Poucos minutos depois do jogo em que o Botafogo sagrou-se campeão carioca de 2010, em cima do Flamengo, liga o jornalista Luiz Conceição:
– Fomos campeões em 1910. Cem anos depois, olhe nós, de novo, com título. Conosco é assim: um título a cada cem anos.
Era um jeito humilde de dizer que o time se vingou do Flamengo, após oito decisões perdidas para o rubro-negro. E logo no jogo de número 5.000 do Botafogo.
Tempo de leitura: < 1minutoBambis ficam com a Taça das Bolinhas.
Na disputa entre São Paulo e Flamengo pela Taça das Bolinhas, a que representa o título de primeiro pentacampeão brasileiro, deu a lógica: a taça ficou com os “bambis”.
(A decisão da Confederação Brasileira de Futebol foi anunciada após assembleia com as federações de futebol. Nas suas contas, o Flamengo incluía o título brasileiro de 1987, que foi descartado hoje pela CBF justamente num dia em que o clube disputa uma das vagas à próxima fase da Taça Libertadores. A entidade reconheceu o Sport Recife como campeão daquele ano.)
Beto Oliveira talvez seja dos nomes mais injustiçados na história do Itabuna Esporte Clube. Foi ele quem comandou a equipe em 2002, na campanha vitoriosa no Acesso, e que levou o time à semifinal do Baianão em 2003. Ele diz que a família Xavier contribuiu muito para o clube, mas está na hora de renovação.
Ainda lembra que seu nome circulou entre os cogitados para treinar a equipe em 2010. Houve veto de dois dirigentes do clube. Beto acredita que há perseguição contra a sua família. Mas nada o deixa mais triste por esses dias do que a notícia do rebaixamento do clube.
Ao final da tarde de ontem, o Pimenta conversou com Beto Oliveira, por telefone. Direto de Porto Seguro, ele falou o que anda fazendo na Terra do Descobrimento e relembrou a sua história como técnico de futebol, carreira recente que tem na galeria títulos de campeão do Intermunicipal em 2001 e 2004 e as boas campanhas no Itabuna.
Como está o planejamento de Porto para o Intermunicipal?
A seleção está quase toda montada. Estamos agora fazendo uma triagem de jogadores abaixo de 23 anos. Nosso planejamento é para sermos campeões. Em 2009, ficamos em terceiro lugar e por pouco não disputamos o título. Nesse ano, iríamos disputar o Acesso, mas os custos para uma nova equipe no profissional ficariam em 200 mil reais só para registrar na FBF (Federação Baiana de Futebol) e na Confederação Brasileira de Futebol.
Só para registrar?
Fizemos os cálculos e daria mais ou menos isso, excluindo os gastos mensais. Tem outras taxas que não me lembro aqui agora. Hoje, é mais viável comprar um time e disputar a Segundona. Mas Porto se prepara para jogar o Acesso no ano que vem.
Pequenos e médios municípios investem cada vez mais para disputar o Intermunicipal.
Em Porto Seguro, por exemplo, o investimento é de cerca de 30 mil reais, por mês. O time está quase formado, tem comissão técnica. A estrutura é de time profissional. A gente so não arrecada. Três jogadores saíram daqui pra jogar na Seleção de São Francisco do Conde, recebendo salário de 2 mi reais. Poucos times profissionais têm condições de pagar isso. Muitos jogadores estão desistindo do profissional para disputar o amador por conta de condições melhores.
Você foi o treinador que trouxe o Itabuna para a 1ª Divisão em 2002. Como viu o rebaixamento da equipe agora em 2010?
Com muita tristeza. Antes de subir em 2002, a equipe passou dez anos fora das competições. Estava na segunda divisão. Além de ser profissional, somos torcedores do Itabuna. Infelizmente, o time caiu. Agora é começar novo trabalho para que possa subir novamente, seja com essa ou com outra diretoria.
Qual a sua relação com os atuais dirigentes do Azulino?
Olha, é normal. Tem diretor que faz campanha negativa contra mim. Um, dois diretores acham que tem que se trazer técnico de fora. Quando disputamos a 1ª Divisão em 2003, o clube chegou à semifinal. Fomos eliminados pelo Vitória.
