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Daniel Thame | www.danielthame.blogspot.com

Em alguns momentos da primeira metade do século passado as imensas riquezas geradas pela produção de cacau criaram todas as condições para que uma parte desses recursos fosse aplicada em projetos de diversificação, permitindo um duradouro processo de desenvolvimento e bem estar social, algo impossível de ocorrer quando se vive da monocultura, por mais lucrativo que o produto seja.

Ou aparente ser.

O fato é que, por falta de visão ou pela ilusão de que aquelas riquezas seriam eternas, aliadas a uma notória ausência de espírito coletivo, as raras iniciativas no sentido de se evitar a extrema dependência do cacau se mostraram ineficientes.

O resultado é que quando a crise provocada pela vassoura-de-bruxa se revelou mais devastadora do que todas as outras crises, o Sul da Bahia mergulhou num abismo e viu sua economia reduzida a frangalhos.

As conseqüências foram e ainda são visíveis: produtores descapitalizados, centenas de propriedades rurais relegadas ao abandono, desemprego em larga escala, empobrecimento das pequenas e médias cidades e criação de bolsões de miséria nas periferias, cada vez mais carentes e violentas, de Ilhéus e Itabuna.

Mesmo com um processo de recuperação a partir dos primeiros anos deste século, com a expansão do turismo e de um incipiente pólo de informática em Ilhéus e da consolidação dos pólos de comércio, prestação de serviços, saúde e ensino superior em Itabuna, ainda existe uma imensa demanda por empregos, que resultariam numa vida mais digna para milhares de pessoas.

E eis que o Sul da Bahia se vê diante de uma segunda chance de encontrar o caminho do desenvolvimento, com a implantação de projetos importantes como o Porto Sul e a Ferrovia Oeste Leste, cujos benefícios não se limitarão apenas a Ilhéus, mas se estenderão aos demais municípios do Sul da Bahia.

O porto e a ferrovia vão fazer da região um pólo industrial, além de aquecer outros setores da economia, criando as bases para um novo ciclo de desenvolvimento. São obras capazes de ter, para o Sul da Bahia, o mesmo impacto que o Pólo Petroquímico teve para a Região Metropolitana de Salvador.

Mas eis que, em vez de gerar uma ampla mobilização de todos os segmentos regionais, em função das múltiplas oportunidades que oferecem, a Ferrovia Oeste-Leste e o Porto Sul enfrentam a resistência de alguns setores, a exemplo dos ambientalistas e alguns hoteleiros, que num misto de má fé, desinformação e interesses inconfessáveis, tentam transformar o porto e a ferrovia numa versão grapiuna do apocalipse, como se em vez de progresso e desenvolvimento, eles fossem trazer destruição.

Em nome de uma causa justa, a conservação ambiental, esses setores estão usando todos os artifícios para barrar os projetos, como se fosse possível, em função das rígidas leis ambientais de hoje, realizar obras de tamanha envergadura sem os necessários estudos e as compensações por eventuais danos, mínimos se comparados aos benefícios que o Porto Sul e a Ferrovia Oeste Leste proporcionarão.

O debate é necessário, salutar e contribui para que sejam dadas todas as garantias para que os impactos ambientais sejam mínimos e compensáveis.

Já a radicalização em nome de uma causa (será que é apenas isso?) é condenável, numa região que não pode se dar um luxo de desperdiçar essa segunda e talvez derradeira chance, em nome de uns poucos caranguejos, uma penca de guaiamuns, meia dúzia de siris e um pedaço de mata.

Ou será que eles são mais importantes do que os milhares de pais de família que estão aí, a espera de um emprego que lhes permita viver com dignidade e quem sabe, num domingo de sol, desfrutar com os amigos as decantadas praias e as maravilhas naturais de Ilhéus?

Daniel Thame é jornalista, blogueiro e prepara lançamento do livro “Vassoura”.

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O Ministério Público Federal em Ilhéus entrou com pedido de liminar para suspender a audiência pública que debaterá a construção do terminal portuário da Bahia Mineração (Bamin). A audiência está programada para a próxima quinta-feira, 15, no centro de convenções de Ilhéus, às 18h.

O MPF alega que o relatório de impacto ambiental (Rima) apresentado pela Bamin para construir o terminal possui irregularidades e não traz informações necessárias sobre os impactos da obra para os cidadãos. Os procuradores da República, Eduardo Ribeiro Gomes El Hage e Flávia Galvão Arruti, são os autores da ação.

