Julio Gomes escreve sobre o genocídio em curso na Palestina || Foto Fepal/Facebook
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Em razão do genocídio praticado pelo exército e pelos líderes de Israel, todo o carinho, a visão afetiva, o respeito que um dia tive por este país e, especialmente, pelos Judeus ao longo de sua milenar história, simplesmente desapareceu. Foi sepultado em vala comum de corpos anônimos junto com as mulheres e crianças que eles mataram e continuam matando sistematicamente.

 

Julio Gomes

Sempre, desde criança, aprendi a ter um carinho especial pelo povo Judeu, com um olhar de admiração e desejo sincero de que prosperassem e encontrassem a paz e a felicidade, e isso tem uma explicação simples e lógica.

Quem estudou um pouquinho que seja de História sabe o que os judeus ou israelitas passaram, sobretudo no Século XX, quando da ascensão do nazismo ao poder na Alemanha: perseguições, segregação racial, confisco e invasão de suas propriedades, demonização, segregação com base em leis absurdas e, por fim, confinamento nos campos de concentração, trabalhos forçados e extermínio em massa nas câmaras de gás de Treblinka, Auschwitz, Dachau e inúmeras outras fábricas da morte, onde foram consumidas as vidas de seis milhões de judeu, homens mulheres e crianças.

Terminada a 2ª Guerra Mundial com a derrota do nazismo e do fascismo, a ONU, guiada pelos países vencedores, teve a feliz ideia de criar um território onde a nação, o povo judeu, pudesse constituir um estado próprio, formando aquilo que aqui no Brasil chamamos popularmente de um país, e assim nasceu Israel no ano de 1948, plantado no território denominado Palestina.

Os anos passaram. O estado de Israel, sempre apoiado pelos Estados Unidos por representar uma presença dos EUA no conturbado e rico em petróleo Oriente Médio, se consolidou como um país próspero e como uma potência militar, passando a tomar sucessivamente faixas de território que pertenciam à nação palestina devido ao poderio de suas forças militares, terminando por anexar territórios até que não restasse aos palestinos muito mais do que uma estreita faixa em que sobreviviam cerca de dois milhões de palestinos: a Faixa de Gaza.

Talvez como reação às agressões de Israel, talvez insuflado por radicais fundamentalistas ou em razão das condições subumanas de boa parte da população palestina, em 1987, surgiu o Hamas, que se consolidou como força política e acabou cometendo os odiosos atos terroristas que assistimos no final do ano de 2023, matando centenas de israelenses, sobretudo civis.

Entretanto, a resposta que Israel deu e está dando aos palestinos é de uma desproporção e crueldade que supera qualquer argumento de justiça ou de autodefesa. Já são cerca de 30 mil palestinos mortos e 10 mil desaparecidos, além da expulsão em massa da população civil, da destruição sistemática das habitações, hospitais, universidades, indústrias, escolas, enfim, das cidades palestinas e da morte de cera de 8.000 crianças em um genocídio que choca o mundo a cada dia pela brutalidade, estupidez e impunidade com que é feito.

Em razão do genocídio praticado pelo exército e pelos líderes de Israel, todo o carinho, a visão afetiva, o respeito que um dia tive por este país e, especialmente, pelos Judeus ao longo de sua milenar história, simplesmente desapareceu. Foi sepultado em vala comum de corpos anônimos junto com as mulheres e crianças que eles mataram e continuam matando sistematicamente em cada bombardeio, na destruição de cada prédio, vítimas também da proposital falta de alimentos, de medicação, de água e, sim, pelo genocídio que neste momento praticam contra o povo da Palestina.

Oh, Israel, que fizeste para passar de vítima a algoz, de violentado a assassino, de flagelado a genocida impiedoso? Que fizeste do holocausto sofrido, de tua história milenar? Que fizeste dos exemplos que Jesus deu há dois mil anos, ao pisar nestas mesmas terras e ensinar as lições que agora, mais do que nunca, não queres escutar? Afasta-te de mim, Israel.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela Uesc.

Julio Gomes opina sobre a volta do Carnaval organizado pela Prefeitura de Ilhéus || Foto PMI
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Não há como comparar a quantidade de foliões de Carnavais passados com os gatos pingados que neste ano fizeram o Carnaval de Ilhéus parecer uma festa de largo melhorada.

 

 

 

 

Julio Gomes

Voltamos a ter Carnaval em nosso município de Ilhéus neste ano de 2024, após alguns anos sem que tal festividade ocorresse ou sendo ela relegada ao mínimo do mínimo. Mas neste ano teremos eleições para prefeito e vereadores, e isso explica o porquê de aquilo que deveria ser comum voltar como se fosse uma grande novidade.

Vamos à análise do Carnaval.

Primeiro, vale destacar a força e presença da festividade momesca no imaginário popular, mesmo sendo propositalmente esquecida pelos gestores municipais durante anos. Apesar de todas as influências culturais estrangeiras, da condenação por parte de setores religiosos diversos, da violência onipresente e crescente em nossa sociedade, o brasileiro, e especialmente o baiano, ainda é o Carnaval!

Assim, blocos como as Muringuetes e o Zé Pereira contaram com ampla e admirável participação popular, o primeiro turbinado por um palco onde se apresentaram artistas contratados pelo Poder Público estadual e/ou municipal e o segundo lamentavelmente atingido por uma chuva forte que, neste ano, esvaziou um pouco o evento, que mesmo assim não deixou de acontecer com o brilho, a alegria e a paz dos antigos Carnavais.

