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Essa menina que tá chegando foi uma das Mulheres mais importantes que o país já teve o privilégio de conhecer! Que falta que ela vai fazer…

 

Manu Berbert

Completamente diferente do que diz uma das músicas, a gente não se apaixonou pelo que inventamos da Marília. Transgressora nata, ela surgiu, coincidentemente, em um momento em que o mundo passou a usar as redes sociais como uma espécie de diário. E a música, que sempre alcançou o que nada mais alcançou, com a soma e voz das redes, ultrapassou todas as barreiras possíveis. Nessas, a jovem tornou-se um fenômeno brasileiro, comprovado pelos números astronômicos, mas principalmente como representante de comportamento moderno.

É nítido que Marília foi liderança de movimento feminino sem precisar gritar. Aumentava o tom de voz apenas nos palcos, na medida exata que alcançasse os corações, mas, em algumas entrevistas, chegou a confessar a espécie de manipulação das suas composições. “Ahhh, eu escrevo para os caras, mas levanto as mulheres”, se referindo a canções como Cuida bem dela, cantada pela dupla de amigos da mesma, Henrique e Juliano.

Bingo!

Era disso que a gente precisava!

Há menos de um mês, por exemplo, em uma reunião profissional, escutei a seguinte frase: “os caras não te enxergam como produtora de eventos não, Manu!” Não respondi e passei o dia remoendo essa frase, como boa escorpiana que dificilmente leva desaforos para casa, mas que neste dia levou. Por coincidência, horas depois vi Junior Pepato, um dos maiores compositores do país (do qual sou fã, e o texto não é sobre o seu trabalho), postar uma foto com mais de vinte homens, dentre eles cantores famosos, passando o final de semana criando e compondo. Lembro que vi, brinquei na foto, mandei uma mensagem particular para ele, mas sorri sozinha pensando “junta tudo aí e não dá na Mendonça”. Esse dia me marcou porque encerrei o mesmo deitada e refletindo o cenário do Show Business como um todo!

Sábado, quando a minha ficha realmente caiu sobre a sua morte, pensei na obra gigante que ela deixa, mas principalmente na lacuna que fica com a sua ausência. Alô, porteiro, abra as portas para a Marília aí! Essa menina que tá chegando foi uma das Mulheres mais importantes que o país já teve o privilégio de conhecer! Que falta que ela vai fazer…

Manu Berbert é publicitária e empresária!

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Mas um nó, cheio de questionamentos, foi crescendo na garganta e vomito, quase sem querer, palavras que ecoam dentro de mim: A VIDA É URGENTE. E do nada, ela acaba; Viver é finito.

 

Juliana Soledade

Tem dores que somos legitimados a sentir, principalmente quando mais uma tragédia acontece. Quando pequenos aprendemos nos livros de biologia sobre o ciclo de uma vida e todos os seres constituem em nascer, crescer, frutificar e morrer. Mas para além, nesse inteirim, construímos, entre sonhos, vitórias e derrotas, a nossa história.

Esperamos o envelhecer para então morrer. E inocentes nessa espera, atropelamos sonhos, quereres, abraços, desculpas, palavras impensadas, somente por acreditar piamente que o amanhã estará a nossa espera. Mas nem sempre está. Não há garantias de vida. Aliás, a vida foi feita para acabar, só não se sabe quando, nem onde, nem por que e nem como. Viver é se agarrar a finitude.

Outubro foi um mês intenso, novembro acompanha a impetuosidade. E ontem, com a agenda lotada de afazeres com planos mirabolantes, ouvi a notícia. Elevei uma prece e pedi que fosse mentira. Não era. Sucessivamente, senti todas as dores em um milésimo de segundo. Esqueci da artista, lembrei-me da humana, com vertigens sobre esse mundo enlouquecido e sentei para acomodar meu coração em disparate. Por um segundo pensei em tirar a urgência do mundo dos meus planos e me permitir sentir. Vinte seis anos, poderia ser oitenta, sempre é cedo. Um filho. Família. Amigos. Uma multidão. E é nessa contradição de subir e decolar para voar, sempre mais alto, sempre mais longe, que somos vítimas, da nossa própria armadilha. E o show da vida se acaba sem despedida. Com a cortina aberta e pessoas boquiabertas.

Faltam certezas, sobram dúvidas.

É comum me calar sobre esses alvoroços ensandecidos quando alguém se desliga desse plano. Normalmente eu silencio, fico a sentir e imaginar a dimensão da perda, faço orações, sempre chove pelos meus olhos, porque inevitável pensar sobre os meus e sigo, porque precisamos seguir, com dor ou sem ela. Mas um nó, cheio de questionamentos, foi crescendo na garganta e vomito, quase sem querer, palavras que ecoam dentro de mim: A VIDA É URGENTE. E do nada, ela acaba; Viver é finito.

E a gente vive com a certeza do depois.
E guarda tudo para mais tarde.
E, talvez, não dê tempo, não tenha oportunidade.
Porque viver é finito.
E, do nada, acaba.

Escrevo olhando para o horizonte, despejando palavras frenéticas em um programa de texto para evitar olhar e sentir ainda mais, porque a ficha não cai. A nossa humanidade é colocada em xeque. E faz-me sentir.

Com amor e sentimento,

Juliana Soledade é advogada, escritora, empresária e teóloga, pós-graduada em Direito Processual Civil e Direito do Trabalho, além de autora dos livros Despedidas de MimDiário das Mil Faces e 40 surtos na quarentena: para quem nunca viveu uma pandemia.

Os fundadores e Caboclo Alencar nos 40 anos do bar de Ithyel
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Walmir Rosário

Mesmo com o dia cinzento e as chuvas esparsas, na tarde de sábado (30.10), ninguém arredou o pé do Alto Beco do Fuxico, um dos mais respeitáveis redutos da boemia de Itabuna, na comemoração dos 40 anos de fundação do Bar de Ithiel. O evento superou todas as expectativas e durante sete horas seguidas quase duas centenas de antigos clientes confraternizaram, beberam, comeram e dançaram à vontade.

À noite, no finalzinho da festa, os “velhinhos” ainda encontravam ânimo para agendar um novo encontro, este para comemorar o cinquentenário do Bar de Ithiel, com todos os requintes necessários para uma festa de arromba, expressão bastante usada em anos passados. Aos clientes antigos se juntaram esposas, filhos, amigos, não importando a classificação de idade.

Aos que imaginam que invento ou aumento os fatos acontecidos, de pronto vou avisando que deverei omitir acontecimentos tantos, tendo em vista o clima de euforia reinante, o que peço as devidas desculpas. Mas garanto que desde os dias 28 e 29 de outubro de 2011 (sexta-feira e sábado), por conta da comemoração dos 30 anos, o Alto Beco do Fuxico não sediou uma festa de tamanha responsabilidade e animação.

Para os que não conhecem os frequentadores do Beco do Fuxico nas suas três identificações geográficas – Baixo Beco, Médio Beco e Alto Beco –, em poucas palavras narrarei sua importância no contexto etílico, festivo e de camaradagem. E começo perguntando que bar forma uma numerosa família, reunindo amigos que moram em cidades diferentes, mesmo não mais existindo fisicamente?