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A pequena Barro Preto (ex-Governador Lomanto Júnior), no sul da Bahia, fará 48 anos, no próximo sábado, 17, quando recebe, além do secretário de Saúde do Estado, Jorge Solla, o ex-ministro e pré-candidato ao governo baiano, Geddel Vieira Lima (PMDB).

Solla vai ao município inaugurar duas unidades do Programa Saúde da Família (PSF). Já o pré-candidato Geddel, confere a quantas anda o seu prestígio com o eleitorado. O peemedebista ainda fará tour por vários municípios sul-baianos.

(O prefeito Adriano Clementino, do PMDB, decidiu que a festa do aniversário, que terá quarto bandas, começará às 14h e será encerrada às 22h. A decisão tem a ver com a onda de violência e o avanço do tráfico de drogas na cidade de pouco mais de seis mil habitantes).

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Não bastassem o caos administrativo e o conflito por terra, a sofrida Buerarema está sem energia elétrica desde as 19h de ontem. Celulares e telefones fixos estão mudinhos.

O comércio chia contra a Coelba e companhias telefônicas. Os prejuízos têm sido constantes, reclamam empresários, por conta das quedas sucessivas de energia.

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Após amealhar uma boa grana em ISS com a construção do Gasoduto de Integração Sudeste-Nordeste (Gasene), Coaraci está na expectativa. Quer passar à condição de cidade produtora de minério. Qual? Esta aí o mistério.

Mas uma empresa estrangeira montou acampamento por lá, entrou em contato com a prefeita Josefina Castro e, em breve, deve anunciar o resultado do estudo de viabilidade.

A prefeita terá, pelo menos, seis obras de impacto para inaugurar até junho, todas com recursos oriundos da arrecadação de ISS do período em que a GDK esteve em Coaraci. A GDK foi uma das empresas envolvidas na construção do Gasene. Se a prospecção de minério for viável, então…

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Rosivaldo Pinheiro

Os ventos do progresso que sopram na direção da região sul trazem consigo a energia da esperança. É a oportunidade que esta região tem para vencer a crise instalada há quase três décadas.

Suas causas são conhecidas: a inércia do governo baiano que privilegiou ao longo do tempo a Região Metropolitana de Salvador em detrimento das demais regiões do Estado; a introdução do paradigma neoliberal no Brasil e o advento da vassoura-de-bruxa, ocorridos a partir do meado da década de oitenta.

O modelo econômico adotado na Bahia utilizou o produto financeiro gerado pela região do cacau para financiar a infraestrutura da capital baiana e do seu entorno. As receitas geradas aqui foram a principal fonte utilizada para construir o Centro Industrial de Aratu e o Polo Petroquímico de Camaçari.

Com a mudança do centro dinâmico da acumulação de capital para o setor industrial, a economia baiana, especialmente na área química e petroquímica, ganhou destaque nacional e internacional. Em contrapartida, o cacau perdeu importância como fator gerador de riquezas e passou a ter pouca relevância na pauta de exportação brasileira.

Além da desatenção do Estado, a região cacaueira enfrentou a partir de meados da década de oitenta a implantação do “modelo neoliberal” no Brasil e o advento da vassoura-de-bruxa.

O pensamento econômico da corrente política que dominava a Bahia e o Brasil defendia um modelo de desenvolvimento baseado no esvaziamento da presença do “Estado na economia”, e na “soberania do mercado”.

Para vencer a crise, adotou um receituário tímido, tendo como principal ação a concessão de empréstimos para os cacauicultores.

A falta de planejamento e orientação adequada; os critérios para concessão de financiamentos; a falta de responsabilidade solidária entre financiadores e financiados endividou ainda mais o setor agrícola, funcionando, portanto, como mais um elemento complicador.

Esses feitos produziram em nossa região uma profunda crise, sem, em contrapartida, termos por parte dos governantes do estado, e da união, medidas compensatórias que levassem em conta nossa contribuição para a estruturação do parque industrial baiano, e as potencialidades locais.

Os defensores do neoliberalismo, “estado mínimo”, tinham seu modelo de desenvolvimento centrado em dois pilares básicos: as privatizações (transferência das empresas públicas para a iniciativa privada), sob o argumento de que na estrutura do Estado estas empresas atuariam de forma ineficiente; e a soberania do mercado, que funcionaria sob a tutela e competência do capital financeiro internacional.

O mercado seria o fio condutor do desenvolvimento, assumindo o papel de protagonista do processo de fortalecimento econômico do país.