E o árbitro, no primeiro jogo, ainda deixou de dar um pênalti claríssimo para o Itabuna…
Exatamente isso. E o Vitória, ali, ganhou por 1×0, no Itabunão. Chegamos à semifinal e tivemos o direito a disputar a Série C do Brasileiro. Sabe, até hoje não entendo porque o time cedeu a sua vaga no Brasileiro à Catuense. É uma coisa que ninguém entende. Ricardo Xavier cedeu a vaga e não quis disputar a Série C.
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“Sinceramente, não entendemos. Na fase de classificação, o time só conseguiu duas vitórias e um empate.”
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Voltando a 2010, o que você acredita que tenha contribuído para a “degola”?
Sinceramente, não entendemos. Na fase de classificação, o time só conseguiu duas vitórias e um empate. O técnico Ferreira assumiu a equipe faltando três rodadas para o fim da fase classificatória. A equipe se classificaria com 13 pontos, mas perdeu todos os três jogos. No Torneio da Morte, jogou seis partidas e só venceu duas, dentro de casa. Antes, o Itabuna era a quarta, terceira força no Estado, só perdendo para Bahia e Vitória. O Itabuna é um time que toda região acompanha.
A campanha foi risível.
Mais que isso. Na primeira fase, a equipe obteve só sete dos 36 pontos disputados. No quadrangular do rebaixamento, só seis pontos de 18. É muito pouco para uma equipe da tradição do Itabuna.
Dos males, o menor: a equipe júnior, treinada pelo seu irmão Danielzinho está dando show de bola no Campeonato. É a prata da casa fazendo milagre?
Daniel foi treinador do júnior do Itabuna em 2003 e 2004 e fez das melhores campanhas dentre os times baianos. Em 2005, já não era mais treinador, ficou afastado do time júnior por três anos. Agora, está novamente no comando e tem chance de disputar o título. É prata da casa e tem conhecimento muito grande. A equipe atual possui três jogadores no profissional e mais três ou quatro podem subir de categoria pelas suas qualidades.
A história da sua família é ligada ao Itabuna. Você, Danielzinho e o seu pai, Danielzão. Você e a sua família se consideram perseguidos?
A gente acha que tem perseguição. Esse ano, novamente me contactaram e pediram uma proposta. Fiz e colocaram em votação. Foram dois votos a favor e dois contra, o pai do presidente [João Xavier] e o Luís Santana. Essa perseguição vem há muito tempo. Encaramos isso com muita naturalidade, mas ficamos chateados porque temos competência para trabalhar.
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Acho que seria bom e viável um novo nome para mexer com o clube, mexer com o torcedor do Itabuna, que ama futebol
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Você acredita que a família Xavier deixa o comando do clube, perde a hegemonia?
A família Xavier contribuiu muito. Ricardo deu sua contribuição. Acho que seria bom e viável um novo nome para mexer com o clube, mexer com o torcedor do Itabuna, que ama futebol, ama o IEC e o amador. Está na hora de mudar um pouco. Chega dessa sequência dos Xavier.
Como analisa a pré-candidatura de José Inácio Damasceno à presidência do Itabuna?
Atuamos com Zé no Grapiúna, que foi vice-campeão da Segundona em 2001, e não conseguiu subir. Temos muitos nomes, pessoas boas e de competência. A gente vê aí também o Álvaro Castro, que vem tentando ser presidente.
O sucesso da equipe Júnior, que está na semifinal do Baiano, também é atribuído a um toque de Beto Oliveira. Quais foram as suas contribuições para a equipe?
Demos sugestões, como Duílio, o atacante Wagner, que jogou na equipe profissional contra o Colo Colo e fez dois gols e fez também contra o Ipitanga, no Torneio da Morte. Tive o prazer de ver o Itabuna júnior aplicar 3×0 no Bahia, que é um time que investe muito na sua base. O Itabuna tem vários jogadores em condições de atuar no profissional. É uma safra nova e muito boa. Há muito tempo isso não acontecia. Infelizmente, o time profissional está indo para a 2ª Divisão, mas é um trabalho que se pode dar continuidade.
O que no domingo de Páscoa parecia ser o testemunho de uma ressurreição revelou-se uma espécie de suspiro de moribundo, aquela falsa sensação de recuperação que antecede a morte.
E o Itabuna morreu, ao menos no que tange à 1ª Divisão do Campeonato Baiano.
Ainda no início de abril, encerra de forma melancólica o ano de 2010, condenado ao pântano da 2ª Divisão em 2011.
