Henrique C. Oliveira: "Lula exporta capacidade de gerar consensos"
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O sul da Bahia não saiu ileso desse processo. O projeto de uma ferrovia sobre a antiga estrada de chão que ligava o nosso litoral a Minas Gerais, passando por Vitória da Conquista, foi substituído pelo predomínio das rodovias.

Henrique Campos de Oliveira || henrique.oliveira@ecossistemaanima.com.br

O movimento pela inserção internacional do sul da Bahia como santuário da Mata Atlântica perpassa, invariavelmente, por sua conexão física com o mundo. Não adianta elucubrar sobre projetos e ações envolvendo a internacionalização de seus produtos e serviços, se não tivermos meios de transporte, principalmente, para prover competitividade e previsibilidade à nossa presença nos mercados nacionais e internacionais.

Como a história nos ajuda a (re)pensar as formas como viemos e aspiramos nos integrar?

Inicialmente, no final do século XIX, as sacas de cacau eram concentradas no leito do Rio Cachoeira, na altura do Banco da Vitória, e embarcadas em canoas até um trapiche no Malhado, de onde seguiam de navio para Salvador.

Com a expansão da exportação do cacau, veio a construção do primeiro porto de Ilhéus, no Pontal, com tentativas de construção datadas de 1909, com atuação protagonista de Antônio Berílio de Oliveira. Sob muita contestação de interesses ligados à capital baiana, sua conclusão só se deu em 1926.

Desde 1911, sob exploração da South Western Rail Way Company Limited, já existia a ferrovia que ligava Ilhéus a Uruçuca. Originalmente, o elo foi pensado para conectar o litoral ilheense a Vitória da Conquista.

Quando a indústria automobilística avança e as ferrovias trocam a maria-fumaça por locomotivas movidas a combustão, há uma inflexão na forma do transporte terrestre de carga, principalmente. Nesse contexto, ocorre uma mudança no planejamento e na implementação de políticas de transporte no país, com fortes impactos na nossa região. De 1930 a 1980, a malha ferroviária brasileira é substituída por rodovias.

Há uma convergência de fatores que nos ajudam a compreender esse fato. A transição da malha ferroviária para o novo paradigma tecnológico de combustão implicava em muito gasto, porque, além das locomotivas, essa substituição exigia que fossem alterados os traçados das estradas de ferro. Era preciso suprimir curvas fechadas e aclives acentuados para garantir segurança ao movimento da composição extensa dos comboios de vagões puxados por trens movidos a diesel.

Também avia pressão significativa da indústria automobilística para a construção de estradas que viabilizassem a comercialização de carros e caminhões. A construção de estradas era – e ainda é – mais barata do que a de ferrovias. Além do mais, o modal rodoviário atendia à necessidade estratégica de garantir a integração física nacional, ao dar mais flexibilidade ao transporte terrestre, permitindo operações porta a porta.

De Getúlio Vargas aos militares, a nossa matriz de transporte saiu de uma predominância ferroviária para rodoviária, na contramão do que ocorria nos países desenvolvidos de dimensão continental.

O sul da Bahia não saiu ileso desse processo. O projeto de uma ferrovia sobre a antiga estrada de chão que ligava o nosso litoral a Minas Gerais, passando por Vitória da Conquista, foi substituído pelo predomínio das rodovias.

Com isso, o porto do Pontal perdeu a sua integração ferroviária. Além do mais, Já no início dos anos 1940, o porte dos navios não condizia com a profundidade do canal entre a Praia do Cristo e o Morro de Pernambuco, hoje à sombra da ponte Jorge Amado.

Daí surgiu a ideia do Porto do Malhado, que entra em disputa com outra alternativa, a construção do Porto de Campinhos, na Baía de Camamu, próximo do refúgio turístico de Barra Grande. Esse porto seria usado como base para o envio de material para a construção de Brasília, via BR-030, sem pavimentação até hoje.

Para a sorte da conservação da fauna e flora da Baía de Camamu, nessa competição, sob forte influência de cacauicultores e políticos locais, os recursos do Banco Mundial foram destinados à construção Porto do Malhado.

O projeto original era construir, junto com o distrito industrial de Ilhéus e com as empresas transnacionais moageiras, o polo logístico e produtivo do cacau. Todavia, o porto inaugurado em 1972 já se mostrava defasado e ocioso em 1978, constituindo-se como mais um item da coleção de elefantes brancos do governo militar.

Ao longo do letárgico e conturbado processo de construção do novo porto, o cacau era transportado pelo serviço de alvengarias, chatas, entre o porto do Pontal e os navios atracados no mar aberto, diante da Avenida Soares Lopes. Acidentes eram comuns, com perdas significativas de carga. As exportações eram registradas por Salvador. As casas exportadoras da capital e aqueles que exploravam o serviço de alvengaria ganhavam, a região perdia.

O Porto do Malhado foi construído sem integração ferroviária e com um aparelhamento defasado, sem contar o impacto ambiental, que intensificou a erosão na orla norte de Ilhéus e o assoreamento da Praia da Avenida.

O mundo começava a usar contêineres para movimentar cargas. Assim fizeram as empresas de beneficiamento do cacau do também recente Distrito Industrial de Ilhéus. Os derivados simples das amêndoas de causa – manteiga, pasta, licor etc. – eram compartimentalizados em tuneis e transportados por contêineres, circulando por rodovias, até o escoamento portuário via Salvador e Santos.

Para completar esse cenário, em paralelo à infraestrutura de transporte terrestre e marítima, o aeroporto de Ilhéus foi construído para receber aviões da década de 1940 e não recebeu melhorias capazes de adaptá-lo à evolução das aeronaves.

As decisões políticas e econômicas que orientaram a trajetória resumida acima impõem os seguintes questionamentos. Aprendemos com as lições do passado? A construção do Porto Sul e da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) confere ao sul da Bahia a superação do perfil defasado e limitado da sua integração física com o mundo?

Pretendo discutir essas questões na próxima coluna, ao comparar esses projetos com o que já vivenciamos, tendo como horizonte a centralidade da conservação da Mata Atlântica e a ruptura com a repetição de padrões do planejamento espacial da nossa região. Desde já, agradeço pelas eventuais comentários ou provocações dos leitores e leitoras.

Henrique Campos de Oliveira é ibicariense, doutor em Ciências Sociais pela UFBA e professor do Mestrado em Direito, Governança e Políticas Públicas da Unifacs.

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A cidade de Ilhéus, cenário da Feira, parecia sair dos livros de Jorge Amado e alcançar o mundo do leitor.

Efson Lima | efsonlima@gmail.com

Há grande quantidade de feiras e festivais literários na Bahia. Muitas dessas ações literárias partem de iniciativas voluntárias. As pessoas se juntam e buscam o apoio privado e/ou recurso público para subsidiar a realização dessas exposições literárias. A pandemia de Covid-19 estabeleceu um período sabático presencial para alguns deles, mas, felizmente, não conseguiu impor sua extinção.