Os instrumentos que começam a se materializar agora vão em direção contrária ao “pensamento neoliberal”, que se instalou no Brasil no fim da década de 80 com a eleição de Collor de Melo e, atingiu seu ápice na década de 90 com os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso.

Fazem parte de um conjunto de ações que compõem o “modelo de desenvolvimento” que só é e será possível via a presença do estado como “impulsionador e ordenador do processo econômico”.

O impulso esperado por estes instrumentos é a tentativa do Estado e da União saldar uma dívida histórica com esta “região-estado” que, ao logo dos anos, produziu riquezas e que, ao enfrentar sua maior crise, não recebeu de volta ações compatíveis à sua contribuição.

O funcionamento do Gasene, o Complexo Intermodal (Ferrovia/Porto/Aeroporto) e Zona de Processamento de Exportação (ZPE) representam o lançamento das bases para rompermos com o modelo da monocultura cacaueira, possibilitando desbravarmos nossas potencialidades para além do cultivo do fruto dourado.

Rosivaldo Pinheiro é economista e pós-graduado em gestão de cidades.

Afrânio Queiroz, Jipe (Foto R2cpress).
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Ele se chamava Afrânio Batista de Queiroz, mas ninguém o conhecia por esse nome. Sua história, porém, é conhecida por todos em Itabuna, assim como o apelido que carregou por toda a vida: “Jipe”.

Conta a história – ou lenda – que Afrânio enlouqueceu depois que seu pai lhe prometeu um jipe e não cumpriu a promessa. Depois disso, ele passou a correr por toda a cidade e até pelas estradas, emplacado e buzinando como se fosse o próprio veículo. Seus olhos eram faróis e os pés eram pneus.

Há muitos anos, Jipe estava “na garagem”, ou melhor, recolhido ao Abrigo São Francisco de Assis, em Itabuna. Há 15 dias, foi internado no Hospital de Base, onde faleceu (ele preferiria “bateu o motor”) nesta manhã de quarta-feira, aos 92 anos. Era um modelo 1918.

O corpo de Jipe está sendo velado no abrigo e o sepultamento vai ocorrer à tarde.

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Calma, produtor de cacau. Antes que atire a primeira pedra em nós, avisamos que o que vai no título acima é opinião expressa de Vitor Hugo Soares, um dos principais nomes do jornalismo baiano e dono de espaço semanal cativo no Terra Magazine, de Bob Fernandes. Os produtores são chamados de “empresários do cacau”. Victor Hugo mantém o blog Bahia em Pauta. Abaixo, confira o petardo nos produtores e alguns “indígenas”.

NO VESPEIRO BAIANO

Vitor Hugo Soares

Com a ministra Dilma Rousseff a tiracolo, o presidente da República desembarcou em Ilhéus nesta sexta-feira. Coração da região cacaueira, onde Luiz Inácio Lula da Silva pisa pela primeira vez em seu segundo mandato, apesar da Bahia ser um dos solos mais frequentemente visitados por ele, que não se cansa de repetir a crença espírita de que um dia em outro tempo viveu por aqui, o que o faz enxergar o lugar (por sentimento humano ou estratégia de político) como talismã eleitoral, mesmo nas vezes em que foi derrotado em pleitos nacionais.

Ontem, Lula sofreu picadas como raras vezes ao andar pelo vespeiro baiano em que transformou-se a disputa sucessória presidencial atrelada ao embate sem trégua pelo Palácio de Ondina, onde Jaques Wagner deseja permanecer mais quatro anos. O problema é que o esquentado ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB), o ex-governador Paulo Souto (DEM), nascido, bem votado e com largo trânsito na zona do cacau, e até o deputado verde e ex-petista, Luiz Bassuma, também estão de olho no “palácio das cigarras”, como dizia o cronista Raimundo Reis, e cavam buracos para afundar o governador.

No caso do ministro Geddel, só uma preocupação: bombardear Wagner sem derrubar os dois palanques de Dilma Rousseff no Estado. Situação que deixa Lula visivelmente constrangido, como o próprio presidente confessou há duas semanas, ao visitar Juazeiro, na região do Vale do São Francisco. Constrangimentos repetidos ontem na inauguração do Gasene, em Itabuna, e nos atos administrativos, mas principalmente políticos e eleitorais na vizinha Ilhéus, a terra de Gabriela e dos antigos e poderosos coronéis do cacau do sul do Estado.