E para arrematar, que família etílica seria capaz de tirar – na pandemia – do recôndito do seu lar Alencar Pereira da Silveira, o festejado Caboclo Alencar, há 59 anos o todo-poderoso comandante do ABC da Noite – no Baixo Beco – para comemorar as quatro décadas do Bar de Ithiel? Do alto dos seus 90 anos, Caboclo Alencar e sua esposa Neusa compareceram e ganharam lugar de destaque, para delírio dos seus fidelíssimos clientes.

Festa reuniu dezenas de pessoas no Beco do Fuxico

Como era para ser uma grande comemoração, os organizadores José Senna e Paulo Fernando (Polenga) contrataram Dejaci (cordas da Banda Lordão), músico de vasto e variado repertório, que contou com as participações de Hermano, Paulo Maia, Carlos Caroba, Alex, dentre outros. Também foi lançada um CD com a música Beco do Fuxico, de autoria de Paulo Fernando, Gil Bahia e Genobaldo Damasceno.

Emoção não faltou no encontro, e ficou por conta dos mais antigos as histórias e estórias do início da instalação do bar. Lembro-me como se fosse hoje, quando estávamos no bar de Dortas, no Médio Beco, e passou Cambão (Emanuel Aquino) avisando que o jornalista Manuel Leal teria presenteado Ithiel com uma geladeira e que ele levaria a mudança para inaugurar o bar. Foi só esperar a mudança descer do carro para subirmos a ladeira.

Reduto de boêmios inveterados, o Bar do Ithiel era o protótipo do clube do Bolinha, dada a obrigatória frequência masculina. Honestamente, como gostava de dizer Raleu Baracat, nunca foi proibida a presença de mulheres no ambiente, embora nenhuma delas se aventurasse a adentrar o recinto, no melhor linguajar radiofônico. Nenhuma, não, que o diga Vera Oliveira da Cruz, esposa de Paulo Fernando Nunes da Cruz (Polenga), a primeira a quebrar esse tabu.

Amiga de infância de Iram Marques, o grande cupido do amor entre Vera e Polenga, e o casório foi decidido após as noitadas de cerveja e bate-papo. Depois da queda do último bastião machista, o Alto Beco do Fuxico passou a ser frequentado pelas esposas, noivas e namoradas, provocando uma mudança substancial no linguajar, às vezes com a mudança do vocabulário de última hora. Afinal, a presença de senhoras no recinto merecia recato.

Outro frequentador assíduo e da primeira hora, o advogado Pedro Carlos Nunes de Almeida (Pepê), também teve seus momentos em casa por conta da fundação do bar: 28 de outubro, data do seu casamento. Nessas datas, ele somente chegava em casa para comemorar seu casamento por volta da meia-noite, horário em que os convidados tinham se retirado e a esposa estava prestes a dormir.

Para que o casal não passasse pelos dissabores de uma ruptura na vida de casado, o único recurso foi conjugar os interesses comemorativos e ambos passaram a festejar a data da união matrimonial no Alto Beco do Fuxico. Atual Arquiduque do Alto Beco do Fuxico, Pedro Carlos (Pepê) e sua Ana Carolina, mais uma vez passaram os 49 anos de casados – juntinhos – na badalada festa dos 40 anos do Bar de Ithiel.

É certo que faltaram alguns dos chamados clientes raiz, alguns deles ainda receosos de aglomerações, apesar de vacinados com a terceira dose, mesmo assim, nomearam filhos como representantes. E nesse encontro, realizado no Bar Artigos para Beber, de José Eduardo, e a ex-Confraria do Alto Beco do Fuxico, a nata da boemia itabunense se esbaldou por justo motivo.

Uma das recomendações da organização é que ficou terminantemente proibido que fosse realizado um recenseamento dos eternos clientes, para que o clima continuasse festivo per omnia saecula. E para passar a régua, os confrades recorreram a José Gomes (Castelo), que pedisse a saideira nos antigos moldes:

– Ithiel, me dê uma dose Natu Nobilis e a conta. Se eu pedir outra por favor não me sirva!

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

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Eu sou uma jovem como qualquer outra, reconheço as funções, brinco com os pesos, requebro com os problemas, mas principalmente não canso de abrigar esperança em todas as manhãs frias que as responsabilidades invadem o meu sono e me fazem acordar.

 

Juliana Soledade

Cumpro a sina de toda mulher, levantando bandeiras e edificando reinos. Não aceito as evasões que me moldam, não abrigo revoluções desnecessárias e vivo ignorando as verdades absolutas. Lido continuamente entre uma corda fina diante um penhasco pela dor, medo, alterações hormonais e a maquiagem escondendo as olheiras e o cansaço. Equilibro a fadiga entre algumas horas de sono e o trabalho em diferentes esferas ao longo do dia.

Brigo com o sapato que me machuca depois de seis, sete, dez horas de trabalho sem conseguir deixar os pés respirarem. Sou obrigada a puxar a saia rumo ao joelho quando alguma situação me deixa embaraçada. E quando envergonhadamente respondo que o pai não se importa com a filha ou não paga a pensão ainda escuto: “deveria ter escolhido um pai melhor”.

Enxergar os seios voluptuosos frente ao espelho, o corpo desenhado em um vestido e os lábios adornados de vermelho é contratar involuntariamente mudanças, inseguranças, adequações e cobranças pessoais, sobretudo sociais, que, em grande parte, não têm o menor cabimento.

Acordar todos os dias e se deparar com um mundo tão desproporcional é crer que o abrir de olhos tem uma necessidade absurda de vestir escondido a melhor armadura para sair vencedora ao repousar tarde da noite.

Em um mundo tão louco que a mulher deve cuidar da casa quando casada e dos filhos dado o divórcio, entretanto, a outra parte se aniquila da responsabilidade perante pai. E um acúmulo de funções fatigadas, porque, claro, a mulher deve se tornar invisível para prover, cuidar, manter, educar integralmente sem incomodar, exigir ou requerer aquilo que é de direito. Bem como, é sempre considerado um absurdo ao tentar se refazer na vida afetiva, equiparando muitas vezes a um crime sem possibilidades de recurso.

Digo isso depois de reiteradas vezes poder ver e sentir o quão complexo é lançar numa sociedade em que muitos papéis já estão definidos culturalmente entre as nuances do dia-a-dia e a necessidade de se impor de modo incansável para que minha filha tenha um mundo mais leve.

Eu sou uma jovem como qualquer outra, reconheço as funções, brinco com os pesos, requebro com os problemas, mas principalmente não canso de abrigar esperança em todas as manhãs frias que as responsabilidades invadem o meu sono e me fazem acordar.