Agora, em 2022, os festivais e feiras reaparecem com o brilho de uma vasta produção literária e com grande número de leitores interessados neles. Esses encontros aglutinam o público e reúnem diferentes linguagens: música, teatro, dança e artes plásticas. Indubitavelmente, organizadores e público estavam esperando o retorno desses eventos para comemorar e se reencontrar com a literatura fora do ambiente caseiro. Por sinal, a Bienal do Livro em São Paulo, ocorrida em julho último, teve volume considerável de vendas e número significativo de visitantes, registrando recordes.

Trago à lume a Feira Literária de Ilhéus (FLI) ocorrida no mês de julho. Nela, pude participar ativamente e apreciar a presença de alguns escritores de impacto nacional, como Viviane Mosé e Jeferson Tenório. A FLI foi organizada pela Academia de Letras de Ilhéus e pela Editora da Universidade Estadual de Santa Cruz (Editus). O evento teve lançamento de livros, concurso de obra literária (Prêmio Sosígenes Costa) e o envolvimento de escritores na maratona literária.

A FLI foi uma junção de linguagens e de propósitos, cujo emaranhado foi conferindo sentido ao evento à medida que as mesas, oficinas, shows, a gritaria da criançada e as perguntas do público se entrelaçavam. A cidade de Ilhéus, cenário da Feira, parecia sair dos livros de Jorge Amado e alcançar o mundo do leitor.

A realização dos festivais literários não se estancou na Bahia e, neste mês de agosto, já ocorreram o Festival de Praia do Forte e o Festival de Canudos (Flican). As articulações para a concretização da tradicional Feira Literária de Cachoeira (Flica), que vai ocorrer em setembro, estão a todo vapor; assim como para a Festa Literária de Uauá, no sertão da Bahia; e o Festival Literário Sul – Bahia (Flisba), em novembro, na cidade de Itajuípe, e, pela primeira vez, será de forma presencial, mas ainda com transmissão via internet.

Ainda teremos a Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), também programada para novembro. E já se divulga a primeira edição da Festa Literária de Serra Grande, que promete se tornar um grande festival literário na biosfera da Mata Atlântica.

Efson Lima é mestre e doutor em Direito pela UFBA e membro da Academia de Letras de Ilhéus (ALI) e da Academia Grapiúna de Letras (Agral).

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Esse é um caminho sem volta, um carro sem freio, a chama de um fósforo se espalhando em um canavial. Se a atual gestão não fizer os ajustes necessários, a próxima fará.

Aderson Marcelo Borges || adersonmarcelo@hotmail.com

A Secretaria Municipal de Educação (Seduc) e o prefeito de Ilhéus subestimam a inteligência dos professores contratados. Essa é a realidade de uma gestão que ainda se pauta em uma forma atrasada de gerir, pois Ilhéus nunca conseguiu se libertar do coronelismo político. Para comprovar o que digo, vamos aos fatos.

Quando o atual prefeito foi reeleito, em 2020, era práxis das diretorias dos colégios municipais arrebanhar os professores contratados em grupos de WhatsApp. Os mesmos eram cotejados e impelidos a vestir camisas amarelas para subir os morros da cidade e a visitar os distritos, para engrossar as comitivas do prefeito. Alguns eram convidados até a plotar seus automóveis com propaganda eleitoral. Em resumo, o prefeito fazia uso de um poder que lhe foi conferido democraticamente pela população da cidade para se utilizar dos funcionários no sentido de pressioná-los a aderir à sua campanha.

Uma nuance que caracteriza a política coronelista é o voto de cabresto, o que ocorreu nas eleições de 2020 em Ilhéus. No entanto, agora vivemos um tempo em que um novo movimento se faz presente na mentalidade dos professores contratados. Embora muitos não se manifestem, por temor de colocar em risco seus empregos, o que é justo, porque todos têm suas contas para pagar e suas famílias para sustentar, a imensa maioria desses professores abriu os olhos. Eles estão se valorizando e a insatisfação cresce com o tratamento que a Prefeitura de Ilhéus tem lhes dado.

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Vinculado ao nosso ecossistema, o valor intrínseco da região não deve se resumir ao chocolate – agora não mais só cacau – nem ao turismo. Há que se ampliar esse portfólio.

Henrique Campos de Oliveira – henrique.oliveira@ecossistemaanima.com.br

A nossa região foi forjada na medida em que se internacionalizava via exportação cacaueira, do fim do século 19 à primeira metade do século 20. Tudo mudou desde então, mas aqui predomina a visão limitada de que o cacau é o principal recurso do Litoral Sul para acessar mercados internacionais. Num mundo acelerado e devastado, a nossa vantagem competitiva e estratégica não reside no valor de um produto, mas no valor do nosso ecossistema: a Mata Atlântica.

O cacau sul-baiano encontrou condições formidáveis para o seu cultivo, aproveitando a umidade ideal da Mata Atlântica para chegar à produtividade máxima de 60 arrobas por hectare na década de 1980. Como numa relação simbiótica atravessada pela economia, a produção cacaueira não devastou a mata, que lhe retribuía por isso com  uma estufa natural com ótimos índices de produtividade.

Essa relação se altera com a chegada da vassoura de bruxa, que afeta justamente a produtividade da planta. Mas a Mata Atlântica daqui, das mais diversas do mundo, manteve-se preservada a ponto de propiciar paisagens cinematográficas tal como encontramos nas enseadas das praias de Itacaré, com a mata verde-vivo cobrindo rochas banhadas pelo mar azul do Oceano Atlântico, a curvatura da Terra no horizonte infinito, num belo dia ensolarado.

A degradação de ecossistemas e a desumanização da vida urbana transformaram a estadia em lugares como o descrito acima numa experiência sem preço – ou com um bem alto. O anseio por tal vivência se massificou nos anos 1990, quando, também, contou com o avanço da vassoura de bruxa, que trouxe consigo a pressão sobre a mata. Boa parte da lavoura cacaueira desapareceu para que a terra fosse desmatada para extração de madeira ou ocupada pela pecuária, além da contraditória pressão imobiliária do próprio turismo.

Portanto, a cacauicultura foi um dos principais motivos para a preservação do nosso maior bem e não o contrário. Mas a preservação é ameaçada quando o cacau não mais se sustenta e sua produção é substituída por atividades que, normalmente, geram mais desmatamento e degradação.

Todavia, a consciência socioambiental na região cresce mesmo em um contexto de crise, que afeta um território marcado por desigualdade e miséria. Instituições como UESC, Ceplac, UFSB e movimentos como o da Agência de Desenvolvimento Regional Sul da Bahia, reportado pelo PIMENTA, evidenciam a consciência de que a mata é o nosso maior bem.