Na véspera, em Brasília, o pleno do Superior Tribunal Eleitoral condenou Lula a pagar multa de R$ 5 mil por fazer campanha fora de hora, ou passando por cima de normas legais, se preferirem. Ainda assim, nada capaz de de assustar o condutor da marcha de Dilma à sua sucessão. No comício de quinta-feira em Osasco – inauguração de obras do PAC -, o presidente até brincou com a decisão e sugeriu que quem deve pagar a multa por sua infração: “vou mandar a conta da multa para vocês”, disse Lula, enquanto a plateia gritava ao fundo o nome de sua candidata.

Assim, Lula e a ministra desembarcaram com ar cansado mas aparentemente tranquilos no sul da Bahia na manhã de ontem, acenando com novas bandeiras. Não as flâmulas rubras do PT das companheiras metalúrgicas do ABC, mas as do Gasene (Gasoduto de Integração Sudeste-Nordeste), abertura das licitações para construção da ferrovia Leste-Oeste, e novos afagos da “mãe Dilma” em relação ao PAC do Cacau, de inegável apelo político e eleitoral na região visitada.

Afinal, alimenta sonhos e fantasias de reabilitação da economia da lavoura cacaueira devastada nas últimas duas décadas pela praga “vassoura de bruxa” e pela terceira geração de “empresários da cacauicultura” (às vezes pior do que praga que atinge e seca a plantação, segundo historiadores locais), viciados nas tetas dos empréstimos dos bancos públicos (e privados também), e no perdão paternalista das dívidas por sucessivos governos estadual e federal.

Além das vespas representadas pelos políticos com os quais terá de lidar nessa passagem em região conflagrada, Lula e Dilma atravessam zonas cercadas de boatos de que terão de enfrentar desta vez uma série de protestos, “puxados por fazendeiros de cacau, índios tupinambás e policiais civis e militares”.

Na verdade, os empresários do cacau brigam por mais uma mamata do governo federal: querem a anulação de uma dívida superior a R$ 400 milhões, relativa às duas primeiras etapas do Plano de Recuperação da Lavoura, implementado na década passada. Segundo alegam os cacauicultores, a própria Ceplac, órgão federal de apoio à lavoura, reconheceu erros nas recomendações repassadas aos produtores para conter a praga da Vassoura-de-Bruxa.

Quanto ao protesto dos indios, talvez seja necessário a comitiva presidencial ter cautela apenas com algumas bordunas. Os índios de verdade foram praticamente todos dizimados na região do Descobrimento e no sul baiano, em luta desigual e marcada pela omissão dos governos, da polícia e dos políticos, pelos próprios pioneiros da cacauicultura e seus jagunços, como está nos livros de Jorge Amado ou nos filmes de Glauber Rocha.

Apedrejado na região que visitou pouco antes de morrer, o falecido cacique Juruna, do gravador, desabafou em desalento diante do que viu por lá: “Aqui não tem mais índios, só tem caboclos”.

E ferroadas de vespas. Muitas vespas!

Acesse o blog de Vitor Hugo (www.bahiaempauta.com.br)

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Poucos entenderam a comparação, mas o presidente Lula saiu-se com essa em Ilhéus, no lançamento da licitação da ferrovia Oeste-Leste:

– Me parece que tem um pouquinho de divergência entre o Vitória e o Bahia.

O presidente falava do atrito entre os seus meninos baianos (Geddel Vieira Lima e Jaques Wagner).

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O presidente Lula iniciou os seus compromissos no sul da Bahia concedendo entrevista às emissoras de rádio Difusora (Itabuna) e Santa Cruz (Ilhéus). “O cara” responde a perguntas dos radialistas Paulo Leonardo e Gil Gomes. A entrevista é concedida no hotel em que o presidente está hospedada, na zona sul de Ilhéus.

Às 11h, o presidente, acompanhado do governador Jaques Wagner e da ministra Dilma Rousseff, inaugura o Gasoduto de Integração Sudeste-Nordeste (Gasene), em Itabuna. Às 15h, Lula estará novamente em Ilhéus. O presidente lançará o edital de construção da ferrovia Oeste-Leste.

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Lula verá protestos no sul da BA.

A viagem do presidente Lula ao sul da Bahia, onde inaugura o Gasoduto Sudeste Nordeste (Gasene) e abre a licitação da Ferrovia Oeste-Leste, será marcada por uma série de protestos, puxados por fazendeiros de cacau, índios tupinambá e policiais civis e militares.