Junto a isso, ainda é de extrema importância, abrir espaços para acolhimento a outras mulheres que carregam estigmas duríssimos em sua linhagem, como uma amiga que, após sofrer violência doméstica e ser quase morta pelo companheiro, precisa sobreviver nas alcovas do mundo para que o bom moço de família e com bons antecedentes criminais não consuma o seu delito e viva a sua liberdade em paz.

Ser mulher, meus caros, pode parecer bom, mas não é. Ser mulher é uma das coisas mais difíceis que Deus pôde inventar.

Juliana Soledade é advogada, escritora, empresária e teóloga, pós-graduada em Direito Processual Civil e Direito do Trabalho, além de autora dos livros Despedidas de MimDiário das Mil Faces e 40 surtos na quarentena: para quem nunca viveu uma pandemia.

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A reabilitação segue me causando inúmeros sentimentos, mas o principal deles é de profunda gratidão pelo renascimento. Senti a sua presença o tempo todo, mesmo ainda tendo um longo caminho de tratamento pela frente! Obrigada por tudo! Obrigada por TANTO! 

 

Manu Berbert

A vida por trás dos sorrisos nas redes sociais, especialmente quando trabalhamos nelas e com elas, tem perrengues que quase ninguém vê. Há exatamente um mês um acidente doméstico virou a minha vida pelo avesso, por exemplo. Uma queda, sensação de deslocamento do ombro, o braço e mão soltos, raio-x e o tão temido diagnóstico: fratura! Não muito pequena! A dias da inauguração da minha casa de eventos, o Casarão Cola Na Manu!

Um profissional sugeriu que não operasse no desespero, lembrando que estava em jogo a minha mão direita, força e principalmente escrita. “Como assim?! Eu sou escritora!”, foi a única coisa que passava na minha mente. Quando essa euforia de eventos passar, me vejo escrevendo mais livros, sonho escrever algo que vire filme ou novela, e só chorei pensando nisso. “Está sentindo muita dor?”, perguntavam. Mas o choro era da dor na alma, pensando no futuro. A dor física se fez minha amiga, quando entendi que dependia da minha mente ser forte ou não!

Passei por um turbilhão e hoje nem sei como. Sei que Simon Cavalcante, fisioterapeuta, foi uma luz com todas as suas orientações. Lembro da sensação de desmaio após o diagnóstico no hospital. Lembro da minha família ao meu redor dizendo que eu precisava reagir, e foi quando liguei para Dr. Eric Júnior e escutei “Deixe que eu resolvo tudo da cirurgia e do Plansul”, meu plano de saúde, e assim aconteceu! E eu só pedia a Deus que o médico sugerido por todos, mas que eu não conhecia até então, me desse a segurança que precisava para ficar bem, porque estudei comportamento humano e reconheço gente insegura a quilômetros de distância. (Tá aí um arrependimento na vida, inclusive!) Mas Dr. Alexandre Bulhões, especialista na área, me passou total segurança, a que eu precisava. “Isso é com ele!”, pensava. E segui! Sofri o que jamais conseguirei descrever, mas inaugurei o Casarão, com apoio de Marama, e três dias depois me internei.

Oi, Deus, sou eu de novo! Chegando na vida agora, mais uma vez. Não lembro de muita coisa, apenas que foram 30 dias dormindo sentada e acordando com câimbras; que fui muitíssimo bem tratada no hospital e que todos falavam do show de Harmonia; que não consegui deitar na maca do centro cirúrgico, tamanha dor; que fiz um pequeno escândalo lá dentro pedindo que chamassem logo o meu médico e todos riam afirmando que todos eles eram médicos também, até ele entrar e aí apaguei; Mas lembro da selfie na manhã seguinte, que tirei após banho e batom, o que me rendeu muitas risadas com amigos e familiares no WhatsApp. “A mulher acabou de sair de uma cirurgia e tá toda maquiada!”. São coisas assim que distraem a mente e não nos permitem surtar com tudo o que está passando! Hoje, usando as duas mãos, escrevo este primeiro artigo emocionada. A reabilitação segue me causando inúmeros sentimentos, mas o principal deles é de profunda gratidão pelo renascimento. Senti a sua presença o tempo todo, mesmo ainda tendo um longo caminho de tratamento pela frente! Obrigada por tudo! Obrigada por TANTO!

Manu Berbert é publicitária e empresária!

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Nessa hora, a mulher tentou segurar o riso cheio de malícia e contestou o amado, porém visivelmente com outros pensamentos, afirmando: “furar você fura sim, todo dia!”.

 

Ricardo Ribeiro 

Plantão dá é coisa!

Dia desses, caminhávamos já pelas 3 horas da madrugada, dia sossegado, eu quase achando que não apareceria mais nada… Eis que, não mais que de repente, chega a PM com um casal, situação de possível violência doméstica, vítima sem lesão e aparentemente não muito satisfeita com a condução para a Delegacia.

Nem bem começo a perguntar o que tinha acontecido, quando a mulher, quase aos prantos, apela: “Doutor, não prenda meu marido não, ele é minha valença, faz tudo pra mim em casa, é ele que lava roupa, faz a comida…”, advogava a suposta vítima, esclarecendo ainda que sofria de hérnia de disco e dependia daquele sujeito pra quase tudo. Segundo ela, a confusão não passara de uma briga besta de casal, que ela não sabia como tinha começado, e que possivelmente vizinhos mal-intencionados teriam acionado a polícia só para promover a infelicidade alheia.

Estupefato, pero no mucho, olhei pra mulher, pros PMs e por fim para o cidadão que era a “valença” daquela cidadã desesperada. O sujeito, com lágrimas nos olhos (certamente emocionado com a defesa veemente de sua amada), declarou amar sua mulher, disse que jamais a agredira ou maltratara, que não sabia porque estava ali etc. No meio da argumentação, o ora conduzido afirma: “doutor, eu juro que nunca furei ela!”.

Nessa hora, a mulher tentou segurar o riso cheio de malícia e contestou o amado, porém visivelmente com outros pensamentos, afirmando: “furar você fura sim, todo dia!”.

Com essa frase, sem viés acusatório, mas sim proferida como demonstração de que aquele casamento ia muito bem obrigado, o jeito foi liberar os pombinhos para que seguissem rumo ao seu ninho.

E o plantão terminou em paz! E amor…

Ricardo Ribeiro é delegado da Polícia Civil-BA.

Vista parcial do centro de Itajuípe, no sul da Bahia || Foto Cláudio da Luz
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O mais ridículo de tudo isso é que não se atentou para trazer a matéria sobre o temporal que impediu o último dia de treinamento da delegação itajuipense

 

Walmir Rosário | wallaw2008@outlook.com

O município de Itajuípe sempre formou atletas nas mais diversas modalidades esportivas, tendo o futebol o seu carro-chefe, cuja expressão máxima era o famoso Bahia de Itajuípe,  clube que também promovia notáveis festas. Desde os anos 1950 muitos desses destacados atletas jogavam nas principais equipes de Itabuna, alguns titulares absolutos da badalada Seleção de Itabuna, bicho-papão do Campeonato Intermunicipal Baiano.