Além disso, a nossa região tem capacidade de competir com produtos e serviços ligados à sustentabilidade da Mata Atlântica devido aos avanços em políticas de valorização do salário real, de distribuição de renda e demais garantias e direitos constitucionais que constrangem o trabalho análogo ao escravo e infantil.

Costa do Marfim, Gana, Equador, Venezuela e demais países produtores de cacau enfrentam obstáculos maiores para obter certificações e selos de sustentabilidade socioambiental, justamente porque não produzem no sistema cabruca. Ao mesmo tempo, as populações desses países não dispõem de garantias constitucionais e políticas públicas tais como encontramos aqui em prol do trabalho descente.

Ainda temos o turismo vinculado à sustentabilidade e o avanço na qualificação de produtos agrícolas com a verticalização da cadeia produtiva do cacau. Deixamos de ser meros fornecedores de amêndoa ou bens intermediários e insumo da cadeia alimentícia, como a banha e a manteiga de cacau fornecidas pelas moageiras instaladas em Ilhéus desde a década de 1970, para nos destacarmos como fornecedores de chocolate com certificação de origem e com premiações internacionais de qualidade.

Vinculado ao nosso ecossistema, o valor intrínseco da região não deve se resumir ao chocolate – agora não mais só cacau – nem ao turismo. Há que se ampliar esse portfólio.

CERTIFICAÇÕES E INTERNACIONALIZAÇÃO

Como já dito, estruturalmente, a região preenche requisitos para conseguir selos de certificação e acessar nichos de mercado fechados. Há selos de todo tipo, como o Hallal para produtos adequados às exigências islâmicas ou o Koscher para judeus. Recentemente, tivemos um boom de selos de sustentabilidade, orgânicos e produtos com erradicação de trabalho análogo ao escravo ou infantil. Há um selo específico para a preservação da Mata Atlântica, o Follow the Frog.

Atender a essas especificações é um caminho paralelo a ser percorrido também para responder às exigências técnicas de mercados com rigorosos procedimentos para importação, como o norte-americano, o europeu e o japonês. Tudo isso requer capacidade técnica nos processos produtivo e logístico, além de recursos públicos e do terceiro setor para o avanço em questões socioambientais.

COOPERAÇÃO TÉCNICA E FINANCEIRA PARA MUNICÍPIOS E ATIVIDADES PRODUTIVAS

Com o intuito de conseguir apoio técnico e financeiro para internacionalização de negócios sustentáveis, uma série de organizações internacionais, agências e fundos de fomentos empregam recursos para capacitar potenciais exportadores. É o caso da Ajuda Oficial para o Desenvolvimento, que disponibiliza recursos tanto para projetos vinculados à internacionalização de uma cooperativa, como acesso a recursos por parte de municípios para despoluírem rios.

Além da obtenção de certificados, esse apoio permite o acesso a mercados específicos, sempre dispostos a pagar mais para ter uma consciência mais tranquila na hora de degustar uma fruta tropical.

INFRAESTRUTURA LOGÍSTICA

A região, a Bahia e o país sofrem com uma infraestrutura precária, defasada e desintegrada. Além de custos maiores, essa fragilidade gera imprevisibilidade, o terror para o planejamento logístico, principalmente, para produtos perecíveis, como os da fruticultura tropical. Assim, a região, mais do que um porto para minério, carece do já prometido aeroporto internacional, que abrigue, na sua poligonal alfandegária, armazéns comuns e refrigerados para acomodar os produtos da região.

Além do mais, tal aeroporto permitiria a conexão de voos diretos da região, favorecendo o turismo. Do mesmo modo, seria necessário garantir linhas aéreas para os principais centros dos mercados-alvos, como Los Angeles, Nova York, Frankfurt e Tóquio. Como se sabe, um mel de cacau ou um mangostão pode estar disponível na mesa de um nova-iorquino mais rápido do que na mesa de um paulista sem a mesma disposição monetária comprar esses produtos.

Nesta coluna, quero discutir a internacionalização do Litoral Sul da Bahia com foco na Mata Atlântica. Pretendo detalhar, nas próximas edições, pontos tratados aqui de forma panorâmica. A intenção é provocar um debate e propor soluções que nos desloquem de uma posição passiva na cadeia global de alimentos para uma posição altiva na cadeia global sustentável.

Henrique Campos de Oliveira é ibicaraiense, doutor em Ciências Sociais pela UFBA e professor do Mestrado em Direito, Governança e Políticas Públicas da Universidade Salvador (Unifacs).

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A nossa bandeira permanecerá sob o vento democrático e estará nas mãos dos que lutam por um país plural, por uma nação.

 

Rosivaldo Pinheiro

As eleições são sempre momentos para testar e melhorar o sistema eleitoral e validar o processo democrático. O Brasil se destaca no mundo pela segurança e rapidez no processamento dos resultados eleitorais, mesmo com a nossa extensão territorial e os diferentes contextos regionais. Desde o início do uso das urnas eletrônicas, o país experimenta contínuo destaque. A cada eleição, aprimora a rotina de apuração e consegue declarar o vitorioso na corrida presidencial poucas horas após o encerramento da votação. Essa realidade não é diferente para os resultados dos estados e também nas eleições municipais.

O sistema das urnas eletrônicas veio para ficar e, a partir do seu uso, algumas intervenções que afetavam os resultados deixaram de existir, uma vez que as manobras na hora da contagem das cédulas, no sistema antigo, aconteciam sob o beneplácito de uma estrutura viciada e à disposição dos poderosos no conhecido voto de cabresto. Hoje, diferentemente daquela época, essas vulnerabilidades foram superadas, ao que pese o poder econômico manifestado através do poder político ainda exigir ajustes por parte da justiça eleitoral.

No tocante ao processo eleitoral das contagens de cédulas, podemos lembrar sem muito esforço de pelo menos um episódio de grande repercussão: a virada de resultado de Valdeck Ornelas sobre Waldir Pires na Bahia, para o Senado em 1994. À época, três candidatos concorriam a duas vagas: Antônio Carlos Magalhães, Valdeck Ornelas e Waldir Pires. A primeira vaga já se sabia que seria de ACM. Já a segunda, de acordo com as pesquisas, seria de Waldir Pires. Iniciada a contagem eleitoral, Waldir abriu 50 mil votos de frente sobre Valdeck.

No fim da contagem das 8.389 urnas, em 1.400 delas Valdeck Ornelas obteve mais votos que ACM, sendo eleito como segundo senador com 3.014 votos a mais que Waldir. Esse fato ficou conhecido como “O Milagre Baiano”, representando uma clara certeza de que houve manipulação do resultado e, face à força de ACM, foi validada, mesmo com os recursos interpostos por Waldir. Chamou a atenção, mas valeu o resultado porque quem comandava as regras do jogo era o velho ACM, conhecido pela imposição da força e o controle sobre os poderes baianos.