Os cacauicultores querem a anulação de uma dívida superior a R$ 400 milhões, relativa às duas primeiras etapas do Plano de Recuperação da Lavoura, implementado na década passada. A própria Ceplac, órgão federal de apoio à lavoura, reconheceu erros nas recomendações repassadas aos produtores para conter a praga Vassoura-de-Bruxa.

Em maio de 2008, Lula esteve em Ilhéus para lançar o PAC do Cacau, um projeto de recuperação da lavoura cacaueira e da economia sul-baiana. Passados quase dois anos, apenas 1.500 contratos de renegociação da dívida de cacauicultores foram assinados, representando pouco mais de R$ 50 milhões. O PAC previa investimento de R$ 2,52 bilhões na região.

Noutra frente, índios tupinambás querem do presidente Lula uma posição sobre os 47,7 mil hectares de terras reconhecidos pela Funai, através de portaria em 20 de abril do ano passado, como sendo área indígena. Estes protestos são reservados à solenidade em Itabuna, no parque de exposições Antônio Setenta, onde Lula, Wagner e a ministra Dilma Rousseff inauguram a primeira base de distribuição do Gasene na Bahia. A festa terá, pelo menos, 4 mil convidados.

Os policiais civis e militares “recepcionarão” o presidente e a sua comitiva no centro de convenções Luís Eduardo Magalhães, em Ilhéus, às 15h. Os policiais cobram a aprovação imediata da PEC 300, que cria o Piso Salarial Nacional para a categoria. A organização espera atrair mil manifestantes, entre policiais e familares. Lula estará no centro de convenções para lançar edital da Ferrovia Oeste-Leste, que é parte do Complexo Intermodal Porto Sul.

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Dez anos se passaram desde aquela frase execrável pronunciada por um governador baiano: “água e óleo não se misturam”. Não era aula de química. Era César Borges negando apoio a Itabuna caso o vencedor da eleição municipal fosse o petista Geraldo Simões, que disputava contra Fernando Gomes, convertido que foi ao carlismo. Geraldo foi eleito e sofreu na pele.

Uma década foi o suficiente para mudar conceitos (frouxos?). César Borges é cortejado e corteja para integrar a chapa majoritária justamente de um petista, o governador Jaques Wagner. É certo que não mais existe a figura do ex-senador Antônio Carlos Magalhães a ditar o que seus comandados deveriam fazer. Ou falar.

Pode ser que justamente em Itabuna César Borges dê um passo para provar que em política água e óleo se misturam. E só o tempo dirá se, politicamente, essa mistura é hetero ou homogênea. Geraldo Simões, que cultivava uma antipatia natural ao senador, hoje diz que é “boa” a vinda do carlista para a chapa de Wagner. E aposta que, assim, se dá mais um empurrãozinho para que Wagner leve a fatura ainda no primeiro turno.

Geraldo, deputado federal e ex-vice-líder do PT na Câmara, concedeu entrevista ao Pimenta em que fala de César Borges, projetos para o sul da Bahia e defende maior presença dos governos federal e estadual após a chegada do Gasoduto de Integração Sudeste-Nordeste (Gasene). Para ele, passou da hora de Itabuna contar com um Distrito Industrial. Acompanhe trechos da entrevista:

Cacauicultores pedirão ao presidente Lula a anulação da dívida relativa às duas primeiras etapas do Plano de Recuperação da Lavoura. O sr. concorda com o pleito?

Cada qual é livre para fazer o seu pleito e os grandes produtores farão o deles. A minha discordância é parar o PAC do Cacau. Enquanto se fica atrás do plano ideal, não se renegocia a dívida nem libera dinheiro novo para a região. Até agora, só 1.500 contratos foram renegociados por conta das ações dos grandes produtores.

Depois de muito disse-me-disse, o sr. já considera realidade a presença de César Borges na chapa majoritária governista?
Eu acho que é boa a vinda de César Borges para a chapa. O governador Jaques Wagner está esvaziando o grupo que é nosso adversário na Bahia. Borges é um nome forte. Vindo para cá, enfranquece Paulo Souto, que está com cerca de 20%, segundo as pesquisas, e Wagner pode ganhar no primeiro turno para governador. Nós, do PT, queremos temperar a chapa com a presença de um nome da esquerda, que pode ser Waldir Pires.

A eleição de 2000 lhe faz lembrar algo. Água e óleo hoje se ‘falam’? como são as suas relações com o senador César Borges?
Civilizadas. Tenho conversado com o senador, principalmente no que diz respeito às questões do cacau.