Àquela época, nas cidades do interior baiano, o futebol amador era um esquema semiprofissional, em que as equipes contratavam jogadores agraciando-os com o pagamento das luvas com geladeiras, bicicletas e até emprego em bancos ou outras empresas sólidas. Mensalmente eram recompensados com salários e nas vitórias com os famosos bichos além de presentes de torcedores fanáticos e pródigos.

Em Itajuípe não era diferente e a Prefeitura bancava grande parte das despesas com o futebol amador (?), incluindo, nessa conta, os gastos com a Seleção Amadora que disputava o Campeonato Intermunicipal, bem como todos os treinos e jogos preparatórios. Naqueles tempos nem tão distantes, o futebol era a alegria das multidões, mas sempre sobrava espaço para outras modalidades esportivas, essas, verdadeiramente amadoras.

No final da década de 1980 e início da de 1990 era eu o titular da Assessoria de Comunicação Social da Prefeitura de Itajuípe, na administração de Carlos Alberto Batista (o Mino). Desportista nato, Mino investia forte no esporte em geral, na chamada base: os alunos da rede municipal da educação, que participava com brilhantismo dos Jogos Abertos do Interior.

E o comandante dessa galera era o professor Wanderlito Barbosa (Litinho), funcionário público, serventuário da justiça e professor de educação física, que comandava essa legião de jovens atletas com seu grande coração e um misto de rigidez e seriedade. Para uma cidade do porte de Itajuípe, a delegação surpreendia pela quantidade de modalidades esportivas inscritas nas competições.

Neste ano (1989 ou 90, não me recordo bem), Itajuípe participaria do campeonato em 11 modalidades, muitas delas com amplas chances de vitória, o que aumentaria consideravelmente a sala de troféus. Às 8 da manhã o comandante Litinho passa na assessoria de comunicação, me passa os detalhes das equipes, a frequência de treinamentos, enfim, todos os ajustes das equipes.

Solicitei ao fotógrafo da assessoria que fizesse umas fotos dos treinos para enviar à imprensa junto com o release, o que por certo teríamos um bom aproveitamento na mídia regional e estadual, diante da importância das informações. Ainda durante o fim da manhã liguei para as redações de rádios, jornais e televisões, dando a dimensão da delegação de Itajuípe, que foi bem recebida pelos colegas dos veículos de comunicação.

Logo após ao meio-dia recebi uma ligação do chefe de redação de um dos canais de televisão de Itabuna, solicitando mais detalhes dos treinamentos e garantindo a presença de uma equipe logo nas primeiras horas da manhã seguinte. Conversei com comandante Litinho para deixar todas as equipes a postos, já que a matéria seria veiculada no jornal do meio-dia, com possibilidades de veiculação na rede estadual.

Nos sentimos recompensado pelo trabalho, afinal nem mesmo as delegações de Itabuna e Ilhéus ganharia destaque igual, apesar da superioridade social, econômica e populacional sobre a pequena Itajuípe. Agora, era deixar tudo organizado nos mínimos detalhes e faturar os louros com as matérias nos jornais, rádios e televisões, dando confiança aos atletas que enfrentariam as equipes adversárias.

No dia seguinte, como era esperado, os veículos de comunicação da capital, Ilhéus e Itabuna destacavam a força do esporte itajuipense, que por certo brilharia no cenário estadual baiano. Agora, faltava apenas a matéria televisiva para coroar com brilhantismo o trabalho da preparação das 11 equipes, que se apresentariam com segurança no maior certame colegial amador esportivo da Bahia.

Por volta das 9 horas recebo Litinho na assessoria comunicando uma péssima notícia: o canal de televisão resolveu não fazer a matéria programada, embora todos os atletas e treinadores estivessem presentes. E, quando perguntei pelo porquê da desistência, Litinho me reponde que o pessoal da reportagem achou por bem não fazer a matéria, tendo em vista que o temporal que caiu na madrugada teria destelhado o ginásio de esportes.

Mesmo sendo oferecido outros locais, a chefia da reportagem disse que não ficaria bem fazer uma matéria descaracterizada, já que o local oficial dos treinamentos estaria danificado pelas fortes chuvas. Perto do meio-dia recebo outra ligação do chefe de redação solicitando informações do que houvera, no que expliquei com todos os detalhes, lamentando a queda da reportagem.

Como resposta, ouvi do chefe de redação da emissora de televisão diversos impropérios sobre a chefia daquela equipe de reportagem, que considerava a pauta recebida como uma espécie de constituição, que não poderia ser maculada. E por fim, o meu amigo televisivo ainda disparou: “O mais ridículo de tudo isso é que não se atentou para trazer a matéria sobre o temporal que impediu o último dia de treinamento da delegação itajuipense”.

Recentemente, conversando com o cinegrafista daquela pauta, demos boas gargalhadas.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

Fernanda Montenegro e Maria Bethânia
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“Maria Bethânia e Fernanda Montenegro são das letras, exalam para a sociedade brasileira empoderamento e valorizam ainda mais os campos artísticos, entrelaçando-os”.

 

 

Efson Lima || efsonlima@gmail.com

A inscrição de Fernanda Montenegro para compor o quadro da Academia Brasileira de Letras tem gerado um debate interessante na sociedade brasileira. A pergunta “quem é das letras?” surge repentinamente. Não obstante, o tema adquiriu maior relevância em terras baianas com a escolha de Maria Bethânia, na segunda-feira última (11), para compor a Academia de Letras da Bahia, cuja instituição já ultrapassou o centenário.

Na semana passada, uma figura pública baiana, em diálogo comigo, informava que havia recusado o convite para pertencer a uma determinada Academia de Letras, na Bahia. A pessoa não se sentia à vontade, pois, mesmo com publicações em periódicos, não se encaixava no conceito das artes e das letras. Refutei, pois o currículo da pessoa a credencia para as mais diferentes funções. Além de inteligente, uma figura humana dedicada ao que faz e exemplar gestora.

De fato, a polêmica surge se nos mantivermos presos ao conceito estrito de “letras”, mas não é o que preconizam os objetivos e as finalidades dessas casas literárias. O termo deve ser compreendido no sentido amplo. Turva-se também, pois muitos veem o termo “arte” como sendo inerente apenas às atividades artísticas. Em uma sociedade em que se debate os conceitos de “criatividade” e “inovação” tardiamente, a confusão se justifica, mas não permite a nossa caminhada enquanto estratégia de desenvolvimento.

Surgem também outras polêmicas necessárias no caso da eleição de Fernanda Montenegro para a Academia Brasileira de Letras, pois a consideram uma mulher branca e de classe média alta. Recuperam rapidamente a figura de Conceição Evaristo, uma mulher destacada na literatura, mas, segundo alguns, foi defenestrada no processo eleitoral por razões raciais entre outras querelas. Considero uma injustiça à autora pois, esquecem de destacar o currículo do concorrente: Cacá Diegues. Não avançarei nessa polêmica, quase todas as críticas levantadas são válidas, mas não podemos analisar somente a fotografia do momento sem considerar a série histórica de fotografias e o processo histórico de quem é fotografado e de quem fotografa. De fato, o tecido social brasileiro ainda não está representado em diversos espaços.