Também merece destaque o empenho do município/estado da Bahia em patrocinar atrações para turbinar o Carnaval na ainda pacata Olivença, que mantém os ares da estância hidromineral que foi um dia, como se fosse uma mulher do interior, de bela origem mestiça e indígena e que consegue preservar os encantos da sua mocidade.

Quanto ao Centro de Ilhéus, mais especificamente na parte da Avenida Soares Lopes, onde as festividades ocorrem com mais foco, há uma coletânea de acertos e erros a ser considerada, ficando os primeiros por conta da redução do circuito que assim teve um tamanho proporcionalmente mais adequado; da eficaz presença de policiais e bombeiros militares, da Guarda Municipal e da Polícia Civil, que em conjunto proporcionaram uma boa segurança; e do horário também reduzido das festividades, algo em torno das 18h à 00h, quando as atrações e as forças de segurança se retiravam e, consequentemente, o público também, evitando os episódios de maior violência que costumam ocorrer a partir da meia-noite e pela madrugada.

Entretanto, como ponto mais negativo a ser anotado no que diz respeito a nossos administradores locais, destaco a ausência dos blocos afros, afoxés e congêneres; e o notório enfraquecimento do Carnaval de Ilhéus como fruto direto de anos sem Carnavais, com Carnavais muito fracos e também sem a definição antecipada acerca da ocorrência ou não da festa, o que prejudica muito sua realização e a vinda de turistas.

O povo de Ilhéus como que se acostumou a não ter Carnavais, a não ter São João, ou a só desfrutar de festividades exclusivamente quando convém ao prefeito, como ocorreu neste ano eleitoral de 2024.

O resultado é que, embora se façam presentes, não há como comparar a quantidade de foliões de Carnavais passados com os gatos pingados que neste ano fizeram o Carnaval de Ilhéus parecer uma festa de largo melhorada.

Para terminar, lembro o patético encontro de dois mini trios elétricos ocorrido na noite de segunda-feira (12), na parte central do circuito. Apesar dos visíveis esforços dos artistas para dar o melhor de si aos presentes, os dois pequenos trios rodeados de apenas algumas dezenas de pessoas foi o retrato vivo de uma tradição que a administração municipal, por incrível que pareça, aos poucos está conseguindo matar.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc).

Julio Gomes escreve sobre as marteladas histéricas de Tarcísio de Freitas || Imagens Redes Sociais/Reprodução
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“Há muito tempo se confunde masculinidade com grosseria, virilidade com estupidez, exercício da autoridade com truculência e autoritarismo, e a forma de agir adotada pelo Governador reforça todos estes equivocados estereótipos”.

Julio Cezar de Oliveira Gomes

Viralizou nas redes sociais a imagem do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, batendo o martelo no leilão da disputa pela arrematação das obras de um trecho Rodoanel paulista, uma importante obra de infraestrutura situada na região metropolitana de São Paulo que definiu, recentemente, a empresa ganhadora da licitação que irá administrar parte deste anel viário pelos próximos 31 anos.

Embora seja uma obra de grande importância, envolvendo bilhões, não é sobre a obra nem sobre a política implementada pelo governador que desejamos falar, mas sobre a simbologia de determinados atos e gestos no imaginário popular.

É muito fácil encontrar na internet e assistir ao vídeo das marteladas do governador Tarcísio, que podem ser vistas, entre diversos outros, neste link: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/governador-de-sp-quase-quebra-martelo-da-b3-apos-leilao-de-trecho-do-rodoanel-e-video-viraliza-veja/

Quando assistimos à violência das seis marretadas desferidas com toda a força pelo governador, seguidas do ato de atirar para fora da mesa o martelo utilizado, temos de imediato a sensação de um ato forte, viril, masculino, cheio de energia e imparável na sua ação. Sem dúvida, uma excelente imagem para o marketing político.

Mas, como isso funciona no imaginário da população, para além da política?

É assim que deve ser quem nos governa? Uma pessoa do sexo masculino que, com força física, impõe sua decisão sobre tudo e todos, batendo arrogantemente com o objeto que possui nas mãos? É assim que nós também devemos ser?

Um Presidente, um Governador ou mesmo o prefeito de nossa cidade, assim como os astros do esporte ou do mundo das artes, são modelo de conduta, paradigma a ser copiado pelas demais pessoas, sobretudo de forma inconsciente.

Vendo um governador agir daquela forma em uma cerimônia pública, fico a me perguntar: como agirá o chefe de um setor no trato com seus subordinados? Como será o tratamento do gerente da empresa com um funcionário humilde? Como se comportará um diretor em face de uma funcionária mulher que lhe é subordinada, sobretudo se estiverem a sós?

Saindo do mundo do trabalho e adotando como modelo a forma de agir do governador Tarcísio, como será a atitude do homem ao retornar para casa e encontrar sua mulher que não trabalha fora do ambiente doméstico? Como será a abordagem da polícia, à noite e em local ermo, em face de um jovem da periferia? Em resumo, como se comportará qualquer pessoa que, por determinada contingência social, econômica ou política, esteja em condição de dar ordens e impor-se a seus subordinados?

Há muito tempo se confunde masculinidade com grosseria, virilidade com estupidez, exercício da autoridade com truculência e autoritarismo, e a forma de agir adotada pelo Governador reforça todos estes equivocados estereótipos.

Entretanto, ser homem de verdade está muito além disso, deste senso comum infeliz e infelicitante. Na verdade, cabe ao homem buscar na moderação, na educação, a maneira mais adequada de ser firme, positivo, sem precisar ser um troglodita das cavernas.