Por essas e outras, é descabido o desejo do atual presidente da República de pedir a volta do voto impresso, sendo ele e os seus filhos eleitos várias vezes sob o sistema das urnas eletrônicas. Por força da condução da Justiça Eleitoral e por defesa do Supremo Tribunal Federal (STF), a urna eletrônica será mantida, e o nosso avançado sistema tecnológico seguirá o seu curso. O povo brasileiro, na sua ampla maioria, disse em alto, claro e bom som confiar na Justiça Eleitoral e nas urnas eletrônicas, conforme a última pesquisa, na qual 79% dos brasileiros disseram acreditar nas urnas, e 75% afirmaram apoiar o sistema democrático, indo na mesma direção da classe empresarial e dos trabalhadores, que, juntos, assinaram a carta em defesa da democracia.

Com essas manifestações, o presidente da República, que pregava fazer um ato no próximo dia 7 de Setembro (Dia da Independência) para impor a sua vontade sobre as instituições e exigir mudanças no processo de apuração dos votos, percebeu que não haverá espaço para golpismo, e que o Brasil atual não aceitará emudecido o atropelo da ordem democrática e nem permanecerá sob o domínio do obscurantismo. A nossa bandeira permanecerá sob o vento democrático e estará nas mãos dos que lutam por um país plural, por uma nação.

Rosivaldo Pinheiro é economista, especialista em Planejamento e Gestão de Cidades (Uesc) e comunicador.

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Foi uma pena quando chegamos em Curitiba, nosso destino da viagem. Estou rezando para que nosso retorno coincida com os dos nossos novos amigos de viagem, para que possamos aprender bem mais sobre os modos de vida.

 

Walmir Rosário

Estou em viagem. Nem mesmo posso saber que dia voltarei para casa, em Canavieiras. Paraná e Santa Catarina no roteiro planejado para rever filhos e netos, como fazemos – eu e minha mulher – frequentemente. Esta viagem tem, pelo menos, duas particularidades diferentes. A primeira é que, com a pandemia, ficamos mais de dois anos em casa, aguardando tempos melhores para viajar com segurança.

A segunda é que resolvemos inovar – ou retroceder, a depender do ponto de vista – escolhendo o ônibus como meio de transporte. E não foi por livre escolha, mas pela dificuldade de conexões e muita bagagem. Teríamos que parar para dormir – nem que fosse no aeroporto – e seguir viagem no dia seguinte, o que consideramos um trambolho. De ônibus, ao chegar em Curitiba, descíamos e subiríamos em outro para Ponta Grossa.

Ao informar aos amigos sobre o meio de transporte escolhido, eu era visto como um ser atrasado, ao ter que suportar horas e horas sentado numa poltrona e ver a paisagem pela janela, sem contar nos atrasos nas paradas. Ah! Até nisso inovamos! O nosso ônibus – de carreira – chegou na rodoviária com três horas de atraso, tempo em que aguardamos pacientemente para não nos aborrecer.

Mas até que não foi, de todo, ruim. Conhecemos uma colega advogada e matamos o tempo num alegre bate-papo. Às 21 horas saímos de Itabuna, todos quietos como manda o protocolo, até que conhecêssemos uns aos outros. Ao raiar do dia, só ouvíamos, estudando cada um dos companheiros que teríamos por longas 36 horas desta longa, interminável viagem.

Como disse no título, faço questão de ressaltar que não se tratava apenas de um apelo chamativo, mas sim a expressão da verdade, constatada ao vivo e em cores. De repente, parecia que estávamos num boteco, ambiente em que você passa a ter amigos de infância, construídos em pouquíssimo tempo. Parece até promessa de político em ano eleitoral, do tipo 40 anos em quatro.

Chamou-nos atenção um casal de aposentados – como nós – de conversa fácil e variada. De pronto nos sentimos convidados a passar uns dias em seu sítio em Curitiba, experimentando as frutas, comendo os legumes e verduras, tirados da horta na hora de comê-los. Pelo jeito que descreveu o seu fogão a lenha, me senti assando uns pinhões na chapa, lavando a goela com uma boa cachaça e cervejas artesanais curitibanas.

Mas foi aí que minha mulher – persentindo o meu sonho – me segredou ao ouvido: “Você esquece que o casal professa a religião Batista, portanto não aprecia e nem consentirá esses devaneios em sua casa?”. Bastou essa pergunta para refrear meus instintos festeiros. O jeito era deixar uma programação como essa para outras paragens, a exemplo das casas dos filhos e netos.

Foi aí que descobri que nossos novos amigos iam além do que pareciam ser: gostavam da boa comida e declamaram receitas que iam da rabada ao mocofato, de uma boa salada aos peixes e camarões, me deixando com água na boca, ou melhor, babando. Mas concordei com eles quando descreveram as propriedades do arroz integral, aconselhando a não comê-lo por mais de três dias, pois faria mal ao estômago (…) será?.

Após ter tirado um leve cochilo, percebi que nossos novos amigos – com um casal que embarcou em Vitória, no Espirito Santo – também tinham amplo conhecimento na área da medicina, dada a intimidade com os medicamentos. Aprendi muito com os remédios para equilibrar a pressão, quais os mais caros e os mais baratos; aconselhando-nos a substituí-los pelos chás. Anotei duas páginas deles em meu caderno, apesar de não tomá-los.

E aí foi que os dois casais se entusiasmaram e passaram a descrever as maravilhas dos medicamentos para hipertensão, diabetes, artrites, artrose e colesterol. Neste ponto o debate ficou animado, parecendo que apresentavam as brilhantes teses de doutorando e pós-doutorado, com as devidas recomendações para que os incautos pacientes não se viciassem nos medicamentos, muitos deles perigosos. Ouvi tudo com bastante atenção.

A cada parada, nos aconselhavam o que comer, dadas as especialidades do restaurante, nem sempre de boa valia, pois acreditei que eram especializados em nos oferecer algo mais sem gosto a cada viagem. Na minha próxima viagem levarei o meu farnel, sem dispensar uma farofa de frango assado na televisão de cachorro, uns sanduíches de mortadela e queijo, e, quem sabe, ovos cozidos com sal e pimenta-do-reino.

Mas nem sempre tudo corre às mil maravilhas. Senti-me profundamente emocionado quando um deles contava vantagens sobre seu modo de vida, confessando sua grande decepção: não saber dirigir. E seu desespero aumentava quando lembrava dos incentivos de sua mãe para que aprendesse a as artes do volante. Quase chorou quando sua mulher jogou na sua cara: “Não dirige nem carrinho de mão”.