Isso, justamente no ano do primeiro centenário da cidade que empresta o nome ao time.
O ano que poderia ser glorioso será lembrado como o ano vergonhoso do rebaixamento do clube azulino, que tem como símbolo um dragão, mas que há muito tempo não assusta ninguém, tantas foram as vezes nos últimos ano que flertou com a queda ora consumada.
A esperança da glória centenária se resumiu aos dois primeiros jogos do campeonato, quando o Itabuna venceu o Atlético de Alagoinhas e o Vitória.
Em seguida, o que se viu foi uma sucessão de derrotas, uma penca de goleadas e o passaporte para o Quadrangular da Morte, onde a triste sina continuou, mesmo com vitórias de 4×0 sobre o Colo Colo e 3×0 sobre o Ipitanga.
Mas aí, a salvação já havia entrado para a categoria milagre.
E milagres, como se sabe, não costumam acontecer com tanta freqüência nos últimos dois mil anos, desde que um jovem galileu andou transformando água em vinho, multiplicando pão e vinho, fazendo coxos andarem, cegos enxergarem e até mortos retornarem ao mundo dos vivos.
Resultado: na chuvosa noite de quarta-feira, 7 de abril, no ano do Centenário, entre raios, trovões e relâmpagos (cenário ideal para um filme de terror), o Itabuna mergulhou para o abismo da 2ª Divisão, aquela categoria futebolística quase mambembe, disputada por times marca bufa.
O torcedor, esse apaixonado que nunca abandona o time, está triste, os jogadores e a comissão técnica envergonhados e a diretoria sem conseguir explicar o inexplicável.
Se serve como consolo, não é o fim do mundo.
Muitos times, inclusive gigantes do futebol, renasceram após quedas para a 2ª Divisão.
Pode ser o caso do Itabuna, caso aprenda as lições desse fracasso e corrija os muitos erros do acidentado percurso de 2010.
E que se aprenda, de uma vez por todas, que time de futebol não tem dono.
Ou melhor, tem sim: o torcedor.
CARANGUEJADA
Na bacia das almas, com uma derrota com sabor de vitória, o Colo Colo salvou o próprio pescoço e permanece na 1ª. Divisão.
Mas, precisa sofrer tanto?
Daniel Thame é jornalista, blogueiro e autor do livro Vassoura, que será lançado em breve.
Robson, aos 18min, abre o placar em Madre de Deus. O time da casa faz 1×0 em cima do Itabuna. A persistir este placar, o time sul-baiano dá adeus à primeira divisão. O Madre de Deus vai a oito pontos e briga diretamente com o Ipitanga, que enfrenta o Colo Colo. Dois caem para a Segundona ainda nesta noite. É o Torneio da Morte. Os dois jogos ainda estão no primeiro tempo.
Uma forcinha da torcida não será nada mal. O Itabuna terá páreo duro neste domingo, às 16h, no estádio Luiz Viana Filho, diante do Ipitanga. A equipe precisa vencer para continuar com chances de escapar do rebaixamento.
No outro jogo do Torneio da Morte, o Colo Colo receberá o Madre de Deus, no estádio Mário Pessoa, também às 16h. Se o time ilheense ganhar, praticamente garante permanência na 1ª Divisão.
O Vitória não teve dó nem piedade do Náutico (PE), nesta noite. Depois de vencer por 1 a 0, em Recife, o rubro-negro baiano enfiou 5 a 0 no time pernambucano nesta noite e avançou às oitas de final da Copa do Brasil. O jogo foi disputado no estádio Emanoel Barradas, o Barradão, em Salvador.
Os gols foram marcados por Ramon, Júnior, Nino Paraíba, Elkson e Renato. O placar poderia ser ainda mais elástico se Ramon e Viáfara não perdessem os dois pênaltis favoráveis ao rubro-negro baiano.
Se o Vitória deu show, o mesmo não se pode dizer do Bahia. O time perdeu por 2×0 o jogo de ida contra o Atlético Goianiense e precisava fazer três gols para cima do adversário. Repetindo o fantasma da Série B do Brasileiro, o time fraquejou ao conseguiu meter apenas um gol no Atlético-GO, marcado por Abedi, aos 46min do primeiro tempo.