Quem é homem de verdade compreende que já temos testosterona o suficiente no sangue e que tendemos a ser, por nossa natureza masculina, mais impulsivos, lascivos e violentos do que seria desejável em uma sociedade civilizada. Nosso esforço deve ser para moderar nossa natureza animal, sem abrir mão de sermos do sexo masculino.

Para além disso, o que sobra são palhaçadas feitas para “agradar à torcida” e atrair a atenção dos incautos, tais como aquela protagonizada pelo Governador de São Paulo.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela Uesc.

Mural resume trajetória do professor Arléo Barbosa na entrada da nova escola || Foto Pimenta
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“Entregamos para a juventude uma obra ímpar, maravilhosa e queremos ver brilhar, nos olhos e sorrisos daqueles estudantes que ali estavam, a luz de um futuro melhor, mais digno, em uma sociedade mais justa e feliz”.

Julio Gomes e a ministra Ana Moser na inauguração do Colégio Arléo Barbosa

Julio Gomes

Quinta-feira, 23 de março de 2023. A agitação era grande e totalmente incomum na Barra do Itaípe, próximo ao local onde um dia já funcionou o antigo Centro Social Urbano (CSU), em Ilhéus. Havia muita polícia e bombeiros, mas não se tratava de crime nem acidente. É que, no início de uma tarde ensolarada, fazia-se a inauguração e entrega do Colégio Estadual de Tempo Integral Professor Carlos Roberto Arléo Barbosa.

Além de novo, grande, limpo, inovador e muito bonito, o Colégio também fazia uma justíssima e mais do que merecida homenagem ao educador Professor Arléo, mestre de várias gerações de ilheenses, professor brilhante e cuja vida se voltou para a Educação de forma exemplar. Tive a honra de ser seu aluno na Uesc e posso dar testemunho disto pessoalmente, sem medo de errar.

O Colégio surpreende porque, além da concepção moderna das salas de aula, dos laboratórios de química e de anatomia humana, da sala de informática, do teatro com toda a estrutura para quase 200 pessoas sentadas e de todos os demais espaços que se espera encontrar em uma escola de primeira qualidade, há também um notável aparelhamento para o desenvolvimento da cultura e do esporte, o que justificou a vinda para sua inauguração de ninguém menos do que a ministra dos Esportes, Ana Moser, ex-jogadora de vôlei da seleção brasileira, que já representou nosso país em Olimpíadas e campeonatos mundiais, trazendo para nós inúmeras conquistas e medalhas.

Estudante observa piscina do Colégio Arléo Barbosa || Foto Pimenta

Dotado de piscina semiolímpica, quadras poliesportivas, espaços para dança e lutas, campo de futebol soçaite, minipista de atletismo e restaurante estudantil, o espaço surpreende pela grandeza e possibilidade de prática esportiva e de interação com a comunidade, apontando para um novo modelo de educação, que só pode existir com o amparo e presença do Estado subsidiando o alto custo de investimento e manutenção de todo aquele complexo voltado para a Educação.

Durante toda a inauguração festiva em que governador do Estado, Jerônimo Rodrigues (PT), ministra e toda a comitiva de deputados, prefeito e autoridades passearam exaustivamente pelo novo Colégio, não pude deixar de lembrar também de companheiros de lutas sociais e políticas já falecidos que, com absoluta certeza, sentiriam o maior júbilo se ali pudessem estar presentes.

Dr. José Carlos Ribeiro, Ruy Carlos de Carvalho, Adeilton “Tutuca”, Antônio Mendes e Jorge Luís do PSOL são alguns dos nomes que lembrei naquele momento, pensando no saudável orgulho que lhes traria presenciarem ver tudo aquilo ser entregue à juventude que mais precisa, aos filhos e filhas das periferias e dos morros, podendo perfeitamente incluir também os jovens de classes sociais mais bem situadas em nossa sociedade.

Pensei nos anos de luta como petista, nas reuniões sem fim, por vezes causticantes e até ácidas, em todas as dificuldades que enfrentamos e nos preconceitos que ainda são jogados cotidianamente sobre nós, por sermos democratas, progressistas, socialistas, de esquerda, e me vem à mente: que nada disso nos abata!

Campo e pista de atletismo da nova escola de Ilhéus || Foto Pimenta

Entregamos para a juventude uma obra ímpar, maravilhosa e queremos ver brilhar, nos olhos e sorrisos daqueles estudantes que ali estavam, a luz de um futuro melhor, mais digno, em uma sociedade mais justa e feliz, onde a instrução faça superar os preconceitos e onde a formação com amor vença o medo e o ódio. Viva a Educação!

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela Uesc.

Ezequias Souza e Edgar Ricardo mataram sete pessoas por aposta em jogo de sinuca
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No Exército, várias vezes escutei que não se dá armas a idiotas. Vejo, tristemente, que esta máxima de outrora não vigora mais, e que o acesso a todo tipo de armamento torna muito mais mortal e trágica a ação criminosa de muitos brasileiros.

Julio Gomes 

Ingressei no exército em 1984, como simples soldado, para prestar o serviço militar obrigatório em um quartel situado no Rio de Janeiro. Inicialmente, passamos quase três semanas inteiras aquartelados, saindo somente na sexta-feira, às 18h, para estarmos de volta na segunda-feira, prontos e em forma, às 6h30.