Foi uma pena quando chegamos em Curitiba, nosso destino da viagem. Estou rezando para que nosso retorno coincida com os dos nossos novos amigos de viagem, para que possamos aprender bem mais sobre os modos de vida. Com mais duas viagens dessas posso pedir à empresa de ônibus que nos conceda os honrosos títulos de PhD, mesmo que sejam honoris causa. E seremos felizes para sempre.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

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O Itabuna fez 11 e o adversário apenas 1, o de honra. Se é que um gol honra um time que leva 11 ou uma seleção que toma sete.

 

Marival Guedes | marivalguedes@yahoo.com.br

Em 1969 uma jovem conheceu, numa festa/exposição, integrantes dos Novos Baianos. Gostou e tomou uma decisão tão louca quanto o grupo: abandonou o curso de Comunicação na USP, família que morava num confortável casarão, amigos e estágio. Partiu junto.

Marília Aguiar não tocava nem cantava. Mas, nesta aventura, muito ajudou na administração 1979, quando o grupo se separou. Ela relata a experiência no livro Caí na Estrada com os Novos Baianos (ed. Agir), prefácio de Zélia Duncan e posfácio de Paulinho Boca de Cantor.

Um dos capítulos é sobre um jogo contra o Itabuna. No retorno de Salvador ao Rio, no final do carnaval de 1973, o dinheiro já estava acabando quando passavam na cidade. Então lembraram de um amigo fazendeiro.

Marília não entra em detalhes, mas o fazendeiro era Reinaldo Sepúlveda e quem fez o contato foi o repórter fotográfico Mário Queiroz, produtor do grupo na Bahia e amigo de Reinaldinho.

Na fazenda Amaralina, ela diz “que surgiu uma proposta bizarra”, marcar uma partida contra o Itabuna. Lembra que, “além da música, os Novos Baianos eram apaixonados por futebol. Tinha até time, o NBFC-Novos Baianos Futebol Clube e acreditavam que eram craques”. Doce ilusão.

Mário conversou com o então presidente do Itabuna, o advogado Gervásio José dos Santos, e ficou combinada a realização da partida com a renda dividida, 50% para cada equipe. A divulgação foi ampla e o estádio, a Desportiva Itabunense, lotou.

Livro de Marília Aguiar narra experiência com o grupo Novos Baianos

Segundo Marília, “o NBFC jogava muito mal”. Os torcedores reagiam com vaias, palavrões e chamavam os cabeludos de veados. “Baby não gostou, subiu no banco de reservas e revidou com os mesmos adjetivos. ”

O Itabuna fez 11 e o adversário apenas 1, o de honra. Se é que um gol honra um time que leva 11 ou uma seleção que toma sete.

A autora diz que a torcida ficou revoltadíssima quando percebeu que havia sido enganada e pagou para o seu time jogar contra amadores. Começou a ameaçar. A polícia foi chamada e escoltou o grupo até a fazenda. Receberam a parte combinada e foram despachados cedinho, pra evitar novas confusões.

Na véspera do jogo foi realizado um show no cine Marabá. Assisti ao belo espetáculo, Inesquecível. “Pernas de pau” no futebol, craques na música, os Novos Baianos entram na história da MPB. Há documentários sobre eles, o mais famoso é Filhos de João, referência a João Gilberto, que teve decisiva influência sobre os caminhos musicais do grupo.

Marival Guedes é jornalista.

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Na viagem de avião, Ferreirinha foi me contando-repetindo todas as suas peripécias sexuais, a ponto de eu me perguntar se ele teria coragem de dizer tudo aquilo no programa.

 

Daniel Thame

No início da década de 90, então no vigor dos seus 80 anos, Ferreirinha ficou mundialmente conhecido após se casar com a estudante Iolanda, nos seus tenros 15 anos. Foi tema de reportagens em jornais de todo o planeta e concedeu uma entrevista antológica no programa Jô Onze e Meia, no SBT, onde foi triunfalmente apresentado por Jô Soares como o “Garanhão de Itabuna”.

A entrevista com Jô, que levou seu monumental talento para a eternidade, foi acertada após o envio de um exemplar do Jornal A Região por Manoel Leal à produção do programa. O jornal, à época vivendo seu auge, foi o responsável pela divulgação inicial da insólita união.

Como Ferreirinha, já passando os 80 anos e com Yolanda batendo o pé e se negando a acompanhar o esposo, coube a este jornalista (então editor de A Região), levá-lo a São Paulo.

Antes de viajar, Leal comprou uma camisa florida (estilo Jorge Amado) para usar no programa e orientou que se Jô Soares perguntasse o segredo da propalada potência sexual, a reposta era: “muito suco de cacau”.

Na viagem de avião, Ferreirinha foi me contando-repetindo todas as suas peripécias sexuais, a ponto de eu me perguntar se ele teria coragem de dizer tudo aquilo no programa.

Disse e levou Jô Soares e a plateia (composta majoritariamente por estudantes) às gargalhadas, imitando o famoso gesto da posição “receba, galinha”, a sua preferida, antes das núpcias com Yolanda, bem entendido.

Diante de um Jô Soares surpreso com tanta desenvoltura e todos os presentes à gravação encantados com aquele senhor com jeito de menino sapeca, Ferreirinha confirmou que o segredo de levar a jovem esposa à exaustão a ponto de que era ela e não ele quem pedia para parar os arrufos na cama, era mesmo o tal suco de cacau.

Foi o suficiente para Jô Soares pedir: “atenção meus amigos do sul da Bahia, me mandem vários pacotes de suco de cacau!”

Por obra e graça (coloca graça nisso!) de Jô Soares, Ferreirinha ficou conhecido como “O Garanhão de Itabuna”, título do qual se orgulhava e procurava manter, sempre se vangloriando de seus “dotes garanhísticos”, até falecer (lúcido e bem humorado), aos 99 anos, cercado pelo amor de Iolanda do dos familiares.

A entrevista foi um sucesso tão estrondoso que foi repetida entre as melhores do ano. Ferreirinha só não pode usar a camisa amadiana, porque como o voo atrasou, fomos levados diretamente para o estúdio. Durante a entrevista (sem imaginar que a gravação já estava valendo), Ferreirinha dizia a um Jô atônito que precisava vestir a camisa que Leal lhe deu.

Manoel Leal, Ferreirinha, Jô Soares. Deus deixa o céu mais habitável. E esse planetinha tão judiado pelo homo (sic) sapiens cada vez mais pobre de personagens dessa dimensão.

Daniel Thame é jornalista e escritor.

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A obesidade é uma doença que vem fazendo cada vez mais vitimas por todo o mundo. Atualmente, mais da metade da população mundial sofre com esse problema e a tendência é que ele aumente cada vez mais.