Retomemos ao debate de quem são das letras. Como já esboçado, o termo “letras” deve ser compreendido de forma elástica. Não pode ser visto tão somente por quem escreve, pelo contrário, precisa ir em direção à oralidade. Não somente por aquele que faz e/ou estuda literatura, mas também por aquele que está a esboçar as diversas literaturas e diversos fazeres.

A práxis é uma arte constante. Bob Dylan ao ganhar o Prêmio Nobel, em 2017, provocou reflexões no planeta. As letras de suas canções justificavam a premiação na área da literatura segundo os julgadores. À guisa de curiosidade, o primeiro Curso de Letras no Brasil foi ofertado a partir de 1933, na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Sedes Sapientiae, que, posteriormente, em 1946, foi transformada na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Portanto, a institucionalização do termo enquanto formação ocorre bem depois da fundação da Casa de Machado de Assis em 1897.

A Academia de Letras da Bahia assegura no seu artigo primeiro que “tem por objetivos o cultivo da língua e da literatura nacionais, a preservação da memória cultural baiana e o amparo e estímulo às manifestações da mesma natureza, inclusive nas áreas das ciências e das artes”. A Academia Brasileira de Letras estabelece que tem por finalidade promover “a cultura da língua e da literatura nacional” Portanto, essas instituições preconizam os saberes culturais, os valores humanísticos e a ciência encartada nas diversas áreas dos saberes.

Não me resta dúvida de que Maria Bethânia e Fernanda Montenegro são das letras, exalam para a sociedade brasileira empoderamento e valorizam ainda mais os campos artísticos, entrelaçando-os. As suas presenças físicas nessas instituições demonstram um louvor à interdisciplinaridade, cuja prática parece ser tão cara ao cotidiano brasileiro. Elas são guaxe de uma nova esperança. São poíesis para nosso tempo a despertar boa imaginação e bons sentimentos, sem prejuízo da práxis.

Efson Lima é advogado, professor, escritor e doutor em Direito pela UFBA.

TYrone Perrucho e Walmir Rosário na travessia para a Ilha Náutica, em Canavieiras || Foto Arquivo
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Anotações feitas, nos dirigimos à cabana sede do evento e nos apresentamos com a desculpa que ficamos retidos pela maré alta, portanto, impedidos de avisar o transtorno (ainda não existia a telefonia celular nessas terras), e ficou tudo na mais absoluta tranquilidade.

 

Walmir Rosário

Convidado pela organização do evento Garota Verão Coca-Cola – realizado por anos a fio em Canavieiras, lá pelo início do fim da década de 1980 e o início da década de 1990 – fui fazer a cobertura jornalística do evento para o Correio da Bahia. Cheguei às vésperas – sábado – para rever os tantos amigos residentes na cidade e colegas da imprensa, dar uma geral nos points etílicos e gastronômicos, rever Canes, como era chamada à época.

Já era esperada a notável noitada no sítio histórico – como sempre, das melhores –, considerada uma prévia do que nos esperava no dia seguinte na praia da Costa, na Ilha da Atalaia, onde era realizada a festança. Apesar da viagem a trabalho, sempre que ia a Canavieiras para mais de um dia, fazia questão de levar minha mulher, pois nos reuníamos com amigos mais chegados, a exemplo do jornalista Tyrone Perrucho.

No domingo – logo cedo –, ao chegarmos à sala do café da manhã, encontramos com os organizadores do evento, colegas da imprensa, amigos em geral, entre eles, o colega Tyrone Perrucho, que já nos aguardava para mais um bordejo na cidade. Enquanto partimos para desjejum, fui alertado pelos jornalistas Vili Modesto (de A Tarde) e Dikas Cezimbra (organização) que eu estava escalado para fazer parte do privilegiado júri.

Refeito da surpresa, tentei me desincumbir da nova missão confiada, que por certo não se coadunava com o mister da reportagem, já que estaria tolhido de ouvir pessoas, pois estaria preocupado em analisar os atributos das candidatas que esperavam ser a nova Garota Verão Coca-Cola. Meus pedidos de desculpas não foram aceitos e eu teria que substituir o jurado faltoso.

Confesso que não era (e ainda não é) a “minha praia”, mas diante dos apelos recebidos, inclusive do então prefeito Almir Melo, aceitei ir para o sacrifício, afinal, Canavieiras – ou Canes – era digna de merecimento. Barriga cheia, saí com o colega Tyrone Perrucho para visitar alguns bares que se encontravam fora do roteiro turístico/etílico/gastronômico, mas nem por isso desmerecedores de nossa atenção.

No terceiro bar que chegamos fizemos – eu, minha mulher, Tyrone e sua “coligada” – uma reunião para avaliar as consequências caso não comparecesse para compor e prestigiar o honroso corpo de jurados. A decisão tomada – por unanimidade – era a de sumir do palanque, pois não haveria grande prejuízo para o evento, já que seria substituído por alguém mais capacitado, um dos muitos experts presentes.

Dito isso, rumamos para um dos points da época em Canavieiras, o Ilha Náutica, famoso pelo seu delicioso cardápio e sua variada carta de bebida. O inusitado para os frequentadores do Ilha Náutica era a atenção e o respeito à tábua de marés, que não tolerava os variados, sequentes e intermináveis pedidos de saideiras, enchendo ou vazando por uma vasta área, impedindo a entrada ou saída.

Volta e meia o assunto “jurado da Garota Verão Coca-Cola” era suscitado nas nossas conversas, simplesmente por curiosidade de saber como tinham se ajeitado os organizadores diante na minha insubstituível ausência. Até conjecturávamos o desconforto dos colegas Vili Modesto e Dikas Cezimbra a – insistentemente – reclamar a minha presença pelo alto-falante.

– Garçom, traga mais uma cerveja, dois quibes e três caranguejos – solicita Tyrone Perrucho.

Um pouco mais tarde começamos um bate-papo com o diretor-presidente do bar e restaurante Ilha Náutica, o prestigiado Arenilson Mota Nery (Arenouca), que veio à nossa mesa apresentar as novidades no cardápio do restaurante, ampliado recentemente. Conversa vai, conversa vem, Tyrone Perrucho – sabedor dos acontecimentos locais – explica que eu seria um dos jurados do Garota Verão Coca-Cola, e que precisaria sair, pois em pouco tempo começaria o julgamento.

A revelação caiu como uma bomba e Arenouca, de início, meio sem jeito, nos avisou que uma parente sua era uma das garotas concorrentes e começou a cabalar o voto para a familiar candidata. Pagamos a conta, deixamos o restaurante cercado de água da maré cheia e rumamos para o sítio do evento, completamente lotado, onde já se desenrola a escolha da melhor candidata ao majestoso título.

