, apoiou o golpe de 1964, chegou a dizer que não havia tortura no Brasil – e “Vozes da seca” o incomodava. Sei de um show em que ele, ao pedirem esta música, se recusou a cantá-la, com uma frase marota: “Não me lembro da letra”.

O CONSTRANGIMENTO DOS JOVENS COLEGAS

Gonzaga sempre teve horror a políticos de esquerda. Passou nove anos no Exército, quando aprendeu a admirar os militares, sendo amigo do presidente general Dutra, de quem animou muitos saraus palacianos – e, mais tarde, de Marco Maciel. Talvez não por acaso, “Boiadeiro”, a toada com que costumava iniciar suas apresentações, é de dois ex-militares (Armando Cavalcante e Clécius Caldas) que conhecera na caserna.  Já no governo Médici (o mais sanguinário dos generais da ditadura) ele decepcionou os colegas engajados na luta política, a exemplo de Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Geraldo Vandré (foto).  E o mais constrangido de todos com esse comportamento era Gonzaguinha, filho do Rei.

POR BURRICE, “ASA BRANCA” FOI CENSURADA

A ditadura, que nunca respeitou nem mesmo os que apoiaram o golpe, também não poupou Luiz Gonzaga, proibindo-o de cantar (era o governo Médici) “Vozes da seca”, “Paulo Afonso” e “Asa branca” (as duas primeiras com letra de Zé Dantas, a segunda de Humberto Teixeira). As razões da censura: “Vozes da seca”, por ser música de protesto, e “Paulo Afonso”, por ciúmes – exalta os presidentes Getúlio, Dutra e Café Filho; já “Asa branca” foi censurada devido à burrice que grassava no governo – a ditadura era um monstro sem cabeça e, logo, sem juízo. Em 1980 (sob o general Figueiredo), Luiz Gonzaga gravou “Caminhando”, o “hino” de Geraldo Vandré; em 1981 fez as pazes com Gonzaguinha.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

UMA EDIÇÃO COM MUITAS LÁGRIMAS

Este vídeo foi editado com lágrimas, especialmente para a coluna. As imagens mostram o sertão nordestino torturado pela seca, aquele ambiente de intenso sofrimento (físico e, por consequência, psicológica) que inspirou o ginecologista e compositor José de Souza Dantas Filho, o Zé Dantas (1921-1962). O ano é 1953. Algumas cenas são de Vidas secas (1963), filme de Nelson Pereira dos Santos (foto), que também merece nossa homenagem menos tardia do que sincera. Clique.
(O.C.)
Tempo de leitura: 7 minutos

PREPOSIÇÃO PERIGOSA E IMPREVISÍVEL

Ousarme Citoaian
A julgar pelo que vejo, a preposição “de” (apesar de sua aparente inocência) é traiçoeira, perigosa, imprevisível: quando menos esperamos, ela se mete onde não é chamada; outras vezes, contamos com sua presença, e ela, caprichosamente, nos dá as costas e escafede-se pelo lado da página. Há dias, respeitável jornal publicou a notícia, claramente contaminada pela inoportuna preposição (que, nestes casos, seria melhor batizada como “penduricalho”): “Em Buenos Aires, o presidente Lula afirmou de que pretende fortalecer o Mercosul”. E aviso aos sem graça que isto nada tem a ver com o preconceituoso “analfabetismo” presidencial, mas a erro do veículo que publicou a nota .

ATRIZ PERDE OPORTUNIDADE DE USAR O “DE”

A relação entre os verbos afirmar, negar, garantir, dizer, destacar, salientar e outros é como a convivência de Geraldo Simões e Fernando Gomes: não comem na mesma mesa, não amarram o burro juntos. Políticos assim são ditos inimigos figadais; no caso dos verbos, os filólogos os chamam transitivos diretos. “Quem afirma, nega, garante, diz, destaca, salienta – afirma, nega etc. alguma coisa” – ensina a gramática. Zero de preposição. Logo, no caso citado, seria sensato guardar o “de” para o momento oportuno. Já uma jovem atriz de tevê que, numa entrevista, disse “Entre as coisas que mais gosto…” perdeu a oportunidade de usar adequadamente nosso simpático “de”.