Neste período de adaptação à vida militar, marchávamos, fazíamos exercícios físicos, recebíamos instrução básica, tínhamos todas as refeições e dormíamos nos beliches da companhia de infantaria, sem sair do quartel para nada, sem acesso a visitas e a telefone. Antes de colocarmos as mãos pela primeira fez no fuzil automático calibre 7.62, arma padrão dos soldados brasileiros, passamos por mais de um mês submetidos à disciplina, adaptação e doutrinação para desenvolver o mínimo de responsabilidade necessária para ter aquele tipo de armamento nas mãos.

Estamos agora em 2023 e constato, com extremo desgosto e preocupação, que hoje qualquer pessoa que tenha dinheiro e preencha as frouxas formalidades burocráticas existentes pode comprar armas que, naquela época, eram de uso absolutamente restrito, proibidas para civis, incluindo fuzis automáticos, que são armas de guerra.

Não pude deixar de pensar em todos os fatos acima ao assistir, pelo YouTube, repetidas vezes e com olhos de quem entende o que é o manuseio de um armamento, a destreza, habilidade e extrema desenvoltura com que os assassinos de Sinop, Goiás, liquidaram, em apenas exatos dez segundos, sete vidas humanas, incluindo a de uma criança de 12 anos, morta com um tiro pelas costas.

Armas como a espingarda calibre 12 usada na chacina – e outras, como fuzis automáticos – não deveriam estar disponíveis para venda, sobretudo com a facilidade que ocorre hoje no Brasil, colocando-se ao acesso de qualquer imbecil, desde que tenha dinheiro e cumpra, repito, os frouxos requisitos legais estabelecidos.

No Exército, várias vezes escutei que não se dá armas a idiotas. Vejo, tristemente, que esta máxima de outrora não vigora mais, e que o acesso a todo tipo de armamento torna muito mais mortal e trágica a ação criminosa de muitos brasileiros.

Vejo também com certa preocupação a proliferação dos clubes de tiro e dos Colecionadores, Atiradores e Caçadores (CACs), pois, mesmo sendo estritamente legais, é de extrema ingenuidade pensar que a habilidade com o uso do armamento ali adquirida possa ser utilizada por todos unicamente para fins lícitos. Obviamente que quem os frequenta e os CACs, até que se prove o contrário, são pessoas responsáveis e inteiramente idôneas, não são bandidos nem assassinos.

Mas, o hábil manuseio de armas pode se prestar a inúmeros fins, e ingenuidade só é bonitinha em crianças; nos adultos, torna-se um grave defeito.

Por fim, entendo que acesso, porte e uso de armas deveriam permanecer o mais restrito possível aos profissionais de segurança, de preferência àqueles que trabalham a serviço do Estado: militares, policiais, guardas municipais e mais um restrito grupo de funções afins. E só.

Guardo a convicção de que se um cidadão comum precisa andar armado e pronto para atirar, como em um antigo filme de faroeste, algo está profundamente errado. Armamento deve ser, sobretudo, instrumento de trabalho institucional e não objeto potencializador da estupidez humana, algo tristemente tão presente no Brasil de hoje.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela Uesc.

Estrutura montada para folia que não tomou conta da Soares Lopes || Foto Julio Gomes
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Penso que em um município litorâneo, com destaque cultural e onde o turismo tenta ser atividade econômica relevante, a Prefeitura não tem o direito de deixar de fazer Carnaval.

Julio Gomes

2023 ficará marcado, para Ilhéus, como o ano do Carnaval que existiu sem nunca ter existido.

Explico o aparente paradoxo: não houve anúncio prévio de que haveria Carnaval em Ilhéus. Quando me refiro a divulgação prévia, não falo da publicação das atrações poucos dias antes do evento, mas de assegurar, meses antes, para a iniciativa privada, para as agências de turismo, para os órgãos oficiais de promoção ao turismo e para o Governo do Estado que haverá Carnaval e, quanto aos dois últimos, pedir com a devida antecedência o apoio para sua realização.

Porém, mesmo sem prévio aviso, vimos, às vésperas da festa, algumas alusões a algo que os gestores de nosso município chamaram de Carnaval Cultural, ressuscitando um nome que foi utilizado pelo ex-prefeito Jabes Ribeiro em suas gestões, com algum sucesso naquela ocasião, já que se fazia vários palcos temáticos e se contratava artistas regionais para animar a festa. Mas, desta vez, só o nome foi copiado, e tristemente mal copiado.

A chama do Carnaval, sem dúvida, continua viva no coração do povo de Ilhéus, e os diversos blocos que, valentemente, desfilaram deram prova disso. Porém, o Poder Público municipal, mais uma vez, não fez sua parte: não contratou atrações, não divulgou a festa, não manteve nenhum outro atrativo (como feira de turismo, parque de diversões ou outro qualquer) e deu continuidade à precária limpeza urbana que há muitos anos caracteriza nossa cidade até mesmo em suas áreas centrais.

É certo que alguns setores do serviço público municipal, como Sutram, Limpeza Urbana e Guarda Municipal, estiveram presentes nos eventos de rua, porém isso é o apoio para que o Carnaval ocorra, mas isso não realiza a festa, não faz o Carnaval em si.

Enquanto as poucas atividades carnavalescas começavam em Ilhéus em torno das 19h para se encerrar no máximo às 22h30, assistíamos pela TV e demais meios de imprensa o Carnaval – este, sim, com letra maiúscula – acontecendo de verdade em Itacaré e em Porto Seguro. E se estes dois municípios fazem, por que Ilhéus não faz?

Penso que em um município litorâneo, com destaque cultural e onde o turismo tenta ser atividade econômica relevante, a Prefeitura não tem o direito de deixar de fazer Carnaval, e um Carnaval que preste, com boas atrações, estrutura, segurança e bons resultados econômicos e sociais para todos.