O treinador Ferreira teve um mal-estar no domingo, dia em que o Itabuna, dirigido por ele, aplicou uma goleada de 4 a 0 no Colo-Colo. A informação é do repórter Wagner Mendes, da Rádio Difusora. O problema de saúde, supõe Mendes, deve ter sido pelo clima de tensão que envolve o Dragão do Sul, ameaçado de rebaixamento.
A vitória sobre o time ilheense tirou o azulino do fundo do poço, recolocando-o na briga por uma das duas primeiras posições do “Quadrangular da Morte” – os dois últimos colocados vão para a Segundona. Ferreira, ainda segundo o repórter, foi medicado e liberado.
Apelidado nestes dias de Torneio da Morte de “Clássico da Vassoura-de-Bruxa”, o jogo entre Colo Colo e Itabuna, no estádio Mário Pessoa, em Ilhéus, foi para o intervalo. Por enquanto, o placar está 0x0.
Como a situação é mais do que ruim, melhor para as duas equipes que fique desta forma até o final. Se o Itabuna perder, por exemplo, praticamente dará adeus à 1ª Divisão do Baiano de Futebol.
O Torneio da Morte só revela o nível do futebol praticado no sul da Bahia nesse ano de 2010. O Itabuna cai diante do Ipitanga por 2×0. Igual placar é registrado no ‘baba’ entre Madre de Deus e Colo Colo, de Ilhéus.
Final do primeiro tempo.
Ferreira, treinador do Itabuna, sai para o vestiário reclamando das falhas da equipe. “É muito erro, é muito erro”. Já estamos cansados de saber disso, Fanfarrão… Ops, Ferreira!
E no festival de obviedades do Ferreira, ele disse ao repórter Wagner Mendes, da rádio Difusora. “Dentro de campo [o time] faz um papelão horrível, triste”. Só agora o treinador enxergou isso?
O apresentador da TV Bahia referiu-se, no Jornal da Manhã, ao ex-secretário de Governo, Edésio Lima, como “acusado de matar os professores de Porto Seguro”. É incrível a falta de atenção dos nossos redatores (e, na televisão e no rádio, também dos apresentadores, que lêem as bobagens escritas pelos outros). O Pimenta, felizmente, não foi na mesma linha. Tratou Edésio Lima como “acusado de mandar matar os professores sindicalistas Elisney Pereira e Álvaro Henrique”. No dia anterior, estampou em manchete que saíra a preventiva “contra secretário acusado de matar professores”. O Pimenta está certo.
PROFESSORES OU “OS PROFESSORES”?
O caso é transparente. Com o artigo definido “os”, e sem complemento, a frase descreve um genocídio: em vez de a morte de dois professores, registra a de toda uma categoria profissional. Aceita-se “matar professores” ou “matar os professores etc. (etc. é especificação)”. O redator da tevê cometeu um equívoco muito comum na comunicação, que é tentar dizer uma coisa e dizer outra. O povo, na sua intuição, já explicou o mecanismo desses erros: “Quem não sabe rezar…”. E não me venham repetir, como justificativa, que “a língua é viva”. A língua é viva, sim, mas erro é erro, apesar da muleta errare humanum est.
O narrador da televisão, pré-apoplético e parecendo à beira de um ataque de histerismo, berra, a plenos pulmões, referindo-se à seleção brasileira de futebol: “É penta! É penta! É penta!”. Um exagero. Antes, dizia-se pentacampeão quem vencia um campeonato cinco vezes consecutivas (duas era bicampeão, três, tri etc.). A partir de 1970, quando o Brasil – com a melhor seleção de todos os tempos, a que João Saldanha (foto) montou – venceu sua terceira Copa do Mundo, popularizou-se a tendência de dizer-se tricampeão quem vence um campeonato três vezes, sem ser seguidas. Ao que me recorde, o jornalista Raimundo Galvão, que mencionamos aqui há dias, foi a primeira voz a se insurgir contra esse modo de dizer.
MENTIRA QUE VIRA VERDADE
Pouco sei de futebol (prefiro basquete e o xadrez), mas a discussão, sob o prisma da língua portuguesa, me fascina. Entendo que o Brasil é, de maneira indiscutível, bicampeão mundial, pois venceu as Copas de 1958 e 1962. Ao voltar a ganhar em 1970 (com a melhor seleção etc. etc.), tornou-se campeão pela terceira vez – e isto é diferente de ser tricampeão. Acontece que a mídia, por ignorância ou interesse, às vezes assume aquele comportamento atribuído a Goebells (ministro das Comunicações de Hitler): bate na mentira até que ela se transforme em verdade. O rito é mais ou menos este: lança-se a invenção, as ruas a adotam e ela adentra os compêndios, já travestida de verdade. A língua é viva, certo. Mas não precisa ser burra.