ERRAR NOME DE PESSOAS É GROSSERIA

A coisa piora quando se trata não apenas da construção da frase, mas de nomes próprios. Nomear erradamente as pessoas, sobretudo em ocasiões solenes, ultrapassa o erro, chega à grosseria. Os políticos acima referidos têm seus nomes frequentemente trocados nos jornais: Fernando é Gomes Oliveira; Geraldo é Simões de Oliveira. E, até onde nos é dado saber, não os une laço de parentesco. Nem preposição. Querem um caso recente? Pois saibam que vários blogs, jornais e emissoras de rádio (não conferi as tevês) noticiaram a morte do jornalista Nelito Nunes de Carvalho. Notícia inverídica: quem morreu (morte que este colunista muito pranteou) foi Nelito Nunes Carvalho.

JORNALISTA FAMOSO TAMBÉM FOI VÍTIMA

Ilustres jornalista brasileiro, o acadêmico Murilo Melo Filho (foto), teve, em Ilhéus, seu nome agredido num artigo de jornal: Murilo de Melo Filho; o professor Dorival de Freitas, que não faz mal a ninguém, volta e meia é “xingado” de Dorival Freitas; em recente debate na tevê, o candidato Plínio de Arruda Sampaio teve o  nome mutilado: Ricardo  Boechat tirou-lhe, impunemente, o “de”; José Haroldo Castro Vieira, lendário dirigente da Ceplac, tem sido dito de Castro (a placa no principal pavilhão da Uesc teve o “de” arrancado à última hora – mas guardou os sinais da correção apressada); por fim, outra placa, ao lado da mencionada, diz que ali é a Universidade Estadual Santa Cruz! Erro de palmatória, já se vê.

JOÃO SALDANHA, OUTRA VEZ, NAS LIVRARIAS

Personagem freqüente na árida literatura do futebol, o jornalista, ativista político e treinador João Alves Jobim Saldanha (1917-1990), está de volta às livrarias. À imensa bibliografia (nos limites da aridez  referida) sobre esse homem que entrou para o folclore nacional junta-se agora Quem derrubou João Saldanha? – livro do jornalista Carlos Ferreira Vilarinho. Antes (sem intenção de citar todas) houve livros de João Máximo (Sobre nuvens de fantasia), Eduardo Manhães (João Sem Medo), Raul Millet Filho (Vida que segue) e André Iki Siqueira (Uma vida em jogo, aqui comentado). E o próprio Saldanha, além de artigos e crônicas, publicou títulos que reforçam seu mito pessoal, entre eles um clássico: Os subterrâneos do futebol.

AO LADO DE EDUARDO GALEANO E MÁRIO FILHO

A Abril.com “escalou” onze livros fundamentais sobre esportes, com Os subterrâneos… em segundo lugar. Eis, para a satisfação de eventual curiosidade, a lista: 1) O negro no futebol brasileiro (Mário Filho), 2) Os subterrâneos do futebol (João Saldanha), 3) Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha (Ruy Castro), 4) Futebol, ao sol e à sombra (Eduardo Galeano), 5) Michael Jordan: a história de um campeão e o mundo que ele criou (David Halberstam), 6) Como eles roubaram o jogo (David A. Yallop), 7) A Luta (Norman Mailer), 8 ) Fio de Esperança: biografia de Telê Santana (André Ribeiro), 9) Maracanã: meio século de paixão (João Máximo), 10) À sombra das chuteiras imortais (Nelson Rodrigues) e 11) A ginga e o jogo (Armando Nogueira, na foto).