Mas o que vimos? Blocos populares desfilando no peito e na raça enquanto o Poder Municipal dava de si o mínimo e sempre de forma desorganizada, algo simbolizado na estrutura montada para absolutamente nada em frente ao Cine Santa Clara, na Avenida Soares Lopes.

Se há redenção, ela é dos pouquíssimos servidores da limpeza urbana que, munidos apenas com vassouras e carros de mão, tentavam heroicamente retirar da Praça Castro Alves (da Irene), nesta Terça-Feira (21), a sujeira, as garrafas e o lixo ali acumulados desde domingo à noite, último dia em que houve festividades, pateticamente suspensa pelos gestores municipais sob a alegação de que fortes chuvas poderiam ocorrer. Mas, quem conhece mais a vida sabe que é apenas uma forma de fugir ao vexame público.

São tristes retratos do retumbante fracasso de nosso Carnaval, que pôde ser visto também ontem (20) à noite, quando milhares de pessoas vieram para a Avenida Soares Lopes e, decepcionadas, encontraram o que o atual governo municipal lhes preparou: nada, absolutamente nada!

O Carnaval 2023 só não foi pior do que aqueles que não foram feitos, como tantas vezes aconteceu devido ao descompromisso com o turismo e a renda de nossos gestores anteriores. Mas, entre os que aconteceram, foi, sem dúvida, o pior da história de Ilhéus.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela Uesc.

Escultura de Iemanjá diante de navio turístico atracado no Porto de Ilhéus || Foto Julio Gomes
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Por que não se avisou aos turistas dos navios que hoje é Festa de Iemanjá? Por que não os trouxeram para vê-la? Por que o melhor de nossa cultura, de nossas raízes, ficou oculto e invisível?

Julio Gomes

Dois de fevereiro é Dia de Iemanjá, e na Bahia é dia de festa no mar. Quem trabalha, assim como eu, tem que estar no local do trampo, do batente. Mas, existe o horário do almoço, quando às vezes é possível escapar com alegria e brevidade para ir saudar a Rainha das Águas!

A primeira parada é no Pontal, próximo ao Morro de Pernambuco. Que saudades de minha amiga Mãe Laura! Me consola um pouco saber que a Praça da Maramata agora tem seu nome, em justa e merecida homenagem à nossa querida ialorixá. Creio que, em espírito, de alguma forma, ela se faz presente naquele local. Corro o ramo com água de cheiro e lá vamos para o Malhado, onde também há festejos na beira do mar.

Já em frente ao Barravento Praia Hotel o trânsito foi desviado e Avenida Litorânea é só nossa e do sol de verão de uma hora da tarde. Próximo à praia do Marciano, há um grande palco e muitas barracas em volta, vendendo bebidas e comidas, muitas delas de origem africana. Ali encontro um toldo maior ainda, onde o Povo de Santo dança, toca e festeja Iemanjá.

A alegria me toma de vez! Reencontro amigos, sinto o vento quente do dia e o sol da Bahia no corpo enquanto a festa continua, com a presença de lindas baianas, jovens ou mais maduras, e os sons, ritmos e cheiros que trazem felicidade. Não é preciso deixar de ser cristão para ter carinho, respeito e admiração pelos deuses da África e de todos os povos. Queiramos ou não, Deus é um só!

Homens e mulheres de terreiros de Ilhéus na Festa de Iemanjá || Foto Julio Gomes

Ainda no Malhado, vejo que Ilhéus recebe neste mesmo dia um grande navio de cruzeiro, daqueles cheios de turistas brasileiros e/ou estrangeiros, que buscam novidades no acanhado Centro de nossa cidade, sempre precário, quase sempre malcuidado, sem atrativos e quase sem opções de visita e de cultura para os turistas. Mas, observo que nas duas festas, no Pontal e no Malhado, só vemos os ilheenses, só o Povo de Terreiro e aqueles que, como eu, sentem felicidade por estar ali, juntos.

Penso que Iemanjá há de perguntar: por que o povo do navio não vem me ver? Será que esse povo branco de outras terras não gostaria de me conhecer, de ver minha cultura africana, indígena, baiana, de se misturar com o meu povo? Será que não ficariam felizes por ver nossa alegria, nossas flores, ouvir nossos atabaques, ver nossas roupas e danças?

Penso nos rostos decepcionados dos turistas no Centro de Ilhéus, olhando com aquela expressão de é só isso que tem aqui?, retornando para os navios cheios de expectativas não satisfeitas.

Por que não se avisou aos turistas dos navios que hoje é Festa de Iemanjá? Por que não os trouxeram para vê-la? Por que o melhor de nossa cultura, de nossas raízes, ficou oculto e invisível?

Balaios com flores e outras oferendas para a Rainha do Mar || Foto Julio Gomes

As barracas estavam ali, o palco estava armado, os terreiros presentes, só faltaram os turistas que também animariam a festa, movimentariam o comércio e teriam contato com uma Bahia como eles nunca viram, que jamais pensaram que existisse daquela forma tão original e tão linda.

Nós estávamos com Iemanjá, mas queríamos compartilhar nossa cultura e nossa alegria com mais pessoas.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc).

Julio Gomes escreve sobre intolerância política e religião || Fotomontagem Jornal da USP
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Se fomos expulsos de algum local de culto, de forma explícita ou sutilmente, oremos por aqueles que assim fizeram e procuremos outro local mais adequado para vivenciar nossa religiosidade.