O FUTEBOL NO ANO 2110
É ocorrência admirável um time ser tricampeão regional (no sentido “clássico”). Mas obter três títulos não sucessivamente, convenhamos, é moleza. Depois, essa “nova” linguagem produz alguma confusão no público: como representar clubes como o Flamengo, por exemplo, que já foi trinta e três vezes campeão do Rio? Ou o Fluminense, trinta e duas vezes? Ou o Vitória e o Bahia? Percebe-se que, na Copa do Mundo, porque são poucos os países com vários títulos, isto é possível. Mas quando se trata de certames regionais é preferível ficar com o sistema “antigo”. Especialistas afiançam que, daqui a uns cem anos, quando as grandes seleções terão muitos títulos acumulados, o sistema “moderno” será esquecido.
SALDANHA E A MODA BLACK POWER
Por falar em futebol… Nos últimos tempos, jogadores passaram a adotar o estilo cabeça raspada. Ronaldo (foto), apelidado O fenômeno, é um dos últimos a adotar o modelo. Nos tempos em que o estilo black power estava em moda (os anos setenta), João Saldanha foi chamado à polêmica e, bem ao seu estilo, não fugiu da raia. O inventor da melhor seleção brasileira de futebol de todos os tempos foi, de novo, ao âmago da questão, mostrando que treino é treino e jogo é jogo. É engraçada sua sugestão de que os jogadores raspem a cabeça pra jogar e usem uma peruca na hora do rebolado (hoje se diz balada). Veja no vídeo.
Como esta coluna não tem formato definido, estando mais para panacum de bugigangas, vai aqui mais uma. Para não dizerem que só falamos mal da mídia, pretendemos registrar, habitualmente, a existência de textos jornalísticos de boa qualidade – pois que os há, sem dúvida. Comecemos com Hélio Pólvora, que produz, no jornal A Tarde, aos sábados, uma crônica que compensa, por si só, o preço que pagamos. Estilo leve, criativo, econômico, sem sobras, sem concessão aos adjetivos ociosos. Não é à toa que o autor de Os galos da aurora é fã confesso de Graciliano Ramos, tendo declarado que, em tempos de juventude, quase decorou Vidas secas. Mas não se apressem em pensar que HP se dedique ao odioso esporte do pastiche.
PRECISÃO CINEMATOGRÁFICA
Hélio é senhor de sua própria forma de expressão, aprovada pela crítica e demonstrada em cerca de 30 títulos, entre contos, crônicas e análise literária (tem em preparo o primeiro romance). Seu texto equilibra simplicidade e erudição, vazadas na fórmula mágica e difícil que muitos perseguem e poucos alcançam, e que fez a glória de um gênero eminentemente brasileiro, a crônica de jornal. Sobre a linguagem de Hélio Pólvora, assim falou Aramis Ribeiro Costa (foto): “É preciso registrar que foi o domínio da linguagem, unido à observação sagaz do ficcionista (…) que o fez primoroso na descrição de cenas e situações, bem como na ambientação das suas histórias, resultado obtido com poucas palavras e uma precisão que se diria fotográfica, ou, considerando a dinâmica do entrecho, cinematográfica”.
OLHAR SOBRE O COTIDIANO
Hélio (A Tarde – 13.3.2010) fala, com carinho, do sambista Ederaldo Gentil (foto):
“Por acaso encontrei cópia de um CD de suas melhores composições, em que Ederaldo se diz mais amargo do que o alumã, declara que não quer o dia, só a alvorada, queixa-se que a distância o mata e a saudade o maltrata, e vice-versa, e conclui que o próprio tempo é que não lhe deu tempo. Acusa uma mulher de ter sido ´cimento fraco na construção do meu lar´, e responsável por ´um amor em demolição´. Achados, Bossas. A filosofia das ruas está inteira nesses versos”. Hélio não desmente Aramis: espalha sobre pessoas, ações e sentimentos do cotidiano de nossas vidas a “observação sagaz do ficcionista”. É ler para crer.