“FOI DERRUBADO PELA DITADURA MILITAR”

Quem derrubou… vai fundo numa questão muito polêmica: o motivo da saída de Saldanha da seleção brasileira. “Foi derrubado pela ditadura militar”, afirma Ferreira Vilarinho (foto), acrescentando que a decisão de derrubá-lo vinha desde que ele classificara o Brasil para a Copa do Mundo.  As razões de governo são transparentes: Saldanha – figura popular e de invejável retrospecto nas eliminatórias – “não servia mais à ditadura”. Aí, veio o assassinato do amigo Marighela pelo Exército (ambos eram do PCB) e Saldanha virou bicho. Na Europa, lhe perguntaram sobre a situação política do Brasil e ele abriu o jogo (novembro de 1969): prisões, tortura e assassinato de presos políticos. Precisava ser demitido com urgência.

O TREINADOR COM O DESTINO TRAÇADO

Saldanha (foto), na visão do autor de Quem derrubou…, “era uma figura nacional, adorado pelo povo e respeitado internacionalmente, mas tinha, desde aquela data, o destino traçado – e sabia disso. Em janeiro de 1970, no México, para acompanhar o sorteio das chaves, ele encontrou Didi (seu jogador no Botafogo, campeão de 1957) e disse que “provavelmente, não duraria muito tempo na seleção”. Em março, dia 3, numa entrevista de rádio em Porto Alegre, sobre o famoso caso Dario-Médici, ele entornou o caldo: “Nem eu escalo ministério nem o presidente escala time. Então, está vendo que nós nos entendemos muito bem”. Apenas 12 dias depois dessa resposta “impertinente” foi demitido (ou, como disse Havelange, “dissolvido”).

NÓ NA LÍNGUA E FALTA DE ORGULHO

O brasileiro sofre de uma espécie de complexo de inferioridade em relação aos americanos e à língua inglesa que, de tão antigo, parece eterno. As siglas dão bem a nota desse servilismo, de tal maneira que, há poucos dias, na Globo – durante a transmissão de um jogo de vôlei, creio – o locutor pronunciou NBA (ene-bê-á) eu   estranhei. O normal, para nossa mídia contaminada por esse complexo, é ene-bi-êi, da mesma forma que se diz éfe-bi-ai para a  agência de investigações FBI (que a sensatez manda pronunciar éfe-bê-i, ou, talvez, fê-bê-i). É claro que gente sem orgulho de suas tradições culturais prefere dar um nó na língua e dizer éfe-bi-ai. É mais chique.

DIANA É UM NOME LINDO DE DEUSA

Essa subserviência atingiu também os nomes próprios, a julgar pelas tantas Daianas e Daiannes (assim, com dois nês) que pululam no noticiário. Temos tais nomes em gente famosa (uma atleta e uma envolvida no crime com o goleiro Bruno) e também as anônimas e sofredoras que engrossam a listagem de pacientes do SUS. A matriz disso, todos sabem, está numa certa princesa Diana, que a mídia mal informada apelidou de Daiana. O público seguiu esse caminho tortuoso, criando estranha inflação de Daianas: estamos em risco iminente de tropeçar nelas, de variados tipos, tamanhos e cores, em qualquer rua de qualquer cidade; quanto à Diana de origem, lindo nome de deusa, não há uma, nem pra remédio.

A FRANÇA TEVE UM REI SANTIFICADO

Reis, rainhas, imperadores e que tais (muito ao nosso gosto de plebeus) têm os nomes traduzidos. Quem foi o rei e a rainha guilhotinados na Revolução Francesa? Todo mundo acertou: Luís XVI e Maria Antonieta. Só um rematado pernóstico os chamaria de Louis XVI e Marie-Antoinette (no retrato clássico de Elisabeth Vigée-Le Brun, dez anos antes da guilhotina). A França é cheia de Luíses reis, e um deles, o número IX, é o São Luís dos católicos. Pelo comportamento da mídia que inventou Daiana, ele seria tratado como Saint Louis, para desespero de D. Mauro Montagnolli, que fala português. Dia desses, ao revisar um texto, topei com um pintor italiano chamado Michelangelo. Mudei, com urgência urgentíssima, o nome para Miguel Ângelo. Comme il fault.