Paramos e assistimos o concurso de um local relativamente longe até a escolha da candidata vencedora, a Garota Verão Coca-Cola. Anotações feitas, nos dirigimos à cabana sede do evento e nos apresentamos com a desculpa que ficamos retidos pela maré alta, portanto, impedidos de avisar o transtorno (ainda não existia a telefonia celular nessas terras), e ficou tudo na mais absoluta tranquilidade.

Aproveitei o meu retorno para conversar com os organizadores e fechar as informações para a minha matéria, a ser escrita e enviada pelo fax e as fotos despachadas pelo avião da Vasp. Sentados, mais calmamente, demos boas risadas sobre os acontecimentos do dia, quando, aparentando preocupação, Tyrone Perrucho, de olho na planilha de resultado do concurso, me informa: “A filha do nosso amigo Arenouca, da Ilha Náutica, perdeu por apenas um voto, justamente o seu, que faltou ao júri”, disse em tom de gozação.

Não sei explicar o motivo, mas essa foi a última versão da Garota Coca-Cola em Canavieiras, ou como dizia o slogan criado por Almir Melo: Canavieiras para todos, Canes para os íntimos!

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

A Lagoa Dourada, em Betânia, distrito de Santa Luzia || Foto Walmir Rosário
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Bendengó – bem pertinho da Lagoa Dourada – é hoje um nome esquecido e somente alguns mais velhos ainda são capazes de lembrar os tempos fartos da lavra de diamantes.

 

Walmir Rosário

Uma maravilha da natureza! Assim pode ser chamada sem qualquer puxa-saquismo a pequena Lagoa Dourada, encravada no município de Santa Luzia, mais precisamente na fazenda Lagoa Dourada, distrito de Betânia. Esses apenas 170 metros de cumprimento por 50 metros de largura são capazes de encantar os olhos de qualquer vivente pelas suas águas claras, levemente azuladas nos locais mais fundos e fervedouros.

Acreditem – não é lenda –, a Lagoa Dourada tem história capaz de encantar muita gente que a visita, desde aqueles que aparecem apenas para contemplar suas águas, ou aqueles que a viam como um objeto de cobiça. Isso mesmo, nativos e estrangeiros passaram muitos anos tentando retirar os milionários diamantes que garantiam – e ainda garantem – estarem guardados entre as pedras e areias do seu leito.

Toda a beleza e riqueza da Lagoa Dourada não foram suficientes para merecer a atenção das autoridades local, estadual e nacional, para um estudo completo, transformando-a num point turístico ou econômico. E olha que ela está localizada bem pertinho da BA-270, que liga a BR-101 a Canavieiras, portanto, de fácil acesso, para “matar” a curiosidade e satisfazer o interesse das pessoas.

Os mais velhos dizem que a Lagoa Dourada já aprontou algumas peripécias com os gringos que por lá apareciam para explorá-la, mandando-os de volta para suas terras de origem com as mãos abanando. Alemães, norte-americanos, franceses e italianos passaram anos realizando estudos de como retirar os diamantes escondidos em suas entranhas e jamais conseguiram lograr êxito.

Os números da Lagoa Dourada são modestos, com um espelho d’água de 170 x 50 metros, fundura que pode ser medida com uma simples régua de 50 centímetros nas beiradas ou de mais de 10 a 15 metros nos chamados fervedores. Esses fervedouros nada mais são do que as frestas ou furos que abastecem a área da lagoa, que têm a aparência semelhante à da água fervendo ou a simples água mineral com gás.

A pressão se origina de um rio subterrâneo, que, como não consegue aflorar – romper o solo arenoso – apenas espirra a água por essas fendas. Os curiosos, inclusive, mergulham e colocam as mãos nos fervedouros para sentir a pressão da água. Outra curiosidade são os olhos esbugalhados dos pequenos peixes, cuja deformidade é atribuída a uma ilusão ótica, o que pode ser comprovado por diminuir o tamanho dos objetos mergulhados no espelho d’água.

Voltando aos exploradores de diamantes, lembro do grande maquinário que enferrujou na beira da lagoa, abandonado que foi pelos italianos, esperançosos em realizar a proeza de esvaziar toda a água da Lagoa Dourada, para facilitar o trabalho de garimpagem. Passaram meses tentando esgotar a água e, quanto mais a retiravam, a lagoa enchia. Desesperados, voltaram mais pobres à Itália.

Lembro-me – como se fosse hoje – uma reportagem que fiz há quase 40 anos para a a comunicação da Ceplac, sobre a Lagoa Dourada, quando entrevistei moradores e garimpeiros, entre eles Altelino Oliveira de Amorim, já cansado pelo peso da idade. Ele veio das lavras de Andaraí e Lençóis – como outros – para “bamburrar” no sul da Bahia. Em Betânia, foi financiado pelo gringo León, na lavra de Bendengó.

Essa mina – bem como outras no ribeirão do Salobro – estava famosa por um diamante de quase um quilo encontrado pelos garimpeiros do gringo León, a 16 metros de profundidade. Para abrir essas minas, todo o maquinário foi trazido de navio até Canavieiras e daí transportado em grandes canoas até o extinto povoado de Jacarandá e levado por juntas de bois para bem próximo da Lagoa Dourada.

À época da reportagem, Altelino – já com locomoção comprometida – ainda sonhava com a possibilidade de bamburrar, e para isso esperava encontrar um sócio capitalista que financiasse o empreendimento. Apesar das precárias condições de saúde, Altelino se considerava um exímio garimpeiro, capaz de lavrar com bateia, rompe emburrado, catreamento e trava. “Sou garimpeiro até de baixo d´água”, bravateava.

Pelas informações que obtive recentemente, Altelino morreu sem conseguir concretizar o seu sonho, e as minas do Salobro e Bendengó não são mais as mesmas de antigamente, quando enriqueceram muitos desbravadores. Bendengó – bem pertinho da Lagoa Dourada – é hoje um nome esquecido e somente alguns mais velhos ainda são capazes de lembrar os tempos fartos da lavra de diamantes.

Melhor sorte teve a Lagoa Dourada, cercada de cacaueiros e árvores da Mata Atlântica, que recebe um ou outro visitante nos finais de semana. Descansam em suas margens, se banham nas suas águas, mergulham nos fervedouros, fazem churrasco, o comem com a farofa favorita, entre um gole e outro de cachaça e cerveja. Festa acabada, saem sem a menor cerimônia e deixam as garrafas, sacos e copos plásticos jogados às margens.

Cerca de 40 depois constatei que a Lagoa Dourada ainda resiste bravamente.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

O presidente Jair Bolsonaro e ACM Neto, presidente do DEM
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O União Brasil nasce com passado, presente, nome e número bolsonaristas. Só falta aquele abraço envergonhado no maior líder da extrema-direita brasileira.

Thiago Dias

O nome do partido que nascerá da fusão do DEM com o PSL, União Brasil, lembra muito “Aliança pelo Brasil”, sigla que o presidente Jair Bolsonaro concebeu e abortou. As palavras união e aliança, na verdade, são sinônimos.