 

Carolina Loureiro

A cirurgia bariátrica não envolve apenas os cuidados com a parte física. Muito do sucesso do seu resultado depende de aspectos psicológicos, talvez a maior parte. Por isso, é tão importante que o paciente seja acompanhado por uma equipe multidisciplinar, incluindo um psicólogo.

Neste artigo falaremos sobre os aspectos psicológicos da cirurgia bariátrica no pré e pós-operatório. O psicólogo tem um papel fundamental em todo o processo do tratamento, desde o pré-operatório, onde é preciso avaliar a condição emocional do paciente e o que ele sabe e espera sobre a cirurgia, até o final do tratamento, quando o paciente já eliminou muitos quilos e precisa entender que agora possui uma forma física nova.

Qual o papel do psicólogo no período pré-operatório?

Nessa fase, antes da cirurgia é preciso que o paciente seja avaliado cuidadosamente. Essa avaliação é capaz de diagnosticar transtornos comportamentais, como os alimentares, de compras, uso de substâncias e outros, em especial transtornos alcoólicos e sintomas de depressão ou ansiedade.

Se algum transtorno psicológico for diagnosticado, será preciso que esse paciente tenha um planejamento terapêutico mais preciso e mais focado em todo o processo. Mas, isso não chega a ser um impedimento. É comum que transtornos sejam identificados na avaliação pré-operatória.

O que não é comum são casos onde o paciente desenvolve uma patologia psicológica no período pós-operatório da cirurgia bariátrica. Quando isso acontece, geralmente, é porque o paciente deixou de comparecer às consultas, interrompendo o tratamento por conta própria.

É importante que o profissional avalie, nesse primeiro momento, se o paciente realmente entende todas as questões que envolvam o procedimento e o tratamento completo, como:

– As possíveis complicações e os riscos envolvidos no procedimento;

– Quais são os benefícios esperados;

– Como funcionam e para que servem todos os exames necessários;

– Quais serão os procedimentos realizados a longo prazo;

– Todas as consequências emocionais, sociais e físicas envolvidas;

– Quais serão as suas responsabilidades;

– Caso seja necessário, que ele precisará de um tratamento psicológico prévio; e

– Cuidados psicológicos no pós-operatório.

O período pós-operatório é o que demanda mais atenção, em todos os âmbitos. Esse é o momento em que o paciente está mais fragilizado, fisicamente e emocionalmente. É o começo de uma nova fase e, por um mês, ele deverá de alimentar apenas com uma dieta líquida.

Nesse período é comum surgirem desconfortos como insegurança, ansiedade e até mesmo problemas relacionados à adaptação da nova rotina alimentar do paciente. Por isso, é fundamental que haja um acompanhamento mais frequente nesse período.

Os aspectos psicológicos da cirurgia bariátrica.

A cirurgia bariátrica vai muito além de apenas um procedimento onde uma parte do estômago é alterada. Se trata de um tratamento completo, cheio de detalhes, realizado por uma equipe multidisciplinar.

A operação promove uma perda de peso muito grande e rápida, que em um primeiro momento pode elevar muito a autoestima do paciente, melhorando sua vida social e seus relacionamentos.

Porém, existe um pequeno risco de o paciente voltar a ganhar peso, depois de uma perda significativa. O que pode gerar graves problemas psicológicos. Como distúrbios de autoimagem, transtornos alimentares, depressão e outros, fora essa possibilidade de reganho de peso. Existe o fato de que o emagrecimento rápido acaba promovendo um excesso de pele que incomoda muito os pacientes.

A importância do psicólogo da cirurgia bariátrica. Todo o acompanhamento psicológico é fundamental no tratamento do paciente que se submeteu a cirurgia bariátrica. Esse apoio é o que garante o sustento emocional do paciente para que ele possa dar continuidade ao processo de mudança tão importante em sua nova vida.

Afinal, a cirurgia bariátrica não funciona sozinha. É preciso que o paciente tenha comprometimento com novas rotinas e se esforce para melhorar sua saúde e qualidade de vida. Entre os papéis principais desse acompanhamento médico estão:

Auxílio na compreensão do paciente em relação ao seu novo corpo (imagem), e na adaptação de novos e saudáveis hábitos alimentares e físicos.

Estímulo do amor-próprio e do cuidado autocuidado, incentivando o paciente a prosseguir com o tratamento multidisciplinar e seguir todas as orientações médicas.

Acompanhar a evolução do paciente e sua adaptação ao novo estilo de vida.

Ajudar o paciente na retomada de seus projetos de vida.

Auxiliar na administração do estresse diário e dos sintomas de ansiedade que ele pode promover.

Como já falamos aqui em nossos artigos, a obesidade é uma doença que vem fazendo cada vez mais vitimas por todo o mundo. Atualmente, mais da metade da população mundial sofre com esse problema e a tendência é que ele aumente cada vez mais.

É fundamental que o paciente conte com o suporte de uma equipe multidisciplinar que esteja atenta e comprometida com o sucesso do procedimento como um todo. Se você deseja conhecer um pouco mais e como é realizado o acompanhamento pré e pós-cirúrgico, venha nos fazer uma visita, será um prazer!

Carolina Loureiro é especialista em avaliação psicológica, neuro psicóloga e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica.

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O que vivenciei faço questão de repassar, para que não caia no esquecimento por não ter registro digital, já que no papel está suscetível a todos os tipos de intempéries, ataques de traças e de humanos. E o arquivo do jornal Agora corre esse sério risco.

Walmir Rosário

A criação da redes sociais foi um passo definitivo para democratizar a informação e disso ninguém mais duvida. O problema da comunicação não está na história presente nem na do futuro, que será bem mais moderna do que se imagina. Nosso calcanhar de Aquiles está na comunicação do passado, na qual se gastou muito papel, tinta, fitas magnéticas de áudio e vídeo e outros meios de gravação que vão se perdendo no tempo.

Em Itabuna, Ilhéus e região não é diferente e muitas dessas memórias foram parar na lata do lixo, após ter servido para embrulhar peixes e outras mercadorias nas feiras livres, sem que nos déssemos conta que jogávamos – e ainda jogamos – fora a nossa história. Os livros – por si sós –, podem ser parâmetros de um tempo, mas não mostrarão os acontecimentos diários de uma sociedade.

É de conhecimento público e notório minha preocupação com o passado. O que vivenciei faço questão de repassar, para que não caia no esquecimento por não ter registro digital, já que no papel está suscetível a todos os tipos de intempéries, ataques de traças e de humanos. E o arquivo do jornal Agora corre esse sério risco, conforme nos lembrou o escritor Clóvis Silveira Góis Júnior, no artigo “O acervo do jornal Agora”.