UMA “TRADUÇÃO” SEM GROSSERIAS

O canadense Paul Anka (foto) lançou Diana em 1957 e a canção se tornou uma das mais vendidas do mundo.  A letra, como soe acontecer na canção americana, tem lá suas bobagens. Logo de saída, uma agressão, com “Eu sou jovem e você é velha/ Isto, minha querida, eu já lhe disse” (I’m so young and you’re so old/ This, my darling, I’ve been told), grosseria que o paulista Fred Jorge (1924-1994), autor da versão em português, jamais se permitiria repetir. Valendo-se apenas da melodia, ele trocou essa pedrada na testa por “Não te esqueças, meu amor/ Que quem mais te amou fui eu”. Ficou uma “cantada” bastante aceitável.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

CONTRA O “MACAQUISMO” BRASILEIRO

O brasileiro Carlos Gonzaga (foto), nascido em Paraisópolis/MG, da geração Jovem Guarda, ajudou no êxito mundial, pois sua gravação de Diana (nunca Daiana!) vendeu feito pipoca nas nações de língua portuguesa e espanhola. Com a ajuda luxuosa de Fred Jorge, reafirmou que os ianques são maus letristas e lançou um grito contra o “macaquismo” hodierno, que chama Diana de Daiana. Clique.
(O.C.)
Tempo de leitura: 7 minutos

A ORELHA CORTADA E O GOL QUE NÃO HOUVE

Ousarme Citoaian
Certos artistas são lembrados por um momento, uma curiosidade, uma circunstância: Van Gogh, por ter cortado a própria orelha e por vender, em vida, um único quadro –  A vinha encarnada (foto); mesmo quem não é dado a jazz & blues sabe que Ray Charles era cego, e isso basta; também de Jorge Luís Borges não se precisa ler nada, mas é imperdoável desconhecer-lhe a cegueira; e Pelé (embora não seja, rigorosamente, um artista)  foi muitas vezes celebrado pelo gol que não fez. Penso que essas situações poderiam integrar a lista daquilo que o gênio de Millôr Fernandes chama de “Ah, essa falsa cultura!” Entende.

FIRMINO ROCHA E O MENINO DO FUZIL

Autores são, volta e meia, vítimas da simplificação, passando a ser identificados por um só trabalho, não raro um detalhe, um ângulo desse trabalho. Essas referências, que contribuem para eclipsar o conjunto da obra, têm sido causa de irritação para muitas “vítimas”, que veem sua produção reduzida à expressão mais simples. São várias as situações em que o artista tem sua obra expressada por um item – um quadro, um disco, às vezes um verso, uma frase. Há poucos dias, citamos aqui o poeta itabunense Firmino Rocha, também ele atingido por essa “maldição”: sempre que se o cita, ouve-se uma referência ao poema “Deram um fuzil ao menino”. E só.

MÃOS QUE AFAGAM TAMBÉM APEDREJAM

Conta-se que Raimundo Correa ficava de mau humor quando alguém o tratava como o autor de As pombas (“Vai-se a primeira pomba despertada…”) e João Cabral de Melo Neto (foto), já de si zangado, não costumava ser simpático com quem demonstrava conhecê-lo apenas pela leitura do poema Morte e vida severina. Há pessoas que jamais abriram um livro e, mesmo assim, citam, sem saber a origem: “Depois de um longo e tenebroso inverno” (Luiz Guimarães), “Última flor do Lácio inculta e bela” (Olavo Bilac), “A mão que afaga é a mesma que apedreja” (Augusto dos Anjos) e “Que seja infinito enquanto dure” (Vinícius de Moraes). Também sei de gente que reduz Valdelice Pinheiro a “Rio Cachoeira” (“Rio torto, rio magro, rio triste…”).