Essa não é a única coincidência. O partido do presidente ostentaria o número 38, referência ao calibre do revólver mais popular do imaginário brasileiro. O União pelo Brasil virá de 44, tipo a Magno .44, arma de grosso calibre com as formas do velho três oitão.

Bolsonaro saiu do PSL, mas deixou amigos para trás. Continua sem partido e, para disputar a reeleição, tem que se filiar a um. Não seria surpresa se tentarem repetir a dose, dessa vez, com reforços democratas.

Aliás, muitas lideranças do DEM governam junto com Bolsonaro ou sustentam o governo no Congresso, ainda que o presidente nacional do partido, ACM Neto, tente tapar o sol dessa constatação com uma peneira.

Portanto, o União Brasil nasce com passado, presente, nome e número bolsonaristas. Só falta aquele abraço envergonhado no maior líder da extrema-direita brasileira.

Thiago Dias é repórter e comentarista do PIMENTA.

Walmir Rosário faz entrevista para o programa De Fazenda em Fazenda, da Ceplac || Foto Águido Ferreira
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No dia seguinte, assim que cheguei em casa liguei para ele, que contou o imbróglio à coligada, sem convencimento.

 

Walmir Rosário

A vida de repórter nos leva a cada lugar nunca antes por nós imaginado, o que eu acho muito bom, pois passamos a ter contato com outros povos, outras culturas, enriquecendo nossa enciclopédia interior. Considero gratificante esse vai e vem, mesmo que dificulte a nossa estada em casa, hoje com a comunicação mais facilitada por vários aplicativos no celular do que nas duas décadas do século passado.

Enfim, foi essa a profissão que escolhemos e devemos exercê-la com toda a alegria e responsabilidade, pois é ela que nos dá, não só a nossa subsistência, mas nos proporciona o sentimento do dever cumprido. Claro que nem tudo são flores, e as dificuldades inerentes à profissão, compensam os dissabores do dia a dia, e muitas vezes as situações difíceis são encaradas como uma brincadeira a mais em nosso currículo.

Às vezes o “bicho pega” e foge do controle, sem mais nem menos, como já aconteceu.

Me encontrava na labuta na antiga Divisão de Comunicação (Dicom) da Ceplac (Ministério da Agricultura), na qual éramos profissionais do sete instrumentos e pouco ligávamos para as reclamações do sindicato para o exercício acumulativo de atividades. Trabalhávamos com vídeo; apresentação e reportagem de programa de rádio, portando aqueles imensos gravadores; escrevendo para os jornais externo, interno e revistas, além de releases.

Uma semana estávamos na Amazônia, na outra no Sul da Bahia, uma nova feita em Brasília, cobrindo os serviços de pesquisa, extensão, a economia e a política da cacauicultura. A depender da cobertura que fazíamos e das condições de comunicação por telefone, ainda dávamos flash para o programa radiofônico De Fazenda em Fazenda, levado ao ar em Itabuna para toda a região cacaueira. E essa era a nossa vida.

Uma certa feita fui incumbido de produzir algumas matérias de pesquisa sobre doenças que atacavam os coqueiros, em Una; sobre a cacauicultura às margens do rio Pardo, inclusive na Fazenda Cubículo, onde foram plantados primeiros cacaueiros na Bahia, em Canavieiras; e sobre as possibilidades do turismo rural na Lagoa Dourada e na gruta do Lapão, em Santa Luzia.

Matérias corriqueiras, coisas do nosso dia a dia no campo. Equipe pronta: o locutor que vos fala, o fotógrafo Águido Ferreira e o motorista “irmão” Edmundo partiram para a primeira missão em Una. Entrevista e fotos com o engenheiro florestal José Ignácio (um dos maiores especialistas do Brasil), rumamos para Canavieiras com a missão de dar sequência à pauta estabelecida.

Às 17 horas chegamos a Canavieiras e nos hospedamos no Mini Hotel e fomos à redação do jornal Tabu encontrar o editor Tyrone Perrucho, nosso ex-chefe e que se aposentara recentemente e iria nos contar sobre a merecida inatividade ceplaqueana. O encontramos às voltas do fechamento da edição quinzenal e o convencemos a adiar seu trabalho para o dia seguinte, em troca de umas rodadas de cervejas e bate-papo.

Enquanto o colega Edmundo foi à igreja congregar com os irmãos, eu e Águido seguimos com o colega recém-aposentado para o bar mais próximo no o intuito de colocar a conversa em dia. Papo vai, papo vem até que chega um filho de Tyrone para pegar emprestado o velho, porém brioso Gurgel. Daí, trocamos de bar umas três vezes, quando começa a cair uma pesada chuva e forte ventania.

E nada do Gurgel chegar. Às 11h50min chegou o sono, deixei os dois colegas no bar e rumei para hotel. Por volta as 5 da matina acordei agoniado para ir ao banheiro (culpa das cervejas) e me deparei com mais três companheiros de quarto. Mesmo na penumbra, voltei a contar os corpos estendidos nas camas: um, dois, três… E eu não acreditava. Não fui dormir embriagado, pensava e fazia uma nova contagem…o mesmo resultado.

Com discrição, abri a porta do banheiro, fui chegando perto da cama, apurei as vistas e consegui localizar o “corpo estranho” ao recinto do nosso quarto. Para minha surpresa, o quarto corpo na horizontal abriu os olhos e deu uma risada bem marota, como que pedisse calma que explicaria a sua presença naquela cama, naquele quarto de hotel. Era justamente Tyrone Perrucho. E aí surgiu uma grande dúvida: Por que ele não teria ido dormir em casa?

Com o raiar do dia, todos acordados, nos reunimos à mesa para o café da manhã, juntando a fome com a dúvida atroz: o porquê da hospedagem de Tyrone no hotel, em vez de dormir no recôndito do seu lar. Com muita tranquilidade ele passou a explicar que as nossas mudanças de bares teria sido o móvel do problema, pois ao vir entregar o Gurgel, seu filho não teria nos encontrado.

– E por que vosmicê não telefonou para sua casa informando seu paradeiro? – perguntei.

E ele explicou: com chuva e a ventania da meia-noite partiu o cabo da Telebahia que liga a ilha da Atalaia (onde ele morava) ao sistema telefônico do centro. Gozações à parte, prometemos levá-lo em casa antes de retomarmos ao trabalho. E assim fizemos, deixando-o na porta de sua casa, quando ele tentou tomar minha mochila, para que eu desse as explicações à “coligada”, como ele tratava sua esposa. Conseguiu tomar minha sacola e zarpamos.

No dia seguinte, assim que cheguei em casa liguei para ele, que contou o imbróglio à coligada, sem convencimento. Contei o caso à minha mulher e assumimos o sagrado dever de fazer um passeio a Canavieiras no próximo final de semana para explicarmos o ocorrido, com vistas a dissipar todas as dúvidas por ventura ainda existentes, e preservar a união daquela família.