É muito comum ouvirmos e falarmos que somos um povo sem história, embora pouco façamos para reverter esse pecado comportamental. Merece registro e louvor o jornalista Ramiro Aquino ao publicar “De Tabocas a Itabuna: 100 anos de imprensa”, trabalho de pesquisa responsável pelo resgate da comunicação desde os seus primórdios. Hoje merecem destaques as publicações “História de Itabuna” e História Grapiúna”, digitais, dentre outras.

Uma das preocupações de José Adervan – que fundou em 1981 o Agora com Ramiro Aquino – era a recheada edição anual do Agora a cada 28 de julho, data da emancipação político-administrativa de Itabuna. Um planejamento minucioso envolvendo jornalistas, historiadores e memorialistas nas pesquisas e grandes reportagens, esperadas ansiosamente pelos estudantes e a população como um todo.

Nos orgulhávamos das edições com cerca de uma centena de páginas apresentadas aos leitores, contendo reportagens e opiniões sobre Itabuna – desde que era Tabocas –, abordando os aspectos econômicos, políticos, históricos, sociológicos, geográficos, esportivos, antropológicos e religiosos. A cada edição, novas descobertas eram apresentadas aos ávidos leitores itabunenses.

E o leitor me pergunta: por que, então, as próprias empresas não dispõem esses arquivos nos modernos meios de comunicação digitais hoje existentes? Simples: muitas das empresas de comunicação, a exemplo do jornal Agora, não mais existem, e as que ainda sobrevivem não têm condições de tocar um projeto dessa envergadura por falta de recursos financeiros.

Os grandes conglomerados de comunicação até que disponibilizam esse serviço em troca de pagamento por assinatura, serviço que se torna inviável para pequenas empresas. Mas, a realidade é que muitas delas já não existem e apenas conservam o arquivo em papel, no caso dos jornais. Por se tratar de um serviço de interesse da comunidade, esse múnus deveria ser transferido a um ente público.

Geralmente, as prefeituras de maior porte contam com centros de documentação (cedocs), que poderiam assumir acervos menores. Mas esses centros não contam com orçamento disponível para tanto, ou vontade dos governantes. Em nossa região a Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc) tem prestado relevantes serviços nesta área e acredito que teria condições de assumir esse ônus.

Aqui já instalada temos, ainda, a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), que poderia se envolver com esses relevantes projetos que beneficiariam substancialmente a educação e o conhecimento regionais. Está na hora dos responsáveis por esses acervos iniciarem uma conversação para a manutenção do acervo original, a digitalização e publicação na rede mundial de computadores.

Para encerrar, comento aqui uma indispensável indiscrição: os jornais sempre abriram seus arquivos para a pesquisa, embora não tivessem pessoal disponível para acompanhar esse trabalho. Muitas vezes, alguns desses “pesquisadores” simplesmente – e sorrateiramente – rasgavam a página do caderno, levando-a, para prejuízo da empresa e de futuras pesquisas. Trocando em miúdos: cuspiu no prato em que comeu.

O acervo do jornal Agora é a cereja do bolo da comunicação do Sul, Extremo-sul e até do Recôncavo baiano. O pensamento e o labor do saudoso José Adervan, que foi professor de economia da Fespi (antecessora da Uesc), não podem nem devem ficar relegados ao esquecimento. Hoje esse acervo representa a base para para o presente e a construção do futuro e disto ninguém discorda.

Como participei da equipe do Agora, tenho consciência de que não estou chovendo no molhado!

Walmir Rosário é jornalista, radialista e advogado.

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Jorge ressoava o amor ao sagrado ao som suave dos maracás, sentia através dos hinos o poder ilimitado de Deus e sorria feliz.

 

Juliana Soledade

Jorge Nobre de Carvalho seguiu entre Jagube, Rainha, Cacau e as Sete Estrelas no altar celestial, deixando um lastro extraordinário de amor, firmamento e disciplina. Levou o seu sobrenome como um dever a ser seguido em sua caminhada: carregado de Nobreza; fortalecido e gigante como um Carvalho.

Como advogado um colossal se formava diante do júri, mas em nenhum momento com fala, gestos ou ações prepotentes; ao avesso, um profissional gentil, certeiro e ético. Extremamente organizado, técnico e pontual.

Criou três filhos amorosos, zelosos e cheios de coragem – aqui deixo meu abraço apertado a Candinha e Moisés -, seis lindos netos que se orgulhava em apresentar; Nadir, seu grande encontro de amor nessa existência; e muitas centenas de amigos e admiradores.

Um mestre que nunca baixou a guarda. Nem nos momentos mais difíceis. Alegava que uma mente sã abrigava um corpo são, ainda que ele estivesse debilitado. Ensinou o poder da mente em não se permitir cair. Eu, pequena e frágil, nunca tive coragem de verbalizar a ele que estávamos travando batalhas semelhantes. E ainda assim, me fazia refletir sobre a vida para sair do centro e deixar a doença no lugar dela, nem maior nem menor, exatamente do tamanho que ela tem.

Jorge ressoava o amor ao sagrado ao som suave dos maracás, sentia através dos hinos o poder ilimitado de Deus e sorria feliz. Quem tinha olhos para ver, enxergava a sua luminosa áurea circundante pairando entre vozes que atingiam o reino astral.

Ouvi diversas vezes de sua voz incomparável: “Estimada e doce amiga, apesar da pouca idade, tem compreensão para entender o que vou dizer…”, e sempre estava a aprender, humildemente, sobre o amor divino, simplicidade e inquietações. Ouvi sobre Deus, sobre viagens astrais e do quanto era abençoado. Era um exímio leitor. Nunca deixou um único texto sem uma boa réplica rica em ensinamentos nas entrelinhas ou uma dica que me traria riqueza espiritual.

Fundador da Casa da Paz, um lugar de equilíbrio, sensatez e verdade. Ele conseguia ligar o céu e a terra na mais perfeita maestria. Percursor do Santo Daime no sul da Bahia, sempre diante boas condutas e honradez.

O comandante agora seguirá noutros planos espirituais, guiando uma nave repleta de luz, cristais e flores coloridas que plantou na floresta encantada. Vez e sempre a saudade vai inquietar. Vai incomodar, mas vou olhar para o céu e imaginar o lindo paraíso que me disse viveria.

“Um raio de luz, brilha e faz brilhar…!”.

Por aqui, a sua missão foi brilhantemente cumprida, Mestre. Sou feliz de ter coexistido no mesmo tempo e espaço que o seu. A luz é o teu caminho, padrinho. Segue nela!

Com carinho e respeito,

Juliana Soledade é escritora, advogada, empresária e teóloga.

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Em meio a tantas perdas humanas e materiais, Itabuna e sua gente tiveram força para se reerguer dos escombros. A grande lição grapiúna é a fé no renascimento em vida. Parabéns, Itabuna!