Julio Gomes

Estas eleições disputadas em 2022 foram diferentes de tudo quanto já se viu no Brasil e deixaram marcas profundas na sociedade brasileira e em cada família, nas empresas, nas amizades e até mesmo nos meios religiosos, que também sofreram com a agressividade e a radicalidade presentes na disputa, de onde ninguém saiu ileso.

Falando especificamente do exercício religioso e de suas instituições, encontramos relatos de inúmeras pessoas que simplesmente deixaram de frequentar a igreja ou local de culto, ou o espaço litúrgico onde exercia sua religiosidade, fosse este ou aquele.

Mais frequentes ainda são as notícias de afastamentos internos entre pessoas de uma mesma religião, a ponto de não quererem mais trabalhar juntas nem mesmo se relacionarem, como amigos ou como simples companheiros de um mesmo ideal.

Esses fatos merecem uma reflexão mais aprofundada.

Alguns argumentam que não toleram mais olhar para companheiros de fé, sobretudo cristãos, sabendo que estes desejam para as outras pessoas a prisão por motivos políticos, a tortura, a morte, a mais dura repressão ditatorial. Que desejam que trabalhadores percam seus direitos. Que indígenas e negros não tenham nenhum tipo de política pública de compensação voltada para si. Que a polícia mate, como ação fundamental e primária, e que as pessoas sejam reduzidas em seus direitos humanos.

Outros dizem que não querem de forma alguma se relacionar com pessoas que defendem o aborto, que destroem a família por meio de suas ideologias, que pregam a desordem e o comunismo, que aceitam o casamento entre pessoas do mesmo sexo, que normalizam o uso das drogas e que pregam a desordem sexual, moral e a destruição de toda a ordem social.

Com isso, cavou-se um fosso profundo em muitas instituições religiosas, templos evangélicos, igrejas católicas, centros espíritas, sendo tal atitude, algumas vezes, tristemente incentivada pelos próprios diretores destas instituições.

Não desejo entrar aqui no mérito do que cada um pensa do ponto de vista estritamente político. Não menosprezo nem retiro a enorme importância desta discussão, que é, sim, necessária. Mas desejo prosseguir sob outro ponto de vista.

É fundamental que as pessoas não se afastem de Deus nem de sua religiosidade, aconteça o que possa acontecer, tomem os outros as decisões que tomarem. Nossa relação com Deus é personalíssima e íntima, não deve passar pelo crivo social de ninguém, embora o exercício litúrgico, frequentemente, seja coletivo.

Sobretudo se somos cristãos, cabe exercermos a disciplina e a tolerância, a humildade de sabermos que, mesmo com todas as nossas convicções, não somos donos absolutos da verdade. Cabe vermos que todos somos humanos e cheios de erros, falhas, equívocos, e que, sem fé e compreensão mútuas, sem tolerância e sem amor ao próximo, não iremos a lugar algum.

E se, por acaso, fomos expulsos de algum templo, igreja ou local de culto, de forma explícita ou mais sutilmente, oremos por aqueles que assim fizeram e procuremos outro local mais adequado para vivenciar nossa religiosidade, pois inaceitável mesmo é que nos afastemos de Deus, do exercício da fé e das boas obras. Isso, nunca!

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela Uesc.

Bruce Lee abriu horizonte cultural sobre o oriente, segundo Julio Gomes
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Podemos encontrar na vivacidade de Bruce Lee se não uma explicação, um precedente que nos mostrou que o mundo oriental existe de fato e exige seu lugar.

Julio Gomes

É muito interessante como algumas pessoas, através de seu trabalho e com o uso correto de seu talento, conseguem mudar aspectos importantes da cultura, da economia, da política, do esporte, de determinados setores da vida, transformando-os profundamente.

Bruce Lee, ator, diretor de cinema e artista marcial como lutador de kung fu, foi um desses que, embora pareça predestinado a fazê-lo, é, sobretudo, exemplo de dedicação, de foco, de entrega aos seus objetivos e da mais admirável persistência.

Filho de pais que pertenciam à rica e conceituada Ópera Chinesa e que se encontravam em turnê se apresentando nos Estados Unidos quando ele nasceu, Bruce soube aproveitar a boa condição econômica e social de seus pais para estudar, crescer e trabalhar de modo exemplar, embora na juventude tivesse um temperamento brigão e bastante inquieto.

Quem é um pouco mais velho, certamente, se lembra de seus célebres filmes (Operação Dragão e outros) que fizeram com que, pela primeira vez, produções cinematográficas vindas do oriente estourassem nas bilheterias ocidentais e caíssem no gosto do grande público, se tornando sucessos mundiais.

Se não o criou, Bruce Lee consolidou, na década de 1970, um novo gênero de filmes: de Artes Marciais, onde víamos as mais incríveis lutas que aconteciam a partir de uma cultura totalmente estranha à nossa, exótica, rica de detalhes, cheia de valores próprios, que encantava pela energia, movimento e vivacidade, sobretudo em seus filmes.

Com Bruce Lee, descobrimos que a China e o mundo oriental existiam de verdade. Através dele, a cultura do oriente penetrou em nosso cotidiano nas academias de lutas, na forma jovial e inovadora de se vestir, no modo como eles interagiam com nosso mundo, de igual para igual. Aqui no Brasil, naquela época, até nas músicas de Caetano Veloso e nas marchinhas de Carnaval o tema esteve presente, mesmo que na forma lúdica típica dos brasileiros.