A ELIPSE E A SEM-GRACICE DE MILÔR

Uma questão recorrente nesta coluna – a figura chamada elipse, que leva as pessoas a misturar os artigos definidos – teve um abono interessante, mesmo que nunca mais repetido, devido aos protestos que provocou. O nome do abonador, pasmem, é Luís Fernando Veríssimo. Com surpresa, leio no jornalista e filólogo Marcos de Castro (última edição de A imprensa e o caos na ortografia, uma de minhas leituras de cabeceira) que em 1997 o filho de Érico Veríssimo afirmou, em crônica no Jornal do Brasil, que Millôr Fernandes trabalhara “na Cruzeiro”. Millôr, que trabalhou na revista O Cruzeiro (e tem intolerância a bobagens) ficou sem graça.

SIMÕES FILHO EM ESTADO APOPLÉTICO

Essa epidemia de elipse fere uma regra simples, que toda redação conhece (ao que vejo, conhecia): o artigo que está no nome do veículo dita-lhe o gênero. Assim, O Cruzeiro é usado no masculino, tanto quanto O Malho e O Tico-Tico (embora sejam revistas, o que lhes dá “aparência” de feminino). Já A Tarde, A Gazeta, A Região e A Crítica são femininos (esse nó na língua que se dá para chamar A Tarde de “o A Tarde” deixaria apoplético o eminente Ernesto Simões Filho). Procurei de lanterna mão e não encontrei um só texto em que se chame a Folha de S. Paulo de “o Folha…” ou A Gazeta de “o Gazeta”. Ainda bem que o ataque não é generalizado.

PORTUGUÊS SEM “CONTORCIONISMOS”

Sobre a batatada de Luís Fernando Veríssimo (primeiro à esquerda, sentado), depois de dizer que “seu pai não faria o mesmo”, Marcos de Castro dá um exemplo, colhido “no admirável Solo de clarineta, de Érico Veríssimo”: “Quarta-feira era o meu dia mais esperado e feliz da semana, pois era às quartas que geralmente chegava a Cruz Alta o último número de O Tico-Tico”. O crítico nos chama a atenção para o fato de que por mais cinco vezes Érico se refere à revista na forma masculina, “sem fazer contorcionismos com o idioma”, mudando o gênero para o feminino. E conclui, com uma ponta de maldade: “O filho pode ser bom em saxofone, mas em clarineta o pai era melhor”.

NO BALCÃO, QUEM DIRIA, A FRASE GENIAL

Quando inventaram o comércio, inventaram os caloteiros e, por consequencia, as frases que procuram afastá-los. “Fiado só amanhã” é uma das mais antigas e, por isso, o tempo já lhe subtraiu a graça que, por ventura, teve na juventude. Desconfio de que, menino (aconteceu há uns 300 anos, ai meu Deus!) eu já desgostava da mesmice na linguagem, tanto que me encantei com uma frase de genial economia de palavras (sobre vender fiado), que vi sobre um balcão de loja – e nunca mais a encontrei, por mais que a buscasse, nem mesmo nos arquivos da internet. Jamais esqueci a frase e, claro, o nome do seu autor, o italiano Paolo Mantegazza (foto).

OS ARTISTAS NÃO SÃO FEITOS NA ESCOLA

Esse Mantegazza (1831-1910) não era um qualquer: foi neurologista, fisiologista e antropólogo, notável por ter isolado a cocaína da coca, que utilizou em experimentos, investigando seus efeitos psicológicos em humanos (“pesco” isto no Google). O velho italiano foi escritor de ficção e ainda encontrava tempo para produzir frases de efeito. “A escola pode aperfeiçoar o artista, criá-lo, nunca; não se melhora senão o que já existe”, é uma de suas pérolas. Outra: “A honra nunca existe por metade; inteira é forte, ferida está morta”. Faltou citar a minha preferida, primor de síntese para desestimular os velhacos: “Vendo, vendo; não vendo, não vendo”.

VOZES OBLÍQUAS NA HORA DO SOL SE PÔR

Há murmúrios neste rio,
vozes oblíquas me chamam;
Cantigas de bem-me-quer
entre rosas imaginárias.
Gemidos de superfície,
do coração de Jandira;
acenos de mãos franzinas
entre brisas de luar.
Senda do meu destino
nesta hora tão antiga;
uma saudade-ternura
na hora do sol se pôr.
Cachoeira, Itabuna, Jandira.
Amor cravado em cruz.