Wagner e o presidente Lula vêm de uma visita ao Oriente Médio. Na sua opinião, é mais fácil a paz entre israelenses e palestinos ou entre PT e PMDB na Bahia?
Depois do PT, o PMDB é o maior partido da base aliada de Lula. Eu acho que o PMDB não é nosso adversário na Bahia. E as pesquisas têm mostrado isso. Quem é nosso adversário é o ex-governador Paulo Souto.

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“Ficaram arranhões profundos nas relações de Wagner e Geddel, de PT e PMDB”.

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E quanto à pergunta, a paz no Oriente Médio está mais fácil?
Ficaram arranhões profundos nas relações de Wagner e Geddel, de PT e PMDB. Isso, às vezes, vai além da política. Wagner apostou muito no PMDB: fez Geddel ministro, o ajudou a levar quase 100 prefeitos para o PMDB… Havia confiança. Mas Wagner é republicano e ainda há a força do presidente Lula. Tudo isso junto pode mudar essa relação.

O senhor saiu da secretaria de Agricultura e voltou para Brasília. Quais as ações do seu mandato o senhor poderia destacar?
Tenho um ano como deputado e, acredito, contribuímos muito para a atração de investimentos. Lutamos pela duplicação da rodovia Ilhéus-Itabuna, a pavimentação asfáltica da BR-030, trecho Maraú-Ubaitaba, apoiamos todas as políticas dos governos Lula e Wagner aqui em Itabuna e no estado. No primeiro ano, fui vice-líder do PT na Câmara e atuei na Comissão de Transporte, onde trabalhei exatamente pela duplicação da Ilhéus-Itabuna e essa ligação da BR-030.

Já estamos em março. Você acredita que a duplicação sai ainda neste ano?
Sai. Quem vai fazer a obra é o Dnitt. A Secretaria de Infraestrutura enviará o projeto para o governo federal licitá-la. A nossa expectativa é de que a duplicação da Ilhéus-Itabuna, que será do outro lado do Cachoeira, seja iniciada ainda nesse primeiro semestre, assim como a ligação Ubaitaba-Maraú.

Há uma crítica ao seu mandato como deputado federal quanto à destinação de verbas, emendas a Itabuna. Como o senhor analisa essas críticas?
(risos) Elas partem da prefeitura. Aí, eu digo o seguinte: junto ao presidente Lula, nós conseguimos R$ 34 milhões para a Barragem do Rio Colônia. O dinheiro veio, em 2007, atendendo a um pedido nosso. O prefeito anterior [Fernando Gomes] desviou uma parte e o atual [Capitão Azevedo], outra, para fazer estação de tratamento. Não fizeram a barragem. Intervimos junto ao governador Wagner e ele está liberando mais R$40 milhões para fazer a obra. Mas esse dinheiro não vem para a prefeitura.

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“A Embasa tocará a obra da barragem, pois a prefeitura de Itabuna já falhou uma vez”.

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E como será executada, então?
A Embasa tocará a obra, pois a prefeitura de Itabuna já falhou uma vez. Agora, façamos justiça a quem de direito. O Governo Federal mandou para Itabuna mais de R$ 200 milhões.

A obra da barragem, por exemplo, tem muitos pais. Geraldo, Luiz Argôlo, Roberto Britto…
Wagner anunciou lá, no Espora de Ouro, em dezembro, que aquele era um pedido meu, que ele estava atendendo um pedido meu.

Mudando de assunto, qual solução o senhor defende para a questão tupinambá?

A região não suporta mais um conflito indígena, e nós já tivemos o dos pataxós. Na minha opinião, a Funai deveria revogar a portaria que estabelece como indígena a área de 47,7 mil hectares, que pega de São José da Vitória a Buerarema, Una e Ilhéus.

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“Defendo que a Funai revogue a portaria e faça um trabalho racional que identifique quem realmente é tupinambá”.

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Os índios reivindicam a posse dos 47 mil hectares. Basta só revogar a portaria?
Defendo a revogação e, logo, que a Funai faça um trabalho racional, que identifique quem realmente é índio, defina qual é a parte dali da terra que realmente pertence aos tupinambá. A Constituição Federal é clara: só é considerada terra indígena aquela ocupada no momento da proclamação da Carta Magna. E essas terras, em 1988, eram ocupadas por agricultores e, minoritariamente, por índios.