Passamos a ter um novo olhar sobre os homens e mulheres orientais, que passaram a ser vistos como belos, vigorosos, cheios de iniciativa e valores próprios, quebrando inteiramente a visão estereotipada que deles tínhamos anteriormente, como pessoas fracas, desprovidas de beleza e inteiramente submissas. Não! Bruce era todo energia, movimento e paixão.

Para os que não sabem, Bruce Lee, infelizmente, nos deixou muito cedo, no ano de 1973, com apenas 32 anos, vítima de uma morte não muito bem esclarecida e que, por isso mesmo, causa polêmica até hoje.

Entretanto, sua obra projetou a China para o mundo e mostrou que o Oriente é muito mais do que um território a ser conquistado, submetido e dividido entre os povos brancos do ocidente.

Se hoje vemos o Japão se posicionar entra as principais nações do mundo e a China disputar o primeiro lugar na economia mundial com os Estados Unidos, podemos encontrar na vivacidade de Bruce Lee se não uma explicação, um precedente que nos mostrou que o mundo oriental existe de fato, e que exige o seu lugar no mundo atual.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc).

Julio Gomes recupera memórias afetivas nas vozes de Moraes, Gal e Erasmo
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“Perder cantores que ouvíamos quando éramos bem jovens – e que eram ídolos de nossos pais – é como perder um pouco mais e novamente aqueles que nos criaram”.

 

Julio Gomes

Primeiro foi Moraes Moreira. Senti o golpe ao saber que aquele que cantava Pombo Correio e que sacudia a praça, seja a Castro Alves, em Salvador, ou qualquer outra pelo Brasil afora, quando embalava Tem que dançar a dança / Balança o chão da praça, ao som de quem tanto dancei e pulei carnaval, havia partido repentinamente após um infarto. Doeu, deixou um sabor de nunca mais misturado com muitas saudades.

Há bem pouco tempo, outra perda significativa: aquela Gal que docemente cantava Baby, eu sei que é assim e que eletrizava dizendo que é preciso estar atento e forte / Não temos tempo de temer a morte também se foi muito de repente, sem aviso prévio e sem adeus, fazendo ecoar por dias seguidos em minha mente as músicas que ouvia minha mãe colocar na vitrola no tempo em que eu ainda era criança.

Perder cantores que ouvíamos quando éramos bem jovens – e que eram ídolos de nossos pais – é como perder um pouco mais e novamente aqueles que nos criaram, pais e mães que, com seu amor e seus defeitos, nos formaram como seres humanos que somos.

Agora, ainda não refeitos da ida de Gal, recebemos a notícia da partida de Erasmo Carlos, sempre mais ousado do que seu parceiro Roberto Carlos, que fez mais sucesso e vendeu mais discos, mas não tinha o charme rebelde do Tremendão, apelido de Erasmo, que tão bem encarnava a Jovem Guarda e o espírito inovador e inquieto dos anos de 1960.

Perder pessoas que nos anos 60 tinham em torno de 20 anos e que, naquela época, mudaram o mundo com a força de sua juventude e rebeldia é, sem dúvida, um duro golpe para nós que crescemos escutando suas músicas, namorando apaixonadamente ao som de seus acordes, que dançamos os seus ritmos e que sonhávamos acordados com as letras das músicas que falavam de um mundo novo, ressignificado e em busca de paz e amor, como se as revoluções e o movimento Hippie nunca mais fossem acabar, como se a nossa juventude também pudesse ser eterna.

Erasmo, Gal e Moraes Moreira se juntaram àqueles da sua geração que partiram precocemente, como Gonzaguinha e Elis Regina, e nos deixaram com esse sentimento de estarmos órfãos, de perder as referências sentimentais e culturais que nos fizeram ser quem somos, pensar como pensamos, gostar do que gostamos.

Fica a vontade de ouvir novamente suas maravilhosas canções, originais como o mundo que desejavam criar, como os sonhos que ousaram viver.

Eles se foram, mas cumpriram sua missão: enfrentaram a caretice, a repressão sexual, as ditaduras, criticaram a Guerra do Vietnã e todas as outras guerras, ousaram se vestir de forma colorida e diferente, usar cabelos longos e desprezar a sociedade de consumo que trata o dinheiro e o mercado como se fossem deuses absolutos.

Acima de tudo, penso que a geração dos jovens nos anos 60 – a geração de meus pais – tentou aprender a amar e a viver ardentemente, errando e acertando, quebrando a cara e recomeçando, criando novos estilos musicais e novas formas de convivência entre as pessoas, acreditando que toda a forma de amor vale a pena.

Que todos nós possamos ser um pouco como eles, sobretudo em seus acertos, para sermos mais ousados, mais inovadores e amarmos ainda mais intensamente do que eles conseguiram amar.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela Uesc (Universidade Estadual de Santa Cruz).

Chuva alaga acampamento de golpistas em Brasília
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“Tudo tem limites, chega de tentar incendiar o país, chega de maluquices!”

Julio Gomes

Estamos quase no final do mês de novembro, passaram-se mais de vinte dias da realização do segundo turno das eleições que definiram quem foi eleito para presidente da República e para governador nos estados onde houve segundo turno para este cargo, como ocorreu aqui na Bahia. Mas, alguns brasileiros ainda insistem em ocupar a frente dos quartéis e bloquear estradas no que chamam de protesto contra o resultado das eleições presidenciais, já que nenhum outro resultado desta mesma eleição (para governadores, senadores ou deputados) é questionado.

Estes brasileiros pedem aquilo que denominam “intervenção federal” para que, usando a força militar, impeça-se a posse do presidente eleito.

É preciso pensar no que isso significa, para entendermos quão perigosa é esta situação.