“DESCENDO PARA BAIXO”
Vejo na TV Globo o sobe e desce das pesquisas eleitorais e, ao fim, ouço do apresentador William Bonner (foto) que “a margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos”. O correto editor do Jornal Nacionallabora num erro daqueles que sua empresa – sabe-se lá o motivo – tenta repetir até transformar em acerto: variação de “x” pontos percentuais já diz tudo. “Para mais ou para menos” torna-se um reforço que agride a boa linguagem – algo parecido com subir para cima, descer para baixo, entrar para dentro e sair para fora. A tevê, em vez de informar os telespectadores, contribui para deseducá-los.
ETERNAMENTE EM BERÇO ESPÚRIO
Parece-me que o nome dessa coisa é redundância (também pleonasmo ou tautologia), algo que, se bem utilizado, dá cores vivas à frase. Alberto Janes escreveu e a extraordinária Amália Rodrigues (1920-1999) popularizou “E [Deus] deu-me esta voz a mim”. Há beleza neste verso pleonástico, longe do absurdo de “para mais ou para menos”. Aliás, o berço espúrio que embala esta expressão é o mesmo que embala “récorde”, termo estranho à língua portuguesa (certamente uma macaqueação do inglês record). Lembremos Dad Squarisi (foto): “Jornalistas têm de escrever tão bem quanto romancistas”.
FADO BRASILEIRO EM LISBOA
Que a citada Amália Rodrigues é a mais ilustre das cantoras portuguesas, todo mundo sabe. Mas há quem não saiba que o fado, elemento fundamental da cultura lusitana, tem mais a ver com o Brasil do que parece. O temido crítico José Ramos Tinhorão sustenta, baseado em pesquisa por ele feita, que o gênero nasceu em terras brasileiras – e depois se fez popular em Lisboa. Está tudo no livro Domingos Caldas Barbosa – o poeta da viola, da modinha e do lundu (foto), lançado em 2004. O modinheiro Caldas Barbosa (que teve por pseudônimo Lereno Selenuntino) teria sido o grande divulgador do fado brasileiro em Portugal.
PALMAS PARA A GRANDE DAMA
Tem mais. Amália Rodrigues (foto) também “nasceu” no Brasil. Foi no Rio de Janeiro, em 1945, que ela gravou seu primeiro disco (iniciara a carreira de cantora há alguns anos e ainda não gravara, sendo convencida a fazê-lo entre nós). Aliás, na turnê brasileira Amália agradou tanto que veio para ficar quatro semanas e ficou quatro meses. Mas as coincidências ainda não terminaram: foi no Rio, naquele período, que o compositor Frederico Valério, que acompanhava a cantora, fez um dos fados mais famosos de todos os tempos: Ai, Mouraria. No vídeo, Amália Rodrigues e o mencionado Foi Deus.
(O.C.)
Pouco sei de futebol (prefiro basquete e o xadrez), mas a discussão, sob o prisma da língua portuguesa, me fascina. Entendo que o Brasil é, de maneira indiscutível, bicampeão mundial, pois venceu as Copas de 1958 e 1962. Ao voltar a ganhar em 1970 (com a melhor seleção etc. etc.), tornou-se campeão pela terceira vez – e isto é diferente de ser tricampeão. Acontece que a mídia, por ignorância ou interesse, às vezes assume aquele comportamento atribuído a Goebells (ministro das Comunicações de Hitler): bate na mentira até que ela se transforme em verdade. O rito é mais ou menos este: lança-se a invenção, as ruas a adotam e ela adentra os compêndios, já travestida de verdade. A língua é viva, certo. Mas não precisa ser burra.
O vereador Roberto de Souza protagonizou momentos de tensão no programa Bola na Mesa, da rádio Difusora. A competente Silmara Souza [apesar do sobrenome, os dois não são parentes] falava dos problemas do Itabuna Esporte Clube no Baianão e Roberto, que também é radialista, comentava do outro lado. Citavam o presidente Ricardo Xavier, empresários… Silmara, então, emendou: “É, mas o técnico é Ferreira”.
O vereador e radialista não seguiu o raciocínio e entrou de sola, carrinho, cotovelo:
– Nem Wanderlei Luxemburgo dá jeito, Silmara. E não adianta me dar indireta…
Com a educação que lhe é peculiar, a radialista explicou que a crítica era dirigida ao time, não ao colega de microfone. Mas Roberto custou a se acalmar. Foi preciso a intervenção do comentarista esportivo Luiz Alberto.