O presidente Lula e o governador Jaques Wagner inauguram o gasoduto e lançam edital da ferrovia Oeste-Leste nesta sexta. Na sua opinião, Itabuna e Ilhéus estão preparadas para este novo momento?
Infelizmente, ainda não. Ilhéus está recebendo mais investimentos que Itabuna, né? Ilhéus terá aeroporto, porto, ZPE, ferrovia… Para equilibrar essa balança, defendo até que os governos federal e estadual invistam para além do Gasene. Ele não deve ser apenas para fornecer gás para táxi e indústrias já existentes, mas para também atrair novas plantas.

Mas há espaço para a cidade receber esses investimentos que não seja na área urbana?
Defendemos que o governo do estado crie aqui o Distrito Industrial, como Ilhéus, Itapetinga, Conquista, Eunápolis têm. A minha experiência mostra que o melhor local para esse distrito é aquele entre Itabuna e Itajuípe, uma área de 300 mil hectares. Vamos ter água, energia elétrica e gás natural. Ou se faz isso ou o gasoduto será apenas tubos de gás passando por debaixo da terra…

Entre 2003 e 2004, o senhor defendeu essa base de distribuição do Gasene em Itabuna. Sua gestão deixou projetos que preparassem a cidade para a expansão industrial, para o gasoduto?
Você sabe que Itabuna não teria essa base de distribuição. Era só para Mucuri e Eunápolis. À época, nos reunimos com o diretor de energia e gás da Petrobras, Ildo Sauer, irmão do meu secretário de Educação, Adeum Sauer. Modificou-se o projeto e a cidade será o primeiro ponto do Gasene na Bahia. Esse momento é de revolução. E veja que isso acontece com Lula e Wagner governando o Brasil e a Bahia. Agora, é para nós termos uma universidade federal no sul da Bahia para aproveitarmos melhor essas oportunidades.

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“Itabuna perdeu muito espaço como polo prestador de serviços em saúde. O prefeito não quer mais a gestão plena, só quer cuidar – e mal – da básica”.

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O senhor falou em compensações, mas Itabuna não ganha também com Complexo Porto Sul, por ser polo regional de serviços?
Sim, mas somos, ou éramos, polo principalmente de prestação de serviços em saúde, área onde perdemos muito espaço. Atendíamos a 100 municípios. Soube que o prefeito não quer mais a gestão plena da saúde, só quer cuidar – e mal – da básica. Enquanto isso, Ilhéus, Eunápolis, Vitória da Conquista vão se fortalecendo.

Ainda pensa em disputar a prefeitura de Itabuna ou seus projetos passam longe disso?
Longe está a eleição de 2012. Vamos batalhar agora pela reeleição a deputado federal. Posso contribuir muito com o sul da Bahia.Vamos trabalhar pela reeleição de Wagner e eleição de Dilma Rousseff.

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Davidson Magalhães

A região sul da Bahia, pródiga em cenários e enredos de romances e personagens que ganharam o mundo, já viveu dias de glória no tempo em que o cacau irrigava os cofres do Estado e do País. A cacauicultura alavancou o desenvolvimento da região que Jorge Amado definiu como terras do sem-fim, mas ao final da década de 1980 sofreu o seu pior revés. A decadência da monocultura gerou falências, desempregos e empobrecimento dos municípios.

Mas, a partir de 2007, a região sul tornou-se prioritária para investimentos em obras estruturantes do governo Jaques Wagner, que, em parceria com o governo federal, transformou em realidade o complexo logístico do sul da Bahia: Ferrovia Oeste-Leste, Novo Porto Sul Bahia, Aeroporto Internacional de Ilhéus e a Zona de Processamento de Exportação (ZPE). Com a chegada do gás natural, através do Gasene (Petrobras), a região conta com nova fonte energética, natural e de menores custos.

O desenvolvimento da cacauicultura reposicionou o sul da Bahia no contexto econômico brasileiro no final do século XIX e tornou-se o primeiro macrovetor do desenvolvimento regional. A construção da ferrovia Ilhéus-Itabuna, em 1913, e o reaparelhamento do Porto de Ilhéus, em 1926, possibilitaram o escoamento e o incremento da exportação.

Nos anos 30, após sucessivas crises, ocorreu a intervenção do Estado, através do Instituto de Cacau da Bahia (ICB, em 1931) e, mais tarde, da Comissão Executiva do Plano da Lavoura (Ceplac – 1957), o segundo macrovetor do desenvolvimento regional.