Primeiramente, é preciso deixar claro que o que pedem é, na prática, um golpe militar, já que seria a tomada do poder à força de armas. E isso é uma violência inaceitável contra o Regime Democrático, contra as leis e contra a vontade da maioria do povo brasileiro expressa nas urnas.

Caso o que desejam viesse a acontecer, o Brasil estaria reduzido ao tamanho de países sem nenhuma expressão ou importância no cenário internacional, em que um ditador qualquer manda com poderes ilimitados como se fosse um rei dos tempos mais antigos.

Não! O Brasil, quinto maior país do mundo em extensão territorial e em população, sendo por isso mesmo um dos países mais importantes, não pode se posicionar desta forma diante da humanidade nem passar a isolar-se no cenário internacional.

Caso aquilo que chamam de “intervenção federal” ocorresse, teríamos aqui um governo ilegítimo e sem base legal nenhuma, visto que não foi eleito, e com todos os requisitos para tornar-se uma ditadura, onde prisões ilegais, “desaparecimentos”, censura, tortura, assassinatos políticos e outras práticas ilegais e medievais do mesmo gênero predominam. Aliás, talvez seja isso mesmo o que querem muitos desses manifestantes.

Além disso, aberto este precedente de não aceitação do resultado das eleições por força das armas, a partir de agora todas as votações futuras estariam sujeitas ao mesmo mecanismo de só serem consideradas válidas após o “permita-se” dos armamentos.

Por fim, como também há a possibilidade de, após uma eventual “intervenção militar”, uma parte dos brasileiros não aceitar e reagir de forma armada, poderíamos ter uma guerra civil em nosso país, um banho de sangue com brasileiros contra brasileiros, pais contra filhos, irmãos contra irmãos a trocar tiros e gerar mortes o que, aliás, é o que desejam alguns que tantas armas e munições compraram justamente para isso.

Nós, brasileiros, em nossa imensa maioria, queremos paz e democracia, queremos legalidade e prosseguimento normal de nossas vidas, trabalhando, estudando, ficando com a família e amigos, vivendo como cidadãos normais em um país onde prevalecem a lei e o respeito ao próximo, mesmo com todas as dificuldades que sempre fizeram parte de nossas vidas.

Simples assim: quem ficou insatisfeito com o resultado das eleições que dispute a próxima, daqui a quatro anos, como ocorre em qualquer país democrático.

Tudo tem limites, chega de tentar incendiar o país, chega de maluquices!

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc).

Em Ilhéus, grupo de extrema-direita pede intervenção militar || Redes Sociais/Reprodução
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O momento da disputa, com o calor que lhe é natural, já passou. Agora é preciso retirar os adesivos dos carros e das casas e prosseguir.

 

Julio Gomes

Sábado, 29/10/2022. Flamengo e Athletico-PR se enfrentam em Guayaquil, no Equador, para decidir quem seria o campeão da Copa Libertadores da América. Com um único gol, marcado aos 48 minutos do 1º tempo, o Flamengo decidiu o jogo e sagrou-se campeão.

Domingo, 30/10/2022. Lula e Bolsonaro disputam, no Brasil, quem seria o Presidente da República nos próximos 4 anos. Com 50,9% dos votos e pouco mais de 2 milhões de votos de vantagem, Lula ganha as eleições.

Os exemplos acima são muito significativos para mostrar o quanto é descabido o questionamento quanto ao resultado final dos embates, sobretudo quando eles se dão dentro de regras claras, devidamente pré-estabelecidas e com contendores plenamente cientes de que apenas um poderia ser o ganhador.

É natural que, ao final de disputas acirradas, haja comemorações públicas nas ruas, como fizeram torcedores no sábado e eleitores no domingo. Também é natural que um sentimento mais acentuado de frustração ou mesmo de tristeza se apodere, nos momentos imediatamente seguintes ao resultado, das pessoas emocionalmente envolvidas.

Porém, o que não é natural é que se questione o resultado estabelecido, e menos ainda que se apele para uma terceira força, inteiramente estranha à disputa em questão, para tentar alterar o resultado final.

O fechamento de rodovias, com vistas a provocar transtornos de toda ordem e desabastecimento, com suas graves consequências, passa dos limites do choro natural e humanamente aceitável de quem perdeu. E muito pior são as manifestações em frente a unidades militares, incitando-as a meter os pés pelas mãos e fazerem a grossa besteira que seria intervir no resultado de uma eleição que se deu, em última análise, na conformidade com as previsões constitucionais.

A vida precisa seguir em frente.

Há quatro anos, também em uma eleição presidencial, o candidato derrotado em 2022 ganhou e teve seus quatro anos de governo. É justo, natural e necessário, para o bem do país e de todos, que o ganhador das eleições realizadas em 30/10/2022 tome posse no cargo para o qual concorreu e governe pelo período legalmente previsto.

Como ocorre em todas as eleições disputadas no Brasil nos últimos 60 anos, quem ganhou deve assumir e governar, garantindo-se a quem perdeu o direito democrático de constituir-se como oposição política, sempre dentro dos marcos e limites da lei.

Precisamos trabalhar, estudar, cumprir nossos deveres cotidianos e trazer para casa o pão de cada dia. O momento da disputa, com o calor que lhe é natural, já passou e agora é preciso retirar os adesivos dos carros e das casas e prosseguir, retirando também do coração eventuais ressentimentos que nada trarão de positivo.

Vamos seguir em frente com o resultado democraticamente estabelecido nas urnas, para o bem do Brasil, de todos e de cada um de nós.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela Uesc.