 

Valderico Junior

Itabuna viveu os dias mais difíceis das últimas décadas no Natal de 2021. Polo regional de comércio e serviços, a cidade viu o período de fim de ano, época de aquecimento dos negócios, ser tomado por uma tragédia humanitária.

Os planos festivos deram lugar à luta pela vida em sua dimensão imediata. Mas, quando faltou chão e as águas do Rio Cachoeira cobriram telhados, a resposta à catástrofe ganhou forma numa corrente de solidariedade.

Foi essa corrente que salvou vidas, confortou quem perdeu entes queridos, abrigou desabrigados e saciou a fome de multidões.

Como esquecer o destemor dos heróis que se arriscaram para salvar familiares, vizinhos e desconhecidos?

A Itabuna que saúdo hoje, nos seus 112 anos de emancipação política, é a dos irmãos Jean e Marcos Neves, os heróis da Mangabinha, que, na sua embarcação improvisada, resgataram mais de 100 pessoas.

Celebro a Itabuna das comunidades religiosas que se mobilizaram para fazer valer o mandamento do amor ao próximo.

Festejo a Itabuna das instituições do comércio, que, durante a tragédia, se converteram em elos fortes daquela corrente solidária.

Neste momento, também não poderia deixar de me solidarizar, mais uma vez, com os familiares, amigos e admiradores do ex-prefeito Fernando Gomes, que nos deixou no último domingo.

Em meio a tantas perdas humanas e materiais, Itabuna e sua gente tiveram força para se reerguer dos escombros. A grande lição grapiúna é a fé no renascimento em vida. Parabéns, Itabuna!

Valderico Junior é diretor da Gabriela FM, presidente do União Brasil em Ilhéus e pré-candidato a deputado federal.

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Faz tudo isso sem perder a embocadura, comemorando seus feitos nos muitos botecos da cidade. É vida que se segue. Portanto, se você conhece uma gente com esse perfil, pode botar fé, é grapiúna, com certeza!

Walmir Rosário

O grapiúna é um povo diferente! Baiano, sim, mas com suas especificidades, o seu jeito de ser! Um povo novo, que nestas terras do sul da Bahia começou a chegar no final do século 19. Não vieram em busca de riquezas, mas fizeram uma terra rica. Fugiam da seca e aqui encontraram água em abundância e trocaram a terra esturricada por um solo fértil para plantar os cultivos de subsistência. Foram além, formaram as roças de cacau.

Assim eram os sergipanos que trocaram seu torrão natal pelas terras inóspitas do sul da Bahia e aprenderam a conviver com outro tipo de dificuldade: a fechada Mata Atlântica, os bichos selvagens, os índios e as doenças insalubres. Quanto mais passavam por novas atribulações, mas crescia a vontade de vencer no novo eldorado, e para aqui trouxeram as famílias parentes e aderentes.

Em pouco tempo, todo o sacrifício foi sendo recompensado pela fartura de alimentos, pelos recursos auferidos com a venda das primeiras safras do cacau, que após colhido e seco era vendido a peso de ouro. Trabalhavam do nascer do sol ao aparecimento da lua, formando as cabrucas, plantando as sementes de cacaueiros com a ponta do facão. E os resultados eram vistos a olhos nus e repassados aos povoamentos civilizados.

Como nos mostra a história, a força do trabalho gera dinheiro e novas oportunidades que atraem outros povos. E eles vieram de todas as partes do mundo, criando uma “torre de babel”, nas quais as linguagens se misturavam e todos se entendiam. Eram gente de terras distantes, os alemães e suíços em busca do cacau; os árabes – aqui chamados de sírio-libaneses, numa união que deu certo – vendendo de porta em porta.

Também vieram levas de oportunistas para disputar as fartas notas de quinhentos que diziam serem usadas para acender os charutos dos novos-ricos do cacau nas noitadas das recém-inauguradas boates da próspera Tabocas, que gerava a magnífica Itabuna em seu ventre. Objeto de ficção e ideologia – ou não – a vila se tornou rica (perdoem o trocadilho) e recebia a todos com a mesma distinção.

E essa gentileza permanece nos dias de hoje, oferecendo mimos e oportunidades aos que aqui chegam, como se fossem nossos velhos e grandes amigos. Nem sempre dá certo, é verdade, mas, na maioria das vezes, o acolhimento resulta em mais um para a confraria. E essa diversidade de raças e credos ultrapassou a nascente Taboca, a grandiosa Itabuna e criou a gente Grapiúna, alcançando o status de nação.

Chegou o Estado para regular as atividades, cobrar os impostos e nem sempre retribuídos em custeio e investimento das riquezas que tomou. Em pleno crescimento, os novos-ricos precisavam satisfazer suas necessidades, a classe média e os mais carentes de serviços básicos. Sem representação política, o imposto do cacau era devorado na capital e outras regiões pela elite econômica e política, sem a menor cerimônia.

Elevados ao posto de Coronel da Guarda Nacional ou simplesmente por suas posses, os grandes comerciantes e cacauicultores contribuíam com seus próprios recursos para melhorar e desenvolver a cidade. Nos conta a história de reuniões noturnas nas casas de alguns deles, na qual decidiam qual rua calçar ou ampliar a iluminação elétrica, dividindo o custo da obra entre eles.

Mas nem tudo era bonança nesta terra grapiúna. O Estado não fazia garantir a segurança dos munícipes e eram comuns as invasões de terras, geralmente as mais férteis e plantadas com cacau e as desavenças entre os citadinos. E os culpados se abrigavam nos fartos guarda-chuvas dos líderes políticos, os quais nem sempre eram alvos dos rigores da lei, pelo contrário, muito bem apegados aos benefícios dela.

Mas o itabunense não se abate com miséria pouca, acostumado que está com os reveses desagradáveis sofridos, seja pela ação humana ou desastres naturais, e sabe como dar a volta por cima num pequeno espaço de tempo. Se o rio Cachoeira inunda, seu povo vê essa catástrofe como uma oportunidade de ajudar os desabrigados e reconstruir as áreas fortemente atingidas quantas as vezes for necessário.

Se a economia chega ao fundo do poço, vai em busca de novos parceiros, refunda o comércio, a indústria, os serviços e faz os recursos financeiros circularem com normalidade. Se o político não cumpre o que prometeu, sem cerimônia, coloca-o na “geladeira” per omnia saecula saeculorum. Tanto é assim que em 28 de Julho de 1910 Itabuna separa-se de Ilhéus, sem perder a amizade, e vive feliz por 112 anos.

E faz tudo isso sem perder a embocadura, comemorando seus feitos nos muitos botecos da cidade. É vida que se segue. Portanto, se você conhece uma gente com esse perfil, pode botar fé, é grapiúna, com certeza!

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.