No final dos anos 80, o aparecimento da vassoura-de-bruxa e a infeliz coincidência de fatores adversos desencadearam uma crise sem precedentes. O Estado, com forte déficit e sob a hegemonia do pensamento neoliberal, desmontou os mecanismos (ICB e Ceplac) intervencionistas.

A Ferrovia Oeste-Leste, com 1.100 quilômetros e investimento de R$ 4,5 bilhões, cria um novo eixo de desenvolvimento e integra o sul da Bahia ao oeste e à área de mineração em Caetité. Além de transportar a produção, a Oeste-Leste interligará nossa economia a outros polos do País, através da conexão com a Ferrovia Norte-Sul, em Figueirópolis (TO), transformando o porto em grande escoadouro nacional.

O Porto Sul – porto offshore a três quilômetros da costa, com investimento previsto de R$ 3 bilhões – completará o complexo multimodal com o Aeroporto Internacional de Ilhéus e abrirá um corredor de exportação e importação, ampliando-se a arrecadação, além da criação de uma extensa cadeia de serviços que afetará positivamente na geração de emprego e renda.

A ampliação da oferta energética, com a chegada do gás natural, disponibilizará uma nova fonte energética. A Bahiagás constrói uma rede de 250 quilômetros de dutos que beneficiarão os municípios do sul – R$ 60 milhões de investimentos até o primeiro semestre de 2012.

O gás natural, que representa 26% da matriz energética industrial da Bahia, agregará competitividade aos empreendimentos e contribuirá para a atração do setor privado.

Haverá geração de empregos diretos e aumento na arrecadação de impostos. Estes são alguns dos efeitos multiplicadores do complexo logístico-produtivo do Porto Sul.

A dinâmica gera também desdobramentos: agregação de valor para cadeias produtivas do semiárido, oeste e Brasil Central; sinergia com o turismo e a cadeia do cacau; e a requalificação de ativos ambientais focando mercados exigentes, o que implica novo paradigma de desenvolvimento para a região sul, cujo eixo da acumulação, pela primeira vez na história, não está centrado na dependência da monocultura cacaueira.

Na primeira década do século passado, uma ferrovia e um porto foram decisivos na articulação do espaço econômico regional em torno do cacau. Agora, um século depois, através de uma ousada iniciativa estruturante dos governos estadual e federal, coincidentemente uma ferrovia e um porto – com outras dimensões e acompanhados de um aeroporto e do gás natural – são o primeiro capítulo da nova história econômica das terras do sem-fim.

Davidson Magalhães
é professor da Uesc, mestre em Economia e presidente da Bahiagás.

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O presidente Lula deve cancelar a sua visita a Ilhéus, programada para a próxima sexta-feira, 26. Neste dia, às 15h, ele participaria da abertura do processo de licitação que escolherá as empresas que farão os 14 lotes da ferrovia Oeste-Leste.

O problema é que a licença de localização da ferrovia não saiu até o momento, estando a três dias da viagem. Por isso, a agenda do presidente no sul da Bahia deverá se restringir à inauguração do Gasoduto de Integração Sudeste-Nordeste (Gasene), em Itabuna, programada também para a próxima sexta, às 11h, no parque de exposições Antônio Setenta, na BR-415.

A decisão se o presidente Lula vai a Ilhéus (ou não) será anunciada até amanhã, quarta, 24. A Ferrovia terá extensão superior a 1,5 mil quilômetros e integrará as regiões centro-oeste e nordeste do Brasil. O investimento previsto é de R$ 4 bilhões.

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai ser recebido em Itabuna e Ilhéus, no dia 26, com protestos dos produtores de cacau, inconformados com a ausência de uma solução que facilite o pagamento das dívidas de quase 6 mil cacauicultores e também com a lentidão do Programa de Aceleração do Crescimento criado pelo governo federal para o setor (o PAC do Cacau).

Somadas, as dívidas dos produtores de cacau na Bahia alcançam os R$ 949 milhões, em valores de 2008.

O presidente Lula irá a Itabuna para inaugurar o primeiro trecho do Gasene, gasoduto da integração SudesteNordeste, que tem 1.387 km de extensão e interliga as malhas das duas regiões do País, estendendo-se do Rio de Janeiro à Bahia, levando para o Nordeste o gás natural produzido nas bacias do Sudeste. A obra é da Petrobras em parceria com a Bahiagás.

Negociações “A Lei 11.775 permite a negociação de apenas R$ 472 milhões”, admite o diretor da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), Jay Wallace Mota. A Ceplac é ligada ao Ministério da Agricultura.

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