E deu certo, após um sábado e um domingo de homéricas farras e explicações, finalmente prevaleceu a paz no lar dos Perrucho.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

Colégio Batista divulga relação dos contemplados no programa de bolsas de estudo
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Uma das mais tradicionais instituições de ensino do sul da Bahia, o Colégio Batista de Itabuna completa 28 anos nesta nesta segunda-feira. Fundado em 27 de setembro de 1993 pelo pastor Hélio Lourenço, o Colégio Batista funciona em amplas instalações no bairro da Conceição, em Itabuna.

A instituição oferece do ensino fundamental ao ensino médio. Nesses 28 anos de existência, já encaminhou estudantes às mais conceituadas universidades do país e do exterior. Muitos deles, hoje, são profissionais renomados em suas áreas de atuação.

Colégio itabunense completa 28 anos de fundação nesta segunda

“A instituição tem como missão proporcionar uma educação de qualidade e, ao mesmo tempo, despertar nos nossos estudantes uma cosmovisão cristã que torne Deus presente na forma como eles compreendem o mundo”, diz a diretora do Colégio Batista, professora Graça Silva Guimarães Souza.

De acordo com o vice-diretor da instituição, Tiago Nascimento Souza, que também é professor da escola “a identidade confessional significa que todo o exercício de busca pelo conhecimento e a observação do universo são também formas de louvor ao Criador”.

“Somos gratos a Deus, que proporciona a existência de nossa escola e que nos dá o privilégio de cumprir a missão do servir através dessa instituição. Nossa gratidão também às famílias e aos nossos estudantes por tê-los conosco numa belíssima e exitosa parceria”.

Turma do Colégio Batista em atividade

A escola tem como princípio basilar a educação cristã. “Louvamos a Deus por toda a equipe de professores e colaboradores que com muito afinco e criatividade fazem de nossa escola um espaço de excelência”, diz o professor Aurélio Macedo, presidente do Conselho da escola. “Nosso muito obrigado a todos os estudantes e profissionais que ao longo desses 28 anos estiveram conosco e participaram da história do Colégio”, ressalta.

A diretora do Colégio Batista diz que, completando 28 anos, a instituição olha com muita confiança e otimismo para o futuro. “Que venham muitos anos sob a direção de Deus e que possamos contribuir com a educação de nossa cidade”, finaliza.

FUNÇÃO SOCIAL

Cumprindo seu papel social, anualmente a escola tem oferecido bolsas de estudo para estudantes carentes através de edital amplamente divulgado na imprensa. São bolsas parciais e integrais que garantem educação de qualidade a centenas de estudantes ao longo de quase três décadas de ensino.

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Um dia, de tanto cair na área, o juiz da vida marca um pênalti, você faz o gol e vira o jogo. E aí você entende que foi a sua queda prévia que te conduziu à vitória. Acredite.

 

Juliana Soledade

Por Deus, eu sempre ouvi isso desde que me entendo por gente. E, cá entre nós, acredito piamente que somos fundamentalmente imediatistas. Somos aliados às urgências, como se a vida fosse um disponível fast food 24 horas. Não fomos educados a saber aguardar e quando atingimos a fase adulta precisamos lidar com a ansiedade e a dura angústia de viver sem saber do futuro. Aguardar significa lidar com a dúvida constante sobre se os planos darão certos e se estamos ou não no caminho desejado.

No entanto, tudo nos carece de esperas. Um resultado de exame, a consulta no médico, o décimo terceiro salário, a posse no cargo público, a fila no hospital, o nascimento de um filho… Me conta, o que não precisa esperar?

Meu ritmo é frenético, calculado semanalmente para todas as necessidades serem atendidas. Fui criada a não deixar ninguém aguardando, que horários são sempre para serem cumpridos e, em contrapartida, eu também não aprendi a esperar. É uma corrida contra o tempo, o tempo inteiro e nem sempre ele está ao nosso favor. Uma corrida quase sempre de aprendizados, saber aguardar é o maior deles.

Enfrentamos dificuldades diariamente, desesperamos quando algo não acontece como se desejava. Engolimos medos e angústias sem externar para não sermos taxados de problemáticos. Contudo, quando contamos um sonho a alguém somos surpreendidos com um será que vai dá certo? E isso dá um nó na garganta, porque o sonho poderia estar sendo realizado hoje, agora.

Por que tanto conto de fadas para falar sobre a vida? A minha sorte começa cedinho, às vezes o dia nem acordou ainda, sigo engolindo sapos, aguento a porrada dos desacertos, caio, levanto e quase nunca aceito perder. Aprendo a ser resiliente, aguento críticas e sempre durmo tarde. A sorte acorda novamente no outro dia e continua tentando tudo dar certo. Uma sorte realista feita de muito suor e dor. Tentando todos os dias não ser tão imediatista.

A vida é cheia de surpresas, muitas não dependem das nossas ações. O máximo de controle que temos é sobre o hoje, o que posso ou não fazer agora, a pretensão por escolhas mais adequadas ou assertivas é o que podemos fazer. O amanhã é incerto e se nada der certo, tente. Tente mais uma vez, só por pirraça, por vaidade, por desencargo de consciência, por teimosia. Tente assim como eu não sofrer de angústia e ansiedade.

Um dia, de tanto cair na área, o juiz da vida marca um pênalti, você faz o gol e vira o jogo. E aí você entende que foi a sua queda prévia que te conduziu à vitória. Acredite. As palavras tem um poder imenso. Sempre tiveram. Sempre terão!

Juliana Soledade é advogada, escritora, empresária e teóloga, pós-graduada em Direito Processual Civil e Direito do Trabalho, além de autora dos livros Despedidas de Mim, Diário das Mil Faces e 40 surtos na quarentena: para quem nunca viveu uma pandemia.

Município está na 2ª semana sem coleta regular de lixo
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No meio dessa sujeira toda, a Prefeitura de Ilhéus bem que poderia aproveitar a oportunidade de investir num programa robusto de coleta de material reciclável, acompanhado por campanha educativa de incentivo à separação dos resíduos domésticos.

Thiago Dias

Um velho chavão diz que uma crise também pode ser transformada em oportunidade. O clichê vale para o colapso da coleta de lixo de Ilhéus, provocado pela dificuldade da Prefeitura de gerir o serviço público com eficiência.

Os montes de lixo se formam e crescem nas ruas, enquanto o governo municipal patina na substituição da empresa terceirizada. Esse cenário medonho e fedorento é registrado em fotografias e vídeos para a posteridade e as eleições vindouras.

No meio dessa sujeira toda, a Prefeitura de Ilhéus bem que poderia aproveitar a oportunidade de investir num programa robusto de coleta de material reciclável, acompanhado por campanha educativa de incentivo à separação dos resíduos domésticos.

Negócio limpo, rentável e sustentável, um programa de coleta amplo e eficiente ainda daria visibilidade positiva a Ilhéus.

A empreitada, naturalmente, deve incluir a Coolimpa (Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis de Ilhéus).

Tudo isso no bojo da elaboração do Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos, superando o modelo atual de descarte de resíduos, que só alimenta contratos públicos caros e condena o território de Itariri ao desastre ambiental do lixão.

Thiago Dias é repórter e comentarista do PIMENTA.