SINAL DE DESENCANTO COM A LITERATURA

Autor de “Água corrente”, acima, Ariston Caldas (1923-2007) passou sua vida, principalmente, em Uruçuca, Itabuna e Salvador. Na região e na capital exerceu o ofício de jornalista, poeta e prosador. Trabalhou nos grandes jornais de Salvador e aqui do Sul, tendo participado de várias antologias de contos e poemas. Publicou cinco livros de poesia: Mar distante, A hora sem astros, Balada que vai e vem, Olho dágua e Dissipação, todos em edições mais ou menos artesanais, hoje difíceis de ser encontrados.  Ariston (à direita da foto, ao lado de Jorge Amado – acervo de A Região) pareceu, em certo momento da vida, desencantado com a literatura, ficando mais de três décadas sem publicar. Curiosamente, um ano antes da morte voltou às livrarias, mas com um trabalho em prosa: Linhas intercaladas (Via Litterarum/2006).

SARAH VAUGHAN, A DIVINA, TERÁ EXISTIDO?

A primeira vez que o som inusitado da voz de Sarah Vaughan entrou pelos meus ouvidos eu senti um impacto próximo ao delírio. E cheguei de imediato à conclusão de que aquela cantora não existia – seria uma invenção de técnicos desocupados, um desses “milagres tecnológicos” que sempre estiveram em moda. Na época, minha sensação era da impossibilidade de um canto tão perfeito; e hoje (tantos anos já passados) ainda às vezes penso que Sarah (chamada, com justiça, a Divina) nunca existiu de se ver e pegar, não é gente de carne e osso. O exemplo é sua interpretação de Someone to watch over me, de George (foto) e Ira Gershwin – os irmãos da ópera Porgy and Bess (1935), já citada nesta coluna.

LETRAS COM BOBAGENS ARREPIANTES

Someone… tem letra feminina e bobinha (como em geral as letras dos americanos). Fala de “procurar um certo rapaz que eu tenho em mente” (I’m going to seek a certain lad I’ve had in mind), com bobagens arrepiantes, como “Onde está o pastor para esta ovelha perdida (Where is the shepherd for this lost lamb)? Na versão “masculina” com Emílio Santiago (foto) ficou:  “Eu sou um carneirinho perdido, arrependido e oferecido a alguém que olhe por mim” (Céus!). E antes que perguntem se Ira e George, com esse papo estranho, eram do reduto, respondo que não, ao menos que eu saiba – Cole Porter, contemporâneo deles, era quem jogava nessa posição. O que se notabiliza em Someone… é a melodia (de George), mais ainda com Sarah Vaughan, capaz de transformar em música até a lista telefônica de Constantinopla.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

O COMPOSITOR MAIS RICO DO MUNDO

George Gershwin está na calçada da fama de Long Island desde 2006 e é nome de teatro em Manhatan, em resposta à contribuição que deu a esse meio cultural.  Aproveito e digo, só para quem ainda não sabe, que esse Gershwin (1898-1973), cuja fama encobriu   o irmão e colaborador Ira, formou ao lado dos maiores compositores americanos – como Cole Porter (foto), Richard Rodgers, Irvin Berlin e outros. E também das maiores fortunas. Artista talentoso e com uma vocação atávica para ganhar dinheiro (era judeu-russo), se deu muito bem na vida: em 2005, o jornal The Guardian concluiu que, “estimando os lucros acumulados na vida de um compositor, Gershwin foi o compositor mais rico de todos os tempos”.

COM VOCÊS, A DIVINA SARAH VAUGHAN!

Agora clique, se ajoelhe e esqueça, por escassos três minutos e meio, tudo o que ficou está lá fora. No fim, bata palmas – e se alguém estranhar, não ligue: o mundo está cheio de gente sem poesia.

(O.C.)